A Casa dos Contos de Ouro Preto

Donato Mello Junior


Bela análise do histórico edifício de Ouro Preto realizado em  1939 por uma equipe de alunos e professores do Curso de Arquitetura da então Escola Nacional de Belas Artes. A análise do Donato é preciosa, mostrando o quanto fatores econômicos e sociais influenciam diretamente a arquitetura. Os desenhos são ótimos. Uma verdadeira aula, com excelentes ilustrações: várias técnicas de bico-de-pena, carvão e lápis.

Tenho orgulho de ter sido aluno de algumas das feras dessa equipe. Do Wladimir Alves de Souza, catedrático de Teoria da Arquitetura – um erudito e exímio desenhista, do Donato, responsável pela cadeira de Urbanismo, inquieto e polemista, de uma disponibilidade a toda prova, e do Rolando, responsável pela cadeira de Desenho Arquitetônico, também um  hábil desenhista. Bons tempos!

Matéria publicada na revista Arquitetura e Urbanismo, Janeiro-dezembro de 1941

O período áureo do nossa arquitetura colonial desabrocha em vários pontos do Brasil no perpassar do século XVIII, período esta em sincronismo com o ciclo do ouro.

A grande produção de ouro ida do seio americano para os países europeus marcou com seu brilho o inicio de uma nova economia, o monometalismo[1]. “Foi, no pensar de Sombart, escreve Francisco Marques dos Santos, o ouro do Brasil que tornou possível o ideal mercantilista, quando “da descoberta de metais preciosos nas alturas das Cordilheiras e nos vales do Brasil em meio do século XVII, permitindo a difusão da moeda, que, então, existia em restrito número, o que deu origem ao “homem econômico moderno”

Plantas baixas

De fato, a contribuição do Brasil colonial equilibra com seus 5o% a produção mundial, mas, qual garimpeiro, pouco nos enriquecemos, pois Portugal, na medida do possível, canalizou para Londres e Roma, via Lisboa, grande percentagem de nossa exploração. Porém, mais do que a Lusitânia, tinha entretanto, lucrado a astuta Inglaterra com o ouro do Brasil, escreve alguém. A história de nossa legislação colonial do ouro nos revela a ganância dos reinóis. Recentemente Francisco Marques dos Santos realizou no Instituto de Estudos Brasileiros uma conferencia sobre “A ourivesaria no Brasil antigo” conferência esta abordada com erudição e cheia de passagens dignas de observação. Restava para o Brasil o quantum-satis [2], talvez nem isso; daí o fato de as grandes fortunas do época rarearem. O complexo problema criado pelo ouro originou aspectos nítidos na nossa civilização.

A febre do metal (e das pedras) monopolizando o braço trabalhador existente no quadro geográfico e magnetizando os estranhos, criou equações  insolúveis na economia colonial.

A legislação draconiana, impedindo a estagnação do ouro em mãos particulares, não permitiu que este contribuísse para maior conforto material de seus possuidores. E’ assim que a arte civil, qual termômetro, vai aferir o nível monetário do época . R. C. Simonsen [3] e Francisco Marques dos Santos [4] dão-nos uma idéia do problema surgido. Coincidindo o ciclo do ouro com o período em que os jesuítas porfiavam em semear pelo mundo suas convicções, a Igreja no Brasil tornou-se rica e onipotente: a ourivesaria, a santuária e a arquitetura são suas testemunhas mudas. O fenômeno arquitetônico-religioso alimentando-se das minas pode dar-se ao luxo de forrar a ouro o fundo de suas expressões barrocas. Contrastando, o fenômeno arquitetura-civil é pobre e mais pobre o fenômeno arquitetura-particular. Houve qualquer coisa de medieval nestas manifestações: a catedral gótica é traduzida pela igreja barroca. A moradia foi miserável.

Fachadas

Na gama comum das nossas casas coloniais poucas se destacam com características especiais: o Castelo de Garcia d’Avilla, a Casa dos Contos e algumas residências senhoriais (fazendas, sobrados).

Um solar de Villa Rica

A Casa dos Contos, na arquitetura residencial da cidade-monumento, traduz a manifestação mais rica que a sociedade do época nos legou: é uma vasta mansão solarenga, de acentuado cunho arquitetônico, embora sem grandes arranjos. Data sua construção dos fins do século XVIII (1783) por ordem de seu proprietário João Rodrigues de Macedo. Na qualidade de contratador resolve Macedo o plano de sua residência num andar térreo onde localizou seus escritórios, senzalas, num andar principal, alojamento de sua família e num mirante que fotografa grande parte da atual Ouro Preto.

Em 1939, uma turma de futuros arquitetos da Escola Nacional de Belas Artes fez uma viagem de estudos as cidades histórico-artísticas de Minas Gerais; desta viagem, da qual fiz parte, trouxemos bastante material de estudo e observação acerca da nossa arte colonial, que só agora começa a ser verdadeiramente estudada. O tempo que gastamos em várias visitas à Casa dos Contos foi-nos bem aproveitado. Apresentamos alguns dos croquis e estudos que fizemos, salientando-se o levantamento do prédio, levantamento este que não pude averiguar se já foi feito alguma vez. A escada nobre, segundo me informou o professor Gastão Baiana, já foi levantada em detalhe por ele.

A situação da Casa dos Contos na rua Tiradentes, oferece dois pontos de vista para ser melhor observada: quem já esteve em Ouro Preto há de entender a quais lugares me refiro: ambos são locais que apresentam o edifício de ângulo. A fachada principal, devido à pouca largura do rua, aparece também com restrito campo perspectivo para o estudo de suas linhas.

Interior das salas

As descrições de alguns detalhes do solar já tem sido objeto de atenção por vários cronistas. Alcebiades Delamare em Villa Rica escreveu um capítulo “A casa dos Contos”, capítulo em que o histórico palácio serve de fundo de cena para o estudo do controvertido fim de Cláudio Manuel Costa, a primeira vítima da conjuração mineira. Do prédio, refere-se ao … “soberbo palácio da era colonial” e ” … nos fundos do prédio eleva-se gigantesca chaminé, surgindo da cumieira um mirante que se destina a dissimular uma escadaria que vai da cimalha aos subterrâneos”. O articulista completa seu capítulo transcrevendo o historiador Dr. Diogo do Vasconcelos, o qual diz que:

Os esplêndidos umbrais de feição dórica apresentam quinas sinuosas que amenizam a sua austeridade, assim como em quarto de circulo as vergas das janelas e portas. As janelas da frente, sacadas no andar de cima, e peitoris nas de baixo, são todas curvadas de cimásio moldurado e tanto a janela do centro, como o pórtico se distinguem por esses ornamentos, mais salientes. Sete janelas de peitoril em cada lado rasgam a claridade para o interior do edifício, onde vastos salões o repartem, e se comunicam por portas igualmente arqueadas de cantaria inteiriça .

Patio interno

O autor de Villa Rica procura aclarar uma das controvérsias da história de Minas, na qual a Casa dos Contos aparece como palco; aludo à tragédia que se passou em Villa Rica, na noite de 3 para 4 de Julho de 1789, com a pessoa do poeta-jurista Cláudio Manoel da Costa, envolvido como cúmplice da rebelião mineira .

Delamare cita Teofilo Feu de Carvalho [5], o qual afirma ter a vítima estado presa na Casa Real dos Contratos e não na Casa dos Contos e acrescenta que na Casa dos Contos nunca funcionou a Casa Real dos Contos, nem a Casa de Fundição nem a Capitação(sic) ou Intendência. Escreve ainda o erudito historiador:

A maior importância histórica da “Casa dos Contos” digna de nota, vem da Inconfidência Mineira, em 1789, por ela “ter sido ponto de reunião dos inconfidentes.

Forno da padaria

Forno da fundição do ouro

O professor Anibal Matos em Monumentos Históricos, Artísticos e Religiosos de Minas Gerais, refere-se mais ou menos ao que notamos em Delamare e Diogo de Vasconcelos, pouco acrescentando.

No Guia de Ouro Preto, Manoel Bandeira nos informa que o projeto da casa é atribuído a Antonio Ferreira de Souza Calheiros. Dele colhemos as passagens seguintes:

A chamada Casa dos Contos, Casa dos Contratos ou ainda Casa da Ponte é o melhor e mais belo exemplar do tipo residencial em Ouro Preto. Tamanha abundância de cantaria não se encontra senão no antigo Palácio dos Governadores ou nos templos das ordens mais ricas. […] O visitante da Casa dos Contos deve pôr reparos nos ornatos do pórtico: o engenheiro Epaminondas de Macedo observa a semelhança do desenho com o do portal do Aljube em Mariano.

Parece, pelo exposto, que o estudo histórico-arquitetônico completo do curioso solar esta a espera de algum historiador paciente para resolver seu enigma.

Detalhe interno da sacada

Dentre os elementos que logo nos fere a curiosidade destacamos a molduração(sic) sóbria da fachada, a porta, a famosa escada nobre de dois lances, sob cujo patamar ter-se-ia, segundo alguns, suicidado Manoel da Costa. Não menos nos interessa alguns espelhos de fechadura, a varanda de madeira e o pátio “pé-de-moleque” com seu bebedouro. Dignos de nota temos ainda os dois fornos: o de padaria e o de fundição de ouro, cuja chaminé é de belo efeito.

O mobiliário que existiu segundo se referem alguns, foi levado para Belo Horizonte, quando da mudança de Capital: lá pouco ou nada resta. Por ter sido construído com bom material, a Casa dos Contos chegou a nossos dias, apesar de vez e meia centenária, quase intacta.

Convite da escada

Em 1934-35, o Departamento de Correios e Telégrafos que lá atualmente funciona, restaurou o edifício, sob as vistas do engenheiro Epaminondas de Macedo, tendo, felizmente, sido respeitadas as linhas primitivas.

Equipe da pesquisa

Wladimir Alves de Souza (Catedrático da E. N. B. A.)

Arnaldo Rocha Filho

Colombina A. Bastos

Donato Mello Junior

Edgar J.  Silva

Hélio D, Alonso

Rolando Flores Marques

Silvio Loureiro (aluno do 6º ano da  E. N. B. A.)

[1] Sistema monetário que usa um só metal (em geral, ouro) como padrão monetário.

[2]o quanto baste

[3] História Econômica do Brasil.

[4] Estudos Brasileiros n:12 – Junho de 1940.

[5] Revista do Arquivo Público Mineiro, Anos XIX – 1921, p. 267-344 e Casas de Fundição in Minas Gerais de 11/1/1934.

Crédito das ilustrações da vinheta

(E) http://www.fazenda.gov.br/

(ME) 200anos.fazenda.gov.br/

(MD) http://www.spagnollo.arq.br

(D) http://aurelio.net

As demais ilustrações são da matéria publicada.

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4 Respostas para “A Casa dos Contos de Ouro Preto

  1. MUITO LEGAL

  2. Reproduzo em meu blog – absolutamente gratuito e com intuítos educativos, apresentando Estudos da Língua Portuguesa accessível a todos – imagem sua, mostrando o interior da Casa dos Contos. Menciono o fato, o seu nome e apresento o link de sua página, em meu blog, na matéria intitulada “A Casa dos Contos”. Caso alguém se sinta prejudicado em virtude disso, por gentileza, entre em contacto que aquela imagem será imediatamente retirada. Um bom dia a todos e, queira aceitar os meus parabéns.

  3. Engº Tales Kramer Alcalde

    Muito boa a pesquisa!

  4. Nossa estão de Parabens me ajudou muito na minha pesquisa sobre a Casa Dos Contos…Os desenhos estão incriveis.Foi um Verdadeiro Banho de Cultura.
    Parabens…*

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