Uma definição de arquitetura

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Sempre desejei comentar essa definição de arquitetura do Jorge Moreira. Ela me provoca há anos, desde que foi colocada em um grande painel no 5º andar do edifício da FAU,  na Ilha do Fundão no Rio de Janeiro, onde leciono.

Vejo nela muitas coisas verdadeiras sobre as quais todo estudante deve refletir. É mais que uma definição de arquitetura. É também uma definição do papel do arquiteto na sociedade, pelo menos segundo um determinado ponto de vista, a romântica atitude modernista de uma época. Mas vejo também neste texto algumas dissonâncias, não do tipo criativo, resultante da inserção de notas estranhas aos acordes perfeitos, mas do tipo de dissonâncias resultante de cordas desafinadas. É isto que desejo comentar porque esse texto expressa muitos problemas vividos pelo arquiteto na relação com sua profissão e com o cliente.

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Hal do 5º pav. do edifício da FAU-UFRJ, na Cidade Universitário do Rio de Janeiro, com o grande painel contendo a definição de Jorge Moreira

Jorge Moreira tem uma posição singular na história da arquitetura carioca e brasileira. Um fundamentalista, muito ligado às lições teóricas de Le Corbusier dos anos 1920 e 30, e menos afeto à mudança de rumo de seu mestre após 1945, quando o discurso deste ficou menos falado e mais construído, menos racionalista e mais poético, menos purista e mais brutalista. Fazia restrições às pesquisas formais de Niemeyer e Reidy [1] e satisfazia-se com o fazer racionalista e as figuras geradas por Corbusier nos anos 1930. Sua grande obra foi, sem dúvida, a Cidade Universitária da então Universidade do Brasil, hoje UFRJ, e alguns de seus edifícios, hoje absurdamente descaracterizados, tanto formal quanto funcionalmente, como a Escola Politécnica, o Edifício da Faculdade de Arquitetura, o Instituto de Puericultura, e o Hospital das Clínicas, impiedosamente mutilado recentemente.

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Edifício da Faculdade de Arquitetura na Cidade Universitária do Rio de Janeiro, de 1955.Uma das obras primas de Jorge Moreira.

Eis a definição

Para mim, fazer arquitetura é idealizar a obra visando a resolver, com intenção plástica, o problema proposto, de acordo com a época, os materiais e as possibilidades técnicas: analisando e considerando os fatores externos que nela influem; respeitando imposições e hábitos do meio: detalhando e articulando todos os elementos componentes e buscando sempre a verdade, quanto à finalidade e função, tanto na forma como no uso dos materiais.

A exigência de liberdade para projetar, mantenho até hoje. Ela não traduz o propósito de impor meu ponto da vista. Procuro, através do diálogo com o cliente, achar a solução adequada, que atenda a  suas aspirações, sem contudo fazer concessões contrárias aos princípios que, como arquiteto, me cabe defender.

Dou toda assistência à construção para que a obra seja realizada tal como a imaginara e, quando concluída, o cliente sinta seu desejo satisfeito e eu minha tarefa corretamente cumprida. Preocupo-me com a ambiência da obra projetada e sua significação no contexto em que será inserida: construída, passa a constituir um elemento da paisagem urbana, cuja harmonia deve ser assegurada. Por essa razão, todo arquiteto deve ter preocupação urbanística. De acordo com esse principio, tenho procurado, através de uma participação bastante ativa, colaborar no estabelecimento de regulamentações e normas urbanísticas que estruturem a cidade e orientem seu desenvolvimento, sem prejuízo da paisagem natural e dos testemunhos materiais da sua história, cujos remanescentes nos cabe preservar.

JORGE MACHADO MOREIRA

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Edifício da Faculdade de Arquitetura. Hall do Pav. Térreo.


Para mim, fazer arquitetura é idealizar a obra visando a resolver, com intenção plástica, o problema proposto…

Uma sentença impossível de discutir, se se souber o que quer dizer “intenção plástica”. Sem dúvida é o que diferencia, ou diferenciava, o trabalho do arquiteto do engenheiro civil, para usar um corte que se fazia naquela época. Mas o que é exatamente “intenção plástica”. O autor não fala de “intenção estética”, pois a palavra estética (do grego aisthétós, ê, ón) refere-se à percepção pelos sentidos, algo sensível, e opõe-se à noética (do grego noétós,ê,ón), o que pode ser percebido pela inteligência. Tampouco fala de “intenção poética”, o que a meu ver seria mais adequado. É o que diríamos nos dias de hoje. Embora este termo se ligue à arte de fazer versos, no âmbito da filosofia, a palavra matriz, poiesis, não tem compromisso com a língua falada ou escrita, mas refere-se à atividade de criar ou fazer.[2] Em uma visão estendida, do ponto de vista da linguística, atividade poética é todo fazer cujo objetivo seja o aprimoramento da forma da mensagem, e não seu conteúdo, canal, emissor ou receptor.[3]

De certa maneira. Moreira repete Lúcio Costa. “Arquitetura é a construção concebida com a intenção de ordenar plasticamente o espaço, em função de uma determinada época, de um determinado meio, de uma determinada técnica e de um determinado programa.”[4]

Fundão J Moreira8 - Cópia

Cidade Universitária na Ilha do Fundão. Rio de Janeiro, 1955-60. Jorge Moreira e equipe.


Anteriormente ao século XX e, sobretudo, antes da entronização do Movimento Moderno, falava-se de beleza ­– a Venustas de Vitrúvio. É nesta direção, vitruviana, que vai a definição de Morales de los Rios[5]: “A arquitetura é a arte, ciência e a técnica de conceber, projetar e erigir edifícios com utilidade e beleza.”

Mas Jorge Moreira, assim como muitos arquitetos modernistas que enveredavam no terreno das definições, preferiam o anódino termo “plástico”, que se refere à arte de plasmar, de modelar, como ensinam os dicionários, e não quer dizer absolutamente nada relacionado à obra de Moreira. Talvez pudéssemos dizer, metaforicamente, que certas obras de Eric Mendelsson, ou de Niemeyer, fossem “plasmadas”, isto é, tiravam proveito da plasticidade do concreto armado. Mas certamente o termo não se aplica aos edifícios de Jorge Moreira, extremamente racionalizados, modulados, retilíneos e ortogonais.

Mas em uma época em que estava esvaziada a busca do “belo”, esse eufemismo era então utilizado para se referir a qualidades que não eram afetas apenas à lógica, ou à técnica. Mas quem viveu e projetou nos anos 1960 e 1970 sabia que se tratava de um termo dúbio.

Instituto de Puericultura. UFRJ. Cidade Universitária, Rio de Janeiro, 1950-66


de acordo com a época, os materiais e as possibilidades técnicas: analisando e considerando os fatores externos que nela influem; respeitando imposições e hábitos do meio…

Esse é um trecho surpreendente. Tirando a obviedade da primeira sentença, pois não existe arquitetura possível sem o acatamento das possibilidades técnicas de um local e uma época, nunca foi preocupação dos nossos vanguardistas o respeito aos hábitos do meio, muito pelo contrário. Não é à toa que aquela arquitetura praticada por Moreira veio a se chamar “Estilo Internacional.”

…buscando sempre a verdade, quanto à finalidade e função, tanto na forma como no uso dos materiais.

Nesta parte aparece um dado idealista importante: a busca da verdade. E mais, onde buscá-la: na finalidade e na função, envolvendo nesta busca a “forma” e o uso dos materiais. Não está clara aí a diferença entre finalidade e função; deve ser a mesma coisa. E neste ponto Moreira deixa de ser apenas corbusiano de primeira hora, mas fala como um bom bauhausiano, quando parece acreditar que a “função” do objeto praticamente poderia ser esgotada ao nível de uma utilidade primária, explícita. Não dando muita importância a questões de significado. Este significado e a consequente absorção do objeto pela cultura se realiza, de acordo com os próceres da Bauhaus, na sua exata relação com o mundo real e com as necessidades do homem e apenas se daria no plano tecnológico.[6]

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Hospital Universitário. Projeto de 1955-60. Jorge Moreira e equipe.


A exigência de liberdade para projetar, mantenho até hoje. Ela não traduz o propósito de impor meu ponto da vista. Procuro, através do diálogo com o cliente, achar a solução adequada, que atenda a suas aspirações…

Esse é um dos trechos que a mim me parece mais estranho. Primeiramente porque vejo aí um pouco de bravata. Não que eu duvide de que ele tenha sabido manter esta liberdade para projetar. Acredito que sim, sobretudo por que a sua grande obra, a Cidade Universitária, tenha tido um aval autoritário, eco e consequência da realização do Ministério da Educação e Saúde, sob a égide do Estado Novo, para a qual não precisaria muito desgaste para manter essa liberdade. Depois, porque, ironicamente, Moreira usava essa “liberdade” de maneira muito parcimoniosa, eu diria mesmo com puritanismo.

Mas eu vejo nesta frase também ecos de um embate que envolveu os arquitetos das vanguardas modernas. É que o Movimento Moderno não era do gosto do público. Apenas os arquitetos e artistas defendiam a dieta de absoluta continência formal a que os arquitetos se submetiam. Se os arquitetos e artistas oitocentistas falavam a mesma língua do seu público, já no século XX, aqueles julgavam ter um código formal mais elevado que o seu público, e este deveria elevar-se para compreender a arte e a arquitetura que os modernistas praticavam. Não foi sem muitas batalhas, muita discussão, muita luta, que os arquitetos conseguiram, senão convencer o público, pelo menos fazê-lo acatar suas soluções.

Mas eu acreditaria mais se estivesse escrito que a exigência de liberdade de projetar traduz, sim, o propósito de impor um ponto de vista, e o diálogo com o cliente era apenas uma parte inevitável deste processo, nem sempre muito amistosa.

Centro de Tecnologia da UFRJ, Jorge Moreira e equipe. 1955-60


…sem contudo fazer concessões contrárias aos princípios que, como arquiteto, me cabe defender.

Essa parte é uma das mais indiscutíveis e verdadeiras. Não somente porque  os modernistas acreditavam ter uma grande missão social e uma rígida carta de princípios estéticos[7], mas também Jorge Moreira realmente se empenhava em defender estes princípios e, como diz, colaborar no estabelecimento de regulamentações, tendo sido vice-presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) por quatro vezes, 1953 a 1965.

…colaborar no estabelecimento de regulamentações e normas urbanísticas que estruturem a cidade e orientem seu desenvolvimento, sem prejuízo da paisagem natural e dos testemunhos materiais da sua história, cujos remanescentes nos cabe preservar.

É também bastante estranho fazer parte deste registro de intenções a luta para preservar os testemunhos materiais da história, cujos remanescentes nos cabe preservar, pois sabemos que os modernistas não foram bem por aí, muito pelo contrário, sobretudo no que se refere ao tecido edificado nas últimas décadas do século XIX e primeiras do século XX.


[1] BRUAND, Yves. Arquitetura Contemporânea no Brasil. São Paulo: Perspectiva, 2003, p. 243.

[2] RUNES, Dagobert. D. Dicionário de Filosofia. Lisboa: Presença, 1990.

[3] Cf. [3] Cf. “Linguística e Poética” In: JAKOBSON, Roman. Linguística e Comunicação. São Paulo. Cultrix, 1995, e CÂMARA, J. Mattoso. Dicionário de linguística e gramática. Petrópolis: Vozes, 1986, p. 103-4.

[4] CORONA, Eduardo e LEMOS. Carlos A. C. Dicionário da Arquitetura Brasileira. São Paulo: Edart, 1972, p. 54.

[5] MORALES DE LOS RIOS Filho. Adolfo. Teoria e filosofia da arquitetura. Rio de Janeiro : Borsoi, 1960, p. 25.

[6] Cf. BAUDRILLARD, Jean. O sistema dos objetos. São Paulo: Perspectiva, 1989, p. 219.

[7] Ver neste blog o artigo “A poética maquinista” de 20/03/2011.

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