Ecletismo na arquitetura III

Silvio Colin

Os códigos estilísticos, ou tipologia estilística, não são um fato novo na Arquitetura ocidental. Vitrúvio já os mencionava, ao dizer que a ordem dórica deveria exibir “as proporções, força e beleza do corpo do homem”; a ordem jônica manifestava “a esbeltez da mulher”; a ordem coríntia “admitia efeitos mais belos”, inspirando-se “nos contornos e membros de uma donzela” [1]. Nesta linha, Serlio [2] interpretava o mestre com cores católicas sugerindo a ordem dórica para “Jesus Cristo, São Pedro, São Paulo e santos mais viris”; a ordem jônica para Nossa Senhora, santas matronas e santos mais “doces”; a ordem coríntia para “santas donzelas”. No século XIX, os códigos estilísticos foram ampliados, não somente no sentido vertical, incluindo o Egito e as arquiteturas medievais, como também horizontalmente, incluindo as arquiteturas exóticas da Índia, China, Japão, Islã etc. É a partir desta inclusão que passamos a falar de ‘Ecletismo’.

As características arquitetônicas, principalmente, mas também literárias e sócio-culturais, ensejaram a criação de um código estilístico, que resumimos a seguir.

O Neogrego exprime severidade, majestosa simplicidade, pureza, severidade, moderação, moralidade e atemporalidade. Era o estilo preferido para instituições financeiras, monumentos comemorativos, memoriais e Academias. Seu uso em outros programas, sobretudo religiosos, como a Igreja de Madeleine, em Paris, não está ligado à tipologia estilística, mas ao pensamento revivalista neoclássico. Os edifícios típicos desta tendência são o templo retangular períptero [3], ou apenas o seu pórtico principal, o templo circular períptero [4],  o propileu [5] etc.

Igreja de Madeleine, em Paris.
Projeto: Pierre-Alexandre Vignon, 1806-42.
Imagem: http://www.bigfoto.com

O Neo-Romano inspira-se na descoberta arqueológica das ruínas de Herculano, em 1719,  da Vila Adriano, em 1737, e de Pompéia, em 1748. O edifício romano usa os elementos típicos gregos, mas lhes acrescenta o uso de arcos. Muitas vezes, o uso das ordens (colunas, arquitraves etc.) aparece em forma de pilastras e modinatura. O espírito prático e objetivo dos romanos, e a herança etrusca de grandes construtores, vão oferecer uma alternativa à severidade viril grega, acrescentando-lhe a retórica magnificente, a maior articulação e a monumentalidade espacial. Os edifícios típicos romanos são o arco do triunfo, a basílica, as termas, o panteon e a casa de pátio, entre outros, utilizados no século XIX para temas institucionais como capitólios, foros, academias, e qualquer tipo de edifício civil monumental, além da tradicional basílica, para templos religiosos católicos e protestantes.

Panteon de Paris. 1964-90. Arquiteto Jacques- Germain Soufflot Imagens (E) upload.wikimedia.org (D) http://www.planetware.com


O Neo-renascimento vai acrescentar, à galeria de tipos estilísticos, o palazzo [6] e a composição astilar [7], utilizados de forma insistente para todos os programas oitocentistas, inclusive na aplicação de fachadas para as construções politécnicas – estações, mercados, galerias. Na teoria associacionista, o Renascimento significa o mercantilismo, a visão prática, a construção econômica.

Reform Club, em Londres.
Projeto: Sir Chales Barry, 1837.
Imagem: http://www.victorianweb.org

O Neobarroco tem como inspiração a arquitetura setecentista, que está ligada socialmente à aristocracia em seu melhor momento, religiosamente, à contra-reforma e às ordens seculares. Ressalta o desenho individual, o capricho, o artifício, o drama. É a arquitetura dos grandes efeitos de perspectiva, da espacialidade, tanto internamente quanto com relação à cidade. Grandes edifícios barrocos, igrejas [8], palácios [9], vão emprestar seus elementos – volutas, frontões sinuosos, colunatas de colunas duplas, para grandes equipamentos urbanos de lazer e cultura – óperas, grandes teatros, museus, academias, palácios para fins governamentais e residenciais, e mesmo para catedrais.

Grande Ópera de Paris.
Projeto: Charles Garnier, 1860-74.
Imagem: http://www.visitarparis.com

O Neogótico é a arquitetura do final da Idade Média, tal como relida no século XIX. É talvez a maior influência estilística a compor o extenso quadro da teoria associacionista do Ecletismo. Dadas as suas múltiplas leituras – como ponto alto da representação arquitetônica da fé católica, como representante do sistema de produção corporativo medieval, como culminação da construção em pedra e, finalmente, pela exposição e tratamento estético das estruturas vetoriais, ela vai sobreviver ao esgotamento das práticas revivalistas das primeiras décadas para incorporar-se à galeria de estilos ecléticos, e mesmo nas poéticas paralelas do Art Nouveau, e ao vernacular inglês do movimento Arts & Crafts. Suas principais figuras características são a ogiva, a torre agulhada, a rosácea, o trifólio, advindos da arquitetura religiosa, e a torre e os muros de cimalha serrilhada, dos castelos medievais. Estas serão incorporadas à  coleção de figuras à disposição do arquiteto, representando ora a religiosidade, em igrejas, ora a inexpugnabilidade dos castelos, em prisões e quartéis. Mais raras são as ocasiões em que o estilo é invocado apenas pela sua mensagem pitoresca, oriunda das construções de follies [10].

Embora sem a abrangência do Neogótico, a arquitetura Neo-românica vai dividir com este a preferência dos arquitetos ecléticos, neste caso restringindo-se quase sempre a motivos religiosos e, raramente, a programas militares. Na teoria associacionista, enquanto o gótico representa a exuberância, a luz e a verticalidade, o românico representa o fechamento e a interiorização. Os edifícios românicos são muitas vezes “fortalezas de Deus”. O uso do arco de meia volta, em lugar da ogiva, e a predominância de cheios são as principais diferenças. Outras características derivam das práticas construtivas românicas e de seu figurativismo próprio. No primeiro caso, temos o uso do arco triunfal, também chamado arco do cruzeiro, os contrafortes, ao invés dos arcos botantes, e a abóbada de berço, substituindo, às vezes, as abóbadas de arestas. No segundo caso, temos os capitéis cúbicos, de flautas, historiados, as galerias, as arquivoltas, os intra-dorsos escalonados em meia volta, e uma grande coleção de frisos.

Royce Hall,  Universidade da California, Los Angeles. 1929. Arquiteto Allison & Allison. Imagem http://www.the-doors-world.com

A Egiptologia, um dos primeiros grandes temas da Arqueologia científica, vai inspirar o Neo-Egípcio. Tem grande incremento nos tempos do Primeiro Império napoleônico, devido em parte à sua campanha militar e ao apreço deste líder por aquela cultura ancestral. Grandes arquitetos do Império, como Etiènne Boullée, J-N. Ledoux, Percier e Fontaine [11], trabalharam com as figuras típicas da arquitetura egípcia – a pirâmide, a mastaba, a esfinge, o obelisco, os pilones [12], os capitéis em forma de papiro ou lótus, e a sala hipostila [13]. Segundo a teoria associacionista, em sua simplicidade geométrica e monumentalidade, a cultura egípcia significa a austeridade, o arcaico, o bíblico, o sobrenatural, o colossal, o majestoso. Entre outros programas, a arquitetura egípcia é invocada para servir de modelo para tumbas e mausoléus – a guarda do corpo físico invocado pelas pirâmides, mastabas e múmias, e sua crença nos dois mundos –, para penitenciárias – pela impenetrabilidade e fechamento –, para cortes de justiças – invocando os valores primordiais e a força –, e para bibliotecas – pela associação com a Biblioteca de Alexandria. Os pilones são, muitas vezes, utilizados por sua qualidade simbólica, marcando uma entrada importante e, às vezes, por sua qualidade estática, como esteios de pontes pênseis, por exemplo.

Penienciária de Trenton. Arquiteto John Haviland. 1833-6

Posteriormente, o revivalismo egípcio gozou de grande popularidade. As expedições, já no século XX, que levaram à descoberta do túmulo de Tutancamon conduziu a outro revivalismo.

Teatro Grauman. Los Angeles. 1922. Imagem en. wikipedia.org

O Neomourisco é a principal aplicação de motivos orientais utilizados no Ecletismo. A arquitetura muçulmana vai prover as figuras do arco lanceolado, do arco ultrapassado abatido e de curva plena, das cúpulas em forma de bulbo e hemisféricas, em forma de sino e de cebola, do minarete, e dos gabletes [14] rendilhados. É também a fonte de inspiração das paredes policrômicas e das superfícies cobertas de relevos geométricos. Nos códigos estilísticos, o mourisco assume as características atribuídas emblematicamente ao povo árabe – possivelmente através da Literatura [15] , da sensualidade, da lascívia, do gosto pelo prazer erótico e hedonista, das festas intermináveis, do luxo e da luxúria, do prazer mundano. Foi utilizado no Pavilhão Real de Brighton e, daí, para residências de campo, palacetes, cafés-concerto e cabarés.

Pavilhão Real de Brighton. Arquiteto John Nash. 1815-22 Imagem <factoidz.com>

A arquitetura indiana, apesar de vir de uma cultura bastante própria, com formas arquitetônicas bem características, relacionadas com o Hinduismo e Budismo, não vai servir, significativamente, à tipologia estilística européia. Para este fim, a arquitetura indiana é sempre referida em sua vertente islâmica, onde se destacam as cidades de Agra e Déli, a primeira com o magnífico Tadj Mahal. As fontes ecléticas do Neo-Indiano são constantemente associadas às islâmicas [16], e simplificadas com o epíteto arquitetura mourisco-indiana. Se diferenças existem na teoria associacionista, poderíamos dizer que o mourisco representa a parte mais mundana, e o indiano a parte mística e transcendental desta vertente cultural. É, ainda, da dominação inglesa na Índia que vem o bangalô [17], tipo de habitação individual que vai aumentar uma galeria já extensa que incluía as villas e villinos, os challets, os cottages, as mannor houses, e as maisonettes.

Estas são as principais fontes estilísticas do Ecletismo, embora haja outras, como a arquitetura chinesa e japonesa, principalmente relacionadas com o Paisagismo e a jardinagem, compondo pontos de atração em parques públicos e jardins particulares, a chamada poética do pitoresco, do século XVIII.

CONTINUA

NOTAS

[1] VITRUVIO, Marco Pollio & MORGAN, Morris Hicky. The Ten Books of Architecture. Nova Iorque: Dover, 1960; p.104 e seg.
[2]  Sebastiano Serlio (1475-1554). Arquiteto renascentista italiano, nascido na Bolonha, e um dos mais importantes divulgadores do Renascimento na França. Escreveu uma versão atualizada dos livros de Vitruvio, em 7 volumes, que publicou a partir de 1537. A edição somente seria completada após sua morte.
[3] Templo períptero: edifício de um pavimento, cujos elementos principais são uma sala central fechada – a cela – e uma colunata externa contínua – o peristilo.
[4]  Idem, com a cela e a colunata circulares.
[5]  Entrada monumental, a uma cidadela ou a um lugar sagrado, composto de colunata e arquitrave. A Porta de Brandemburgo segue este tipo.
[6]  Edifício de três pavimentos, com a divisa frontal faceando a calçada, e as divisas laterais. A forma retangular da planta envolve uma abertura central, um pátio.
[7] De a-stylo: sem estilo, isto é, sem as ordens clássicas – dórica, jônica e coríntia.
[8] Por exemplo, São Pedro de Roma, Santa-Maria-della-Salute, Santo André do Quirinal, São Carlo-alle-Quatro-Fontane.
[9] Versailles, Blenheim, Louvre.
[10] Literalmente, ‘loucuras’. As follies se constituíam, nos séculos XVIII e XIX, em pontos de atração das propriedades particulares ou parques públicos. Ruínas autênticas ou simulacros destas, de partes de edifícios históricos como aquedutos, pedaços de pórticos, simples capitéis, fustes de colunas gregas ou romanas, grutas rococós, vacarias góticas, cabanas rústicas, celas de eremitas, sem falar em edículas, como caramanchões, pérgulas e casas de chá. De inspiração menos bizarra, porém não menos exótica, são os pagodes chineses, gazebos hindus e pavilhões egípcios.
[11] Estes últimos, criadores do chamado Estilo Império, que se utiliza de muitas figuras egípcias.
[12] Porta monumental, composta de duas grandes massas de alvenaria, com empenas ligeiramente inclinadas.
[13]  Grande espaço fechado, onde um teto plano é sustentado por várias séries de colunas.
[14]  Parte superior de um arco.
[15] Veja-se As Mil e Uma Noites e as quadras céticas de Omar Khayam.
[16]  A Índia foi invadida pelos muçulmanos – turcos, persas, afegãos e mongóis, num processo crescente, que durou de 1206 a 1772, ferindo de morte a cultura budista.
[17]  Bangalô – do marata bangala –: habitação indiana, pequena e leve, de apenas um pavimento, cercada de varandas.
BIBLIOGRAFIA DE REFERÊNCIA
BENEVOLO, Leonardo. História da Arquitetura Moderna. São Paulo: Perspectiva, 1976.
CROOK, J. Mordaunt. The Dilema of Style. Chicago: University of Chicago, 1987.
MIGNOT, Claude. Architecture of the 19th Century. Colônia: Evergreen, 1994.
PATETTA, Luciano. “Considerações sobre o ecletismo na Europa”. In: FABRIS, Annatereza (org.) Ecletismo na Arquitetura Brasileira. São Paulo: Nobel & EDUSP, 1987.
PATETTA, Luciano. L’Architettura dell’Ecletismo: fonti, teorie, modelli: 1750-1900. Milão: Gabriele Mazzotta, 1975.
VITRUVIO, Marco Pollio & MORGAN, Morris Hicky. The Ten Books of Architecture. Nova Iorque: Dover, 1960.
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2 Respostas para “Ecletismo na arquitetura III

  1. Um exemplo de arquitetura neomourisca aqui no Rio de Janeiro é a Igreja do Imaculado Coração de Maria, no bairro do Méier, certo?

    • Oi SuelAcho que sim, embora no me lembre bem. Sei que ela tem uns arcos ultrapassados, que so caracterstica do mourisco. Mas ela tem alguma coisa de romnico, talvez. O ecletismo era assim, sobretudo o ecletismo tardio, quando se misturavam vrias fontes imagsticas. O edifcio cannico do neomourisco aqui no Rio a Sede do Instituto Oswaldo Cruz em Manguinhos. Havia um outro, o Caf Mourisco, no trecho de Botafogo que tem este nome, mas que foi demolido para a construo do Tnel do Pasmado. Farei um post sobre o Caf Mourisco um dia.Obrigado pelo comentrio.Abrao

      Silvio ColinTel. 2254-9844 Cel.7608-4087

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