Regionalismo Crítico

Silvio Colin

Texto em parte traduzido livremente de http://en.wikipedia.org/wiki/Critical_regionalism

Regionalismo Crítico foi um termo usado primeiramente por Alexander Tzonis e Liane Lefaivre para designar uma arquitetura que tenta se opor ao deslocamento e falta de significado na Arquitetura Moderna, usando forças contextuais para devolver-lhe um senso de lugar e significado. O termo  foi apropriado por Kenneth Frampton, em seu artigo “Por um regionalismo crítico: seis pontos para uma arquitetura de resistência”[1]

Fig. 1 – Igreja de Bagsvaerd. 1973-6.  Jørn Utzon. Imagens http://www.flickr.com/photos/james_woodward

Frampton evoca a pergunta de Paul Ricoeur de “Como tornar-se moderno e voltar às raízes; como reavivar uma velha, adormecida civilização e ser parte da civilização universal?“. De acordo com Frampton, o Regionalismo Crítico deveria adotar arquitetura moderna criticamente, por suas qualidades progressivas universais, mas ao mesmo tempo deveria avaliar melhor sua inserção no contexto. Apropriando-se de argumentos fenomenológicos, sugere que a ênfase deveria estar na topografia, no clima, na luz, na forma tectônica, e calcada em um estudo das tradições e história locais, em lugar da cenografia,  e do senso tátil em lugar do senso  visual.Frampton discute brevemente dois exemplos dos arquitetos Jørn Utzon e Alvar Aalto. A Igreja de Bagsvaerd de Utzon (1973-76), perto de Copenhague, na visão de Frampton, é uma síntese consciente entre civilização universal e cultura mundial. Isto é revelado pelo  uso do concreto, em parte pré-fabricado, racional, modular, neutro e econômico, no exterior (i.e. civilização universal) contra as especialmente-projetadas e pouco econômicas conchas  interiores, significando, com sua manipulação de espaço sagrado, referências culturais múltiplas, uma vez que Frampton não vê nenhum precedente destas formas na cultura ocidental, mas no telhado do pagode chinês (i.e. cultura mundial).

Fig. 2 – Prefeitura de Säynätsalo. 1952. Alvar Aalto. Imagem wikipedia/commons/

No caso de Aalto, Frampton aponta o edifício da Prefeitura de Säynätsalo (1952) no qual, ele vê uma resistência à dominação da tecnologia universal, como também para uma exploração das qualidades táteis dos materiais do edifício; por exemplo, como a diferença entre o chão de tijolos do exterior e o piso da  Câmara de Conselho em madeira.

Como colocado por Tzonis e Lefaivre, o regionalismo crítico não necessita tirar elementos diretamente do contexto em que forem colocados, mas podem ser tirados  de outros contextos  e usados em lugares estranhos,  não familiares. Aqui o objetivo  está em alertar sobre um rompimento e uma perda de lugar que já é um fato, para uma reflexão futura e auto-avaliação.

O Regionalismo crítico é diferente do regionalismo puro e simples, o qual tenta alcançar uma correspondência um-a-um dos elementos da arquitetura vernácula, de um modo consciente, mas  sem participar conscientemente do universal. Alvar Aalto, Jørn Utzon, Mario Botta, Charles Correa, Álvaro Siza, Rafael Moneo, Tadao Ando são arquitetos conhecidos que, de alguma forma, ou em algum momento se utilizaram do conceito em seus edifícios.

Podemos ver também o Regionalismo Crítico, de uma maneira mais ampla, não autorizada pelos criadores do termo, como uma manipulação consciente de elementos vernáculos locais, com técnicas projetuais modernas, e na criação de espaços, volumes, elementos murais e estruturais acordes com as práticas internacionais atuais.

Fig. 3 – Sea Ranch Condomínium. Califórnia, 1964-5. Charles W. Moore e William Turnbull. Imagem http://www.greatbuildings.com

Neste caso podemos citar, como primeiro  exemplo,  Charles W. Moore e o seu Sea Ranch Condominium, projetado em associação com William Turnbull, Donlyn Lyndon e Richard Whitaker. Contra princípios de universalidade e uniformidade que foram encarnadas no movimento Modernista, o desenho de SeaRanch foi orientado por seu contexto circunvizinho,  sendo sensível às particularidades naturais e históricas de um lugar. Tzonis e Lefaivre o chamaria de simples Regionalismo. A inserção entretanto de uma variedade formal resultante de métodos modernos de projetação o afastam da proposta simplesmente regionalista. Trata-se certamente de uma crítica bem mais sutil, porém a complexidade formal revela claramente a inocência perdida.

Fig. 4 – Casa em Katonah, Nova Iorque. 1975. Robert Venturi. Imagens VSBA.com

Este mesmo caminho do Regionalismo Crítico foi insistentemente percorrido por Robert Venturi. No exemplo escolhido deste arquiteto, uma casa em Katonah, Nova Yorque, de 1975, vemos externamente uma pequena, simples e tradicional cabana, um tributo às casas de madeira americanas (Shingle Style). Internamente, entretanto é ampla e atual.  As distorções de escala, do exagerado beiral e do grande lanternim, provam a intenção expressionista do arquiteto.Fig. 5 – Casas de Thiago de Mello. Barreirinha, AM. 1984, 1978. Lúcio Costa

Bem próximo de nós, podemos tomar como exemplo as casa projetadas por Lúcio Costa para o poeta Thiago de Mello. Estruturalmente, a técnica construtiva é o tradicional enxaimel, muito utilizado no período colonial, que consiste em um esqueleto de madeira, preenchido com pau-a-pique, ou alvenaria de adobe ou  tijolos. A espacialidade interna, entretanto, em nada lembra os espaços bem definidos e fechados das casas setecentistas e oitocentistas. A sua matriz é o espaço fluido moderno.  Veja-se a comparação com o espaço corbusiano.

Fig. 6 – Dir. Casa de Thiago de Mello. Esq. Villa Shoddan. Ahmedabad, Índia, 1956. Le Corbusier.


[1] Kenneth Frampton, “Towards a Critical Regionalism: Six Points for an Architecture of Resistance”, in FOSTER, Hal. (Ed.) The Anti-aesthetic : essays on postmodern culture. Washimgton: Bay Press, 1983

Crédito das imagens

1-http://www.flickr.com/photos/james_woodward/3069160970/in/photostream/

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4 Respostas para “Regionalismo Crítico

  1. Pedro Oliveira

    Desculpe-me se estiver falando besteira.
    É que cada texto que leio no seu blog, me mostra como seu leigo… rs
    Mas este texto me remete ao Zanini, tão “apedrejado” em nossa escola (FAU-UFRJ), que fazia arquitetura com base nas culturas locais (regionais).
    Outro que também me lembrei ao ler seu texto foi Marcos Acayaba, com sua arquitetura projetada, tão bem integrada com a “arquitetura natural” e “cultural” de cada lugar. A maneira como ele domina e ao mesmo tempo se deixa dominar pela topografia, criando espaços agradáveis para quem vê e para quem vive. Vale a pena dar uma olhada.

    • Oi Pedro
      O Zanine foi muito criticado, perseguido pelo CREA, inclusive por não ser arquiteto, e também por recusar-se a sê-lo, em uma atitude muito arrogante, que era alimentada pelo Lúcio Costa e pelo Oscar Niemeyer. Quanto à sua arquitetura em relação ao Regionalismo Crítico, ela se parece muito com o trabalho do LC mostrado no artigo. Penso apenas que o Regionalismo Crítico é uma atitude que exige consciência crítica, estudo do local etc etc, e o Zanine fazia mais um maneirismo, que era o mesmo na Joatinga, em São Paulo ou em Brasília. Quanto ao Marcos Acayaba, confesso que não conheço bem.

  2. Boa Tarde Pedro Oliveira,

    sou estudante de arquitetura, e estou realizando um trabalho sobre o Regionalismo Crítico. O livro principal indicado pela professora é: Uma nova agenda para Arquitetura da Kate Nesbitt, nele há 2 capítulos sobre Regionalismo escritos pelo Frampton.
    Estou com algumas dúvidas para entender ao certo o que é Regionalismo Crítico? Pois li várias explicações, mas não consegui achar uma definição ao certo, entre outras dúvidas.
    Peço a gentileza de me ajudar, serei muito grata, pois gostei muito do assunto, e quero apresentar um trabalho perfeito.
    Obrigada
    Talita

    • Oi Talita
      Pedro Oliveira é um leitor deste Blog, ex-aluno e amigo. O texto fundamental sobre Regionalismo Critico é “The grid and the pathway” de Tzonis e Lafaivre, que inclusive cunhou a expressão. Estes autores têm uma extensa obra sobre o tema. Sugiro que visite o site oficial de Alexander Tzonis , no qual você pode encontrar a bibliografia completa deste autor e inclusive uma página sobre Regionalismo Crítico. Indico também o livro “Critical Regionalism” de 1991, editado por S. Amourgis, que contém um ensaio com este mesmo nome de Tzonis e Lefraivre. Os ensaios que você leu do Frampton são também fundamentais sobre o assunto.
      Espero ter ajudado
      Silvio Colin

      http://tzonis.com/

      “Critical Regionalism”, , edited by , Pomona: California state Polytechnic University, pp. 3–23, 1991 , co-author L. Lefaivre

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