Ecletismo na arquitetura I

Silvio Colin

A produção arquitetônica que chamamos de ‘Ecletismo’ merece maior atenção dos arquitetos e estudantes, não somente por seus valores intrínsecos, mas também porque uma grande quantidade de exemplares desta produção conseguiu escapar da sanha destrutiva da voracidade imobiliária do século XX. Apesar da indiferença com que foi tratada pelos principais historiadores de Arquitetura da época e teóricos do Alto Modernismo, permanece nas nossas cidades, enriquecendo sua paisagem construída. Neste texto, trataremos de algumas questões, que nos parecem relevantes para o entendimento dessa produção arquitetônica.

O ecletismo [1], em princípio, designa uma tendência filosófica resultante do conflito de culturas e do embate de idéias, que leva a escolher, em cada sistema de pensamento, aquilo que parece, em cada caso, mais próximo da verdade. Esta atitude gera um conjunto de idéias caracterizado por infiltrações recíprocas entre os sistemas filosóficos puros, aos quais, muitas vezes, falta originalidade ou coesão.

Em Arquitetura, costuma-se designar, stricto sensu, por Ecletismo à prática acadêmica do mundo ocidental, acontecida entre as últimas décadas dos século XIX e primeiras do século XX, orientada para questões estilísticas, segundo a qual todos os estilos e tendências históricas da tradição ocidental – grego, romano, gótico, renascentista, barroco , juntamente com arquiteturas exóticas – chinesa, japonesa, indiana, mourisca – são considerados, isoladamente ou conjugados entre si, como tipos ou modelos para edifícios a serem projetados, podendo ainda fornecer figuras para a composição mural destes.

Pavilhão Real de Brighton, 1818. Proto-ecletismo neomourisco.
Arq. John Nash. Imagem: http://www.thisisvlad.com

O Ecletismo se constituiu numa prática arquitetônica de grande importância histórica e cultural, embora tenha sido rejeitada por muitos arquitetos e intelectuais de sua época e de épocas posteriores. Tratava-se, em primeiro lugar, de uma arquitetura muito popular devido, em grande parte, ao fato de que o arquiteto e seu cliente falavam a mesma língua, ambos queriam a mesma coisa. Esta situação era diferente das vanguardas modernistas, por exemplo, que praticavam uma arquitetura intelectualizada, utilizando conceitos que exigiam um nível de abstração e conhecimento que o público não possuía. Uma outra questão é que era a única arquitetura ensinada e apoiada pela Academia. Os outros movimentos contemporâneos, principalmente o Art Nouveau e o Racionalismo, eram praticados por dissidentes. Isto propiciou um alargamento de seu horizonte geográfico, cedo atingindo e mesmo ultrapassando toda a extensão do mundo ocidental. O público burguês e pequeno burguês era o seu grande cliente e estava muito satisfeito em poder escolher, para sua residência ou empresa, o estilo que mais lhe convinha ou agradava.

No ensino acadêmico tradicional, localizava-se o Ecletismo apenas na segunda metade do século XIX. Na historiografia recente, porém, uma profunda reavaliação crítica levou os historiadores a reconsiderar muitos aspectos da questão, verificando que as motivações ecléticas já estavam presentes nas práticas revivalistas neoclássicas e neogóticas. A partir daí, impõe-se, então, uma nova classificação histórica, baseada nesta maneira de ver e interpretar o assunto.

Casas do Parlamento. Londres, 1836-52. Proto-ecletismo neo-gótico. Arq. Sir Charles Barry e Augustus Pugin. Imagem http://www.richard-seaman.com

Inicialmente, podemos falar de um Protoecletismo, correspondente às últimas décadas do século XVIII e primeiras do século XIX. Como já foi dito, este não deve ser confundido com o Neoclassicismo ou o Neogótico, já que estes estilos pretendem um posicionamento político e crítico mais desenvolvido e engajado, enquanto o Ecletismo é apolítico. Acrescente-se a isso que os revivalismos citados movimentavam um aparato muito maior e mais aprofundado de pesquisas e discussões teóricas, além do trabalho arqueológico. O Proto-Ecletismo corresponde, em seus momentos mais importantes, a desvios na obra de arquitetos comprometidos com o Neoclassicismo ou o Neogótico. É o caso do Pavilhão Real de Brighton, de John Nash (1815-38), um pavilhão indiano-mourisco de grande sucesso de público. É, também, o caso das Casas do Parlamento de Londres (1840-65), de Sir Charles Barry, revivalista neoclássico e Augustus Pugin, um nome primordial do revivalismo neogótico, em seu viés eclesiologista. Ou, ainda, da Friedrischswerdersche Kirche, em Berlim (1824), de Karl Friedrich Schinkel, um dos maiores nomes do Neoclassicismo alemão. Esta igreja mistura, à maneira do ecletismo sincrético do final do século, a linguagem românica e gótica. Porém, o projeto inicial dava ao cliente a alternativa de um edifício neo-romano.

Protoecletismo neogótico: Friedrichswerdwerche Kirche.Berlim, 1825.
Projeto: Karl-Friedrich Schinkel.
Imagem: http://www.hvanilla.web.infoseek.co.jp

Friedrichswerdwerche Kirche. Interior.

Schinkel fez dois estudo para o interior da igreja, uma no estilo clássico e outra no estilo Gótico. Embora funcionalmente iguais, a solução gótica é mais verticalizada. Imagem MIGNOT, 1953. P. 53

Considere-se, ainda, que os mais castiços revivalismos já continham o vírus do ecletismo – a poética da escolha –, na medida em que influências distintas eram buscadas e misturadas no mesmo edifício. Veja-se a Gliptoteca de Leo von Klenze, em Munique (1815-34). Klenze, ao lado de Schinkel, era um grande expoente do Neoclassicismo alemão.

Gliptoteca de Munique. Projeto: Leo von Klenze, 1816-34. Protoecletismo neoclássico. Imagem: http://www.prevos.net

Na Gliptoteca, o pórtico central jônico é ladeado por dois blocos de inspiração renascentista. Embora não se possa dizer que o arquiteto afastou-se da linguagem clássica, é certo que toma como modelo dois momentos muito distintos, o que confere a sua obra um certo hibridismo característico do Ecletismo. O movimento neogótico, por sua vez, buscava influências muito distantes entre si, quer se tratasse dos eclesiologistas puginianos – Gótico francês –, dos culturalistas ruskinianos – Gótico veneziano –, ou dos construtivistas, ligados ao racionalismo de Viollet-le-Duc.

O Alto Ecletismo corresponde à segunda metade do século XIX e primeiras décadas do século XX, quando o historicismo romântico prevalece claramente sobre as práticas revivalistas. O edifício que melhor caracteriza esta atitude, por sua monumentalidade e suntuosidade, é a Grande Ópera de Paris, de Charles Garnier. Os arquitetos, buscando sua inspiração em momentos distintos do passado, de acordo com a teoria do associacionismo, vão utilizar-se de seus modelos de maneira livre, sem o rigor arqueológico exigido pela prática revivalista, e vão dar-se o direito de misturar, num mesmo edifício, influências muito distintas. Acontece aí o chamado tipologismo estilístico, isto é, cada período histórico vai representar um valor, de acordo com a cultura novecentista.

Grande Ópera de Paris. 1861-74. Arq. Charles Garnier.
Imagem: http://www.cosmopolis.ch

A prática eclética serviu bem ao público burguês de então, e os problemas “higiênicos”[2], funcionais, tecnológicos, e de conforto, foram nivelados aos problemas estéticos e estilísticos. É neste momento que ocorre a dissociação entre o construtivismo e a Arquitetura, o que muitas vezes vai exigir a colaboração entre um engenheiro e um arquiteto – nas estações ferroviárias, nos mercados etc. –, e para este último foi reservado um papel secundário, segundo uma crítica que perdurou até meados do século XX, o papel de “decorador de fachadas”.

Por último, temos o Ecletismo Tardio, no final do século XIX e início do século XX, quando a arquitetura eclética convive com outras tendências dissidentes, como o Art Nouveau, o Expressionismo, e mesmo o Movimento Moderno.

Costuma-se diferenciar, também, o Ecletismo Tipológico – ou Historicismo Tipológico, na terminologia de Patetta[3] –, que se baseia na escolha prévia de um estilo histórico, de acordo com a teoria associacionista, e do código estilístico consensualmente adotado pela ‘Academia’, de que já falamos –, do Ecletismo Sincrético [4] – ou pastiche compositivo. Nesta orientação, o arquiteto se dá uma maior liberdade com relação ao modelo, misturando fontes distintas, inventando soluções inadmissíveis estilisticamente, e acusadas freqüentemente de “mau gosto”.

Estação das barcas. Rio de Janeiro. 1906-11. Imagem http://img266.imageshack.us.

Um bom exemplo de sincretismo. Os pavilhões laterais em nada ultrapassando estilisticamente a linguagem maneirista histórica, e o pavilhão central remetendo ao Barroco tardio (ou Rococó), que inspirou a linguagem utilizada nas grande exposições internacionais do final do século XIX.

O primeiro é a atitude predominante nos melhores momentos do Alto Ecletismo. O segundo é mais comum no Ecletismo Tardio. Neste viés, já não podemos falar de uma teoria associacionista, mas apenas de um decorativismo mural, na maioria das vezes se constituindo em um amálgama de fontes heterogêneas que resultam numa visão de conjunto confusa, alimentando as críticas sobre sua superficialidade.


Continua

Este artigo constitui-se na primeira parte de um trabalho, que compreende mais três partes, que serão publicadas em breve.

Ecletismo na arquitetura II – Proto-ecletismo: A batalha dos estilos.

Ecletismo na arquitetura III – Alto-ecletismo. Tipologia estilística.

Ecletismo na arquitetura IV – Tardo-ecletismo. Ecletismo no Brasil.


[1] De ‘eclético’, pelo grego eklectikós: ‘o que escolhe’.

[2] O Higienismo, stricto sensu, refere-se a conceitos, normas, políticas e práticas desenvolvidas pelos médicos sanitaristas e engenheiros higienistas para resolver os inúmeros problemas surgidos pelo crescimento descontrolado dos núcleos urbanos, no século XIX, e combater as epidemias e endemias, tão freqüentes nas grandes metrópoles e cidades industriais. A maior preocupação com a insolação e ventilação dos edifícios, construção de redes de esgoto, águas pluviais e abastecimento de água, construção de latrinas em todas as casas, uso de materiais impermeáveis, políticas de vacinação, e práticas de higiene pessoal fazem parte das recomendações dos higienistas.

[3] PATETTA, Luciano. “Considerações sobre o ecletismo na Europa”. In: FABRIS, Annatereza (org.) Ecletismo na Arquitetura Brasileira. São Paulo: Nobel & EDUSP, 1987.

[4] Em muitos textos, encontramos esta vertente do Ecletismo designada pelo termo ‘Ecletismo Sintético’, que nos parece um equívoco, pois não existe um processo de síntese, conseqüência das tensões resultantes de uma tese e uma antítese. Existe, sim, uma mistura de fontes heterogêneas, melhor designadas pelo termo ‘sincretismo’.

Bibliografia

BENEVOLO, Leonardo. História da Arquitetura Moderna. São Paulo: Perspectiva, 1976.

CROOK, J. Mordaunt. The Dilema of Style. Chicago: University of Chicago, 1987.

MIGNOT, Claude. Architecture of the 19th Century. Colônia: Evergreen Taschen, 1983.

PATETTA, Luciano. “Considerações sobre o ecletismo na Europa”. In: FABRIS, Annatereza (org.) Ecletismo na Arquitetura Brasileira. São Paulo: Nobel & EDUSP, 1987.

PATETTA, Luciano. L’Architettura dell’Ecletismo: fonti, teorie, modelli: 1750-1900. Milão: Gabriele Mazzotta, 1975.

VITRUVIO, Marco Pollio & MORGAN, Morris Hicky. The Ten Books of Architecture. Nova Iorque: Dover, 1960.

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2 Respostas para “Ecletismo na arquitetura I

  1. Excelente conteúdo.

  2. Ótimo texto! Muito mais didático e explicativo que muitos textos conceituados que vemos por ai..

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