Arquiteturas Divergentes do Movimento Moderno – Parte I

Silvio Colin

O chamado Movimento Moderno não engloba toda a produção arquitetônica do mundo atual, sobretudo quando nos estamos referindo às décadas de 1920, 30 e 40, embora grande parte desta produção divergente seja freqüentemente omitida nos compêndios que tratam da arquitetura novecentista. Grandes historiadores do modernismo, Giedion, Benevolo, Zevi, Frampton, dedicam poucas linhas à arquitetura Art-Déco, quando o fazem, e sempre falta-lhes a intenção crítica, isto é, o desejo de estabelecer uma conexão entre esta arquitetura e o restante da produção arquitetônica do mundo ocidental. O Movimento Moderno é muitas vezes tratado como sendo o caminho da verdade, que não admite variantes, atalhos ou bifurcações. Esta atitude é preconceituosa e inadequada, pois pressupõe um julgamento maniqueísta, de certo e errado, a priori, o que por si só testemunha uma falta de método historiográfico. Poder-se-ia argumentar que os autores não pretendem ser exaustivos, mas apenas falar da parte que interessa a determinado fim preestabelecido. Somente assim seria compreensível tal omissão. Fiquemos por aqui, para não estender inutilmente a questão, embora o argumento seja inconsistente.

Há um outro erro historiográfico cometido pelos historiadores, o qual Bruno Zevi não cansa de assinalar. A maioria dos livros trata de grandes nomes pré-modernistas, como Auguste Perret, Peter Behrens, Tony Garnier, todos os três personagens marcantes da formação de Le Corbusier, e no caso de Behrens, na formação de Walter Gropius e Mies van der Rohe, além de sua marcante participação na Deutcher Werkbund, como se todos tivessem morrido em 1918. Isto é, cessada sua influência no Movimento Moderno, sua carreira tivesse terminado. Na verdade, Perret deixou sua marca no movimento moderno por alguns edifícios como aquele da rua Franklin, 25-bis, e da Garagem da Rua Pontieu, ambos pela mestria com que usou o concreto armado. Afora isto, sua obra, que se encerrou nos idos de 1954, com o século XX já avançado pode ser caracterizada como um clássicismo tardio. Behrens, admirado pelos modernistas pelo racionalismo da Fábrica de Turbinas da AEG, e pelo seu trabalho de desenho industrial na mesma empresa, e ainda pela sua posição de liderança na Deutcher Werkbund, tinha obras ligadas ao estilo art-nouveau, ao expressionismo e também ao classicismo tardio. Tony Garnier, da Cité Industrielle, credora das mais contundentes idéias de Le Corbusier sobre a cidade, em sua obra na prefeitura de Lyon foi bem menos modernista, praticando uma arquitetura que ficava à vontade na Expo Art-Déco.

Grande parte da produção arquitetônica dos grandes centros não pode ser alinhada como parte do Movimento Moderno. Este conjunto de obras divergentes pode ser dividido em dois subconjuntos, o classicismo tardio novecentista e as arquiteturas Art-Déco. Dizemos “as arquiteturas” por que mesmo aí cabe uma subdivisão, como veremos.

CLASSICISMO TARDIO

O impulso inicial das vanguardas, pregando uma arquitetura racionalista, funcionalista, impessoal, objetiva, anti-monumental e anti-decorativa provocou um forte movimento contrário, originário de hostes distintas, que muito abalaram o seu desenvolvimento. Tal movimento contrário pode ser comprovado pelo fracasso das propostas modernas nos concursos internacionais, dentre estes os concursos para o edifício do Chicago Tribune Tower, de 1922, para a Sociedade das Nações, em Genebra, de 1927 e, por fim, o Palácio dos Sovietes, em Moscou, em 1931. Estes concursos contaram com propostas brilhantes de grandes representantes das vanguardas, tais como Le Corbusier, em Moscou e Genebra, Gropius, em Chicago e Moscou, Hannes Meyer em Genebra, Erich Mendelsohn em Moscou, entre outros.

A verdade é que uma arquitetura anti-monumental, expedita, racional, simples, direta, dessemantizada, internacional, não agradava nem ao Estado socialista, neste momento representado por Stalin na URSS, nem aos Estados nazi-facistas, comandados por Hitler e Mussolini e nem ao Estado liberal, representado pelos Estados Unidos, sem falar do público burguês. Os ditadores queriam uma arquitetura grandiloqüente, que representasse retoricamente o seu poder; grandes avenidas, gigantescas perspectivas, cenários enfáticos para desfiles dos exércitos vitoriosos e comícios magnificentes. Os liberais não queriam nada diferente disto. Era preciso mostrar a capacidade de recuperação do Estado capitalista após o crack da Bolsa de Nova Iorque, em 1929, e nada melhor do que edifícios monumentais para tal. Ficaria então adiado o projeto racionalista e funcionalista das vanguardas, mesmo porque o público ainda não estava convencido sobre a sua poética de inspiração maquinista.

Este classicismo, entretanto, não era um simples revivalismo, como fora a tendência oitocentista. Já estava então contaminado pelo racionalismo, de maneira que podemos ver na maioria de suas manifestações, seja na União Soviética, seja na Inglaterra e colônias, na Alemanha de Speer, na Itália de Piacentini, nos Estados Unidos, no Brasil, em todo o mundo ocidental enfim, uma simplificação que seria um passo adiante da bem característica simplificação que já fora apontada pelos neoclássicos oitocentistas como Boullée, Ledoux, Soane e tantos outros notáveis do século anterior. Em termos lingüisticos podemos dizer que a sintaxe e a retórica clássicas eram mantidas, embora a gramática tivesse sido simplificada. Em outras palavras, os pórticos, as colunadas, as arquitraves, os frontões, a horizontalidade, o ritmo da fenestração, o caráter grandioso, tudo o que se refere à sintaxe, i.e. à relação dos elementos entre si, repetiam, muitas vezes de maneira abstrata, o modelo clássico; já os elementos isoladamente, os capitéis canônicos do estilo dórico, jônico ou coríntio, os elementos das arquitraves, como gotas, métopas e triglifos, os perfis das cornijas, as edículas, os frontões, i.e., os elementos gramaticais, eram simplificados, quando não simplesmente eliminados.

Na Inglaterra, berço do movimento Arts and Crafts, praticou-se muito a volta ao vernacular tradicional em residências e equipamentos menores; nos edifícios públicos, entretanto, prevalecia o classicismo tardio. A figura mais expressiva desta tendência é Sir Edwin Lutyens (1869-1944), que praticava com igual habilidade o movimento morrisiano como o classicismo tardio do grande conjunto de Nova Delhi, coroado pela Casa de Virrey [1912-30].

Na França, já mencionamos a figura de Auguste Perret [1884-1957]. O seu famoso Teatro do Champs-Élysées [1911-13], o Museu de Obras Públicas [1937] conhecido também como Palácio de Iena, ambos em Paris, juntamente com o Abatedouro de La Mouche [1909-13], em Lyon, assinado por Garnier são exemplos deste classicismo modernizado, mais simples e sóbrio que seus antecedentes do século anterior. Citemos ainda o Museu Trocadero, em Paris, 1937, de J. C. Dondel, A. Aubert e outros.

Nos Estados Unidos, é notório o episódio conhecido como a Traição de Burnham[1]: por ocasião da Exposição Colombiana de Chicago de 1893, quando se abandonou a orientação proto-racionalista que marcara a Cidade nas duas décadas anteriores e se optou, para a construção dos edifícios de então, a tendência beaux-arts cedendo à influência da arquitetura mais tradicional vinda de Nova Iorque, e que ficou conhecida como a “White City”. Os monumentos mais representativos deste classicismo americano, que influenciaram toda a geração seguinte, são a Biblioteca Pública de Boston (1888-91) e  a Estação da Pensilvânia, em Nova Iorque, em 1902-11, de Mc Kim, Mead & White.

A arquitetura vienense, liderada pelo decano Otto Wagner, e que produzira a histórica Sesseção, na qual despontavam Joseph Hoffmann e Josef-Maria Olbrich, afilhada ao movimento internacional do art-nouveau, inspiradora de muitos dos edifícios da Expo Art-Déco, tiveram um arqui-inimigo, Adolf Loos, defensor do purismo anti-decorativo, e que em muitas obras, como a Casa Steiner [1910] e a Casa Muller [1930], anteciparia o movimento racionalista. Este, por outro lado, mantinha, em outros edifícios, como  a loja Goldman & Salatch [1910], traços marcantes de um classicismo estilizado que lembrava o barroco francês, sem falar de sua enfática proposta para o concurso do Chicago Tribune Tower , uma coluna dórica adaptada à forma de edifício.

A União Soviética, berço de um dos mais poderosos movimentos de vanguarda do modernismo arquitetônico, o Construtivismo Soviético dos irmãos Vesnin, de Leonidov, de Melnikov, assistiria a um primeiro revés do racionalismo arquitetônico por ocasião do concurso para o Palácio dos Sovietes, no qual projetos dos mais eminentes racionalistas europeus, entre eles Corbusier em pessoa, Gropius, Mendelsohn, Oud e outros seriam preteridos por Bóris Iofan, um arquiteto local, com uma proposta ao estilo beaux-arts. Segundo Zevi, a partir de então “a arquitetura moderna estava terminada na Rússia”. Seguiram-se projetos revivalistas lembrando o neoclassicismo oitocentista, por seu monumentalismo, dos quais o Palácio do Partido Comunista, de Kiev [1938], a Casa dos Sovietes de Leningrado [1936-41] e o Instituto Marx-Engels-Lenin, em Tíflis [1938] são exemplos marcantes. Este último, ironicamente, reproduz em formas monumentais o Petit Trianon, um dos monumentos da aristocracia francesa decadente do século XVIII.

Foi entretanto na Itália e Alemanha, que este classicismo de estado vai encontrar a sua melhor expressão. Na Itália, Marcelo Piacentini [V1881=1960] liderava a reação classicista ao movimento racionalista. Este último chegou a ter um organismo oficial, o MIAR[ Movimento Italiano per l’Architettura Razionale ], do qual o maior nome era Giuseppe Terragni, autor do projeto da Casa del Fascio, em Como, 1932, e apregoava que o movimento tinha a finalidade moral de servis à revolução fascista. Apesar disso, Piacentini conseguiria as graças de Mussolini e seria uma espécie de arquiteto oficial do fascismo, chegando a propor um estilo, que batizaria de Stile Littorio, um classicismo extremamente simplificado. Em 1932 completaria a Torre Revolucionária de Brescia, o Palácio da Justiça, em Milão, e lideraria um grupo de nove arquitetos no projeto da Universidade de Roma. O movimento racionalista teria ainda alguns embates com o classicismo, sobretudo por ocasião do projeto para a Exposição Universal de Roma de 1942.

Albert Speer [1905-1981] foi o grande nome do classicismo alemão dos tempos do nazismo. Ganhou os favores de Hitler e um cargo oficial no Terceiro Reich, após a obra de decoração do Quartel General de Berlim, em 1932, que poucos anos depois se transformaria em Generalbauinspektor (Inspetor Geral de Obras). Sua proposta arquitetônica é de um classicismo simplificado e monumental, ou mesmo megalomaníaco, advindo não somente de suas idéias mas também da disponibilidade de meios e da necessidade de representação simbólica do Reich. São notórios os seus projetos da Grosse Halle (Grande Pavilhão), de 1938, o Zeppelinfeld, campo de desfiles do exército nazista, de 1934-37, em Nuremberg, o Führerpalais, de 1939,a chancelaria do Reich, entre inúmeros outros.

No Brasil, esta onda neoclássica repercutiu muito, devido a condições culturais políticas e econômicas. Em primeiro lugar, temos a influência do Plano Agache[2], no Rio de Janeiro, durante a gestão do prefeito Prado Júnior, contratado em 1927 pela República Velha e concluído após a Revolução de 1930. O plano pretendia dar um caráter monumental ao centro e zona sul do Rio. Apesar de nunca ter sido implantado, muitas de suas idéias, como a Avenida Presidente Vargas e o embelezamento da Avenida Beira-Mar foram executados. O plano, no que trata da Esplanada dos Castelo, chega a sugerir um tipo de edifício neoclássico, à moda então vigente na Europa, bem como as galerias, ainda hoje existentes em muitas ruas do centro segundo o modelo da Rue de Rivoli do período napoleônico. Muitos edifícios da cidade seguiram esta iconologia.

Marcelo Piacentini teve influência direta na nossa arquitetura. Qualificado pela construção da Universidade de Roma, foi chamado ao Brasil em 1935 para dar início ao projeto da Universidade do Brasil, que propôs localizar na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro. Assessorado por Vittorio Morpurgo, apresentaria em 1938 um projeto bem desenvolvido para a universidade. A dupla teria também interferido, quando da estada no Brasil, no Edifício Conde Matarazzo, em São Paulo e projetado a Universidade Comercial Matarazzo [1938-49], entre outros projetos

O Rio de Janeiro, como certamente também outra cidades, é testemunha da confrontação direta dos vários ideários arquitetônicos da primeira metade do século XX. Em 1936, paralelamente ao emblemático Ministério da Educação e Saúde, considerado o mais importante marco inicial de nosso movimento moderno, controi-se o Ministério da Fazenda, exibindo o mesmo classicismo abstrato e simplificado de Piacentini e Speer, com algumas características mais tradicionais, como o pórtico central dórico e a pesada cornija superior.


[1] Daniel H. Burnham [1846-1912].  Membro destacado da Escola de Chicago, trabalhando com John W. Root [1850-1891].

[2] Plano de Remodelação Extensão e Embelezamento da Cidade do Rio de Janeiro, orientado pelo urbanista francês Alfred Agache.

Imagens

1-http://blog.bnf.fr/uploads/lecteurs/2009/05/theatre-des-champs-elysees.jpg

2-http://en.wikipedia.org/wiki/File:Chicago_29_Oct116.jpg – Foto Luke Gordon. Chicago 1922

3-http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://www.2blowhards.com/Walter%2520Gropius%2520and%

4-Le Corbusier. Oeuvre Complete – 1929-36. Zurique: Artemis, 1970.

5-http://muar.ru/press_dossier/2006/visotki/03.jpg (com intervenção)

6-http://www.brynmawr.edu/Acads/Cities/wld/06900/06900d.jpg

7-http://www.bluffton.edu/~sullivanm/france/paris/…/perret.html

8-http://www.powwmedia.com/pennsy/images/exterior.jpg

9-http://www.erasmusu.com/en/photo/3195?university=4719&cat=university

10-http://www.thirdreichruins.com/zepptribak38.jpg

11-flickr.com/photos/soldon/2523236586/

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