Ideologia da arquitetura no Rio de Janeiro entre 1930 e 1950

Silvio Colin

Se desejarmos representar o conjunto da produção arquitetônica do Rio de Janeiro referente à primeira metade do século XX teremos um painel como aquele representado na figura abaixo. Em primeiro lugar aparece o conjunto advindo do século passado e estendendo-se pelas primeiras décadas – o Ecletismo. Teremos, a seguir, o movimento Art-Nouveau, hoje quase sem representação, mas que teve sua influência no referido período. Melhor sorte estava reservada para o Neocolonial, cujos indefectíveis defensores, sobretudo Ricardo Severo e José Mariano Filho, encarregaram-se de divulgar e proteger. Deste movimento, embora importantes exemplares já tenham sido demolidos, outros, não menos importantes ficaram para testemunhar esta tendência, abrangente não apenas de nossa cidade, ou mesmo nosso país, mas do continente americano como um todo.

O conjunto que, à época, respondeu pela maior parte da produção arquitetônica no Rio de Janeiro nas áreas centrais e seu entorno imediato, é o que chamamos Pré-modernismo, ao qual poucas palavras que são dedicadas nos textos históricos, e, quando o são, carecem de objetividade, impregnadas de ironia e acusações.

No entorno de 1930, inicia-se no Rio de Janeiro e em São Paulo a saga da arquitetura moderna. Nomes como Lúcio Costa, Warchavchik, Reidy, Jorge Moreira, Milton e Marcelo Roberto, entre outros, despontam como representantes do movimento que em alguns anos traria para o Brasil o reconhecimento internacional a respeito da excelência da arquitetura aqui praticada. Estes dados são por demais conhecidos e fazem parte da historiografia oficial.

Esta diversidade de tendências se deve, em parte, a certos conflitos conceituais vividos então pelos arquitetos. Em uma visão panorâmica, podemos enumerar três principais correntes do pensamento arquitetônico no segundo quartel do século XX, no Rio de Janeiro.

Os conservadores

Em primeiro lugar temos os arquitetos conservadores, poderíamos mesmo dizer reacionários, aqueles resistentes à mudança. Estes, ainda em 1936, freqüentavam as páginas dos periódicos.

Em São Paulo persiste a inclinação para construir prédios residenciais estylizados, porém adaptados as exigências e ao gosto de nossa época. Aqui a arte de “Le Corbusier” não conseguiu vencer (…) A luta entre a corrente modernista e academista tende finalmente terminar por um compromisso, que, de certo, trará uma nova evolução à arquitetura dos povos brancos, cuja ideologia corresponderá ao estylo-clássico-romano, de accôrdo com as leis do determinismo histórico.[1]

Eram estes arquitetos de formação acadêmica, atuantes no mercado, adeptos do ecletismo, ou mesmo do neo-colonial, que não tinham sido tocados pelo pensamento revolucionário moderno.

Há-de ser difficil à arte moderna ter supremacia sobre a architectura antiga. Não será, talvez neste século. Realmente há nos diversos estylos uma belleza excepcional. É provável que seja causada devido a que com elles fomos educados e a agora não lhe queremos ser ingratos.[2]

Os mais ferrenhos conservadores não resistiriam por muito tempo às grandes mudanças estruturais que começaram a acontecer na década de 30. Perderiam gradualmente sua força e desapareceriam por completo antes do fechamento do segundo quartel.

Os pré-modernistas

Entre os extremos, entre o pensamento conservador e o revolucionário, está a solução de compromisso. Estão aí colocados os arquitetos que viam a necessidade de mudança, porém não possuíam o devido embasamento calcado seja na teoria purista de Le Corbusier ou ainda no elementarismo da Bauhaus ou no neoplasticismo do “De Stijl”. Resultaria daí uma compreensão apenas parcial do movimento, faltando-lhe a visão teleológica, responsável pela atitude profética e segurança com que os vanguardistas defendiam suas posições. Eram os

(…) menos jovens que já tendo se exercitado nos estilos históricos na vida prática não tiveram a mesma facilidade e enveredar pelo novo caminho: alguns ainda que depois viessem a tornar-se dos mais proeminentes da vanguarda, projetavam ao mesmo tempo casas modernas e normandas, missões ou de quejandas variações estilísticas.[3]

Entendiam eles, sem dúvida, as postulações modernistas, porém as colocavam dentro de seu sistema de referência, como se o modernismo fosse apenas um outro estilo.

Agora é que se está reflectindo aqui o influxo dessa arte que há um lustro vem empolgando o velho mundo. [4]

O autor deste artigo, que anos antes assinara, juntamente com o português José Cortez a mais importante realização no estilo neo-colonial, a Escola Normal, tentava agora compreender o novo estilo.

O estudo acurado da silhueta, mais do que os motivos da ornamentação, deve ser a principal preocupação do arquiteto.[5]

Um argumento que provocava reação violenta dos modernistas seria a equiparação do modernismo com outros estilos do passado, que era ingenuamente invocado.

Os leitores, como é natural, surpreendidos com o apparecimento de mais esse estylo, teriam dito de si para si: Já não basta os que existem; é necessário crear mais algum e para que? [6]

O passado, condenado ao exílio pelas vanguardas, era ainda respeitado e cultuado.

É bem verdade que este (o passado) não é para desprezar, porque a arte não pode abster-se do immenso cabedal accumulado de épocas anteriores. [7]

Sobre esta ótica, o pensamento de vanguarda aparece envolto em uma aura de mistério, de trabalho determinado, sistemático, concentrado espacialmente, que a arquitetura jamais teve, ou sequer poderia ter. Nas entrelinhas, porém, está a identificação do movimento modernista com o projeto iluminista-positivista, que não lhe era alheio, como sabemos.

Actualmente, no velho mundo, um grupo de artistas de reconhecido valor, trabalhando sob a mesma uniformidade de vistas, se esforça por chegar a um estylo digno dos tempos modernos. Não sendo possível decerrar o veo que encobre estas pesquisas, comtudo já se entrevê que suas características só podem ser determinadas pelas necessidades da vida actual e pelos innumeros factores de ordem índustrial e social.” [8]

As pesquisas nada tinham de veladas; as ilustrações deste texto mostram pavilhões da Expo Art Déco, todos eles de inspiração secessionista, expostos para quem os quisesse ver, em Paris, dois anos antes. O artigo, porém,  ilustra pontos relevantes: da ideologia pré-moderna, cuja produção é extensa e significativa, em que pese ser um tanto incompreendida, talvez por lhe faltar um substrato teórico que certamente não faltava nem aos conservadores nem aos vanguardistas. Ficariam estes arquitetos para a história como “pseudo-modernos”, como os chamaria Paulo Santos. [9] Sua obra, pseudo-arquitetura, como diria Lúcio Costa:

Deixemos, no entanto, de lado essa pseudo-arquitetura, cujo único interesse é documentar objetivamente, o incrível grau de imbecilidade a que chegamos. [10]

Esta era uma produção intermediária, uma solução de compromisso, que entendia a modernidade “como um novo estilo”, que se encerra em meados do século sem deixar descendência, e cujos exemplares tendem a desaparecer em conseqüência do “obsoletismo programado” do projeto moderno, ao qual parecia faltar inclusive motivos para tornar-se defensável pelos órgãos de preservação do patrimônio histórico, mas que é indubitavelmente um acervo cultural relevante, expressão inequívoca de um período, testemunho dinâmico da evolução do pensamento arquitetônico.

Os revolucionários

Ao contrário dos anteriores, os vanguardistas ganhariam terreno, conquistando-o entretanto palmo a palmo, em luta de muitas trincheiras. É bem verdade que a nossa historiografia arquitetônica os favoreceu, dando-lhes grande espaço[11], expondo com minúcias as suas idéias, de modo que somos levados a subestimar a sua luta. Dizia, a respeito, Marcelo Roberto, em 1937 :

A Igreja, uma vez, criou o seu grande edifício social, a sua grande arquitetura. A Ciência repetirá o fato, assim que completar a sua mística de solidariedade (…) O passado será exclusivamente, uma grande lição; não mais se prestará a manejos interesseiros (…) Os arquitetos de todos os países sentem a emoção da véspera dos grandes prélios. Eles terão que repetir o feito dos “mestres de obras” que levantaram as catedrais (…) Nada impedirá a chegada dos novos tempos. Nada impedirá a fixação da arquitetura nova.[12]

O movimento moderno ganhava as ruas mais lentamente do que ocupava os espaços acadêmicos e os periódicos, empenhados que estavam seus militantes em uma doutrinação que lhes valeria a consagração final em meados dos anos cinqüenta. Esta atuação acadêmica talvez tenha faltado aos vanguardistas de São Paulo, como bem menciona Ives Bruand. [13] Sob este aspecto cumpre destacar, paralelamente ao trabalho de Lúcio Costa, a atividade incansável de Gerson Pompeu Pinheiro, assíduo freqüentador dos periódicos e até mesmo do rádio [14], em trabalho de catequese para o novo credo. Dividira ele com Affonso Eduardo Reidy a autoria do projeto para o Albergue da Boa Vontade, em 1931, um marco inicial do Movimento Moderno, e obteria o terceiro lugar no concurso para Ministério da Educação e Saúde, cujo resu1tado, embora acatado quanto à premiação, não geraria o Edifício, como é do conhecimento de todos.

Esta atividade prática, entretanto, o qualificaria para a atividade doutrinadora em que se empenhou. O papel de destaque que lhe cabe é mais como divulgador do pensamento modernista, embora não se concentrasse na doutrina racionalista de Le Corbusier. Orientava-se também pelo organicismo de Wright, cuja vinda ao Brasil não é tão lembrada como as visitas de Corbusier, e cuja influência nos profissionais da época tende a ser menosprezada. Em artigo bem humorado, com desenhos engraçados (Gerson era também caricaturista do jornal “0 Globo”), faz uma crítica aos princípios de Le Corbusier, sobretudo a “estrutura livre”. O trabalho não deve ter sido muito bem recebido por aqueles seguidores mais incondicionais do carismático mestre.

A estrutura livre dá causa a situações verdadeiramente esdrúxulas: circulações por colunas, salas e compartimentos (órgãos vitais do edifício) prejudicados em sua totalidade espacial com o aparecimento indesejável de suportes verticais(…) Empregal-a…incondicionalmente da residência de um só andar aos edifícios de grande porte é expediente demasiado simples para ser aceito sem maior exame.[15]

O movimento moderno ganhou a academia, e lá está até os dias de hoje, e daqueles embates teóricos ficou apenas a lembrança esmaecida. Hoje, os órgãos encarregados da preservação deste patrimônio cultural tem menos caráter ideológico. Os edifícios restantes na cidade, testemunhos vivos dessas discussões, ainda podem ser admirados. Merece também a nossa admiração este período, em que se discutia com fervor idéias relativas à arquitetura.


[1] BEKER, Alfredo Ernesto. “Residência (Arte Florentina Modernizada)”. Revista de Arquitetura ENBA. Rio de Janeiro. Ano 3, nº 22. 1936. P. 16.

[2] AZEREDO, J. Cordeiro de. “A Arte Moderna e os Actuaes Acabamentos”. A Casa. Rio de Janeiro, Anno 8, nº 69. Jan. 1930. Pag. 15.

[3] SANTOS, Paulo F. Quatro Séculos de Arquitetura. Rio de Janeiro: I.A.B., 1981. P. 106.

[4] BRUHNS, Angelo. “A Escola Moderna”. A Casa. Rio de Janeiro. S. d. P. 14

[5] Idem, ibidem.

[6] “A Arte Moderna”. A Casa. Rio de Janeiro, nº39, p. 13, jul.1927. Artigo não assinado.

[7] Idem, ibidem.

[8] Idem, ibidem.

[9] SANTOS, Paulo F. Quatro Séculos de Arquitetura. Rio de Janeiro: I.A.B., 1981. P. 97.

[10] COSTA, Lúcio. “Razões da Nova Arquitetura”. Revista da Diretoria de Engenharia da PDF. Rio de Janeiro: 3-9, jan. 1936. P. 27. Republicado In: XAVIER, Alberto (Organizador). Depoimento de uma Geração. São Paulo. Abea/Pini/FVA, 1987.

[11] Os principais livros que tratam da história da arquitetura no século XX no Brasil (SANTOS, Paulo F. Quatro Séculos de Arquitetura. Rio de Janeiro: I.A.B., 1981., BRUAND, Yves. Arquitetura Contemporânea no Brasil. São Paulo. Perspectiva, 1981; LEMOS, Carlos Alberto Cerqueira. Arquitetura Brasi1eira. São Paulo. Melhoramentos, 1979) tem como objeto a evolução da arquitetura moderna, e não as tensões entre as diversas correntes.

[12] ROBERTO, Marcelo. “Está Acabando a Incompreensão”. Arquitetura e Urbanismo. Rio de Janeiro: Nov/dez 1931. Pago 323.

[13] BRUAND, Yves. Arquitetura Contemporânea no Brasil. São Paulo. Perspectiva, 1981. P. 80.

[14] Gerson Pompeu Pinheiro, em maio de 1933, fez uma série de palestras na Radio Educadora do Brasil que foram publicadas na Revista de Arquitetura, nos números 3 a 6, julho a outubro de 1934.

[15] PINHEIRO, Gerson Pompeu. “A Estrutura Livre”. Arquitetura e Urbanismo. Rio de Janeiro. Jul/ago 1937. P. 175.

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