Megaestruturas. O futuro do passado.

Silvio Colin

O termo Megaestrutura surgiu no final dos anos sessenta como designação de uma tendência da arquitetura daquele período. Reyner Banham, incansável crítico de uma época, alguns anos depois, escreveria um livro sobre o assunto: Megaestruturas, futuros urbanos de um passado recente [1]. Um título provocativo, na medida em que as Megaestruturas representavam as fantasias futuristas de um momento histórico, alimentadas pelo desejo de se resolver tecnologicamente os problemas de então. Só se pode pensar em um futuro que está contido no nosso presente, é isto que Banham diz no título de seu ensaio, que descreve a ascensão e queda de uma idéia sobre a arquitetura e a cidade dos anos 1960.

Ponte Vecchio. Florença. 1345 aD. Uma das primeiras megaestruturas. Imagem: students.ou.edu

Sant’Elia. Estação Central de Milão. Cittá Nuova.1914. O projetos de Sant’Elia para a Cittá Nuova têm muitas megaestruturas. Imagem http://www.pages.drexel.edu

A Paul Rudolph, então um dos arquitetos mais prestigiosos dos Estados Unidos, quando recém inaugurada a sua Escola de Artes e Arquitetura de Yale, que em poucos anos não escaparia do surto de vandalismo que acometeu as grandes metrópoles ocidentais em 1968, teria sido feita a pergunta: “Depois de Mies, o que virá?” E ele teria respondido: “Depois de Mies virão as mega-estruturas”. Na verdade, as mega-estruturas não eram tão recentes assim. O próprio Rudolph teria apontado a Ponte Vecchio, de Florença, uma estrutura medieval, como a primeira mega-estrutura. Sant’Elia, na sua Città Nuova, teria projetado inúmeras, como a Estação Central de Milão. Le Corbusier, quando de sua primeira estada no Brasil, em 1929, teria feito um projeto para São Paulo e outro para o Rio, pensando em termos de mega-estruturas.

Desenho de Le Corbusier. Plano para o Rio de Janeiro, 1929.

Do avião desenhei para o Rio uma imensa auto-estrada, ligando a meia-altura os dedos dos promontórios abertos sobre o mar… A majestosa auto-estrada pode estar a cem metros do solo da cidade… Ela é levada tão alto não por arcos, mas por blocos de construções para homens, para uma multidão de homens. Caso desejássemos, essa auto estrada e seus imensos blocos de construções poderiam não atrapalhar ninguém na cidade.[2]

Banham, no seu livro fundamental, nos adverte que não são as dimensões gigantescas que melhor caracterizam as megaestruturas. Cita o caso do Vertical Assembly Building, em Cabo Canaveral, Flórida, de 1966, projetado pelos arquitetos Urbalm, Roberts, Seeley e Moran. Trata-se do maior espaço fechado do mundo, 1.500.000 m3, e não é uma mega-estrutura, pois sua função é simples, direta e objetiva: abrigar as atividades de montagem de foguetes. As mega-estruturas devem ser complexas, envolver atividades residenciais ou profissionais e urbanas, interferindo neste espaço de interface entre o edifício e a cidade.

Vertical Assembly Building, Cabo Canaveral, Flórida, 1966. Imagem 6qfpqg.blu.livefilestore.com

Como exemplos de megaestruturas típicas citemos inicialmente as Unidades de Habitação, propostas por Le Corbusier, como peças fundamentais na medida em que congregam funções de pequeno comércio, prestação de serviços de vizinhança e chama seus corredores de “ruas interiores” . ´Trata-se do primeiro aporte a este modo de ver o edifício, a cidade, e sua interface, sancionado pelo Movimento Moderno .

Unidade de habitação de Marselha. 1947-53. Le Corbusier (S) Vista exterior Imagem: theurbanearth.files.wordpress.com (I) Rua interna. Imagem: horsesthink.com/wp-content

O primeiro esquema representativo do movimento denominado Novo Brutalismo foi a proposta derrotada no concurso de idéias para o conjunto Golden Lane, em Londres, de 1952. Seus autores, Alison e Peter Smithson eram lideres deste movimento e uma das figuras mais importantes do Team X (Ver post sobre o CIAM, neste blog). A intenção da proposta era a de confrontar as idéias de Le Corbusier e da Bauhaus das décadas anteriores, como a Ville Radieuse, e os esquemas definidos na Carta de Atenas. Para substituir as abstrações funcionais Habitação, Trabalho, Lazer e Transporte propunham, elementos concretos Casa, Rua, Bairro, Cidade. As ruas para pedestres eram elevadas (as  famosas “streets in the sky”), visando separar o caminho dos pedestres e veículos. Apesar de não ter sido bem sucedido, o projeto influenciou propostas futuras dos novobrutalistas, como o Park Hill e o Robin Hood Gardens.

Golden Lane. Londres, 1952. Alison e Peter Smithson. Imagens: (S) http://www.cleandesign05.co.uk (I) brandavenue.typepad.com

O Habitat 67, em Montreal, complexo residencial projetado pelo arquiteto Moshe Safdie é um outro bom exemplo. Na ocasião de sua construção  estabeleceu-se como um pavilhão temático visitado por milhares de pessoas durante a Expo 67, sendo também residência temporária de dignatários, presentes naquele momento na cidade.  Sua idéia era expressar a variedade e diversidade da casa particular, conjugada à economia e densidade dos edifícios de apartamentos modernos. Sua estrutura é intertravada em blocos de concreto, que definem os volumes e espaços intersticiais. A concepção visava unidades residênciais  relativamente econômicas, com quartos privativos, cada um equipado com um jardim. O conjunto tornou-se um marco arquitetônico, por representar o estilo de vida da época, ao mesmo tempo que se reporta, simbólica e visualmente, às habitações informais e espontâneas, como as favelas, em cidades crescentemente abarrotadas ao redor do mundo.

Habitat 67. Montreal. Moshe Safdie. Imagens: (S) http://www.blockprojekt.de; (I) http://www.canpages.ca

Walking City, 1964. Ron Herron, do grupo Archigram. Projeto baseado em megaestruturas urbanas. Cidades zoomórficas e nômades que se deslocam e se inter-conectam. Imagem: designmuseum.org

As mega-estruturas fantásticas do grupo Archigram inspiraram-se na tecnologia como forma de expressão para criar projetos hipotéticos, na tentativa de propor uma alternativa às premissas fundamentais da arquitetura moderna. Tinham percepção aguda do espírito da época, relacionando cultura Pop, Guerra Fria e um conceito de espaço-tempo distorcido pela reprodutibilidade de novos artefatos tecnológicos, principalmente com a disfusão das telecomunicações e de novas teorias científicas. Apesar de seus projetos serem apenas fantasias, tornaram-se um repertório imagístico inseparável de tendências futuras, como o Metabolismo, o High tech e o Produtivismo.

Park Hill. Sheffield. 1967-71. Jack Lynn e Ivor Smith. Imagens: (S) http://www.e-architect.co.uk (I) http://www.rrr.org.au

Park Hill é um grande conjunto habitacional inspirado nas ideas do Novo Brutalismo, apresentando muitas críticas ao desenhos de grandes conjuntos então praticado, e incorporando muitos conceitos do inovadores,  como a implantação  hierarquizada de espaços livres, uma maior liberdade de desenho, separação entre o tráfico de pedestres e veículos, com as indefectíveis ruas elevadas.

Projeto para a Baía de Tóquio. 1960. Kenzo Tange. Imagens http://www.flickr.com

O projeto para a Baía de Tóquio, talvez a mais ambiciosa megaestrutura,  resgatando o espírito de Le Corbusier dos tempos heróicos, foi apresentado na Tokyo World Design Conference de 1960 por seu autor Kenzo Tange, na presença de Alison e Peter Smithson, Louis I. kahn,  Jean Prouve e outros membros do Team X. Tange defendia que, nas megacidades, o modelo de transportes radial centrípeto era uma relíquia da Idade Média, incapaz de adaptar-se aos novos tempos.  Propunha, ao invés de um Centro Cívico, um Eixo Cívico, desenvolvido de forma linear, uma idéia não tão nova (veja-se a idéia de Arturo Soria y Mata no final do século XIX em Madrid e de Nikolai Milyutin, na União Soviética, nos anos 1920). A novidade estava em este eixo se estender pelas águas, na Baia de Tóquio.

As ideias urdidas para o concurso Golden Lane, quase vinte anos antes, foram finalmente postas em prática por seus criadores no conjunto Robin Hood Gardens, também em Londres. Cobrindo dois hectares em dois longos blocos, foram construídos os seus 213 apartamentos com lajes pré-fabricadas de concreto e envolvidas por uma grande área verde e uma pequeno morro artificial assentado com entulho das construções. Os apartamentos alternavam-se entre unidades de um e dois pavimentos, com amplos balcões (as “ruas elevadas”).

Robin Hood Gardens. Londres, 1969-72. Alison e Peter Smithson. Imagens (S) newsfeed.kosmograd.com (M) http://www.bdonline.co.uk (I) http://www.wharf.co.uk

Muitas das tendências cismáticas do Movimento Moderno dos anos 1960, sobretudo aquelas de inspiração tecnológica, trabalham com megaestruturas. O Brasil produziu diversos desses projetos , como os grandes conjuntos do Pedregulho e da Gávea, de Affonso Eduardo Reidy.

Conjunto Residencial Marquês de São Vicente. Rio de Janeiro, 1952. Affonso Eduardo Reidy. Imagens BONDUKI (Ed.) 1999.

O Conjunto Residencial Marques de São Vicente, um marco da arquitetura carioca e brasileira,  obras das mais conhecidas e consagradas do período áureo da arquitetura brasileira, foi construído para substituir uma favela com aproximadamente 955 barracões. A população prevista era de 5.262, constituída na sua grande maioria por famílias de trabalhadores filiados a Institutos e Caixas de Aposentadoria.

O terreno é em parte plano e a outra metade estende-se pela encosta até atingir a parte mais alta do morro, apresentando um desnível de cerca de 60 metros. A encosta tem à sua frente o maciço do Corcovado e à esquerda os túnel Dois Irmãos; à direita, a Lagoa Rodrigo de Freiras e, aos fundos, a praia do Leblon, Juntamente com as obras de canalização rio Rainha, foi construído o túnel Dois Irmãos, na auto estrada Lagoa Barra.

Conjunto Habitacional do Cafundá. Rio de Janeiro, 1977. MBPP Arquitetos Associados. Imagem http://www.arcoweb.com.br

O conjunto do Cafundá, projetado por Sérgio Magalhães, Ana Luíza Magalhães, Sílvia de Barros, Clóvis de Barros e Rui Velloso (MBPP Arquitetos Associados) em 1977, marca o fim das intervenções deste tipo na cidade. Suas relações formais são múltiplas e complexas. Por um lado, históricamenete, liga-se à própria tradição da Escola Carioca, marcante produção das décadas de 1940 e 1950, que ajudou a projetar a arquitetura brasileira mundialmente, com os elementos vazados, utilizados por Lúcio Costa no Parque Guinle, com a forma volumétrica sinuosa utilizada por Reidy no conjunto do Pedregulho e da Gávea. Por outro lado, horizontalmente liga-se aos novo brutalistas ingleses, lembrando as formas dos conjuntos do Park Hill e Robin Hood Gardens. A maneira de acomodar-se ao terreno, partindo de um plano horizontal superior, utilizado pelos ingleses, tem sua origem no trabalho de Le Corbusier em La Tourette.

As megaestruturas não são em si mesmas uma tendência, propriamente falando, mas uma idéia que transitava em muitas tendências (brutalistas, novobrutalistas, metabolistas etc.), refletindo bem o espírito de uma época, um momento de nossa civilização em que se pensava tecnologicamente, e se acreditava, com boa dose de ingenuidade, que os problemas da humanidade eram de ordem simplesmente quantitativa. Hoje os números são tão assustadores, que não mais podemos pensar assim. Há que se pensar qualitativamente.

A idéia das mega-estruturas corresponde àquilo que, nos anos 1970, Gianni Vattimo chamaria de Pensamento Forte, correspondendo na filosofia e na história às metanarrativas, idéias que chamavam para si a solução de todos os problemas. O pensamento pós-moderno iria lhe propor a alternativa do Pensamento Fraco, do “pensar pequeno”, da “diferença”, que vai estar contido nas propostas de orientação semiótica e fenomenológica. Nada tão distante das idéias das megaestruturas como, por exemplo, o conceito de Novo Urbanismo (Ver post neste blog).

O destino das megaestruturas veio mostar que com as cidades não se deve brincar. Muitas de suas idéias provaram ser tão inviáveis como absurdas eram as proposições que desejavam substituir. As”ruas elevadas”, seu principal ponto de doutrina, foram as peças que mais ajudaram a desgastar a proposta. No dizer de Charles Jencks, eram a prova de carros, mas não de vandalismo e de crimes, em uma área que as autoridades não podiam interferir. (Vem post “A morte da arquitetura moderna, neste blog)

As mais recentes preocupações dos arquitetos com a memória e ecologia, bem como o fracasso e a degradação de algumas megaestruturas, como o conjunto Pruitt-Igoe, a maior vítima, que trouxeram mais problemas do que resolveram,  e o desgaste das idéias intervencionaistas foram um forte golpe nas megaestruturas. Pelo menos até o presente, pois a idéia de pensar grande ainda esta na cabeça dos arquitetos e planejadores.


[1] BANHAM, Reyner. Megastructure: Urban Futures of the Recent Past. Londres: Thames and Hudson, 1976

[2] Le Corbusier. Apud SANTOS, C. R., PEREIRA, M. C., PEREIRA, R. V., et al. Le Corbusier e o Brasil. São Paulo, Tessela/Projeto, 1987. P. 95.

Bibliografia

BANHAM, Reyner. Megastructure: Urban Futures of the Recent Past. Londres: Thames and Hudson, 1976

BONDUKI, Nabil (Ed.) Affonso Eduardo Reidy. Lisboa: Blau, 1999.

SANTOS, C. R., PEREIRA, M. C., PEREIRA, R. V., et al. Le Corbusier e o Brasil. São Paulo, Tessela/Projeto, 1987.

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3 Respostas para “Megaestruturas. O futuro do passado.

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