A arquitetura do “Nosso Lar”

Silvio Colin

Nosso Lar. Imagem <1.bp.blogspot.com> e Dubai. Imagem <dreamfeel.files.wordpress.com>

O filme “Nosso Lar” foi visto por 1,6 milhões de pessoas e acumula renda de R$ 16, 2 milhões [1]. Como professor de arquitetura, observo muito o que se passa nos filmes, relacionado com a minha matéria. E confesso que fiquei muito decepcionado com o que é  mostrado no filme como sendo a arquitetura de um plano mais elevado que o nosso. Fiquei pensando: “Você não precisa morrer para desfrutar dessas maravilhas arquitetônicas; basta ir a Dubai. Dubai é o nosso lar”. Pelo menos é esta a arquitetura de lá. E outra. Quando o Santiago Calatrava morrer, o que espero que demore bastante, ele terá trabalho garantido no plano mais elevado.

Afinal de contas, aqueles edifícios são o superlativo do que  a mais próspera sociedade liberal, o mais afluente capitalismo das grandes metrópoles, os mais delirantes incorporadores sonham para as suas realizações comerciais. Fico pensando se isto tem a ver com o mundo espiritual. Se aquela arquitetura ociosa estruturalmente, arrogante formalmente, monumental e exibicionista é aquela que representa os valores transmitidos pela idéia do filme.

Foi dito que o mapa da cidade, bem como a arquitetura das edificações foram criados pela médium Heigorina Cunha através de suas observações realizadas durante suas saídas do corpo (desdobramento) em 1979.[2] Pode tratar-se do caso de formas pensamento, de que nos fala a Teosofia. O que quer dizer que pode ser uma criação mental, e não uma visão objetiva.
Hospital de Nosso Lar

Não se trata, obviamente, de especulações sobre uma outra vida, mas das representações que aqui temos dela, que, obviamente, correspondem ao que pensamos de mais avançado. E constatamos que muita gente ainda continua a aplicar aos níveis de representação aqueles parâmetros do crescimento ilimitado que atribuímos às ciências, mas não às artes. Mais avançado, para as pessoas que assim concebem o mundo é a ultra-tecnologia, não o conhecimento aplicado para o seu o controle.

(E) Edifício administrativo do Nosso Lar. Imagem <1.bp.blogspot.com> e (D) Cidade das Artes de Valência, de Santiago Caltrava. Imagem <www.bloggersbase.com>

Estamos ainda presos às idéias da Modernidade, segundo a qual a natureza deveria ser domesticada e submetida à vontade do homem. Passa longe de nós as idéias de um maior convívio com o meio ambiente, menos intervencionismo.

O livro em si não se detém muito nestes aspectos tecnológicos. Exceção se faça ao aeróbus, veículo suspenso do solo a uma altura de cinco metros mais ou menos e repleto de passageiros.” O hospital, que mais lembrava espacialmente, no filme, uma enfermaria oitocentista não é descrito no livro. De nada adianta aos arquitetos estarem preocupados com dotar os hospitais de um ambiente mais aconchegante e humano. No plano astral, segundo os criadores do filme, ele será daquele jeito mesmo que conhecemos, tipo panótico, gélido e asséptico. Assim como a fila tipo INSS para falar com o Ministro do Auxílio Paulo Goulart, que no filme parecem horas de espera num banquinho desconfortável, no livro são apenas alguns minutos. Menos Sr. diretor.


[1] Dados de 14 de setembro de 2010. http://www.band.com.br)
[2] http://pt.wikipedia.org/wiki/Nosso_Lar
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17 Respostas para “A arquitetura do “Nosso Lar”

  1. Professor, você sabia que aquela cena do Hospital foi gravada lá na FAU?
    É aquela área do mezanino, atrás do elevador no segundo andar.

  2. Silvio, o meu blog é nesse endereço:
    http://www.articidade.wordpress.com
    Vou aceitar sua oferta, ein!

  3. Fiquei interessada em assistir esse filme justamente pelo cartaz, mostrando aquela cidade estrelar high tech, achei muito curioso porém não tinha idéia do que se tratava o filme hehehe.
    Ainda não assisti, mas lendo seu post deu pra ter uma idéia. E nunca imaginei que o “plano mais elevado” fosse assim, e como você disse que o livro não se detém nesses aspectos, parece mais uma jogada de sedução do telespectador, porque convenhamos, muita gente venera essa ultra-tecnologia exarcebada.

  4. Olá,
    Artigo interessante… Mas como seria representar uma arquitetura do além!?… Alguem tem mais alguma idéia?… O “Diretor” expôs uma sugestão, como você bem disse, o livro não se detém a esse aspecto.
    Como gravar um filme em uma cidade da qual não se tem muitas descrições?…
    Achei a ídéia válida “podendo” ser passiva de erros. Ele é cineasta e não Arquiteto Urbanista.
    Seu site é show!.. continue assim!..
    Abraços!

    • É justamente por isso, porquê não se sabe como, que os aspectos ideológicos aparecem. É aí que ficamos sabendo que as pessoas que fizeram o filme pensam que aquela arquitetura mais avançada é mais digna de um outro mundo, que pretende ser um mundo corretivo. Mas quem lida com o dia-a-dia da arquitetura sabe que não é assim. Que aquela ostentação, aquela super-tecnologia não está a serviço da elevação do espírito.

      Silvio Colin.

  5. Existe um consciente coletivo a respeito do que é bom, arquitetônicamente falando. E quando não se é da área, é normal ser passivo a isso. Acontece que quando, pelo contrário, se é da área tendemos a olhar com olhos críticos. Exemplo prático:
    Se você sentir uma dor de cabeça muito forte e contar isso pra um amigo seu, ele abrirá a mochila, pegará o anestésico que ele está acostumado a usar e te oferecerá. Agora, se você conta ao seu médico o fato de estar com dor de cabeça, ele te passará exames pra encontrar o motivo da dor. Ele tende a ser mais específico, pois é especialista naquilo.

    Não acho que um filme precise pre preocupar com isso, por ser fantasioso. E sou ateu demais pra discutir como seria uma “cidade do além”, mas tenho certeza que se ele quisesse representar isso da melhor forma possível, ele poderia consultar uns especialistas. Assim como ele contrata maquiadores, figurinistas, atores, etc. Cada um especialista em sua área.

  6. Na verdade as obras arquitetônicas de Nosso Lar foram desenhadas há anos atrás baseadas nas construções também feitas há muitos anos atrás no plano espiritual. É como se essas obras fosse futuristas para o tempo em que André Luiz estava encarnado. Afinal, aquelas obras arquitetônicas do filme foram baseadas em desenhos feitos por André Luiz e psicografados. A “frieza” do hospital é pelo fato da cor azul sinalizar recuperação, se não me engano.

  7. Olá, estou formando em arquitetura e sou espírita, portanto me interesso muito pela discussão da arquitetura em outros planos de vida. Com relação ao que foi dito pelo Silvio, eu concordo e discordo em algumas questões. Inicialmente gostaria de dizer que qualquer tema ou assunto só cresce quando há discussão e troca de pontos de vista, e quem ganha com isso é a arquitetura, este deve ser o objetivo maior. Com relação ao filme, não vejo a arquitetura nele como algo monumental que tende para o lado imperativo aliado ao uso da alta tecnologia. A principio pode-se enganar com essa visão superficial, mas para quem está por dentro da história e dos conceitos morais que o filme quer passar, consegue ver que a arquitetura está aliada as pessoas. O fato de ser tudo “high tech” é algo natural do progresso e das edificações da colônia, e não volumetrias para “encher os olhos”, mas não conseguimos ver isso porque o diferente o “moderno” nos fascina tanto que nos desviamos do objetivo principal. Concordo com o amigo Ronaldo em seu comentário, como então representar algo que desconhecemos quase totalmente ? A arquitetura do filme foi baseada em conceitos que considero brilhantes, como a leveza da obra de Oscar Niemeyer e as formas intrigantes das obras de Santiago Calatrava. Portanto chego a conclusão que o diretor ou seja la quem criou o cenário, foi muito feliz. A arquitetura que penso hoje, é uma arquitetura que deve estar ligada à espiritualidade, nao deve ser apenas material, deve se mover, se transformar, não deve ser extática, deve sim utilizar-se da mais alta tecnologia, mas com o objetivo que progredir a humanidade nas leis de Cristo.

    Continue com o blog caro Silvio, precisamos destes debates!
    um abraço!

  8. Somente uma observação. Este artigo é sobre arquitetura, não sobre Espiritualidade ou Espiritismo. É somente sobre arquitetura que me sinto qualificado para discutir. A arquitetura apresentada no lar espiritual do filme não é necessariamente uma arquitetura avançada, mas apenas uma representação de que seria uma arquitetura avançada. Assim como a arquitetura de Calatrava não é uma arquitetura avançada, mas apenas uma representação. Este arquiteto trabalha com idéias velhas de um século, e as veste com formas novas.

  9. Pelo que percebi, no Nosso Lar existe uma tecnologia mais avançada do que existe na Terra, pelo que já li sobre o assunto, existe em vários níveis onde se encontram as colônias espíritas, as mais perto da Terra são mais materiais, as que estão mais longe, são menos materiais, mais “energéticas”. Vocês conhecem o Projeto Vênus? Quem não conhece deveria procurar mais a respeito… é muito parecido com a cidade do Nosso Lar e pelo que pesquisei, não tem nada haver com espiritismo ou qualquer religião. É uma nova forma de viver no planeta, com economia baseada em recursos, sem dinheiro e desigualdades com o uso da tecnologia para assegurar que tudo seja provido com equilíbrio, vale a pena pesquisar mais a respeito… afinal, a tecnologia tem que ser usada a favor da humanidade e do planeta, ela existe para o bem estar de todos.

  10. Pesquisei na também que no início “Nosso Lar” era uma aldeia indígena, e foi sendo construída ao longo do tempo, não sou especialista em espiritismo… só estou falando sobre o que já li a respeito… é interessante estudar o assunto pra ter um entendimento.. afinal a resposta para as famosas perguntas: “o que somos? pra onde vamos?” pode estar na nossa frente.

  11. OK, bom texto, Silvio Colin, sou espirita e tb estudante de arquitetura. Pensando em uma analise arquitetônica,sim as construções remetidas podem ser consideradas validas a meu ver…E depois a visão humana é bem limitada. O filme se passa antes da segunda guerra mundial, para época muito pode considerar-se bem tecnológico…Quem garante q os arquitetos acima citados não vieram de lá e reencarnaram novamente trazendo suas lembranças…

  12. Vinícius Leandro

    Olá professor, você compara as belezas arquitetônicas de Nosso Lar com as da Terra argumentando que a nossa própria chega a superar a arquitetura de Nosso Lar. Mas vale lembrar que o momento em que André Luiz estava na Colônia era equivalente ao ano da segunda guerra mundial na Terra, logo nessa época ainda nossa arquitetura não chegava a se comparar com a da cidade espiritual, por isso a comparação que o filme trouxe, e Lizias num determinando momento disse que em breve engenheiros reencarnariam na terra. Talvez estes engenheiros já vieram… E ainda hoja a tecnologia de Nosso Lar permanece mais evoluída, levando em consideração a forma de energia dentre outros inúmeros fatores. Paz e bem!

  13. DIEGO SILVEIRA PEREIRA

    Tu viu o filme pensando nos dias de hoje, sendo que o filme/livro se passa na época da segunda guerra mundial. Tu apenas se atentou as detalhes arquitetônicos e esqueceu de detalhes expressados no filme. Plano espiritual é mais evoluído que o nosso plano terrestre, logo, na época que André Luiz desencarnou, o plano espiritual estava a frente da atual realidade que se encontrava o plano terrestre. Então não é decepcionante a arquitetura que se falava no filme.

    • Diego
      O meu blog é sobre Arquitetura, não sobre Espiritismo. E eu estou falando sobre um imaginário de produtores de um filme feito nos dias de hoje e que cometeram equívocos arquitetônicos. Será que é tão difícil ver isto? Longe de mim criticar André Luiz ou a obra escrita Nosso Lar. Eu falei do desenho de produção do filme. Somente isto.
      Agora: não é “Tu viu” e sim “Tu viste”. Não é “Tu apenas se atentou as detalhes arquitetônicos e esqueceu…” e sim ” Tu apenas atentaste aos detalhes arquitetônicos e esqueceste… Vamos respeitar a nossa língua pelo menos.

  14. Renato Labaro

    Como a colônia é supostamente construída ao longo do tempo, se foi algo como o que o filme mostra na época da segunda guerra, hoje, logicamente, poderia ter uma arquitetura que supera qualquer previsão criativa.

  15. Cheguei a este blog em pesquisa para meu trabalho sobre Gestão Participativa no Municípios, onde não apenas o Orçamento deveria ser alvo desse direito, mas também todo o planejamento urbano amparado pela Agenda 21 deveria ser participativo. Dessa forma avaliando a total inexistência de crescimento em real equilíbrio ecológico-urbano nas grandes cidades no Brasil, pesquisei a arquitetura urbana de Brasília, a que mais se esforçou pela questão do planejamento.

    Agora essa estrutura urbana de cidade relatada no Nosso Lar, não seus detalhes internos e edificações – deduções do autor do filme e sua equipe de design – mas do formato estrelar, achei perfeito para equilibrar o crescimento urbano intercalando com vegetações em faixas crescentes. Ou seja, a cidade pode crescer, basta respeitar as linhas “estrelares” de área urbana intercalada com áreas de vegetação. No meu ponto de visto, essa estrutura forma um equilíbrio urbano único e exemplo de arquitetura urbana. Muito interessante.

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