A Morte da Arquitetura Moderna

Charles Jencks

Estraído do livro deste autor The language of post-modern architecture. (Londres: Academy, 1977). Traduçaõ, edição e notas de Silvio Colin.

Felizmente, nós podemos datar a morte da Arquitetura Moderna em um momento preciso. Ao contrário da morte legal de uma pessoa, o que vem a ser um caso complexo de ondas cerebrais contra batimentos cardíacos, a Arquitetura Moderna foi-se com um bang. O fato de muitas pessoas não terem notado, e ninguém ter sido visto a velar o corpo, e o fato de muitos arquitetos ainda tentarem ministrar-lhe o beijo da vida não significa que tenha sido milagrosamente ressuscitada. Não. A Arquitetura Moderna expirou final e completamente em 1972, após ter sido fustigada até a morte, sem piedade, durante dez anos, por críticos como Jane Jacobs [i]; e o fato de muitos dos intitulados arquitetos modernos ainda permanecerem praticando a coisa como se esta ainda estivesse viva, pode ser visto como uma das grandes curiosidades de nossa era como a Monarquia Britânica dando drogas que prolongam a vida  da Companhia Real de Arqueiros (The Royal Company Achers) ou  As Damas de Companhia da Corte Real (The Extra Women of the Bedchamber).

A Arquitetura Moderna morreu em St. Louis, Missouri, no dia 15 de Julho de 1972, às 15h e 32min aproximadamente, quando o infame conjunto Pruitt-Igoe, ou melhor vários de seus blocos receberam o coup de grâce [ii] com dinamite. Previamente havia sido vandalizado, mutilado e desfigurado pelos cidadãos negros, e mesmo tendo milhões de dólares sido aplicados tentando mantê-lo vivo (reparando os elevadores e janelas quebradas, repintando), o conjunto foi finalmente posto abaixo. Boom, boom, boom.

Sem sombra de duvida, as ruínas deviam motivar um processo de preservação imediatamente, para que possamos manter uma memória viva desta falha em planejamento e arquitetura. Como as follies [iii] ou ruínas artificiais construídas no século XVIII, extravagância inglesa para prover uma propriedade de memórias instrutivas de vaidades e glórias anteriores – nós devemos aprender a valorizar e proteger nossos desastres anteriores. Como disse Oscar Wilde, “experiência é o nome que damos a nossos erros”, e é saudável deixá-los judiciosamente espalhados em torno da paisagem, como uma lição contínua.

O Pruitt-Igoe foi construído de acordo com os ideais mais progressistas dos CIAM (Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna) e ganhou um prêmio do Instituto Americano de Arquitetos quando foi projetado em 1951. Consistia em blocos de edifícios de quatorze andares de altura, com as práticas “ruas elevadas” [iv] (as quais eram seguras contra carros, mas não seguras contra crimes, como se veria depois). “Sol, espaço e verde”, três graças essenciais do urbanismo, segundo Le Corbusier, ao invés de ruas convencionais, jardins e espaços semi-privados, que ele detestava. Havia uma separação entre tráfego de pedestres e veículos, previsão de espaço de brincar, e deleites locais como lavanderias, creches e centros de bisbilhotice – todos substitutos racionais de padrões tradicionais. Além disso, seu estilo Purista, sua limpa e salubre metáfora de hospital de subúrbio, tentava  inspirar virtudes correspondentes em seus habitantes. A boa forma levava ao bom conteúdo, ou pelo menos à boa conduta; o planejamento inteligente de espaço abstrato  promoveria um comportamento saudável.

Implosão do conjunto Pruitt-Igoe

Infelizmente, idéias tão simplistas, embasadas nas doutrinas filosóficas do Racionalismo, do Comportamentalismo e do Pragmatismo, provaram ser tão irracionais como as próprias filosofias que as geraram. A Arquitetura Moderna, filha do Iluminismo, era herdeira de suas ingenuidade congênitas, ingenuidades tão boas e respeitosas que não podem ser contestadas em um livro sobre edifícios. Eu me concentrarei aqui, nesta primeira parte, na morte de um tronco muito pequeno de uma grande árvore má; mas para sermos justos devemos ressaltar que a Arquitetura Moderna é um ramo da Pintura Moderna, do Movimento Moderno em todas as artes. Como a educação racional, saúde racional e desenho racional de calças femininas, este tem erros de uma época que tentava se reinventar totalmente todos os dias em bases racionais. Estas falhas são bem conhecidas agora, graças aos escritos de Ivan Illich, Jacques Ellul, E. F. Schumacher, Michael Oakshott e Hannah Arendt, e especialmente às concepções erradas do Racionalismo que não serão enfatizadas. Estes são pressupostos para meus objetivos. Ao invés de ataque profundo e extenso à Arquitetura Moderna, mostrando como suas fraquezas se relacionam bem de perto com as filosofias predominantes da Idade Moderna, eu experimentarei uma caricatura, uma polêmica. A virtude deste estilo (assim como seu vício) é que ele permite analisar grandes generalidades com uma certa descontração e humor, passando por cima de exceções e sutilezas. A caricatura não é realmente toda a verdade. Os desenhos de Daumier não mostram realmente como era a pobreza do século XIX, mas pelo contrário mostrava uma vista seletiva de algumas verdades. Deixe-nos então brincar de forma descompromissada com a devastação da Arquitetura Moderna, e com a destruição de novas cidades, como um turista marciano numa excursão terrestre, visitando os sítios arquitetônicos com um desinteresse superior, confundido com os erros tristes mas instrutivos  de uma civilização arquitetônica anterior. Afinal, uma vez que está morta, nós podemos bisbilhotar o seu cadáver, sem incômodo algum.

Veja os videos sobre Pruitt-Igoe e sua implosão nos links abaixo:

http://www.youtube.com/watch?v=jYrMUcT1jP4

http://www.youtube.com/watch?v=cd7VOz_Wstg


NOTAS

[i] Jane Jacobs, crítica americana,  teve grande importância na cultura arquitetônica atual sobretudo por seu livro Morte e vida das grandes cidades americanas (1961), um manifesto contra os CIAM, sua “Cidade Funcional”, e as práticas racionalistas e alienantes do Movimento Moderno. NR

[ii] Golpe de misericórdia. NR

[iii] As follies (literalmente loucuras) eram ruínas de edifícios antigos naturais ou réplicas construídas num jardim de propriedades rurais na Inglaterra do século XVIII. NR.

[iv] As ruas elevadas eram uma idéia inicialmente defendida por Le Corbusier e pelos Novos Brutalistas ingleses e conquistou muitos adeptos entre os arquitetos nos anos 1950 e 60. NR.

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