Técnicas construtivas do período colonial – II

Silvio Colin

Telhas

Os telhados são, por assim dizer, a marca da arquitetura colonial. Embora no século XVI as boas construções, como casas de Câmara e Cadeia ainda usassem o sapé, eram depois substituídas por telhas. As telhas são sempre cerâmicas, de capa e canal, ou capa e bica, também chamadas telhas canal ou colonial. Fora do Brasil são conhecidas por telhas árabes ou mouriscas. Inicialmente eram moldadas artesanalmente por escravos. Eram naturalmente muito irregulares, o que gerou uma crença popular de que eram “feitas nas coxas”. A expressão inclusive transcendeu o discurso técnico, e é ainda hoje utilizado para designar pejorativamente qualquer coisa mal feita. Por extensão, a expressão passou a designar qualquer coisa mal feita ou irregular.

O cozimento também não era perfeito, como viria a ser no século XIX, quando aqui aparecem as telhas francesas ou marselha e as telhas romanas. O processo de moldagem e cozimento davam a estas telhas forma e coloração muito características responsáveis pela aparência inconfundível das edificações coloniais, que tanto agradam às novas gerações.

Estruturas de telhado

A estrutura de assentamento das telhas era sempre de madeira. O desdobramento das peças era artesanal, executado geralmente por escravos, como mostra a bela gravura.

Desdobramento da madeira. Gravura de Jean-Baptiste Debret. Imagem http://www.comciencia.br

As tesouras (em Portugal chamadas asnas) mais utilizadas eram a tesoura de linha suspensa, ou canga de porco e a tesoura de Santo André; mais raramente a tesoura paladiana. A tesoura romana seria mais comum a partir do século XIX.

Tesoura de linha suspensa

Tesoura francesa

Tesoura clássica ou paladiana

Tesoura de Santo André

Tesoura romana

O uso de tesouras como estrutura principal e terças e caibros como estrutura secundária é mais apurado e recente. Primitivamente era comum o sistema de caibro armado, isto é, sem tesouras, com cada caibro recebendo o seu próprio tirante ou olivel. Acima deste, apenas as ripas e telhas. O encaibramento era executado de maneira variada, sendo comuns os paus roliços – “caibros de mato virgem, redondos e bons”. Podiam também ser lavrados a machado, ou ainda, serrados. Quando serrados, tinham dimensões aproximadas “de altura três quartos de palmo e de grosso meio palmo e assentados em distância outros dois palmos”

Estrutura de caibro armado. Fazenda Viegas. Imagem Cardoso, 1975

Telhado de caibro armado

Telhados feitos com pau roliço. Imagem Barreto 1975.

Detalhe do frechal

As seções das peças das tesouras eram maiores que as utilizadas hoje e suas medidas eram em palmos: um palmo quadrado (22 x 22 cm), um palmo por um e meio (22 x 33 cm), e assim por diante. Para melhor distribuição das cargas, no caso de paredes de taipa de pilão, é feito um reforço de madeira que recebe os caibros ou pernas das tesouras. Cada tarufo corresponde a um caibro, que é juntado aos frechais por meio de sambladuras tipo rabo de andorinha.As madeiras mais utilizadas eram a canela, peroba do campo, angelim, braúna jatobá e jacarandá.

Beirais e beiras

Os beirais são um capítulo à parte devido a sua importância na proteção das paredes, na condução das águas de chuva e na linguagem estética. A própria existência dos beirais é uma das características dos edifícios coloniais. Os beirais protegiam da chuva as paredes de taipa ou pau-a-pique. A forma característica de mudança de inclinação das águas, que tem o nome de galbo, tinha a finalidade de projetar a água para mais distante. A peça de madeira  que propicia e execução do galbo chama-se contrafeito.

Elementos do beiral de caibro armado

Na ponta dos caibros que faziam os contrafeitos, esculpiam-se cabeças de cachorro, às quais atribuíam a função simbólica de proteção da casa, à semelhança das carrancas das navegações medievais.  Por extensão estas peças ficaram sendo chamadas de cachorros, e o conjunto de caibros do beiral era a cachorrada.

Cachorros ornamentados. Imagem Lemos 1979.

As beiras são ornamentos de pequena profundidade na alvenaria, no ponto de ligação com o telhado. Muitas vezes eram executados com o próprio material do revestimento, usando telhas como moldes. A expressão “sem eira nem beira” para designar uma pessoa pobre, sem posses, vem da arquitetura colonial. Eira é um pequeno quintal nos fundos da casa; beira é a decoração da alvenaria, de que falamos. “Sem eira nem beira” é pois, uma pessoa que tem uma casa tão pobre que não tem quintal nem ornamento na parede.

Beira. Imagem RODRIGUES, 1979.

Varandas e alpendres

Devido à grande divergência entre autores quanto a estes elementos, Sylvio de Vasconcelos sugere a adoção da seguinte nomenclatura. Varanda é o espaço resultante do prolongamento da água principal do telhado e apoiado diretamente no solo, guarnecido por guarda-corpo, peitoril balaustrado ou grade de ferro.

Varanda e alpendre

O alpendre é uma peça coberta, geralmente no pavimento térreo, com uma cobertura autônoma, que não se constitui prolongamento do telhado, como a varanda, mas é apoiada na parede principal do edifício. Vasconcelos conclui dizendo que o alpendre é apoiado na outra extremidade diretamente no solo. Na nomenclatura da técnica edilícia, entretanto, isto se constitui um falso alpendre, pois o verdadeiro alpendre tem uma de suas extremidades em balanço (MONTEIRO, 1976).  É comum entretanto vermos o termo alpendre utilizado como sinônimo de varanda, como no texto clássico de Luís Saia, O alpendre nas capelas brasileiras. Existe portando uma divergência entre a terminologia técnica, mais precisa, e aquela dos textos históricos, mais livre.

Estruturas de alpendre e falso alpendre

Forros

Os forros mais comuns eram de tábuas de madeira, planos, assentes diretamente na estrutura dos telhados, ou em um barroteamento complementar. As tábuas tinham geralmente largura aproximada de um palmo. Neste caso, a junção das peças de madeira poderia ter várias formas.

Tipos de forro. Fonte Santos, 1951.

Havia também os forros com esteira de taquara.

Forro de taquara. Detalhe e assentamento. Imagem Santos, 1951.

Além da forma plana, os forros poderiam possuir a forma abobadada, muito comum nas igrejas, ou a chamada forma de esquife, caixão ou gamela. No forro abobadado são feitas cambotas auxiliares, encurvadas na forma final da forração. No segundo caso, é muito comum que se utilizem as mesmas peças do madeiramento do telhado. O forro compõe-se de cinco painéis, quatro deles inclinados e o último plano.

Forro abobadado e forro em esquife.

Forro em esquife. Museu do ouro em Sabará. Imagem Smith, 1975.

Em construções mais luxuosas, os forros poderiam formar painéis moldurados. Neste caso as molduras tinham altura de cerca de 15 cm, e eram feitas de caixotões de madeira.Os forros eram geralmente pintados ou em uma cor somente ou decorada com pintura abstrata ou figurativa.  Era comum a pintura faiscada, isto é, imitando madeira ou pedra.

Bibliografia

Arquitetura Civil I, II e III. Textos Escolhidos da Revista do IPHAN. São Paulo: FAUUSP e MEC-IPHAN, 1975.

Arquitetura Oficial I e II. Textos Escolhidos da Revista do IPHAN. São Paulo: FAUUSP e MEC-IPHAN, 1975.

BARDOU, Patrick e ARZOUMANIAN, Varoujan. Arquitecturas de adobe. Barcelona: Gustavo Gili, 1981.

BARRETO, Paulo T. “O Piauí e sua arquitetura” In: Arquitetura Civil I (ver acima), p. 191-219.

BAZIN, Germain. A arquitetura Religiosa Barroca no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 1983. 2 vols.

CARDOSO, Joaquim. “Um tipo de casa rural do Distrito Federal e Estado do Rio” In: Arquitetura Civil I (Ver acima), p. 1-46.

CORONA, Eduardo e LEMOS, Carlos A. C. Dicionário da arquitetura brasileira. São Paulo: Edart, 1972.

LEMOS, Carlos A. C. Arquitetura brasileira. São Paulo: Melhoramentos, 1979.

RODRIGUES, José Wasth. Documentário arquitetônico. Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, Edusp, 1979.

SANTOS, Paulo F. Arquitetura religiosa em Ouro Preto. Rio de Janeiro: Kosmos, 1951.

VASCONCELLOS, Sylvio de. Arquitetura no Brasil: sistemas construtivos. Belo Horizonte: Unversidade Federal de Minas Gerais,  1979.

15 Respostas para “Técnicas construtivas do período colonial – II

  1. adorei este descrição sobre a arquitetura colonial, rico em detalhes e cuidadosamente escrito, parabéns

  2. Nanda Corrêa

    Olá Sílvio,
    passei horas por aqui e pretendo voltar mais. Parabéns pelo Blog.
    Estou desenvolvendo meu trabalho final de Graduação na EAU-UFF e essa descrição me ajudou bastante.
    Quem sabe você não gostaria de ser meu “arquiteto convidado” da Banca examinadora. Eu ficaria muito feliz e honrada.

    Abraços,
    Nanda

  3. Muito bacana seu texto sobre arquitetura colonial brasileira!
    Só tem uma coisa: essa história de telha feita “nas coxas” não é verdadeira. É uma “lenda urbana” da arquitetura que acabou pegando e se espalhando como fato real, parece que no país todo!
    As telhas eram feitas de forma mais rudimentar sim, o que deixava as telhas com aspecto mais irregular, mas existia uma fôrma – em madeira – que era usada para moldá-las. Fazer telha nas coxas dos escravos seria inviável, dado o tempo de secagem, precisariam ficar assentados esperando. Ficariam todos por conta de se esticar no sol por horas, se desidratando ali. Apesar de mal tratados era uma mão de obra/mercadoria que dava custos; a telha feita “nas coxas” é inconcebível!

    • Oi Isabela.
      O que você diz tem sentido. Vou modificar o texto. Obrigado pela colaboração.

    • Nada a ver…as telhas eram literalmente moldadas nas “coxas” dos escravos, em seguida colocada para secar ao sol. O barro argiloso se moldava na coxa, em seguida se jogava um pouco de terra seca para firmar a telha para ser colocada ao chão.

  4. …desculpem, mas acho que tem sentido o “feito nas coxas” dos escravos: a maneira de amassar o barro e deixa-lo com a consistencia de se deixar moldar, justifica o dito popular. quando se molda a telha na forma não é necessario que a forma fique junto até secar e um dos motivos da forma mal feita daquelas telhas era a retirada com a mãos, quatro mãos: duas do da escravo forma e duas do escravo servente e “arrumador” … vou procurar onde ouvi isto e depois volto para informar.

  5. OLA GOSTARIA DE ENTRAR EM CONTATO…TO FAZENDO UM TRABALHO SOBRE UMA FAZENDA Q VI AQUI E GOSTARIA DE PERGUNTAR ALGUMAS COISAS, SE POSSÍVEL…UM ABRAÇO

  6. irineu a. polisel

    Gostaria de obter literatura sobre construção de telhados.

  7. amei o assunto sobre telhas achei muito interessante …..

  8. Carlos alberto de oliveira

    Gostei das dicas por isso gostaria. De receber novos email.

  9. Carlos alberto de oliveira

    Gosto muito de arquiteturas antigas.

  10. Por tempos procurava a definição dos cachorros. No Maranhão ainda é amplamente utilizado nas construções residenciais; uma forma simples de aumentar o beiral e que dá um certo charme. Parabéns por todas as definições e pesquisa!

  11. queria saber o tamanho do beiral e só pelo desenho já deu para sentir…+ou_ 1 telha e meia; Obrigado

  12. júlio britto

    Gostaria de alguns estudos sobre as edificações coloniais principalmente fundações.

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