Ecletismo na arquitetura II

 

Silvio Colin

Para o bom entendimento da arquitetura eclética cumpre distingui-la dos revivalismos da primeira metade do século XIX: a chamada “Batalha dos Estilos”. Esses revivalismos eram lastreados por uma posição teórica, tão firme quanto possível, na época, e em muito diferente das posições do Ecletismo.

O revivalismo é uma prática arquitetônica que consiste no uso de formas, figuras e soluções técnicas de uma determinada época do passado, admiradas por sua excelência, para solução de um problema presente. O primeiro revivalismo desse momento histórico foi o Neoclassicismo, motivado pelo Iluminismo, pela cultura acadêmica dos enciclopedistas, e pela Arqueologia científica. Aspirava à substituição da linguagem barroca tardia, então desgastada e repudiada, juntamente com a aristocracia e o clero “de direito divino”, que estavam sendo derrotados pelas forças burguesas e pequeno-burguesas.

Neoclassicismo: Petit Trianon, Versailles, 1762-68. Jacques-Ange Gabriel.
Imagem: http://www.tam.itesm.mx

 

Neoclassicismo: Portão de Brandemburgo. Berlim, 1888. Karl Gottard Langhans. Imagem: http://www.michaeltaylor.ca

Neoclassicismo: Pórtico da Glória. Munique, 1843-53. Leo von Klenze.
Imagem Corbis in www.brynmawr.edu

Muito cedo, esse revivalismo engendrou – por um processo de antítese –, a um outro, seu oposto histórico: o Neogótico. Este último apresentou-se, em diversas versões, com fundamentos bastante distintos. Tínhamos então o Eclesiologismo de Augustus Pugin, voltado para a criação de padrões, sobretudo para igrejas, inspirados no gótico francês. A seguir, tínhamos o culturalismo de John Ruskin, trazendo as figuras do gótico veneziano para representar um atitude cultural anti-máquina e um retorno à produção corporativa medieval. Por fim, tínhamos o construtivismo de Viollet-le-Duc, para quem eram as estruturas vetoriais góticas, e não as formas e figuras, o que interessava resgatar.

 

Neogótico: Igreja de St. Giles. Staffordshire, 1841-46. Augustus Pugin,
Imagem: http://www.vitorianweb.org

Neogótico: Town Hall. Manchester, 1868. Alfred Waterhouse,
Imagem: www.prokop.co.uk
A grande diferença entre esses revivalismos – Neoclássico e Neogótico – e as práticas do Ecletismo, é que os primeiros são muito mais fundamentados, ideológica e arqueologicamente, exigindo dos arquitetos uma grande cultura específica, calcada em pesquisas dos edifícios antigos, e criando cânones estéticos bastante claros – uma atitude intelectual e especializada.

Com relação ao Ecletismo, não podemos falar literalmente de um revivalismo, pois já não interessava a volta de um momento específico do passado e de sua arquitetura. Mais apropriado é falarmos de  um “historicismo”. A História Ocidental, neste caso, é vista como um todo, acreditando-se que a solução para um determinado problema formal, técnico ou estilístico, já foi encontrada em algum momento passado. Não há, aí, a preocupação fundamentalista de princípios morais, éticos ou econômicos. A arquitetura historicista volta-se mais para a “poética” dos estilos.

A arquitetura Eclética baseia sua estética na Teoria do Associacionismo. Segundo esta, o prazer estético estaria fundado em associações mentais que a figura observada provoca no observador, tornando presentes, na mente, princípios, idéias, imagens, símbolos e impressões já vividas ou experimentadas e, conseqüentemente, as emoções originais. A partir daí, criou-se um código estilístico para orientar as práticas ecléticas.

 


Bibliografia

BENEVOLO, Leonardo. História da Arquitetura Moderna. São Paulo: Perspectiva, 1976.

CROOK, J. Mordaunt. The Dilema of Style. Chicago: University of Chicago, 1987.

MIGNOT, Claude. Architecture of the 19th Century. Colônia: Evergreen, 1994.

PATETTA, Luciano. “Considerações sobre o ecletismo na Europa”. In: FABRIS, Annatereza (org.) Ecletismo na Arquitetura Brasileira. São Paulo: Nobel & EDUSP, 1987.

PATETTA, Luciano. L’Architettura dell’Ecletismo: fonti, teorie, modelli: 1750-1900. Milão: Gabriele Mazzotta, 1975.

VITRUVIO, Marco Pollio & MORGAN, Morris Hicky. The Ten Books of Architecture. Nova Iorque: Dover, 1960.

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