Técnicas construtivas do período colonial – IV

Silvio Colin


O piso mais simples era de terra batida. A terra era socada com certa mistura de argila, areia e água, à qual se adicionava às vezes sangue de boi, para uma melhor liga. No piso de terra batida podia-se assentar ladrilhos de barro cozido, de 7 a 8 mm de espessura e 20 a 30 cm de largura. O desenho de assentamento podia ser de junta reta, com junta matada ou mata-junta, paralelo ou em xadrez. Especial destaque para os pisos das enxovias nas casas de câmara e cadeia.

Piso de ladrilhos. Tipos de juntas. Junta reta, junta matada e xadrez.

Piso em frisos de madeira

Os pisos de tábuas corridas de madeira eram os mais comuns em pavimentos elevados do solo. Em alguns lugares, a única solução possível. Os frisos de madeira tinham em torno de 40 cm de largura e espessura de 3 a 4 cm, apoiados em barrotes.  Com o passar do tempo, as peças vão se adelgando, chegando a 2,5 cm, e se estreitando, chegando a 10 ou 15 cm.  A seção dos barrotes eram “em quadra”, isto é, quadrada, medindo em torno de um palmo (22 cm) até “palmo e meio” ou “um pé” (cerca de 30 cm), dependendo do vão.

Detalhe dos frisos e sua estrutura apoiados em parede de taipa de pilão.

Na cadeia de Ouro Preto, em 1723, os pisos foram feitos com lastro de coçoeiras “de três quartos de palmo em quadra”[1] (cerca de 16 cm, de seção quadrada). Nas enxovias dos negros, tal lastro de madeira era recoberto com terra batida misturada com sangue de boi, nas cadeias dos brancos, a grade era assoalhada. À semelhança dos forro, podiam ser assentados em junta seca, com ou sem mata-junta por baixo,  em meio-fio ou em macho e fêmea, mais raro. As madeiras utilizadas eram sempre de boa qualidade: ipê, jacarandá, canela parda, jatobá, e outras, variando com a época e a disponibilidade.

Detalhe de pisos de enxovias com lastro de madeira. (E) Com frisos de madeira. (D) De terra batida.

Detalhe de pisos e paredes de enxovias reforçados com lastro e grades de madeira.

Os lajeados eram lajes de pedra – arenitos, gneiss ou calcários, assentados com argamassa de barro. Estas lajes podiam ser trabalhadas por canteiro apenas na face superior, ou também nas faces laterais. Tinham estas lajes de 5 a 10 cm de espessura normalmente, porém em casos excepcionais podiam ser mais espessas. É o caso da cadeia de Ouro Preto, para a qual José Fernandes Pinto Alpoim, em 1745,  mandou que os pisos fossem que eram “lageados por baycho com lagedo de morro, e que nenhuma pedra tivesse menos que cinco palmos de comprido e hum ou dous de groço”[2].

Lajeado

Os lajeados podiam ser feitos de mármore, caso em que o acabamento era bem melhor, e reservado a compartimentos mais nobres, como saguões de edifícios públicos civís ou religiosos. O pé-de-moleque ou calçada portu-guesa era muito comum. Consistia no assentamento sobre a terra batida de seixos rolados (pedras redondas de rio). Podem ser empregados seixos de duas cores, formando mosaico. Podem ser utilizados em interiores de pavimentos térreos, caso em que se utilizam pedras de diâmetro menor, com cerca de   3 cm, ou também para pavimentos de calçamentos de vias públicas, com pedras maiores, de diâmetro aproximado de 10 cm.

Pé de moleque com costelas

Nas vias públicas, para reforçar a pavimentação, podem-se colocar lajes de pedra enterradas a prumo, em forma de costelas. Os espaços entre as costelas são preenchidos com pé de moleque.

Costelas

Capistrana é uma faixa contínua de lajeado no meio de uma via pública, em cujas laterais se adiciona a pavimentação de seixos ou lajes. O nome capistrana refere-se a Capistrano Bandeira de Mello, presidente da província de Minas, que mandou executar este serviço em 1878.

Capistrana

 

 

 

As paredes eram geralmente caiadas. A cor branca foi, por isso mesmo notada por todos aqueles que deram notícias sobre nossas construções coloniais, como Maria Graham, Vauthier, Kidder e Spix e Martius. A caiação era feita de cal de mariscos, de pedra ou tabatinga[3].

As madeiras eram preferencialmente pintadas a cola, têmpera ou óleo, sendo o óleo utilizado como veículo extraído de mamona, de baleia ou de linhaça. Quando o veículo era a cola, usava-se cola de peixe, de pelica ou couro de boi. Para a têmpera, utilizava-se a secular albumina de ovo. Os corantes mais comuns eram o anil ou índigo -indigueiro-leguminosa (azul), sangue de drago e urucum (vermelho), a açafroa (amarelo), a braúna (preto), o  ipê e a cochonilha (cor de rosa)[4].

Nas pinturas decorativas, era comum a chamada “pintura de fingimento”, que procuravam imitar madeira ou mármore.  Faiscado era o nome que se dava em Minas Gerais à pintura a óleo ou tempera de portais, ombreiras e batentes de madeira imitando pedra.

 

 

Nas construções coloniais eram utilizadas sempre fundações diretas, no mais das vezes de alvenaria de pedra seca, qualquer que seja o tipo de parede. A exceção fica com as construções estruturadas com esteios – o pau-a-pique e o enxaimel. Neste caso as peças de madeira que formam os esteios são enterradas no solo com 2 a 4 m de profundidade. A parte enterrada não era afeiçoada em seção quadrada mas mantinha a seção do tronco original. Esta parte do esteio é popularmente chamada de nabo e recebia um tratamento contra o apodrecimento e contra brocas e fungos. Este tratamento consistia em crestar a madeira com fogo. Paulo Santos nos diz que existem esteios mergulhados no solo há mais de dois séculos e com o núcleo central em perfeito estado, embora com a parte externa apodrecida[5].

Alicerce de parede de pau-a-pique. Fonte SANTOS, 1951.

Para as outras técnicas, os alicerces eram sempre a alvenaria de pedra, às vezes seca, às vezes com barro, ou apenas rejuntada com calda. A calda é um barro muito liqüefeito, que pode ser derramado e preenche os vazios entre as pedras. Pode ser derramado depois de uma ou duas fiadas prontas.

As dimensões dos alicerces eram variáveis, mas não diferiam muito das práticas atuais para fundações diretas. Para a igreja de Nossa Senhora do Monte do Carmo de Ouro Preto foram usados baldrames[6] de cerca de 2 m de profundidade (dezoito palmos) e de largura 90 cm (quatro palmos) externamente para fora da parede e 30 cm (palmo e meio) para dentro, isto é, a largura da parede mais 1,2 m (um total de aproximadamente 3,5 m)[7]. Mais recentemente, os aliceces tornam-se menos profundos e a parte saída das paredes diminui para aproximadamente um palmo. O acabamento dos alicerces é sempre bem nivelado com uma pedra, que os cobre em toda a extensão, não sendo interrompido nem para as obreiras das portas, que são nele encaixados.

Encaixe das ombreiras na soleira do alicerce. Fonte Vasconcellos, 1979.

Enchimento do espaço entre o baldrame e  o solo.  Fonte Vasconcellos, 1979.

Acabamento do alicerce e sargeta.  Fonte Vasconcellos, 1979.


Notas

[1] BARRETO, sd., p.191.

[2] Apontamentos, Vila Rica, 1745. Apud  BARRETO, Op. cit., p. 193.

[3] Barro branco, untoso ao tato. De “toba-tinga”, i. e. barro branco. Sendo mais fácil de encontrar que a cal de mariscos, seu uso se generalizou na pintura de casas mais simples. À tabatinga adicionava-se algum fixador, seja albumina de leite, de sorveira (árvore resinosa) ou soluções de pedra-ume.

[4] Excetuando a cochonilha, inseto que fornece um corante carmim, os otros pigmentos são de origem vegetal. São tirados das folhas, como o índigo – do indigeiro, uma leguminosa; dos frutos, como o urucum; de flores, como a açafroa, ou do próprio tronco, como a braúna e o drago

[5] SANTOS, 1951, p. 86.

[6] Muros contínuos de fundação. Não confundir com a peça de madeira chamada de baldrame nas paredes de pau-a-pique.

[7] SANTOS, 1951, p. 92.

Bibliografia

Arquitetura Civil I, II e III. Textos Escolhidos da Revista do IPHAN. São Paulo: FAUUSP e MEC-IPHAN, 1975.

Arquitetura Oficial I e II. Textos Escolhidos da Revista do IPHAN. São Paulo: FAUUSP e MEC-IPHAN, 1975.

BARDOU, Patrick e ARZOUMANIAN, Varoujan. Arquitecturas de adobe. Barcelona: Gustavo Gili, 1981.

BAZIN, Germain. A arquitetura Religiosa Barroca no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 1983. 2 vols.

CORONA, Eduardo e LEMOS, Carlos A. C. Dicionário da arquitetura brasileira. São Paulo: Edart, 1972.

RODRIGUES, José Wasth. Documentário arquitetônico. Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, Edusp, 1979.

SANTOS, Paulo F. Arquitetura religiosa em Ouro Preto. Rio de Janeiro: Kosmos, 1951.

VASCONCELLOS, Sylvio de. Arquitetura no Brasil: sistemas construtivos. Belo Horizonte: Unversidade Federal de Minas Gerais,  1979.


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3 Respostas para “Técnicas construtivas do período colonial – IV

  1. MAURO HENRIQUE FERREIRA

    Sr. Sílvio Colin
    Obrigado pelo excelente artigo.
    Sou um pequeno construtor.
    Fiquei fascinado pelo que o sr. escreveu.
    Por acaso pode me indicar livros que versem sobre as técnicas contrutivas antigas [egípcios, gregos, romanos]? Já pesquisei muito na net sobre isso e não consegui.
    Apesar de não falar inglês nem espanhol, consigo ler nesses idiomas.
    Mais uma vez, parabéns pelos artigos.
    Mauro Henrique

  2. Marcos Vinicius Pardim

    Oi Silvio, estes artigos seus me ajudaram bastante em um trabalho acadêmico. Sou estudante de Arquitetura e estou no 6º período.
    Parabéns cara.

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