Pós-modernidade e pós-modernismo

Aprendendo com a Barra da Tijuca

Sílvio Colin

Publicado no site Vivercidades em 04/11/2005

Parece que, nos ambientes acadêmicos, na produção e crítica arquitetônica, com relação ao tema ‘Pós-Modernismo’ acontece certa reação de fingir ignorar coisas, acontecimentos, situações de desconforto, que exigem atitudes que se quer adiar ou evitar. Algo como uma negação maníaca.

Centro Empresarial Barra Shopping. Imagem <www.buildings.com.br>
Uma oposição se expressa, muitas vezes, identificando o Pós-Modernismo, aqui no Rio de Janeiro, como certa arquitetura temática dos shopping-centers e edifícios residenciais e comerciais, que lançam mão de motivos históricos para criar associações ditas de mau gosto e vazias, mas que criam um forte diferencial – diga-se de passagem, um diferencial que os métodos modernistas não mais conseguem produzir.

Vejo, cada dia com mais preocupação, que o ensino e a prática da Arquitetura não conseguem se libertar de uma reflexão racionalista-funcionalista, o grande método do alto Modernismo, mas que hoje, em face dos problemas atuais enfrentados pelos arquitetos, em sua reflexão e sua prática, conduzem a uma repetição monótona, às vezes mesmo vazia, de formas já exploradas, esquentadas por uma profusão de novos produtos, técnicas e métodos construtivos oferecidos pela afluente indústria da construção. São vidros e painéis de todas as cores e com todas as propriedades técnicas; são processos estruturais capazes de criar mega-objetos arquitetônicos que, sem dúvida, abrigam as atividades e funções a que se destinam, mas aos quais falta a mão do arquiteto criador, daquele operador de mensagens poéticas e éticas novas e insuspeitadas, que fizeram da Arquitetura, ao longo dos séculos, uma grande arte, não uma simples atividade técnica.

A reflexão pós-moderna objetiva, justamente, recuperar esta dimensão da Arquitetura. Mas aceitar esta assertiva significa deixar de lado todo um conjunto de certezas sobre como pensar e fazer o edifício e a cidade. Significa aprender de novo; significa refletir e considerar que tudo que temos feito pode eventualmente conter grandes equívocos. A atitude mais comum é negar, rejeitar, reafirmar velhas certezas e sonhar com a volta do purismo ascético das vanguardas do início do século XX, quando tudo isso passar.

Ao defender o pensamento pós-moderno, em palestras, aulas e mesmo em conversas informais, não apenas como um conjunto novo de referências formais, mas sobretudo como um modo de pensar mais aberto e mais rico de possibilidades, tenho constantemente enfrentado uma oposição que se expressa, muitas vezes, identificando o Pós-Modernismo, aqui no Rio de Janeiro, como certa arquitetura temática dos shopping-centers e edifícios residenciais e comerciais, que lançam mão de motivos históricos para criar associações ditas de mau gosto e vazias, mas que criam um forte diferencial – diga-se de passagem, um diferencial que os métodos modernistas não mais conseguem produzir.

Os opositores do Pós-Modernismo, usando argumentos fundamentados no racionalismo e funcionalismo dos anos 1930 e 40 rejeitam estas práticas, dizendo-as não compatíveis com os ideais de compleição da grande arquitetura. Tento aqui responder a estes argumentos.

Condomínios na Barra da Tijuca. Imagem <www.debatesculturais.com.br> A Barra é um produto do Modernismo

Em primeiro lugar, a Barra da Tijuca é um espaço da cidade com muitos problemas, a maioria dos quais não pode ser imputada às idéias pós-modernas. A Barra é um produto do Modernismo. Todos os princípios urbanos em que se baseia são anteriores à reflexão pós-moderna: a ‘cidade funcional’ da Carta de Atenas, o ‘desenvolvimento linear’ regido por auto-via – strip-devellopment –, a ‘motopia’ – utopia motorizada –, são inspirações da modernidade arquitetônica. Quando a Barra foi projetada, nos anos sessenta, estava nascendo a crítica pós-moderna. Os CIAM – Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna – haviam fechado suas portas em 1956, ironicamente no mesmo ano em que a maior realização inspirada na Carta de Atenas – Brasília – foi concebida. O livro de Jane Jacobs, Morte e Vida das Grandes Cidades, um contundente libelo contra o urbanismo modernista, é de 1961.

Plano de Lúcio Costa para a Barra da Tijuca. Imagem: Lucio Costa: registro de uma vivência. Empresa das Artes, 1995.


O desenvolvimento da Barra se deu em um ambiente modernista avançado que, em alguns momentos incorporava certa reflexão revisionista dos cismas dos anos 1960, mas que não continha a idéia de ruptura, marca do Pós-Modernismo. Deu-se também em um momento político complicado para o país, no epicentro do regime militar de 1964, em que o desenvolvimentismo do ‘Milagre’ era idéia predominante.

Um outro equívoco é trazer para a reflexão arquitetônica, sem o devido cuidado, certas máximas da crítica social e literária, como aquela de Frederic Jamenson que define o Pós-Modernismo como “a lógica cultural do capitalismo avançado”. Muito do que se faz hoje no Brasil – ricos hotéis de luxo, edifícios comerciais ‘inteligentes’, sedes de empresas, obedientes ao capitalismo avançado – passam longe da reflexão pós-moderna.

Bonaventure Hotel. Los Angeles, 1976. Arquiteto John Portman.
O teórico marxista Frederic Jamenson cita o Hotel Bonaventure como exemplo de pós-modernismo na arquitetura, embarcando e induzindo seus leitores a um grande equivoco, pois este tipo de arquitetura passa longe da reflexão pós-moderna.


Neste ponto, cabe diferenciar ‘Pós-Modernidade’ de ‘Pós-Modernismo’. O primeiro termo reflete uma idéia de periodização histórica. Obviamente, é um termo problemático, pois nos falta o distanciamento necessário para definir um período histórico, quando ainda estamos nele mergulhados: quem descobriu a água certamente não foi o peixe. Mas é uma tentativa de afirmar um salto de qualidade nas mudanças recentes, que muitos insistem em ver apenas como variações quantitativas. O conceito de ‘pós-modernidade’ identifica-se com a caracterização de uma sociedade pós-industrial. A idéia da comunicação instantânea, substituindo as telecomunicações; as seguras operações do capital financeiro mundial em muito excedendo as arriscadas relações do capital industrial, gerando uma concentração de renda absurda; as economias terciária e informal da prestação de serviços substituindo em número de empregos a antiga economia industrial; a questão do conhecimento transformado em unidades informatizadas; a tecnologia se antecipando aos problemas que supostamente a deveriam preceder; a Filosofia e a História abandonando os ambiciosos meta-relatos, como o Marxismo e o Freudismo, e se concentrando em relatos temáticos, menos ambiciosos e mais aprofundados; a família, antes pequena, nuclear e de difícil dissolução, agora se complexificando em múltiplas possibilidades; o Estado fraco, orientado por pesquisas de opinião, substituindo o Estado ideológico… Enfim, uma lista que poderíamos estender para muito além.

Ressaltemos, porém, dois últimos itens: a urgência da substituição dos combustíveis fósseis por similares renováveis e uma relação mais respeitosa para com o meio ambiente ameaçado pela degradação a que foi submetido no Novecentos.

Este é o quadro da Pós-Modernidade. Inevitável e inquestionável. Mas que admite diversos conjuntos de representações artísticas e culturais, e também arquitetônicas. É sobre estes conjuntos, no âmbito da Arquitetura, que falamos agora. O primeiro deles é o simples continuísmo modernista, daqueles que, como Habermas, vêem os descaminhos do ‘Projeto Moderno’ como acidentes de percurso, e que pequenos acertos serão suficientes para a sua retomada. É neste conjunto que se enquadra a obra recente de Oscar Niemeyer, e muito do que se ensina nas faculdades de Arquitetura.

Museu de Arte Contemporânea. Niterói, 1996. Arquiteto Oscar Niemeyer. O continuísmo modernista na arquitetura. Imagem <cinemaehistorias.zip.net>

O segundo conjunto é o tardo-modernismo, algo como um hiper-modernismo, que não apenas aceita a tecnologia, a abstração, a produção seriada, o produtivismo, mas os exalta e os usa de maneira extensa, dando aos seus mega-objetos, assim criados, proporções inimagináveis aos modestos mestres do modernismo. São as arquiteturas high-tech de Renzo Piano e Norman Foster, o slick-tech de Cezar Pelli, o produtivismo, o esculturismo abstrato de Tadao Ando e tantos outros.

Centro Geoges Pompidou. Paris, 1977. Arquitetos Renzo Piano e Richard Rogers. O modernismo tardio. Imagem <viajarymas.com>

Finalmente temos a arquitetura da ruptura – o Pós-Modernismo. Ruptura com o excesso de abstração, com o anti-individualismo, com o racionalismo exacerbado, com o internacionalismo, com a ditadura do funcionalismo, com o anti-historicismo, com a des-semantização, com todos aqueles procedimentos que orientavam os arquitetos novecentistas na busca da arquitetura da máquina.

Voltando ao início de nossa discussão, a arquitetura temática dos shopping-centers e edifícios comerciais e residenciais da Barra pode ter sido possibilitada por um ambiente mais descontraído trazido pelas investigações pós-modernas, mas foi assimilada por uma estratégia mercadológica do empreendedores imobiliários, cujas origens são muito anteriores a qualquer formulação pós-modernista, e não estão com esta comprometidos. A história da grande Arquitetura confunde-se com a história de sua ligação com o poder e com o capital, e nem os mais radicais modernistas puderam escapar desta ligação. Lembremos que, em que pese a inspiração socialista e utópica das vanguardas européias, foi em Harvard e Chicago que foram nutridas, e foi do cerne da sociedade neo-liberal que saíram para o mundo os maiores ícones do Movimento Moderno.

Humana Building. Louisville, Kentucky. 1987. Arquitetos Michael graves. Imagem <en.wikipedia.org> Um marco da  arquitetura pós-moderna americana.

Reduzir então o Pós-Modernismo a estas suas manifestações mais pobres ou comerciais é, no mínimo, injusto, pois o Pós-Modernismo tem um caráter utópico e renovador. Sua motivação é uma correção de rumo, uma diminuição da distância entre alta cultura e cultura popular; um enriquecimento do ato de projetar; uma contextualização e inter-textualização mais freqüentes; uma preocupação maior com o simbólico; uma retomada das cidades para o pedestre; uma diminuição da escala de intervenção; uma correção de rumo que, afinal, não estava ausente da obra tardia dos grandes mestres do século XX: no historicismo de Mies na sua volta a Berlim, no brutalismo anti-industrial de Corbusier na Maison Jaoul, Ronchamp e La Tourette, nos complexos edifícios de Aalto, no organicismo de Wright.

Resumindo: o conceito de ‘pós-modernidade’ é uma tentativa de entender o mundo atual em suas marcantes diferenças com o mundo da sociedade industrial moderna; Pós-Modernismo é uma tentativa de agrupar diferentes representações do mundo atual que têm em comum a idéia de ruptura com métodos de criação arquitetônica da chamada ‘modernidade’, e implica, no que tem de melhor, na retomada de uma utopia que o Movimento Moderno deixou pelo caminho. As representações pós-modernas podem tomar a forma do Historicismo abstrato, do Regionalismo crítico, do Neo-racionalismo formalista e historicista, da pesquisa formal etc.

Neue Staatsgalerie, Stuttgart. 1977-84. Arquiteto James Stirling. Imagem <www.hdmsarchitecture.com>  Um marco da arquitetura pós-moderna na Europa.

Mas as relações da Arquitetura com as práticas consumistas e mercadológicas, que na Barra da Tijuca conduzem aos shoppings temáticos e edifícios historicistas, devem ser estudadas em outro fórum, pois elas ultrapassam as questões estilísticas e estão muito mais ligadas a uma estratégia de marketing habitacional e cultural, que não é de forma alguma causada pelo Pós-Modernismo, mas apenas um desvio da grande Arquitetura impossível de evitar, quer seja pelos pós-modernistas, pelos modernistas mais tradicionais ou pelos tardo-modernistas. Qual um camaleão, a sociedade consumista toma a forma mais adequada para sua sobrevivência. Se a forma mais adequada hoje é o Historicismo abstrato dos pós-modernistas dos anos 1970, porque é mais barato e eficaz, amanhã poderá ser, desde que se tenha dinheiro, o High-tech dos anos 1990, ou mesmo o Deconstrutivismo.

Downtown. Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Este conjunto incorpora a reflexão pós-moderna.

A inocência está perdida, disse certa vez Gianni Vattimo, mas não estão perdidos para a arquitetura o sonho e a utopia, e o Pós-Modernismo pode significar a revivescência deste sonho e desta utopia que não mais podemos encontrar na poética maquinista e industrial do Modernismo, e sem os quais o arquiteto perde a sua razão de ser.

Para finalizar, fiquemos com Michel Foucault: as utopias consolam: é que, se elas não têm lugar real, desabrocham, contudo, num espaço maravilhoso e liso; abrem cidades com vastas avenidas, jardins bem plantados, regiões fáceis, ainda que o acesso a elas seja quimérico.

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