Escola de Chicago

Silvio Colin

Chamamos de Escola de Chicago à obra arquitetônica de caráter unitário e evolutivo, acontecida nesta cidade a partir de 1879, ano em que Le Baron Jenney constrói o primeiro edifício alto com estrutura em grade metálica, e 1893, ano da Exposição Colombiana. As razões para a importância adquirida por Chicago devem ser buscadas em três ordens de fatores: as questões demográficas, geográficas e técnicas.

Quanto as questões geográficas, temos a posição especial de Chicago, porta de entrada e maior entreposto para o mercado agrícola do meio oeste, na medida em que se trata de um entroncamento da principal rede ferroviária e fluvial. Com relação às questões demográficas, temos a valorização dos terrenos devido à rápida evolução da atividade terciária (comércio e prestação de serviços), o que provoca a concentração e a elevação em altura. Quanto à questões técnicas, temos a evolução da estrutura em grade de ferro metálica equilibrada com precisão, o uso do elevador e um aprimoramento geral das técnicas construtivas.

Fig.1 – Mapa dos EUA.

1 – Chicago  2 – Boston  3 – Nova Iorque 4 – Saint Louis  5 – Nova Orleans  6 – Los Angeles  7 – San Francisco  8 – Rio Mississipi  9 – Rio Missouri. Observe-se a posição central da cidade de Chicago, no cruzamento do eixo comercial e ferroviário Nova Iorque – Los Angeles (2, 3, 1, 6, 7) e do eixo cultural e hidroviário Nova Orleans – Saint Louis  – Chicago (4, 5, 1, 8, 9).

As características principais destas construções são a estrutura metálica, a manifestação externa de elementos estruturais e funcionais. A conjugação destas características resultou em um vocabulário próprio e inovador, muito diferente do que se fazia nos edifícios de Nova Iorque, por exemplo.

Depois do incêndio que assolou a cidade em 1871 e a depressão mundial, a cidade experimentou um crescimento extraordinário pela aplicação de métodos industriais à agricultura. Sua localização geográfica  tornou Chicago o cenário de importantes trocas comerciais. Devido à escassez e alto custo do solo urbano, era inevitável o desenvolvimento em altura.

Nos Estados Unidos já se construíam edifícios verticais havia décadas, como o Edifício Jayne (1863-75) na Filadélfia, o edifício Tribune  de Richard Morris Hunt. Desde meados do século se havia satisfeito uma das necessidades inerentes à edificação em altura, com a invenção, por Elisha Graves Otis, do elevador, cuja demonstração foi feita em 1853, em Nova Iorque.Fig. 2 – E. G. Otis demonstrando sua invenção em 1853. Imagem http://www.ltmcollection.org

Foi William Le Baron Jenney que descobriu a solução estrutural capaz de suportar cargas e resistir a incêndios, pelo revestimento de perfis laminados de aço com elementos metálicos com alvenaria de tijolos. Era a chamada “gaiola equilbrada”, na qual trocou o ferro fundido, então solução vigente, pelo ferro laminado. Graças ao novo sistema, Jenney pode vencer as limitações da construção com paredes portantes, que poderiam chegar a grandes espessuras.

Fig. 3 – Detalhe da grade estrutural, concebida por Le Baron Jenney para compor a gaiola estrutural.

Fig. 4 – Abobadilha tradicional de tijolos maciços e abobadilha de lajotas cerâmicas. Imagem

Outro engenhoso avanço estrutural seria a substituição das antigas abobadilhas de tijolos maciços, que pesava cerca de 375 kg/m², por abobadilhas feitas em lajotas cerâmicas, cujo peso se reduzia para aproximadamente 175 kg/m².

Fig. 5 – Edifício Leiter I. William Le Baron Jenney. Construído em 1879. Demolido em 1972.

Considerado o primeiro edifício da Escola de Chicago, constituía-se em um paço anterior à gaiola de aço, com pilares de ferro fundido e vigas de madeira. A grande evolução estética já se anunciava, com as janelas de piso a teto.

O próximo passo seria desprender-se do decorativismo historicista vitoriano. Henry Robson Richardson, que havia estudado na École de Beaux-Arts e fora colaborador de Henry Labrouste em Paris, na sua volta aos Estados Unidos projetou vários edifícios neo-românicos de grande pureza e expressividade, como os Loja de Departamentos Marshall & Field, um edifício de tijolos, com um trabalho de rusticação na fachada de grande emotividade. A contundente monumentalidade desta obra seria imitada por Sullivan no seu Auditorium Building, que além deste dado mural, tem uma solução funcional muito própria, pois se trata de um edifício comercial envolvendo uma grande sala de espetáculos.Fig. 6 – Loja de Departamentos Marshall Field & Co. 1882. Henry Hobson Richardson.

Burnham e Root, em escala mais reduzida seguiram o modelo de Richardson nos edifícios Rookery e Monadnock. Este último seria a última construção da Escola com paredes portantes, que têm 1,83m de espessura. Se era tecnologicamente atrasado para os padrões de Chicago, este edifício seria, entretanto, o mais avançado em relação à forma mural, pois eliminou completamente os apliques decorativos, deixando as paredes completamente lisas, prática que seria obrigatória a  partir do Movimento Moderno. Notável também é o uso, muito comum em Chicago dos ressaltos em forma de bay-window, elemento tradicional da arquitetura inglesa.Fig. 7 – Edifício Monadnock . 1889-91. Burnham & Root. Imagem http://chicagoist.com/images/2004_07_28.monadnock.jpg

No Reliance Building, de Charles Atwood e Daniel Burnham, pela primeira vez se exteriorizam os elementos estruturais, o que faz evidentes a leveza e a verticalidade impressionante para a época. Foi o primeiro edifício a ostentar grande panos de vidro, cobrindo a maior parte de sua superfície.Fig. 8 – Edifício Reliance. 1890-95. Charles Atwood e Daniel Burnham. Imagem http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/

Holabird e Roche seguiram os passos de Richadson nos edifícios Tacoma e Marquette, onde a estética elegante e bem equilibrada chega ao ponto mais alto.Fig. 9 – Edifícios Tacoma (1886-89) e Marquette ( 1895), de Holabird & Roche. Imagens (dir) http://hanser.ceat.okstate.edu/ (esq) http://www.skyscrapercity.com

Entretanto, o maior protagonista da Escola de Chicago foi Louis Sullivan, que estudara no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, e posteriormente, como Richadson, em Paris.

Fig. 10 – Edifício Wainwright, em St. Louis (1890-91) Adler e Sullivan

Trabalhou com Frank Furness[1] e com Jenney, em Chicago. Em 1881, se associou a Dankmar Adler, responsabilizando-se pelos aspectos formais dos edifícios. O estilo neo-românico de Richadson se converteu, em suas mãos, em algo de grande rigor energético pelo uso clássico dos volumes e da ornamentação gótico-oriental. No edifício Wainwright, em St. Louis (1890-91), Sullivan se utiliza de uma organização tripartite clássica – embasamento com térreo e mezanino, corpo intermediário de articulação vertical e o coroamento com um pavimento atico, como pavimento de máquinas. Esta obra assinala o nascimento do arranha-céu como tipologia independente. No Auditorium, já mencionado, a influência de Richardson se torna ainda mais patente. Neste edifício os projetistas envolvem um auditório com um edifício comercial.Fig. 11 – Edifício Auditorium. 1889. Adler & Sullivan.  http://www.prairiestyles.com/images/architects/sullivan_l/auditorium.jpgFig. 13 – Auditorium. Seção transversal. Imagem http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/

Fig. 14 – Edifício Auditorium. Interior. Imagem http://www.answers.com/topic/proscenium

Ainda de Sullivan é o magazine Carson, Pirie e Scott, sem dúvida a obra mais representativa da Escola de Chicago. O espaço interior definido por superfícies contínuas não se diferençava tanto dos congêneres. A originalidade está na fachada, constituído de uma retícula tensa de horizontais e verticais que enfatiza a estrutura do edifício criando um dos padrões de composição de fachada mais característicos: a grade fenestrada.

Fig. 16 – Edifício Carson, Pirie & Scott. 1899. Adler e Sullivan. Imagem http://www.prairiestyles.com/images/architects/sullivan_l/auditorium.jpg

O preenchimento desta grade estrutural se dá com as janelas conhecidas como Janela Chicago: um retângulo de dominância horizontal, dividido em três – a parte central fixa e as laterais com janelas tipo guilhotina. Em contraste deliberadamente buscado a esta composição tão comedida se introduz uma filigranada e festiva ornamentação orgânica de ferro fundido, nos pavimentos inferiores.

Fig. 17 – Edifício Carson, Pirie & Scott. Entrada.

A Escola de Chicago recebe um golpe mortal com a Exposição Colombiana de 1893, evento que comemorava o quarto centenário da descoberta da América, ocorrida nesta cidade. Este episódio é conhecido como a Traição de Burnham. Daniel Burnham, que já havia assinado importantes edifícios, principalmente associado a John Root, encarregado de projetar a exposição deu a esta traços neoclássicos, abandonando a tendência construtivista em pleno florescimento nos dez anos anteriores. Foi um retrocesso a volta ao conceito neoclássico de cidade, horizontal e formalista, quase com um expiação ao pecado bíblico de aspirar aos céus. Somente décadas mais tarde a experiência de Chicago seria avaliada com justiça, sendo uma das mais importantes reflexões a do próprio Sullivan, que publicou em 1922, um ano antes de sua morte, seu ensaio crítico: A autobiografia de uma idéia.

Fig. 18. Exposição Colombiana. 1893. Imagens http://www.teslasociety.com/beautifulnyc.htm



[1] Grande nome da arquitetura da Filadélfia, um espécie de Gaudi americano, que inspiraria mais tarde alguns trabalhos de Robert Venturi, no século XX já avançado.

CRONOLOGIA

1804 Fundação do Forte Dearbon.
1830 Implantação da malha urbana de Chicago.
1833 Divulgação o sistema Baloon Frame, sistema de construção industrializado inventado por George Washington Snow.
1853 Invenção do elevador.
1857 Elisha Graves Otis instala em Nova Iorque o primeiro elevador de segurança a vapor.
1861-65 Guerra da Secessão.
1864 Primeira utilização de elevador  Otis em Chicago.
1870 C. W. Baldwin inventa e constrói em Chicago o primeiro elevador hidráulico.
1871 Chicago é quase completamente destruída por um incêndio.
1879 William Le Baron Jenney constrói o primeiro edifício alto em estrutura metálica, o Leiter Building I.
1893 Exposição Colombiana de Chicago. A Traição de Burnham.

PRINCIPAIS ARQUITETOS (e engenheiros)

William Le Baron Jenney [1832-86], Henry Hobson Richardson [1838-86], Dankmar Adler [1844-1900], Daniel Hudson Burnham [1846-1912], John Wellborn Root [1850-1891], William Holabird [1854-1923], Martin Roche [1855-1927], Louis Henry Sullivan [1856-1924], 

AS SOCIEDADES

Adler & Sullivan, Burnham & Root, Holabird & Roche.

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5 Respostas para “Escola de Chicago

  1. Mariana Periald

    Professor Silvio Colin, parabéns pelo blog! Essa postagem da Escola de Chicago me ajudou muito em uma pesquisa, sem contar que é muito interessante! Continue sempre assim, nós alunos da FAU/UFRJ o incentivamos! Abraços.

  2. Excelente. Ajudou-me nas pesquisas da escola de chicago.

  3. Texto maravilhoso. Com certeza ajudou, parabéns!

  4. Silvio, gostaria de deixar meu comentário também elogiando o blog! Estava pesquisando para estudar e seu blog me ajudou muito em diversos conteúdos. Sua forma de escrever me agradou muito! Parabéns!

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