Robert Prentice. O moderno como estilo.

Silvio Colin

Faz parte da bibliografia básica de qualquer estudante de arquitetura o livro de Anatole Kopp, Quando o moderno não era um estilo e sim uma causa, um exaustivo estudo do Movimento Moderno em arquitetura, sobretudo em suas origens, enfatizando as propostas de marcante conteúdo social. Para o autor, era o olhar social agudo que fazia do MoMo uma causa, e não um estilo. Nos anos 1920, 30 e 40, o mundo da arquitetura se dividia entre contemporâneos, arquitetos que buscavam uma linguagem atualizada para a sua atividade, e modernos, cujo envolvimento nas questões sociais ligadas à arquitetura e ao mundo de então marcava o seu trabalho. Estes últimos desdenhavam os primeiros por seu comprometimento com o mundo “burguês” e sua falta de compromisso com as transformações. A arquitetura Moderna era, sem dúvida, uma causa. Mas não apenas uma causa social. Tratava-se também de uma causa estética. A chamada “poética da máquina”, a simplificação das formas, a interdição ao ornamento, ao individualismo e à simbolização, que entre inúmeros outros postulados faziam parte do “termo de adesão” à causa arquitetônica moderna.

No Rio de Janeiro, como em outras capitais, havia, entretanto, arquitetos que tratavam o moderno como estilo. Embora esforçando-se por integrar-se à nova maneira de ver as questões da arquitetura, não logravam, segundo a contundente crítica de Paulo Santos[1], mais do que estilizações de formas modernas, sem poder disfarçar sua posição acadêmica. Faziam “moderno” como fariam outro estilo. E isto irritava muito os adeptos da “causa moderna”, que lhes colavam o rótulo de pseudomodernos.

É o caso dos Alessandro Baldasini, Alexandre Buddeus e outros, com destaque para Robert R. Prentice, arquiteto escocês de atuação marcante no Rio de Janeiro até os anos 1940, que projetou importantes edifícios como o conjunto Nilomex, Castelo e Raldia, na esplanada do Castelo, Estação Barão de Mauá da Estrada de Ferro Leopoldina, na rua Francisco Bicalho, edifício Sulacap e edifício-sede da Esso, no centro,  Edifício residencial Itaoca, em Copacabana, e dos famosos cinemas Metro, dos quais as novas gerações não ouviram falar, mas que eram grandes marcos da arquitetura art déco carioca, além de serem referência como casas de espetáculo.

A casa que apresentamos é um ótimo exemplo desta questão. Um exemplar “moderno”, que poderia ter sido projetado por um dos adeptos da “causa”. Seu proprietário era o Sr. Jacques Singery. Foi edificada em 1936, na rua Otto Simon, hoje Marechal Mascarenhas de Moraes, em Copacabana. As determinações modernistas lá estão. Formas geométricas puras e abstratas, ausência de decoração e simbolização, ousadia estrutural, representada pelo grande balanço, e mesmo uma não muito afinada citação à metáfora náutica corbusiana, representada pelo guardacorpo tipo deck de navio. Há, por certo, alguns maneirismos não adotados pelos “modernos”, como o revestimento em pedra rusticada, a cornija dominante no limite superior do edifício, as janelas “copacabana”[2]. Há ainda uma concessão explícita ao Art Déco, a porta de entrada em serralheria decorada, envolvida por uma parede com listras horizontais, bem característica deste estilo. Um pecadinho para não negar as origens.

As plantas testemunham o programa da época, mas já antecipam alguns traços futuros, como os muitos banheiros, apenas na área íntima, os avós das indefectíveis suítes atuais.


[1] SANTOS,  Paulo. Quatro séculos de arquitetura. Rio de Janeiro:IAB, 1981. P. 98.

[2] Janelas tipo guilhotina conjugadas com persianas projetantes de enrolar .

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