Arquivo da categoria: Teoria da arquitetura

Arquitetura do Milagre Brasileiro

“Milagre Brasileiro” é o nome aplicado , não sem certa ironia, ao período de expansão econômica acelerada, com taxas de crescimento acima de 10%, durante os governos militares, de 1964 a 1985. Esta expansão era artificial, baseada em empréstimos externos, gerando uma crescente inflação que chegou a níveis insuportáveis no final dos anos 1980. Corresponde a um período de governo autoritário e ufanista, criador de lemas como “Ninguém segura este país” e “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

Este momento da História do Brasil produziu uma arquitetura bem específica, da qual pretendemos falar. Impossível tarefa, entretanto, sem compreendermos primeiro este momento único da cultura mundial e seus reflexos na cultura brasileira, nas artes literatura cinema etc. Mergulhemos então, primeiramente neste contexto. Continuar lendo

A poética do Art-Nouveau na arquitetura

Silvio Colin

Na Alemanha chamou-se Jugendstil. Na Inglaterra chamou-se Liberty Style, devido a uma loja de objetos de arte. Na Itália chamou-se Stile Liberty. O nome Art Noveau advém da Maison de l’Art Nouveau, loja de móveis, tapeçaria e objetos de arte do colecionador e comerciante Samuel Bing. Importantes arquitetos do final do século XIX e início do século XX, como Hector Guimard, Victor Horta, August Endell, Joseph Hoffmann entre outros, aderiram ao estilo e o divulgaram com sua obra.

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Malapropismo em arquitetura

Silvio Colin

Malapropismo, em arquitetura, acontece quando a mensagem veiculada pela forma arquitetônica é inapropriada ou inadequada ao seu conteúdo, sobretudo quando esta causa um efeito jocoso.  O assunto foi extensamente explorado por Charles Jencks, ao criticar a alienação dos arquitetos afiliados ao Estilo Internacional tardio e sua resistência à adoção da linguagem simbólica.

Referindo-se à refinada linguagem de Mies van der Rohe no conjunto do Illinois Institute of Tecnology (IIT), e ao seu extremo purismo, que desconsiderava qualquer alusão simbólica, Jencks chama a atenção que a Casa de Caldeiras mais parece a catedral do campus, e a Igreja, por sua vez parece uma casa de caldeiras. Continuar lendo

Produtivismo

Silvio Colin

O produtivismo é, ao mesmo tempo, um caminho provável para a arquitetura, e, para esta, uma condenação ao lugar comum e a banalidade. Poderíamos mesmo dizer que se trata, no quadro da prática arquitetônica, de uma “a traição da máquina” com relação à atitude zelosa dos arquitetos, desde o movimento moderno. Quis o arquiteto fazer a sua arte para a indústria, e de tal modo o fez direito, que a indústria não precisa mais dele. Testemunhamos a hipertrofia dos grandes sistemas industriais voltados para a construção (pré-fabricados de estruturas, sistemas de esquadrias com grandes painéis de vidro multicoloridos e espelhados, painéis metálicos de grande impacto visual) que atendem com perfeição aos seus objetivos, mas que simplificam e empobrecem a paisagem construída e a atividade do arquiteto.

Sede da Willis Faber Dumas. Ipswich, Inglaterra. 1971-5. Arq. Norman Foster. Segundo Kenneth Frampton, o primeiro edifício produtivista no ambiente arquitetônico recente.

É disso que falamos quando usamos o termo produtivismo em arquitetura. Referimo-nos  a edifícios em que os produtos utilizados na sua confecção têm papel preponderante na própria concepção, na aparência, ou como determinante do estabelecimento das demandas funcionais, volumétricas, espaciais, ou murais. Continuar lendo

Elementarismos I

Silvio Colin

Publicado  na Revista AU-Arquitetura e Urbanismo (São Paulo, PINI) nº 187, outubro de 2009. Texto integral.

Este ensaio aborda de modo crítico as duas mais importantes poéticas pictóricas elementaristas do início do século XX, o Neoplasticismo e o Suprematismo, sua influência na arquitetura do Movimento Moderno e sua repercussão na prática arquitetônica nos dias atuais.  Por meio da confrontação de textos consagrados sobre o assunto e análise das obras e declarações dos mais importantes artistas envolvidos, os dois movimentos são estudados de modo comparativo, evidenciando suas distintas raízes ideológicas, as principais diferenças metodológicas e suas interações. Vistos primeiramente no seu nascedouro, o texto busca as influências dessas poéticas na arquitetura das últimas décadas do século XX, mostrando como estas visões de mundo se apresentam hoje para a arquitetura como alternativas para a produção arquitetônica. Continuar lendo

Follies

Silvio Colin

No âmbito da arquitetura uma folly (em inglês  loucura, tolice), como a própria palavra adverte, é um edifício curioso, extravagante, bizarro, frívolo ou irreal, geralmente um ponto de atração em um parque, jardim ou propriedade rural. Não é um edifício desprovido de utilização prática. Pode ser um pavilhão, um gazebo, um ponto de referência, até mesmo uma residência. Porém são considerados mais por sua expressão artística, simbólica ou curiosidade.

Castelo no Hagley Park. Arquiteto Sanderson Miller. 1747. Imagem <www.en.utexas.edu>

A história das follies remonta aos meados do século XVIII, quando os aristocratas europeus do continente, nomeadamente França, Alemanha, Bélgica etc. e da Inglaterra e Escócia encontravam em suas propriedades marcas das civilizações antigas que haviam abrigado, e restos de séculos de guerras. Construções em ruínas passavam a ser a atração principal de uma propriedade aristocrática ou burguesa rural.  Quando estas ruínas não eram encontradas, eram simplesmente construídas, em uma prática de frivolidade típicas destas classes sociais. Continuar lendo

Proxêmica

Silvio Colin

O termo proxêmica (proxemics) foi cunhado pelo antropólogo Edward T. Hall em 1963 para designar os estudo sobre as distâncias interpessoais por ele empreendido, e relatado no livro A dimensão oculta [1], uma leitura obrigatória para arquitetos. Como ressalta o autor, tudo que o homem faz esta relacionado com sua experiência espacial, e o significado que atribuímos ao espaço que regulamenta o nosso desempenho está profundamente relacionado com as distâncias interpessoais.

Aliás, o trabalho se tornou uma referência importante  para qualquer projetista, estudioso ou planejador que lida com as relações espaciais entre os seres humanos. A segurança pessoal, social e pública, o conforto ambiental em espaços sociais e públicos, o controle da qualidade espacial de espaços coletivos, muito deve desde então ao estudo de Hall.

A percepção do espaço é estudada por Edward Hall através dos seus órgãos dos sentidos, que são tratados como receptores. Os receptores próximos são o tato, o olfato, e os receptores remotos, a audição e a visão.

As propriedades e características são estudados do ponto de vista psicológico, antropológico e cultural. Sem dúvida, o ponto alto deste estudo é a classificação das distancias interpessoais, um dado importante hoje em dia, devido ao efeito da aglomeração nas grandes cidades, e que pode ser de grande valia para o arquiteto. As distâncias estudades são a a Distância Íntima, Distância Pessoal, Distância Social e Distância Pública. Continuar lendo

Psicanálise do Capitel Jônico

Silvio Colin

Baseado no livro “Psicoanalisis del arte ornamental” de Angel Garma .

O capitel jônico, entre os três representantes das ordens da arquitetura grega, é talvez o que mais se preste para uma abordagem psicanalítica, uma vez que apresenta uma maior complexidade para uma análise. No capitel dórico, dificilmente conseguimos nos afastar da marcante ideia construtivista, de um simples leito de pedra para transmitir cargas da arquitrave para a coluna. Já o capitel coríntio é marcado por uma força oposta, de um figurativismo explícito. No capitel jônico, entretanto, as imagens se fundem e se interpenetram, lembrando um processo inconsciente de condensação de que nos falou Freud.

Muitas destas interpretações causam estranheza àqueles que não tem nenhuma familiaridade com as idéias da psicanálise. Afinal, estamos aqui lidando com forças inconscientes. O conhecimento de tais teorias, embora não seja condição necessária para entendimento dos assuntos abordados, certamente ajudará em muito.

Fig. 1 – Capiteis das ordens gregas Continuar lendo

Arquitetura desconstrutivista I

Mark Wigley

Do livro Deconstructivist Architecture. Nova Iorque: The Museum of Modern Art, 1988.
Tradução e edição de Silvio Colin

Arquitetura sempre foi uma instituição cultural central que tem sido avaliada principalmente por promover a ordem e estabilidade. Estas qualidades são geralmente um produto da pureza geométrica da composição formal. Continuar lendo

Arquitetura desconstrutivista II

Mark Wigley

Do livro Deconstructivist Architecture. Nova Iorque: The Museum of Modern Art, 1988.

Tradução e edição de Silvio Colin

Cada um dos projetos nesta exposição explora a relação entre a instabilidade da primeira vanguarda Rússia e estabilidade do tardo-moderno. Cada projeto
usa a estética tardo-moderna  fundindo-a entretanto com a geometria radical da obra pré-revolucionária. Aplicam uma demão de frio verniz do Estilo Internacional sobre as formas ansiosamente conflitivas da arte de vanguarda. Ai se localiza a tensão daquelas primeiras obras sob a
pele da arquitetura moderna, que irritam a modernidade por de dentro da sua própria genealogia distorcida.



Instalação do escritório de advocacia Schuppich, Sporn, Winisschofer. Viena, 1983-7. Coop Himmelblau. Imagem <www. coophimmelblau.at> Continuar lendo