Arquitetura e psicologia

Silvio Colin

Texto extraído do livro Uma introdução à Arquitetura, de Sílvio Colin

Arquitetura, emoções e sentimentos

Como qualquer meio de comunicação estética, também a arquitetura pode transmitir um amplo espectro de emoções que faz parte de nossa vida: a apreensão diante de mudanças estruturais, a confiança no futuro, o desejo de poder, as fantasias e fixações mais diversas. Estas emoções se constituem em um conjunto possível de mensagens a que chamamos conteúdo psicológico da arquitetura, de vez que a psicologia é a ciência que pretende o entendimento das funções mentais e motivações comportamentais de indivíduos e grupos.

A palavra psicologia deriva da palavra grega psique, que podemos traduzir por alma, preferencialmente, em oposição a corpo (soma em grego). A investigação psicológica estava originalmente afeta aos filósofos, assim como de resto todo o conhecimento científico. A criação de uma ciência específica para o estudo da “alma humana” é recente, datando do século XIX. Já no seu nascimento via-se a diversidade de orientações possíveis, desde o simples entendimento das funções da mente, passando pela re-lação entre estímulos e respostas neurofisiológicas, até chegar a uma investigação das estâncias mais profundas do “eu”.

Stonehenge. 2000 a. C. Imagem: http://www.bodymemories.com.
Os megalítos são a primeiras obras que  representam por meio da arquitetura os sentimentos profundos do homem.

Psicologia e arquitetura

As formas arquitetônicas, através da história, sempre serviram para representar os sentimentos, sobretudo no que se refere a orientações emocionais coletivas, seja do fausto hedonista dos romanos, materializado nos gigantescos espaços das termas, seja da religiosidade católica, expressa de diversas maneiras – na riqueza mural dos templos bizantinos, na verticalidade ascética das catedrais, ou na luminosidade dos vitrais góticos.

As cariátides do Erecteion. Atenas, 421-406. Imagem: http://www.viajes.net
Cariátides são colunas em forma de mulher sustentando a arquitrave de um pórtico. Vitrúvio conta que as cariátides representam um castigo infligido pelos gregos ao povo de Cária, que foi aliado de seus inimigos persas, na Guerra do Peloponeso, mortos os seus guerreiros e destruído seu estado, suas mulheres foram escravizadas e humilhadas.

No que se refere à abordagem teórica,  temos n’Os dez livros de arquitetura, de Vitrúvio, exemplos do reconhecimento de motivações afetivas para formas arquitetônicas da tradição ocidental   quando  ele se refere às cariátides, ou quando narra a origem do capitel coríntio.  Até muito recentemente, entretanto, predominavam as preocupações visualistas, mais voltadas para o estabelecimento de relações matemáticas na composição de formas arquitetônicas. Somente em fins do século XIX é que se inicia, de modo sistemático, a abordagem psicológica da arquitetura, inicialmente com Robert Vischer e sua aplicação da teoria da Einfühlung [1].  A este seguem-se os trabalhos de Heimrich Wõlfflin, que podem ser considerados um marco no assunto.

Capitel Coríntio. (E) Origem na fábula (D) Capitel do Tolo de Epidauro. 360 – 330 a.C.
No túmulo de uma jovem de Corinto, falecida em idade de contrair núpcias, sua aia colocara seus pertences mais estimados em uma cesta. aconteceu que esta foi deixada em cima de uma raíz de acanto, que floresceu na primavera, por entre os espaços livres dos objetos. O refinado escultor Calimaco se comoveu com aquelas formas e as reinterpretou, determinando-lhes as proporções simétricas e as utilizou como capitel de colunas de templos coríntios a partir de então. (VITRUVIO/MORGAN, 1960.)

Niveis de relação

O encontro entre psicologia e arquitetura pode acontecer em três níveis diferentes. Primeiro, instrumentando o arquiteto quanto às necessidades subjetivas dos usuários e quanto à natureza da percepção humana de espaços e formas; segundo, na medida em que diversas teorias psicológicas ocupam-se do processo de criação, pode o trabalho do arquiteto fundamentar-se nas mais recentes conquistas sobre esse assunto; e, por último, na atividade crítica, a aplicação de conhecimentos psicológicos muito pode ajudar o estudioso e teórico em suas especulações sobre as motivações profundas do arquiteto para tal ou qual solução.

Teorias psicológicas e suas aplicações

Coluna dórica. Imagem http://www.scrapsofmind.com
A psicologia da forma estuda um amplo espectro de questões relacionadas com a arquitetura. Um exemplo são as relações formais da coluna grega, sua curvatura vertical (0 entasis), as caneluras, e propõe uma nova explicação, diferente daquela visualista (Ver ARNHEIM, 1977).

No século XX são diversos os caminhos trilhados pela psicologia, e seu rebatimento na arquitetura, como não poderia deixar de ser, corresponde a estas diferentes orientações, cada uma com importantes contribuições para a atividade projetual do arquiteto e para a análise crítica das obras.

As teorias mais objetivas, voltadas para a análise do funcionamento mental e do comportamento, são a reflexologia e o behaviorismo. Estas teorias, valendo-se da experimentação neurofisiológica, deram mais nova e consistente fundamentação às antigas formulações visualistas; a psicodinâmica das cores e dos padrões, utilizada inclusive pela Bauhaus, têm sua origem nessas abordagens.

Uma outra orientação datada, como as primeiras, do início do século XX é a psicologia da Gestalt, que teve desdobramentos importantes na arquitetura e nas artes plásticas, devido sobretudo ao seu vínculo com o a fenomenologia.  Diversos autores, dentre os quais desenvolveram trabalhos relacionados com a percepção e os atributos psicológicos dos espaços urbanos e interiores arquitetônicos baseados na dinâmica da forma, teoria resultante deste cruzamento.

Catedral de Amiens. 1220-66. Imagem faculty.evansville.edu.
O sentimento religioso é um dos temas mais representados na arquitetura. Na Catedral gótica a verticalidade das linhas pretende induzir a elevação do espírito.
A psicologia genética, cujo principal expoente é Jean Piaget, criada em meados do século XX e vinculada ao estruturalismo, se constitui a partir de estudos pacientes e sistemáticos da evolução mental da criança, da fomulação do juízo, do raciocínio e das n0ções de causalidade, número, tempo, espaço, movimento. Suas descobertas, integradas ja ao corpo de doutrina da psicologia geral, tem orientado indiretamente trabalhos pertencentes ao domínio da arquitetura e das artes.

As psicologias da alma

Essas teorias e doutrinas citadas pertencem ao território das chamadas psicologias da mente consciente ou psicologias do ego. Temos ainda os trabalhos de investiga9ao da mente inconsciente, que são, sem duvida alguma, a maior contribui9ao da psicologia para a cultura do século XX. Neste domínio destacam-se dois nomes: Freud e Jung.  Jung centrava sua teoria em conceitos como “inconsciente coletivo” e “arquétipo”. Estes não eram estranhos as teorias arquitetônicas. Termos como genius loci (espírito do local),  zeirgeist (espírito da época), kunstwollen (desejo da forma), dão conta de que fatores externos, culturais ou ancestrais, advindos do pensamento coletivo tem papel determinante na materializa9ao das idéias do arquiteto, e vão encontrar nos trabalhos de Jung uma bem elaborada fundarnenta9ao teórica.

Quanto a Freud, apesar de este nunca ler-se ocupado diretamente de estabelecer uma “estética” baseada na psicanálise, e inegável que suas teorias foram decisivas para a critica de arte dos nossos dias. Ele próprio ocupou-se da análise critica de obras clássicas de Leonardo da Vinci e Miguelângelo. Alem disso, muitos de seus discípulos construíram teorias estéticas baseadas em reinterpretações de seus escritos.

Talvez a mais importante idéia que se pode extrair da relação entre a psicanálise e a obra de arte seja a de que, segundo Freud, o processo psíquico envolvido na criação artística é o mesmo que dá origem aos sonhos, embora com intenções diversas. Partindo daí, pode-se aplicar à crítica de arte todo o cuidadoso e exaustivo trabalho dedicado pela psicanálise à interpretação dos sonhos.

Métodos de projetação subjetivos

As teorias, atividades do pensar arquitetônico, sempre se desdobram em metodologias, atividades do fazer arquitetônico. Um método projetual pode muito bem ser definido por atividades puramente matemáticas (levantamentos de quantidades, de áreas, gráficos, pré-dimensionamentos), uma prática comum em nossos dias devido à orientação pragmática de nossa cultura. Neste caso, sobra pouco para a manifestação de emoções e conteúdos mais profundos.

Convento de Saint-Marie de La-Tourette. Le Corbusier, Eveux, 1957 -60 Imagem http://www.grapheine.com
O espaço inefável, que não depende de dimensões.

Mas pode acontecer diferentemente, sendo as seqüências de atividades dispostas de maneira vaga, abrindo espaço para a infiltração de idéias e motivos que estão aquém do controle racional. Grandes mestres como Le Corbusier e Louis I. Kahn, quando em atividade projetual, paralelamente à coleta de dados objetivos, ensejavam o contato com códigos formais e culturais externos ao universo da arquitetura, buscando obviamente penetrar em um plano de conteúdos jamais acessível por cálculos matemáticos e gráficos. Quando Le Corbusier fala do “espaço inefável, que não depende da extensão”, ou quando Louis I. Kahn descreve a “trajetória do silêncio à luz”, estão ambos na busca de algo distante das causas materiais. em uma instância em que as emoções e os desejos representam um papel importante.

Instituto Indiano de Administração. Ahmedabad, 1962. Louis I. Kahn. Imagem artnlight.blogspot.com.
A trajetória do silêncio para a luz.

O edifício e a mente humana

Casa de Jung. Imagens cgjjung.blogspot.com

Ao trabalhar o edifício e seus elementos volumétricos, murais ou espaciais em suas relações com as estâncias da mente, quer com fins metodológicos ou críticos, está o arquiteto fazendo a sua parte em um jogo no qual foi há muito precedido por filósofos, psicólogos e poetas. Para estes, o edifício é uma fonte inesgotável de associações com sentimentos e figuras que povoam a mente inconsciente. Em uma passagem significativa, Jung nos descreve a sua casa:

A ampla torre, com sua lareira, representava o ‘maternal’. a segunda torre, onde ninguém entrava sem permissão, lugar de retiro e meditação, representava o ‘espiritual’. O pátio era a abertura para a natureza e, finalmente, o andar levantado por último sobre a parte central representava o ego, significando a extensão da consciência atingida na velhice. Assim, a casa em pedra era ‘a representação dos meus mais íntimos pensamentos e do conhecimento que eu tinha adquirido.
Da mesma forma, Bachelard, em seu A poética do espaço é generoso em reflexões próprias e citações de poetas a respeito da casa e seus elementos espaciais. Por outro lado, Charles Jencks nos mostra o quanto a simbolização é um recurso utilizado pelo arquiteto, consciente ou inconscientemente, para relatar fatos da mente profunda usando analogias entre o corpo e o edifício, ou ainda símbolos arquitetônicos como a cruz, a lança, a água e outros, pertencentes aos dois universos.

A expressão das emoções pela arquitetura

Apesar desses testemunhos incontestáveis, nem todos admitem ser a arquitetura um veículo possível para a expressão das emoções; isto é perfeitamente compreensível, uma vez que nossa época é nutrida pela razão e nossas maiores conquistas não foram obtidas pelo discernimento moral ou pela expressão dos sentimentos, mas sob a orientação da ciência e da técnica.

A verdade é que o arquiteto ocupa, no processo de produção da sua arte, um espaço muito menor que os outros artistas, pintores, escultores, escritores, nas suas respectivas atividades; quanto maior for este espaço, maiores as possibilidades de manifestações pessoais, e conseqüentemente de emoções.

Algumas condições podem influir favoravelmente nessa direção, e, entre elas, as principais são a própria subjetividade do arquiteto, sua autoridade e o próprio tema. Quando o próprio autor aprecia as manifestações subjetivas, estas aparecerão de maneira mais freqüente, coordenada e explícita; caso contrário, os conteúdos profundos tendem a ser inibidos. A autoridade (o reconhecimento pela sociedade da excelência da obra de um artista, e, por extensão, de sua infalibilidade poética) é um status que tem sido legado pelo público aos seus mais destacados criadores; ela favorece a presença de conteúdos psicológicos na medida em que estão ligados o conceito de originalidade e o culto da personalidade, predicados que são buscados nas camadas mais recônditas da mente. Por fim, o próprio tema pode ajudar: existem assuntos mais propícios que outros para a expressão pessoal.

Furness, Gaudi etc.

Banco Nacional da República. Filadélfia, 1884. Frank Furness. A impossível fábula de um castelo perdido em um centro urbano.
Sabemos que a autovia principal da arquitetura moderna, centrada no racionalismo, no funcionalismo, no elementarismo, comprometida portanto com uma orientação positivista, tendia a menosprezar as manifestações emotivas, embora, obviamente, não tenha logrado eliminá-Ias. O caminho seguido pelo modernismo arquitetônico em direção à abstração geométrica é um claro indício de que os arquitetos preferem uma arte não intermediada por disposições mentais inconscientes. Neste aspecto,não fazem mais do que refletir uma orientação geral da própria sociedade que representam. Tal fato não impossibilita a crítica psicológica, podendo torná-la até desafiadora e rica.
Casa Batlló. Barcelona, 1875-7. Antonio Gaudi.  Imagens (E) csjobbins.com (D) madley.com
Um mito de fundação: a torre lança de São Jorge, padroeiro de Barcelona atravessa o telhado-dorso de dragão. E mais: sacadas-máscaras, pilares ossos, molduras-crâneos. Uma torrente inesgotável de imagens do inconsciente compondo a desconcertante  linguagem do arquiteto catalão.

Porém, se o modernismo cultiva uma atitude repressiva quanto à expressão individual, o período que o antecede, a longa e inquietante procura de um estilo, que marcou o século XIX, revelou certas linguagens abertas aos processos inconscientes. Tal é o caso dos movimentos neogótico e art-nouveau. Para o primeiro, ressaltamos o trabalho anti-racionalista de Frank Furness, na Filadélfia. No cruzamento das duas tendências, destaca-se a obra de Antonio Gaudi, em Barcelona. Ambos, a seu modo, em seu meio e em sua escala, são afirmações do personalismo exaltado,  da excentricidade expressiva e da tensão irracional possíveis em um objeto arquitetônico, e um sentido de improvisação espontânea, atitudes favorecedoras das manifestações inconscientes.

A poética expressionista

Casa da Navegação.Amsterdã. 1912. Johan Melchior van der Meij
Vemos neste edifício um simbolismo intencional , materializando-se   em figuras,  como o focinho de um animal, no alto da torre central, lembrando as carrancas utlizadas pelos antigos navegadores. Fica claro o modo de fazer dos expressionistas holandeses na proposta característica desta tendência de não se deter quanto a explicações racionais.

É sobretudo com o expressionismo’ – movimento de tendências artísticas diversificadas, centrado geograficamente na Alemanha e Holanda e acontecido principalmente nas segunda e terceira décadas deste século – que se trilhará com mais determinação o caminho de resistência ao racionalismo impessoal do modernismo; suas proporções insuspeitadas, seus arranjos desconcertantes de volumes e formas, sua variedade de texturas ensejavam a criação de uma estética antiiluminista, abertamente contrária à submissão à realidade da era moderna. Peter Behrens, Hans Poelzig, Michel de Klerk, Erich Mendelsohn são nomes de destaque filiado s em algum momento a essa poética de valorização da expressão individual e dos conteúdos emotivos, que deixaram registrados na sua arquitetura toda a apreensão e o desconforto dos intelectuais diante das promessas sedutoras da era da máquina.

Torre de Bismark. Dresde, 1902. Wilhelm Kreis.
Os arquitetos expressionistas apresentavam uma tendência de representar símbolos sexuais. Isto era muito sintomático de uns anos em que se consideravam sinônimos  processo arquitetônico e processo criador da natureza, e como conseqüência o resultado deste processo (o próprio edifício) era também uma metáfora sexual. [2]

[1] A palavra alemã einfühlung significa empatia e foi usada  para explicar uma forma de conhecimento que procura identificar-se com experiência de outro ser humano e sentir o mundo da mesma forma que esse outro ser humano. Na crítica de arte sustenta que quem frui uma obra é capaz de recuperar o sentimento do artista no momento da concepção. Opõe-se, de certa forma, à teoria da pura visualidade (sichtbarkeit)

[2] PEHNT, Wolfgang. La Arquitetura Expressionista. Barcelona: Gustavo Gili, 1975, p. 80.




BIBLIOGRAFIA DE REFERÊNCIA

ARNHEIM, Rudolf. The dynamics of architectural form. Los Angeles: California Press, 1977.

BACHELARD, Gaston. A Poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

BANHAM, Reyner. Teoria e Projeto na Primeira Era da Máquina. São Paulo. Perspectiva. 1960.

COLIN, Sílvio. Uma introdução à arquitetura. Rio de Janeiro, UAPÊ, 2000.

FUSCO, Renato de. A Idéia de Arquitetura. Lisboa. Edições 70, 1984.

SCRUTON, Roger. Estética da Arquitetura. São Paulo. Martins Fontes. 1979.

JENCKS, Charles. The Language of Post-Modern Architecture. Londres: Academy, 1977.

VITRUVIO, Marco Pollio/MORGAN, Morris Hicky. The ten books of architecture. Nova Iorque: Dover, 1960.

About these ads

Uma resposta para “Arquitetura e psicologia

  1. Adorei o texto ! Vou criar um projeto que coligue as dimensões da arquitetura com as dimensões da existencia humana.
    Parabéns pelo trabalho! Se quiser conhecer meu site http://www.Psicoethos.com.br
    A

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s