Racionalismo e arquitetura

Silvio Colin

Publicado em 04/2006 em http://www.vivercidades.org.br em

O termo racionalismo tem sido usado na Arquitetura, não como um determinante de sua filiação filosófica, mas como critério de valor, isto é, uma arquitetura tem valor quando é ‘racional’ e, quando não o é, não tem valor. Esta atitude esconde uma impropriedade que se torna cada vez mais embaraçosa nos dias de hoje, quando vemos crescer no âmbito da grande Arquitetura muitas representações não racionalistas  e, não obstante, de grande valor.

Fig. 1 – Cidade de Três Milhões de Habitantes. 1922. Le Corbusier. O ponto alto do racionalismo arquitetônico moderno. Imagem: http://www.athenaeum.ch

Falemos da filiação filosófica. O Racionalismo aparece na Filosofia moderna com a obra original de René Descartes (1596-1650) e teve, entre seus maiores seguidores, Baruch Spinosa (1632-1677) e G. W. Leibniz (1646-1716). A obra de Descartes é considerada fundamental para a criação do mundo moderno na medida em que se trata de uma ruptura com a idéia de ‘verdade’ como revelação divina, indiscutível no mundo ocidental durante a Idade Média. Para o racionalista, toda ‘verdade’ provém da ‘razão’; este é o seu lema principal. Mesmo na época de sua criação o Racionalismo encontrou opositores nos empiristas; estes adotavam o princípio de que toda ‘verdade’ provém da ‘experiência’. Imediatamente estabeleceu-se uma oposição que consumiu o debate filosófico por mais de um século, e ainda hoje tem muita pertinência.

Poderíamos estender essa oposição registrando características importantes das duas orientações filosóficas: o Racionalismo tem uma natureza dedutiva, isto é, parte do geral para o particular enquanto que o Empirismo tem um caráter indutivo, do particular para o geral.

De certa maneira, o Racionalismo sempre foi a orientação predominante na Arquitetura ocidental mas, a partir do Movimento Moderno – 1920 em diante –, e sobretudo nos escritos teóricos, buscou um lugar absoluto e intolerante. É certo que a maioria dos grandes mestres – Gropius, Le Corbusier, Mies – eram racionalistas militantes e todos os movimentos e escolas de vanguarda – Purismo, Neoplasticismo, Bauhaus, Construtivismo soviético – preferiam as certezas da ‘razão’ à indeterminação da ‘experiência’. Para falar de Frank Lloyd Wright e Alvar Aalto temos que ser mais cuidadosos com relação à prática racionalista, pois esta era muitas vezes entremeada com processos indutivos que caracterizam a arquitetura orgânica.

Fig. 2 – Villa Savoye. Poissy, França. 1929. Le Corbusier. Racionalismo formalista. Imagem: http://www.etsav.upc.es

O racionalismo daqueles mestres, entretanto, precisa ser melhor qualificado. Tomemos, por exemplo, a obra de Le Corbusier e, para representá-la, dois dos melhores exemplos: a Vila Savoye e a Cidade de Três Milhões de Habitantes. Trata-se, sem dúvida de uma atitude racionalista, porém esta não esgota suas pretensões: temos aí um Racionalismo formalista, pois a forma final é o objetivo do arquiteto. Não uma forma, como mais tarde seria a de Ronchamp, espontânea e natural, como que nascida da terra. Mas uma forma advinda da mente, da razão, submetida à grande feitora do Racionalismo – a Matemática. Lembremos que Descartes foi também o criador da Geometria Analítica e de seu indefectível sistema de eixos ortogonais. Nos exemplos citados, como na maior parte do trabalho vanguardista de Corbusier, impera a forma geométrica pura e os eixos ortogonais, os maiores instrumentos para a consecução da arquitetura racionalista.

As coisas se passam diferentemente com Mies van der Rohe. O mestre renano teria dito, certa vez, que se recusava a “reconhecer problemas de forma; reconhecemos somente problemas de construção. A forma não é o objetivo de nosso trabalho, somente o resultado“. De fato, o racionalismo de Mies é diferente do de Le Corbusier. Aquele criou uma escola, que teria inumeráveis seguidores nos momentos do Alto Modernismo. Poderíamos talvez dizer que sua orientação superaria a orientação corbusiana no mundo ocidental, no entorno dos anos 1950. Mas se trata de um racionalismo construtivista, pois são a construção e a racionalidade estrutural, não a forma volumétrica, os orientadores principais. Temos ainda, certamente, a ‘razão’ como fonte da verdade arquitetônica, mas a ela se somam outros orientadores, como a ‘estrutura’. Isto será uma constante na obra de Mies.Fig. 3 – Crown Hall. IIT. Chicago, 1950-56. O racionalismo construtivista de Mies van der Rohe. Imagem rwww.brynmawr.edu

Um outro tipo de Racionalismo, sem o traço de nobreza dos anteriores, mas que é o mais popular nas escolas de Arquitetura, é o racionalismo funcionalista. Com o famoso aforismo “a forma segue a função” em mente, os professores e alunos dos cursos de Arquitetura ainda fazem deste, em tempos de Deconstrução, a sua orientação predileta. Muitas vezes, as discussões sobre um projeto, nas faculdades, se encerram na análise dos dados funcionais, sem que questões de ‘forma’ ou de ‘estrutura’ sejam cogitados. Talvez não possa ser diferente, visto que a sociedade em que vivemos é, ela mesma, extremamente pragmática: o uso, mais do que a forma ou construção, é o que realmente importa.

Em suma, no que se refere ao Racionalismo, temos na Arquitetura três atitudes diferentes: o racionalismo formalista, o racionalismo construtivista e o racionalismo funcionalista.

A grande popularidade da utilização do pensamento racionalista na Arquitetura, e sobretudo a sua reprodução interminável e indefectível nas faculdades, pode também ser explicada pelo fato de a atitude racionalista ser mais fácil de ensinar e adotar; parece prescindir de qualquer outro dado anterior a ela. Se a ‘razão’ é a fonte da ‘verdade’, eu não preciso, para fazer algo ‘verdadeiro’, de nada mais do que a própria ‘razão’. Não preciso conhecer a História, por exemplo. Isto é embaraçoso, pois muitas vezes esquecemos de colocar o próprio Racionalismo em sua perspectiva histórica, na fantasia modernista do ‘fim da História’.Fig. 4 – Mileto. Traçado de Hipodamo. 479 a.C. Imagem http://patmol.blogspot.es

O Racionalismo na Arquitetura  antecede em muitos séculos a Descartes. Na base ancestral da Cidade de Três Milhões de Habitantes, de Le Corbusier, estão os traçados ortogonais greco-romanos, como os de Hipodamo de Mileto, isto é, aquele desejo de ocupar uma extensa área com uma malha ortogonal ordenadora e disciplinadora. Em suma, a Arquitetura era ‘racionalista’ antes da Filosofia o ser.

As estruturas de Mies são inspiradas nos traçados clássicos. Este arquiteto era, como sabemos, um grande admirador da arquitetura do Neoclassicismo, e muito já se escreveu sobre o crédito que suas obras assumiram com os edifícios de Karl Friedrich Schinkel.

O Racionalismo, entretanto, tem seus problemas. Descartes dividia a ‘Natureza’ em dois domínios separados: a mente, o pensamento, que ele chamava de res cogitans – ‘coisa pensante’ – e a matéria, o que se pode medir e conhecer, a res extensa – ‘coisa extensa’. Observe-se que o próprio corpo humano é exterior à mente, é uma res extensa. Este violento corte foi base de uma atitude com relação à Ciência, que não considerava o ser humano integralmente. Nietzsche foi o maior crítico do famoso ‘sujeito cartesiano’, que não é um ser humano total, mas apenas a sua mente.

Neste rastro, fundou-se uma nova atitude de crítica ao Racionalismo, que no final das contas não considera a experiência humana de uma maneira completa, que resultou em inúmeros rebatimentos na Arquitetura. O Expressionismo na Arquitetura, contemporâneo das vanguardas racionalistas, era uma alternativa que ía buscar uma outra oposição para inspirar suas obras, a ‘razão’ contra a ‘emoção’. O arquiteto e o artista expressionistas deixam a emoção falar, e mesmo o seu corpo, a natureza. Vejam-se, por exemplo, as obras zoomórficas – com a forma de animais –, como o Goetheannum, de Rudolf Steiner; ou falomórficas – com a forma de falo – como a Torre Einstein, de Erich Mendelsohn.Fig 5 – Goetheannum. Dornach, Suiça. 1923. R. Steiner. Exemplo de zoomorfismo. Torre Einstein. Torre Einstein. Potsdam, 1917-21. E. Mendelsohn. Exemplo de edifício falomórfico. Imagens http://starswebworx.lc-stars.com e http://www.britannica.com

Mais recentemente, muitas coisas que parecem ‘irracionais’ na produção arquitetônica das últimas décadas são uma reação deliberada ao asfixiante domínio do Racionalismo, da necessidade de tudo explicar pela ‘razão’, sem deixar espaço para a atitude espontânea. Na Arquitetura, como na vida, algumas coisas não se podem explicar. Diga-se de passagem que a reação ao Racionalismo já existe também no próprio ambiente modernista tardio, em obras de Le Corbusier, de Oscar Niemeyer, e no zoomorfismo de Eero Saarinen, entre outros.Fig. 6 – Terminal da TWA. Aeroporto JFK, Nova Iorque, 1956-62. Eero Saarinen. Exemplo de zoomorfismo. Imagem http://www.media.dwell.com

Finalmente, a chamada arquitetura deconstrutivista, que tem por fundamento a crítica de Nietzsche à cultura ocidental greco-romana, entre outras coisas, busca questionar a rígida estrutura do logocentrismo, que privilegia sempre, na prática, a ‘razão’. Não se trata de fazer propositalmente e injustificadamente um edifício irracional, mas de libertar a arquitetura das cadeias paralisantes de um racionalismo exorbitante.

O arquiteto não pode prescindir da ‘razão’. Esta é um de seus instrumentos de trabalho. Mas podemos deixar um espaço para nossas emoções, e para as emoções dos usuários de nossa arquitetura, que sempre serão sensíveis ao inesperado, à surpresa, às coisas enfim que habitam uma instância muito mais profunda do nosso ser do que a mente consciente. Ser racional, ser razoável não implica em ser absolutamente ‘racionalista’.

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Uma resposta para “Racionalismo e arquitetura

  1. André Borges

    Obrigado pela boa leitura!

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