Tipos e padrões da arquitetura civil colonial – II

O SÍTIO BANDEIRISTA

O sítio bandeirista é um caso especial na arquitetura colonial do segundo século. Objeto de primoroso estudo de Luís Saia[1], e comentado por Michel Foucault[2], que destaca a singularidade do quarto de hóspedes dentro do corpo da construção, porém abrindo para o exterior, como um caso de heterotopia. O sítio bandeirista é um tipo de edifício dos mais interessantes, pois, em que pese a precariedade dos meios construtivos, tem um desenho clássico dos mais rigorosos, podendo mesmo ser comparado as plantas de Palladio. Os doze exemplares estudados por Saia em São Paulo e municípios vizinhos são considerados pelo autor como solução típica dos fazendeiros abastados da região. Guardam entre si características muito próprias  e semelhanças que autorizam falar de um tipo arquitetônico. O Sítio do Padre Inácio e o Sítio do Mandu, em Cotia, e Sítio Querubim  em São Roque são os melhores exemplos. Nos três temos, salvo variações, na parte frontal uma varanda, uma capela e o célebre quarto de hóspedes, que causou impressão a Foucault.

Sitio do Padre Inácio

A porta da frente não se abre para a parte principal da casa, onde a família vive, de modo que qualquer pessoa que passe por ali, qualquer viajante, tem o direito de abrir a porta, entrar no quarto e passar a noite ali. Agora, os quartos são dispostos de tal modo que as pessoas que lá ingressam, nunca atingem o coração da família: será apenas um viajante, jamais um hóspede verdadeiro. Este tipo de heterotopia, que hoje está quase completamente desaparecida de nossa civilização…[3]

A sala ocupa o lugar central e os quartos, a lateral. Nos fundos uma outra varanda, possivelmente uma área de serviços, não necessariamente uma cozinha, que podia ser externa à construção. A construção era sempre de taipa de pilão, telhados de barro assentes sobre madeiramento do tipo caibro armado. O espaço abaixo do telhado era aproveitado como depósito ou mesmo como abrigo de serviçais.

Villa Angarana. Palladio. 1570 

Sítio do Padre Inácio

Sítio do Mandu. 

Sítio Querubim

A CASA URBANA

A casa térrea

A casa urbana no Brasil colonial seguia um único padrão, determinado por questões parcelárias, tectônicas e ambientais. Quanto ao sistema parcelário, o lote urbano era sempre estreito e profundo, variando a largura de 5 a 8 metros[4].

Se contornar uma cidade importante, onde se comprimem, uns contra os outros, numerosos tetos de telhas, por mais atentamente que a observe, também não verá nunca destacar-se ali, por entre grupos de construções mais humildes [...] edifício algum de proporções grandiosas [...] [5]

Não se concebiam casas urbanas recuadas e com jardins[6]. As casas eram alinhadas pela divisa frontal e geminadas nos dois lados – casas em correnteza –, criando a chamada rua corredor. Isto em parte se deve à precariedade das técnicas construtivas. Sabendo-se que a taipa de pilão, ou o pau-a-pique      eram vulneráveis à chuva, um dos modos de protegê-las das intempéries era colar empena com empena, restando apenas duas fachadas expostas. Os beirais e varandas se incumbiam da proteção destas.

Seguindo o princípio de Vaultier, de que “quem viu um casa brasileira, viu quase todas”[7], podemos nos basear no estudo de Paulo Thedim Barreto[8] sobre a casa piauiense e estendê-lo ao resto do Brasil. Não estaremos longe da verdade.

A casa mais simples que poderemos encontrar é a chamada casa de porta e janela, composta apenas de sala, quarto, varanda e cozinha. Para nossos padrões atuais, poderemos estranhar que a circulação para os compartimentos dos fundos se dê pelo quarto. Considere-se porém que nenhuma pessoa não pertencente ao convívio familiar era admitida para além da sala. Variações podem acontecer com o acréscimo de alcovas, compartimento do qual não temos conhecimento, mas que era muito comum, atendendo aos padrões de então de preservação da intimidade e proteção da família. Hoje pensamos que nenhum compartimento habitável pode prescindir de um vão de iluminação e ventilação. Este, porém, é uma idéia recente, criado pelos higienistas do século XIX. Estes propuseram a substituição do conceito deventilação química (volume de ar por pessoa) dos compartimentos então adotado pelo conceito deventilação física (circulação de ar).

Planta das casas. Fonte BARRETO, Paulo T.

As coberturas eram feitas com telhas de barro tipo capa-e-canal,  assentes sobre madeiramento, que se compunha apenas de caibros, cumeeira e terças, estas diretamente apoiadas nas paredes. A pouca largura de vãos a vencer dispensava o uso de tesouras.

Casa de meia-morada. Corte.

O  SOBRADO

Logo a seguir, temos o sobrado urbano, um dos tipos de residência mais persistentes de nossa história da habitação individual. O termo sobrado hoje em dia designa o prédio com mais de um pavimento, não pressupondo a existência de pisos intermediários[9]. Acrescentaríamos que o números de pavimentos de um sobrado é geralmente dois, e não mais que três. Até hoje vemos um grande número de sobrados nos núcleos históricos de nossas cidades, a maioria tendo sido construída nos primeiros anos do século XX, mas que muito pouco acrescentaram ao sobrado setecentista, no que se refere à morfologia.

Sobrado na Rua do Amparo. Olinda, sec. XVII.

Dos mais antigos no Brasil temos aqueles conhecidos sobrados o da a casa nº 28, da rua do Amparo e a casa nº 7 do Pátio de São Pedro, ambos em Olinda, e datando provavelmente das primeiras décadas do século XVII. No primeiro caso, observamos que se trata de uma casa situada em terreno com grande aclive, razão porque o pavimento inferior, da rua do Amparo é bem menor. Temos aí a loja de comércio. Geralmente, nas áreas mais povoadas dos centros urbanos, o pavimento inferior era dedicado ao comércio. A casa de residência se desenvolve unicamente no sobrado, onde temos a sala, o santuário (lembremos não apenas a vocação católica do nosso povo como também o grande poder da igreja, em tempos de contra-reforma), as alcovas e nos fundos a sala de jantar e cozinha, dando o quintal para a ladeira da Misericórdia.

No outro caso, no sobrado do Pátio de São Pedro, temos um programa mais completo, pois se trata não somente de terreno plano como também de um lote de esquina. A planta apresentada reflete possivelmente as transformações de uso atualizadas, pois notamos uma casa já melhor equipada. Temos no pavimento térreo uma loja melhor dotada de espaços, com armazém e grande depósito, e os compartimentos dos fundos servindo à residência, com a sala de engomar, um compartimento que somente desaparece das casas brasileiras com o século XX já avançado, e a senzala urbana, que se transformou em quarto de criado. Note-se que já temos ai banheiro e W.C., integrados ao corpo da construção, embora com acesso por fora. No pavimento superior, por se tratar de uma casa de esquina. Temos quartos, uma alcova e a camarinha, pequena alcova ou quarto.

A técnica construtiva destes sobrados é a mais simples do período colonial, utilizando-se nas paredes o pau-a-pique, a taipa de pilão ou alvenaria de adobe ou tijolos cerâmicos, dependendo do local. As coberturas de telha cerâmica sobre madeiramento que raramente incluía tesouras, sendo mais comum apenas terças e caibros. O piso intermediário era sempre de frisos de madeira sobre coçoeiras transversais. Em alguns casos fazia-se um piso suplementar ocupando todo o espaço disponível ou apenas parte dele.

Na arquitetura residencial raramente se fugia deste padrão de sobrado. As exceções ficam por conta das casas de nobres, de ricos proprietários rurais, quando os lotes têm uma testada frontal maior e onde, apesar de se manter a linha de fachada, aparecem os pátios internos, que vão propiciar melhor ventilação aos compartimentos intermediários. Como exemplo, entre muitos, a casa do Barão de Pontal, construída em 1790, por José Pereira Arouca e um grande sobrado, ambos em Mariana, notável este último pelo grande número de pátios e quartos, formando um intrincado labirinto[10].


[1] SAIA, Luís. “Notas sobre a arquitetura rural paulista do segundo século”. In: Arquitetura Civil I. Textos Escolhidos da Revista do IPHAN. São Paulo: FAUUSP e MEC-IPHAN, 1975. P. 221-281.

[2] FOUCAULT, Michel. “Des espaces autres” In: Dits et écrits. 1984.

[3] FOUCAULT. Op Cit.

[4] VAUTIER, L. L.  Casas de residência no Brasil. In: Arquitetura Civil I. Textos Escolhidos da Revista do IPHAN. São Paulo: FAUUSP e MEC-IPHAN, 1975. P. 32.

[5] VAUTIER, L. L. Op. Cit.

[6] REIS FILHO, Nestor Goulart. Quadro da arquitetura no Brasil. São Paulo: Perspectiva, 1970. P. 22.

[7] VAUTIER, L. L. Op. Cit. P. 37.

[8] BARRETO, Paulo T. “O Piauí e sua arquitetura” In: Arquitetura Civil I. Textos Escolhidos da Revista do IPHAN. São Paulo: FAUUSP e MEC-IPHAN, 1975. P. 191-219.

[9] CORONA, Eduardo e LEMOS, Carlos A. C. Dicionário da arquitetura brasileira. São Paulo, EDART, 1972. P. 429.

[10] RODRIGUES, José Wasth. Documentário arquitetônico. Belo Horizonte: Itatiaia, 1979. P. 148.

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2 Respostas para “Tipos e padrões da arquitetura civil colonial – II

  1. Juliete Reichert

    Seus posts são verdadeiras aulas, é incrível a quantidade de informação que você passa pra gente, só tenho a agradecer.
    Seu blog tem me ajudado muito em HAA5 e em História da arquitetura no Brasil, além de ajudar a compreender melhor a arquitetura.
    Novamente, obrigada!

  2. Regina Duarte Gomes

    Obrigada pelas informações, material muito explicativo e de excelente qualidade!

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