Arquiteturas Divergentes do Movimento Moderno – Parte II

Silvio Colin

Art Déco

Estes dois objetos, o primeiro um relógio em bronze com base de ônix, com pouco mais de 33 cm de altura, desenhado por Louis Sue e André Marc em 1924, e o segundo, um pêndulo em metal prateado de Jean Puiforcat, de 1930,  são bem característicos de duas marcantes tendências do design europeu deste período. Ambos seriam caracterizados como objetos Art Déco, porém seguem intenções bem distintas. O primeiro, figurativo, com decoração floral, e o segundo, de formas geométricas puras. Estas tendências vão aparecer também na arquitetura.


Tendência floral

A Secessão Vienense é muitas vezes definida como a versão austríaca do movimento Art Nouveau. Embora isto encontre confirmação na sua orientação simbolista e anti-acadêmica, o movimento em muito difere do Art Nouveau praticado na França e na Bélgica, e por seus grandes nomes como Hector Guimard, Victor Horta e Henry van de Velde. Para estes parecia mandatória a leveza e o traçado linear, que vemos na Entrada do metro de Paris, no Hotel Tassell ou na Maison du People. O edifício canônico da Secessão Vienense, o seu Edifício de Exposições, projetado por Olbrich, dialoga com a poética acadêmica, na medida em que se utiliza de muitos de seus motivos: tem uma massa simétrica e bem definida, que não procura disfarçar ou tornar mais leve através de procedimentos estéticos, utiliza-se de elementos decorativos acadêmicos como cornijas, gotas, etc, embora o faça de maneira não acadêmica, com interrupções bruscas e eurritmia não convencional. A estes procedimentos junta outros como o uso de decoração floral não incidental nas paredes e na cúpula, estes sim, típicos do Art Nouveau.

Esta ligação com a tradição clássica garantiu ao movimento austríaco uma vida muito mais longa do que os movimentos irmãos vinculados ao simbolismo Art Nouveau, na medida em que era muito mais completo fornecendo soluções não somente murais, mas também espaciais, estruturais e volumétricas, chegando até a Expo Art Déco. Para exemplificar esta tendência mencionemos o Pavilhão Pomone, de L. H. Boileau, ou o Pavilhão do Colecionador de Pierre Patou, ou os jardins da Esplanada dos Inválidos, todos na Expo Art Déco. Aliás, muito do que vimos nesta exposição tem inspiração secessionista. No Rio de Janeiro ainda restam belos exemplos desta tendência como a Residência Adolfo Basbaum, na Urca.

Tendência Perpendicular[1]

A grande questão dos arquitetos da época, à exceção dos modernistas de vanguarda, que buscavam um estética integral e racional, era fugir de tudo aquilo que recordasse os procedimentos acadêmicos. O Art Nouveau ofereceu um caminho, no simbolismo e no pitoresco. Mas haveria outras maneiras de confrontar o classicismo acadêmico, buscando inspiração nas formas proto e pré-históricas e na mais enfática oposição ao clássico, que era a arquitetura gótica. Assim as soluções da poética gótica vão juntar-se a outras formas, figuras e motivos buscados na Mesopotâmia, Assíria, Babilônia e também nas civilizações pré-colombianas. Esta tendência vai ser muito forte nos Estados Unidos e não foi representada na Expo Art Déco, embora sua filiação ao “estilo” seja mundialmente consagrada. Sullivan, e após ele, Frank Lloyd Wright, na busca de um “estilo” para o Novo Mundo aproximaram-se de Owen Jones, que em seu livro “Grammar of Ornament” apresenta uma vasta coleção de exemplos nos quais se incluem os motivos de que estamos tratando[2]. A ligação com o escultor Richard Brook, iconógrafo do estilo prairie, o qual oscilava “entre dois pólos, um vago, assimétrico, pitoresco, e outro compacto, simétrico e arquitetônico”[3] e a reciprocidade na troca de experiências estéticas entre Wright e a Sesseção Viennense se desdobrariam posteriormente na reinterpretação americana das influências decorativas advindas da Expo Art Déco. Uma outra fonte icônica para a tendência perpendicular foi o livro do ilustrador americano Hugh Ferris, The Metropolis of Tomorrow, cujos desenhos também conduziam para a fusão do imaginário gótico com o proto-histórico.

Edifícios como o Empire State, de 1929-31, projetado pela firma Shreve, Lamb & Harmon, e o Chrysler, de 1928, projetado por William van Alen, universalizaram a figura da torre escalonada, imitada no mundo inteiro por razões estéticas, mas que em Nova Iorque era induzida pelas posturas municipais. O edifício em que mais aparece a influência gótica é a proposta de Eliel Saarinem para o Chicago Tribune Tower. Dentre os diversos aspectos desta poética, dois são de particular importância: a solução de “deter” ou “desacelerar” o forte impuxo vertical pela diminuição gradativa da seção horizontal, o que como vimos era uma postura municipal de Nova Iorque, e que nos trás também o tema do Zigurat[4], e a marcação da fenestração por maciços verticais em toda altura do edifício, o que permitia ao arquiteto “superar o problema do grande número de janelas por meio de enervações bem marcadas que acentuavam o verticalismo e, portanto, o aspecto impressionante das torres”[5]. Tratava-se de uma resposta emblemática para a solução em altura, bem mais retórica que a solução racionalista, preferida portanto por aqueles que desejavam mais a representação do poder do que a funcionalidade.

No Rio de Janeiro, os mais significativos exemplares desta tendência são o Palácio Duque de Caxias, de Cristiano Stockler das Neves [1937-41] e o seu vizinho, o edifício da Central do Brasil, de Adalbert Szilard [1942]. Este arquiteto, juntamente com Robert Prentice, Alexadre Buddeus e Alessandro Baldessini, seriam os nomes mais notáveis do nosso Art Déco.

Tendência Geométrica

A tendência geométrica é a última de nossa classificação, a mais próxima do Movimento Moderno, indutora de uma crescente abstração e dessemantização. Esta tendência tem participação marcante na Expo Art Déco, representando a inspiração voltada puramente para o uso de elementos geométrico-abstratos, porém não abrindo mão da função puramente decorativa de alguns elementos, o que, por certo a diferencia da atitude das vanguardas.

O “Pêndulo” de Jean Puiforcat é o objeto canônico da tendência geométrica, fora do universo estrito da arquitetura. Em nosso campo específico temos como exemplo os trabalhos de Robert Mallet-Stevens [1886-1945]. Nele, quase tudo está de acordo com a poética maquinista. Observe-se porém o uso decorativo que faz das lajes repetidas em balanço, no Pavilhão de Turismo da Expo Art Déco, ou ainda alguns elementos isolados do seu conjunto residencial à rua Mallet-Stevens, como a viga curva, os painéis verticais e o rodapé canelado, de desempenho muito mais simbólico do que funcional, o que explica as reservas quanto à aceitação do arquiteto no fechado clube  dos modernistas.

No Rio de Janeiro temos um grande acervo desta tendência, do qual destacamos o Edifício Lambert, na Praça Serzedelo Correia, n0 15 e ainda o Edifício Biarritz, na Praia do Flamengo, n0 268, do arquiteto A. Sejous, de 1938.

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[1] Gótico Perpendicular- período do gótico inglês , segundo classificação citada por Banister Fletcher, que vai de 1377 a 1485, situado entre o período Decorado e o período Tudor. O nome advém provavelmente do efeito “perpendicular” do grande número de pinásios alongados ocupando toda a altura das janelas.

[2] Frampton, Kenneth. História Crítica da Arquitetura Moderna. São Paulo: Martins Fontes, 1994. P. 57

[3] Idem. P. 62.

[4] Pirâmide escalonada usada nas arquiteturas proto-históricas.

[5] Jacques Greber. Apud Frampton, op. cit., P. 221.

Imagens

1-CABANNE, Pierre. Encyclopédie Art Déco. Paris:Somogy, 1986. P. 237 e 229.

2http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/63/Secession_Vienna_June_2006_017.jpg

3-CABANNE, Pierre. Encyclopédie Art Déco. Paris:Somogy, 1986. P. 156

4-http://www.artdecobrasil.commateriasguardiao.pdf

5-http://www.decopix.com/New%20Site/Pages/

Directory%20Pages/Ferriss_dir.html

6-www.howardmodels.com/…/Chrysler/pic1.jpg (com intervenção)

7- http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=568139 (com intervenção)

8-CABANNE, Pierre. Encyclopédie Art Déco. Paris:Somogy, 1986. P. 215.

9-CABANNE, Pierre. Encyclopédie Art Déco. Paris:Somogy, 1986. P. 216.

10-Foto Silvio Colin.

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