Categorias da forma arquitetônica

Silvio Colin

Do livro “Uma introdução à arquitetura” (Rio de Janeiro: Uapê, 2000) de minha autoria (revisto, ampliado e editado).


 

 

Ao observarmos o vasto conjunto de edifícios que se constitui o domínio da arquitetura, com vistas a entender o fenômeno complexo da forma arquitetônica, seja esta visão histórica, vertical, ou horizontal, abrangendo a produção atual, observaremos que estes edifícios, além das diferenças acidentais que ostentam entre si, apresentam diferenças muito mais profundas, relacionadas com as estruturas elementares de conceitos sob os quais estes edifícios foram concebidos. A estas estruturas chamamos de categorias da forma arquitetônica. Apresentamos a seguir uma sistematização das principais categorias, baseada nos modos fundamentais ou princípios de relação com fontes externas ou internas de onde o arquiteto extrai a idéia inicial para a configuração do edifício ou conjunto.

Forma tipológica

A forma tipológica é derivada dos tipos arquitetônicos. É a mais freqüente, tanto na arquitetura histórica quanto na contemporânea. Vejamos o que vem a ser. Qualquer pessoa já terá observado o quanto os espaços das igrejas tradicionais se parecem: temos uma nave central, mais alta, e duas laterais, mais baixas; o altar situa-se no cruzamento destas naves com uma outra, o transepto. Trata-se de um tipo arquitetônico, chamado de basílica cristã, desenvolvido na Idade Média, na Europa, a partir da basílica pagã, edifício comercial e institucional dos romanos.

Um outro exemplo de tipo  arquitetônico, bastante nosso conhecido, o edifício residencial multifamiliar, constitui-se no mais comum em nossas cidades. Seus elementos componentes, tanto coletivos (portaria, elevadores, circulações) quanto privativos (salas, quartos, etc.) guardam sempre a mesma relação posicional, o que caracteriza um tipo arquitetônico.

Através da História, é grande a coleção de tipos a cujas formas o arquiteto recorre: o templo peristilo (o mais comum entre os gregos), a casa de pátio porticado (a casa romana), o “palazzo” renascentista, o palácio pavilhonado aristocrático, o “hotel” burguês, entre outros.

igrejas

Fig. 1 – As igrejas do Período do Ouro no Brasil formam um dos tipos mais recorrentes da arquitetura barroca no Brasil. 1- Bom Jesus dos Matosinhos (Imagem http://viajeaqui.abril.com.br); 2- Santa Efigênia (Imagem http://www.travel-earth.com); 3- N. S da Conceição de Antonio (Imagem dramabarrocomineiro.files.wordpress.com). Plantas SANTOS, P. A arquitetura eeligiosa em Ouro Preto. Kosmos 1951.

Forma geométrica

É a forma preferida da arquitetura moderna. A escolha dos arquitetos geralmente recai sobre formas simples: prismas, cilindros, paralelepípedos, usados isoladamente ou compondo conjuntos. Eventualmente, recorre-se a formas geométricas menos usuais: a Catedral de Brasília tem a estrutura formal de um hiperbolóide de revolução.

Fig. 2  – Catedral de Brasília. Imagem http://architetour.files.wordpress.com

Forma livre

É também muito usada na arquitetura moderna. A forma abstrata, visto não ter nenhum referente imediato, isto é, não se parecer com formas usadas anteriormente ou com figuras geométricas familiares, atendeu à perfeição aos requisitos modernistas de inovação, originalidade e funcionalidade. Quanto à inovação, a busca de formas não conhecidas era uma exigência para a criação de um novo código desvinculado do passado; no que se refere à originalidade, o atendimento ao mito romântico da forma original era visto como oposição ao passado recente, de obediência clássica, e portanto normativa; quanto à funcionalidade, se a forma deveria “seguir a função”, não poderia ser um “a priori”, como é o caso da forma tipológica, mas uma conseqüência final do estudo do problema.

Fig. 3 – Casa das Canoas. Rio de Janeiro, 1851-3. Arq. O. Niemeyer. Imagens (Dir) http://www.neurosoftware.ro/ (Esq.) Arte-concepcao.blogspot.com

Forma topológica

A forma topológica é inspirada pelo sítio (“topos”, em grego, quer dizer “sítio”, “local”), isto é, extrai uma ou mais das características do local onde o edifício será implantado.Um exemplo conhecido de forma topológica é o Conjunto Habitacional do Pedregulho, no Rio de Janeiro, onde a linha tortuosa, geratriz do volume do edifício é uma curva do próprio terreno. Outro exemplo está nas cidades coloniais do sul de Minas, como Ouro Preto, cujo movimento dos telhados, que nos encata, é conseqüência do relevo do local.

Fig.  4 – Conjunto Prefeito Mendes de Moraes (Pedregulho). Benfica, Rio de Janeiro. 1946-52. Arq. Affonso Eduardo Reidy. Imagem http://blogs.estadao.com.br/

Forma analógica

Analogia é a relação de semelhança entre dois objetos; é um dos mais poderosos meios de criação de que dispomos. A forma arquitetônica analógica é inspirada por um objeto externo ao universo da arquitetura. Veja-se o exemplo das ordens gregas: os capitéis dórico e jônico são de inspiração geométrica; já o capital coríntio é uma forma analógica (representa um cesto ornado de folhas de acanto). Outro exemplo nos é dado pelo Terminal de Passageiros da TWA, inspirado na forma de uma águia,uma metáfora alusiva não somente ao vôo de longo alcance, como também ao país, de vez que a águia é simbolo dos Estados Unidos.

Fig.  5 – Terminal  da TWA no aeroporto J. F. Kennedy, em Nova Iorque. 1962. Arq. Eero Saarinen. Imagem http://www.galinsky.com/buildings/twa/

Forma tectônica

A forma tectônica[1] é determinada por necessidades técnicas. Observemos, por exemplo, os telhados de águas” inclinadas, uma solução de cobertura que atravessa toda a História da Arquitetura. A inclinação deve-se à necessidade de facilitar o escoamento das águas ou de  neve. Um outro exemplo de forma tectônica nos é dado pelo pelo arco, que tantos serviços prestou à arquitetura tradicional.

Fig. 6 – Fábrica de chapéus Steinberg, Luckenwalde (1921-1923). Erich Mendelsohn. Imagens (Dir.) http://www2.uni-jena.de/

Forma orgânica

Temos uma forma orgânica quando a configuração final do edifício é “a posteriori”, resultado do posicionamento das unidades espaciais, que são justapostas à maneira de células de um tecido orgânico. Os mais célebres exemplos desta categoria são as “praire houses” de Frank Lloyd Wright, residências suburbanas de alta classe média no Leste dos Estados Unidos, início do século.

Fig. 7 – Casa da Cascata. Bear Run, Pensilvânia. 1936. Arq. F. Ll. Wright. Imagens http://www.coolboom.net

Forma sistêmica

É resultante da resolução antecipada dos problemas propostos por um ou mais sistemas da arquitetura. Historicamente, o melhor exemplo da forma sistêmica vem das catedrais góticas. Os sistemas espacial, estrutural e de iluminação são resolvidos em cada tramo do edifício e se reproduz linearmente por justaposição. Atualmente os sistemas envolvidos são de maior complexidade, incluindo  a estrutura, as instalações técnicas (ar condicionado, eletricidade, água e esgoto), instalações físicas (mobiliário, equipamentos), demandas de conforto ambiental. A forma sistêmica é o resultado de uma abordagem tecno-científica da arquitetura e responde pelas melhores soluções da construção industrializada.

Fig. 8 – Companhia Centraal Beheer. Apeldoorn, Holanda. 1967-72. Arq. Herman Hertzberger. Imagens (Dir,) http://academics.triton.edu/(Esq.) http://en.wikipedia.org

Anamorfismo

Chamamos de anamorfismo ao processo de deformação de uma figura conhecida em busca de uma nova forma, diferente e individualizada, mas que resulta da distorção da primeira. No processo anamórfico o artista atua diretamente sobre a forma, às vezes sem nenhum método pré-determinado. O uso mais conhecido do processo anamórfico na arquitetura, e possivelmente o mais bem sucedido, na medida em que nos legou um marco da arquitetura de todos os tempos, é, certamente, a capela de Notre-Dame du Haut, em Ronchamp, de Le Corbusier (1950-55). Um trabalho que surpreendeu todo o mundo, mas sobretudo aos discípulos do mestre.

O anamorfismo foi também utilizado pelos arquitetos expressionistas, às vezes assistidos por intenções representativas,  mas muitas vezes com uma intenção de maior ligação com a natureza, na busca de uma arquitetura orgânica. Mais recentemente, o anamorfismo é uma prática comum nos arquitetos desconstrutivistas.

Fig. 9 – Museu Guggenheim. Bilbao. 1992-7. Arq. Frank O. Gehry. Imagem http://www.personal.usyd.edu.au/

Superposição de categorias

Deve-se considerar que nem sempre será possível o enquadramento de um edifício em apenas uma categoria; é freqüente acontecer uma superposição: uma forma será ao mesmo tempo abstrata e tectônica, geométrica e sistêmica, e assim por diante, porém a análise de uma obra arquitetônica deve principiar por sua correta caracterização formal.


[1] A palavra tectônica vem do grego “tektonikés”, (subentendendo “techne”) e significa “a arte de construir edifícios”, segundo o “Novo Dicionário na Língua Portuguesa”, de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.

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2 Respostas para “Categorias da forma arquitetônica

  1. Paulo Henrique Mendes

    A parte que trata de Igrejas do barroco mineiro está com um grande erro. A planta N°1 é da Igreja de Bom Jesus de Matosinhos de Ouro Preto, não de Congonhas. Abraço

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