Arquitetura Expressionista

Silvio Colin

As excitações íntimas de nosso tempo, o impulso em direção a novos pontos de partida em todos os campos de nossa vida cotidiana compelem o artista a se apresentar em sua obra e a representar a sua própria vontade. Quando as formas se rompem, são substituídas por formas novas, que sempre existiram, mas apenas agora surgem em primeiro plano.

Erich Mendelsohn (1919)

Chamamos de expressionismo, de uma maneira geral, a qualquer manifestação artística em que os elementos são exagerados ou distorcidos a fim de se obter um resultado expressivo. Dizemos, por exemplo, que a arquitetura High-tech se utiliza de um expressionismo tecnicista, ou que Antonio Gaudi produziu uma arquitetura que manifesta um simbolismo expressionista. De maneira restrita, referimo-nos à tendência de alguns movimentos artísticos (artes plásticas, cinema, literatura, arquitetura), acontecida principalmente na Alemanha e Holanda, entre 1905 e 1930) caracterizada por uma visão emocional e subjetiva do mundo, geralmente angustiada, revoltada ou trágica. Manifesta-se pela distorção dos elementos, pelas cores fortes, pelo uso de formas zoomórficas.

Fig. 1 – Menina em um sofá azul. Ernst L. Kirchner. 1907. Grupo Die Brücke.

Suas primeiras manifestações foram, possivelmente na pintura, com o grupo Die Brücke (A ponte) em 1905. Dos pintores Ernst Kirchner, Karl Rottluff, Emil Nolde, Oskar Kokoschka. Segui-se um outro grupo, Der Blaue Reiter (O cavaleiro azul), dos pintores Franz Mark, Wassily Kandinsky, Paul Klee e Lyonel Feininger. Outros movimentos como o Expressionismo Flamengo (Wouters, Permeke, Tytgat) e a chamada Escola Expressionista de Paris ( Sutin, Modigliani, Chagall) e a chamada Pintura Ingênua (Rousseau, Bauchant, Bombois) podem ser considerados extensões do expressionismo. A Bauhaus, desde a época de sua fundação (1919) até a mudança para Dessau (1925) contava em seus quadros com artistas ligados ao Expressionismo (Kandinsky, Klee, Feininger, e o próprio Gropius, nos primeiros trabalhos).

Fig. 2 – O cavalo azul.  Franz Marc.  1911. Grupo Der blaue reiter.

Na arquitetura o Expressionismo não se constituiu em um movimento arquitetônico, propriamente, na medida em que não se formaram grupos culturais ou se propiciaram atividades comuns.  Foram os arquitetos apenas incentivados pela contigüidade com movimentos de outras artes e pela inexistência de tipos arquitetônicos preestabelecidos para os novos programas, o que indicava o caminho da experimentação. A cultura alemã das primeiras décadas é extremamente crítica da sociedade, seguindo o viés socialista, o que virá a ser uma característica marcante, vendo a arquitetura como uma ferramenta para a melhora da vida social. Nos anos trinta, o radicalismo do partido nazi vai tornar aguda a crise que precipitaria o fim da tendência.

Um importante conjunto de manifestações expressionistas na arquitetura é conhecido como a Cadeia de Cristal, série de cartas trocadas entre os simpatizantes do Expressionismo, Bruno e Max Taut, Gropius, Luckhardt e Scharoun, que serviram para consolidar esta posição. Referia a uma tendência de seus simpatizantes de  explorar as características expressivas do vidro, um material que ganhava força na época,  e inspirou a visão do poeta Paul Scheerbart, pregando a elevação cultural pela sua utilização, criando aforismos como “A luz quer cristal“, “O vidro aponta uma nova era“, “Não lamentemos a cultura do tijolo“. Nesta onda embarcaram Bruno Taut, com seu Pavilhão de Cristal, e o próprio Mies, com seus projetos para edifícios de escritórios para a Friedrichstrasse, em Berlim, em 1921.

Ligados ao expressionismo, temos alguns grupos de grande relevância cultural: o Arbeitsrat für Kunst (Grupo de Trabalho pela Arte) –  criado 1818, que almejava um atividade política através da arte, o Novembergruppe (Grupo de Novembro) ­­referente a novembro de 1918, com os mesmos membros do Arbeitsrat für Kunst, porém sem nenhuma aspiração de poder político e o periódico Wendingen, revista de arquitetura publicada na Holanda de 1918 a 1936, que se tornou órgão divulgador do movimento neste país, conhecido como Escola de Amsterdã.

O expressionismo se caracteriza pela subjetividade,  experimentação formal e uso do figurativismo e da simbolização, sobretudo relacionado com a natureza, como o zoomorfismo (edifício com forma de animais) e o antropomorfismo (edifício com formas humanas). Primava ainda  pela efusão lírica, pela dissolução das normas clássicas de composição, pela exploração da plasticidade do concreto. Temos ainda a distorção, o anamorfismo e a monumentalidade (sobretudo em alguns edifícios alemães). Seus arquitetos tinham como orientação o culto da personalidade e o desenho expontâneo, de traços rápidos e fortes, com muito contraste.

Edifícios canônicos do ExpressionismoFig. 3 – Torre Bismark. Dresde, 1902. Wilhelm KreisFig. 4 – Grande Sala de Concertos (Jahrhunderthalle). Breslau, 1913. Hans Poelzig

Fig. 5 – Pavilhão de Vidro. Expo  Werkbund em Colônia. 1914. Bruno Taut.Fig. 6 – Torre Einstein. Potsdam, 1917-21. Erich MedelsohnFig. 7 – Fábrica de Gás. Francfurt, 1911-12. Peter Behrens

Fig. 8 – Casa da Navegação (Scheepvaarthuis). Amsterdã, 1912-16. Van der Mey, P. Kramer, M. de Klerk.
Fig. 9 – Conjunto habitacional Het Scheep. Amsterdã, 1917-21. Michel de Klerk.

Fig. 10 – Chilehaus. Hamburgo, 1923. Fritz Höger


Fig. 11 – Goetheannun. Dornach, 1924-28. Rudolf Steiner.

Eventos políticos marcantes

Jul 1914 Início da 1ª Guerra Mundial entre a Alemanha, Áustria-Hungria, tendo como aliada a Turquia e a Tríplice Entente (França, Grã-Bretanha e Russia) aliadas à Bulgária, Sérvia, Bélgica, Japão, Itália, Estados Unidos, Grécia e China.
9 Nov 1918 Face a derrota da Alemanha, o Kaiser Guilherme II abdica e é proclamada a república, conhecida como República de Weimar. Fim do Segundo Reich.
Jan 1919 Derrota da Liga de Espártaco, movimento socialista alemão, na tentativa de sublevar Berlim. O levante foi violentamente reprimido pelos social-democratas. Os líderes Karl Liebknetch e Rosa Luxemburgo foram assassinados.
2 Jun 1919 Assinado o Tratado de Versalhes que determina a perda pela Alemanha da Alsácia, a Lorena, a Posnânia, e todas as colônias.
1932 As duras condições do Tratado de Versalhes e a crise mundial de 1929 determinam uma desorganização financeira crescente e registra-se o desemprego de 6 milhões de trabalhadores.
30 Jan 1933 Adolf Hitler é empossado chanceler e chefe de Estado (Reichführer) com plenos poderes. Estabelece-se um regime autoritário e autárquico do Terceiro Reich.


Bibliografia

LAMPUGNANI, V. M. Enciclopedia G. G. de la arquitectura del siglo XX. Barcelona: Gustavo Gili, 1988.

FRAMPTON, Kenneth. História crítica da arquitetura moderna. São Paulo: Perspectiva, 1996.

PEHNT, Wolfgang. La arquitectura expressionista. Barcelona: Gustavo Gili, 1975.

BANHAM, Reyner. Teoria e projeto na primeira era da máquina. São Paulo: Perspectiva, 1979.

Crédito das Ilustrações

1 http://www.artexpertswebsite.com/pages/artists/kirchner.php

2 –http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Franz_Marc_003.jpg

3 – PEHNT, Wolfgang. La arquitectura expresionista. Barcelona, Gustavo Gili, 1975. P. 63.

4- http://www.arbeitsvermittlung-bensch.de/img/fotos/16-Jahrhunderthalle-in-Breslau_m.jpg

5-http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/ed/Taut_Glass_Pavilion

6-http://www.britannica.com/EBchecked/topic-art/181406/114420/Einstein-Tower. Foto Doris Antony

7-GÖSSEL, Peter, LEUTHÄUSER, Gabriele. Arquitetura no Século XX. Taschen. Colônia, 2001. P.94

8-GÖSSEL, Peter, LEUTHÄUSER, Gabriele. Arquitetura no Século XX. Taschen. Colônia, 2001. P.120

9-GÖSSEL, Peter, LEUTHÄUSER, Gabriele. Arquitetura no Século XX. Taschen. Colônia, 2001. P.125

10-http://en.wikipedia.org/wiki/File:Chilehaus_Point.jpg

11-http://blog.eduify.com/wp-content/uploads/2009/10/Goetheanum.jpg

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Uma resposta para “Arquitetura Expressionista

  1. Rodrigo Dinelli

    Mestre,

    Parabéns pelo blog!

    É com grande orgulho que carrego comigo um vasto conhecimento da História da Arquitetura proveniente das sua aulas.

    Orgulho-me ainda mais de saber que jamais deixará essa História se apagar, divulgando detalhes tão importantes e, muitas vezes, desconhecidos por muitos. Que viva para sempre a História da Arquitetura contada por você!

    Parabéns!

    Rodrigo Dinelli

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