Arquitetura pós-moderna e a questão do significado

Silvio Colin

O início do século XX foi marcado por uma grande discussão nos meios arquitetônicos com relação à ornamentação dos edifícios. Partia de Adolf Loos a condenação do ornamento, em um ensaio de grande circulação na época, embora de fundamentação discutível [1]. A partir de então, esta seria uma das principais postulações das vanguardas modernistas: a proibição absoluta de qualquer tipo de ornamento aplicado à construção. Loos endereçava sua crítica aos arquitetos filiados aos Art-nouveau como Van de Velde e Olbrich, mas ela servia também para atacar a grande tendência da época, o Ecletismo, a arquitetura aprovada pela “academia”, ensinada nas faculdades e consumida pelo público burguês.

Prefeitura de Manchester. 1877. Arq.  Alfred Waterhouse. Os códigos estilísticos do século XIX privilegiaram a questão do significado na arquitetura. Imagem http://www.longlandstravel.co.uk.

O Ecletismo fundamentava toda sua poética na teoria do associacionismo, isto é, que a beleza da arquitetura dependia sobretudo de sua capacidade de sugerir associações mentais, “falando ao espírito”, “comovendo a alma”[2]…Daí vieram os “tipos estilísticos”, o neoclássico para equipamentos públicos, o neo-gótico para igrejas, o mourisco para o lazer, etc. A teoria estava mais nos livros do que nas ruas, onde se produziam todos os estilos de maneira aleatória. No final do século, praticava-se o chamado “ecletismo sintético”, onde o arquiteto se dava o direito de misturar os motivos seguindo sua intuição e conveniência. Por outro lado, o arquiteto intervinha pouco em questões técnicas, nas estruturas, nas instalações, no  parcelamento da terra. Contra este estado de coisas é que as vanguardas modernas lutaram, até conseguir estabelecer os seus princípios racionais, funcionais e expedientes. Com isso retomaram um lugar na sociedade que julgavam ser seu, o de especialistas nas questões do espaço habitado.

Castel Beranger. Paris, 1890. Arq. Hector Guimard. O Art Nouveau trouxe para a arquitetura uma outra fonte imagística e simbólica, ligada à natureza.

No início do século, o romantismo do século XIX estertorava em suas últimas manifestações: o art-nouveau e o expressionismo. Cedo seria subjugado definitivamente, pelo menos no âmbito acadêmico, pelas poéticas racionalistas. Estas tendências tinham em comum com a arquitetura eclética a aceitação do simbolismo, isto é, a arquitetura transmitia uma mensagem advinda de um outro universo de idéias, representava este outro universo, cujo conteúdo poderia ser histórico, com todas as associações que esta poderia trazer, ou psicológico, com as emoções profundas que poderia sucitar. Em outras palavras, a arquitetura aceitava a sua função simbólica.

Este trabalho com o simbólico, levado a efeito principalmente pelos arquitetos ecléticos, embora não possamos excluir as outras tendências citadas, estava exaurido, esgotado, nas primeiras décadas do século XX, sob o ponto de vista das vanguardas arquitetônicas, que simplificadamente o cingiam à questão do ornamento. Retirar todo o ornamento das paredes passou a ser um ponto de doutrina. A “nova arquitetura” não deveria simbolizar nada, diziam os vanguardistas, Le Corbusier, Gropius e Mies à frente. Os arquitetos deveriam voltar a sua atenção para as coisas práticas, atuais, expedientes, objetivas. A arquitetura deveria ser clara, simples, funcional como uma máquina, uma máquina de habitar.

Bauhaus. Dessau, 1925. Arq. Walter Gropius. Imagem http://www.thebreman.org

A primeira conseqüência desta atitude foi o imediato afastamento do público, que gostava dos claro-escuros, das bossagens, dos relevos temáticos. Os modernistas eram criticados porque faziam caixas de sapato, edifícios sem nenhuma “beleza”. Mas isto não os afetava. Pensavam como missionários: tinham uma missão de doutrinar o público. Neste ponto agiam como todos os artistas da época. Na Modernidade, a arte de um modo geral só será entendida pelos iniciados; quem a quiser entender terá de “elevar” o seu nível.

Mas os modernistas foram ainda mais longe. Com seu abstracionismo, propuseram também retirar dos edifícios todos os elementos tradicionais, telhados, portas, janelas, e, obviamente, todo o tratamento simbólico desses elementos: em lugar de telhados, elementos de cobertura ( no mais das vezes uma simples laje plana impermeável e isotérmica); em lugar de janelas ou portas, vão de iluminação, ventilação ou acesso. Ora, uma laje plana pode, tecnicamente, cumprir as mesmas funções de um telhado, mas algo fica perdido; ela não significa proteção, não cumpre sua função simbólica, que depende de um código mais complexo, não acessível à vontade de uns poucos artistas, mas dependente de um longo processo de estratificação cultural.

Antes da década de 1950, o anti-decorativismo já mostrava sinais de cansaço; o elemento simbólico voltaria, na obra de Le Corbusier, em Ronchamp, em La-Tourrette, e mesmo nos palácios de Chandigarh, é bem verdade que misturados aos elementos racionalistas do período anterior. Gropius assinaria projetos em Bagdá surpreendentes para quem habituou-se a vê-lo como um baluarte da “nova arquitetura” [3]. O próprio Mies ficaria a meio caminho entre o símbolo e a abstração, quando projetou  o seu canto de cisne, a Neue Nationagalerie de Berlim, impregnada de um classicismo altamente abstrato.

Giedion [4], no sumário do CIAM de 1952 dizia que “as pessoas querem que os edifícios representem sua vida social e comunitária, que sejam algo mais que uma simples satisfação funcional”.

Parece, entretanto, que para os adeptos e seguidores do movimento moderno, estudantes e arquitetos de todo o mundo, estas declarações , dúvidas e retrocessos não tinha a mesma força de convencimento da cartilha funcionalista, que continuaram, e, em alguns lugares, ainda continuam a seguir, como se nada tivesse acontecido.

Um dos pontos de partida para a retomada da simbolização na arquitetura foi o trabalho de Robert Venturi, que ele mesmo gosta de chamar de Arquitetura Pop. Na verdade a Pop Art, fenomeno artístico característico dos grandes centros urbanos do início dos anos 1960, quando reiterpretado no ambiente arquitetônico, ensejou a inserção de elementos modernistas, tradicionais e vernaculares num mesmo edifício. Venturi foi seguido por Charle Moore, Robert Stern e alguns outros. Na Guild House, elementos da cultura clássica, como a planta paladiana e a fachada tripartite, misturam-se com elementos vernaculares,  tijolos vermelhos esmaltados e  janelas de guilhotina, dando ainda lugar às janelas horizontais modernistas e mensagens comerciais. Na Piazza d’Italia, formas da cultura clássica romana misturam-se aos novos materiais como o aço escovado e o neon.

Guild House. Filadélfia, 1964. Arquiteto Robert Venturi, e Piazza d’Itália. Nova Orleans, 1974-78. Arq. Charles Moore. Imagens  www.VSBA.com (E) e farm1.static.flickr.com (D)

Simultaneamente a estas práticas americanas, surge na Itália a Tendenza, nome popular o movimento que se auto nomeou Arquitetura Racional. Fundamentado nos livros La architettura della città, de Aldo Rossi, 1966, La costruzione lógica della architettura de Giorgio Grassi, 1967, e Territorio della Architettura , de Vittorio Gregotti, 1966, é revisionista e crítico do racionalismo e funcionalismo do Movimento Moderno. Possui afinidades com o pensamento marxista, com a teoria da arquitetura de tradição italiana, do Renascimento, do Neoclassicismo e do Classicismo tardio dos anos 20 e 30. Trabalha com os tipos arquitetônicos tradicionais, considerados como elemento primário e imutável da história, impossível de serem reduzidos às formas abstratas do Estilo Interenacional.

Conjunto Habitacional Gallaratese. Milão, 1967. Arq. Aldo Rossi (E) e Royal Mint Square, Londres, 1973. Arq. Rob Krier. Imagens http://www.giorgialupi.net (E) e Jencks, 1975 (D)

Muito próximo destes primeiros está o neo-vanguardismo dos arquitetos navaiorquinos Richard Meier, Peter Eisenman, John Hejduk, Michael Graves e Charles Gwathmey, que juntos apresentaram seus trabalhos na exposição Five Architects, de 1969, no MoMA de Nova Iorque. Estes trabalhos eram uma revisita à arquitetura consagrada dos grandes mestres modernistas, mas alguma coisa havia mudado: o vocabulário purista de Le Corbusier, e o neoplasticismo de Rietveld dentro de uma perspectiva histórica, como algo passado que era resgatado, pois os mais fiéis seguidores dos mestres não mais faziam aquela arquitetura das vanguardas. Além disso, os edifícios utilizavam-se de métodos projetuais mais sofisticados, novos materiais e novas técnicas construtivas.

Casa Snyderman, Fort Wayne, Indiana, 1972. Arq. Michael Graves (E). O Ateneum, New Harmony, Indiana. 1975-9. Arq. Richard Meier. Imagens (E) 3.bp.blogspot.com (D)www.newharmony.biz

Uma das mais intensas manifestações desta nova tendência arquitetônica é o chamado Historicismo Abstrato, que consistia no uso de formas e motivos históricos, da tradição clássica ocidental, tratados de maneira livre e abstrata, em provocativo confronto com o anti-historicismo modernista, sob uma perspectiva as vezes produtivista e monumental como em Ricardo Bofill, as vezes irônica ou grotesca como Philip Johnson e Michael Graves. É a tendência mais fértil do pós-modernismo.

Edifício Portland. Oregon, 1982. Arq. Michael Graves (E) e Les Espaces de Abraxas, Marne-la-Vallée, 1978-82. Imagens (E) greatbuildings.com (D) http://www.bluffton.edu

No Edifício Portland, colunas e guirlandas clássicas são tratadas de forma estilizada e grotesca, porém o edifício foi bem aceito na época pelas autoridades  e comunidade, como um marco necessário da cidade, diferente dos edifícios comerciais de aço e vidro. Em Abraxas, um sistema prefabricado de concreto tornou possível o complexo maneirismo do arquiteto, ao manipular a linguagem barroca com liberdade formal.

Outra tendência marcante é o Regionalismo Crítico (Ver matéria neste blog). Posicionam-se os arquitetos contra o desgaste dos recursos culturais, menosprezados em nome de uma universalização expressa no racionalismo cientificista e em uma política neoliberal concentradora, e buscando a recuperação do acervo cultural arquitetônico, de maneira seletiva e crítica, não para utilizá-los de forma absoluta e inflexível, mas para estabelecer um ponto do partida autóctone no diálogo com outras fontes culturais hegemônicas, atuantes pela intensa informatização global, e muitas vezes impostas por uma cultura tida como dominante.

Casa em Riva San Vitale, 1972-73. Arq. Mario Botta. Imagens http://www.dugan.ca

Na casa em Riva San Vitale, de Mario Botta, nas margens do lago Lugano, a relação com o sítio é enfatizada pela mínima ocupação e pela ponte de aço que promove a ligação física. A interpenetração espacial cria uma zona de filtragem, que relaciona exterior e interior. Na Casa Beires, o arquiteto se vale de uma imagística construtiva tradicional da região e métodos projetuais atuais para conseguir a expressão procurada para sua obra.

Casa Beires. Póvoa do Varzim. Portugal, 1973-76. Arq. Álvaro Siza

Estes são alguns exemplos de edifícios pós-modernos, que abordam a questão do significado na arquitetura. Esta questão não esgota a proposição da pós-modernidade na arquitetura; há ainda questões relativas critica do privilégio racionalista, da sustentabilidade etc.  Mas, sem dúvida, o trabalho relativo à significação é dos mais importantes.


[1] Ornamento e crime( Ornament und Verbrechen ), publicado em 1908.

[2] Camus de Mézieres. Genie de l’Architecture. Apud Patteta, 1975. P. 9

[3] Ver Jencks, 1985. P. 106 e seg.

[4] Sigfried Giedion [ Lengnau, Suíça, 1888- Zurique, 1968 ] foi um historiador e crítico, adepto do Movimento Moderno, secretário dos CIAM, defensor do racionalismo, em nome do qual escreveu “Espaço, tempo e Arquitetura”, um dos mais importantes compêndios escritos em defesa da arquitetura das vanguardas.

Anúncios

4 Respostas para “Arquitetura pós-moderna e a questão do significado

  1. Acredito que não só Adolf Loos era contra o ornamento, como também Gregori Warchavchik. Este arquiteto russo que morou no Brasil, tinha seus projetos desaprovado pela prefeitura por causa do não uso de ornamentos, que fez com que este mentisse em seus projetos, colocando algum tipo de ornamento para que fossem aprovados . Porém quando a fiscalização passava pela obra concluída, Gregori falava que a edificação não tinha ornamento, pois havia acabado a verba. Fato engraçado que aconteceu na arquitetura moderna brasileira.

  2. A conceituação de arquitetura pós-moderna , resume-se na frase de Robert Venturi, fazendo critica ao estilo internacional e racionalista: “menos é uma chatice”.

  3. que belo post! Mto legal seu blog,

    se você quiser posso colocar um post seu em meu blog com seu nome e link do teu blog!

    Mais uma vez parabens pelo blog de altissimo nivel!

    dá uma passada lá no meu!
    http://psicologiaparatodos.16mb.com

    abraços!

  4. Robert Venturi, ícone do pós-modernismo, pena que ele não possa projetar obras para sempre (até já parou)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s