A casa modernista da Rua Itápolis

Imagem <www.designatento.com>

A casa da Rua Itápolis é  um marco  do Movimento Moderno no Brasil. Gregori Warchavchik, desde sua chegada ao Brasil foi um batalhador, através de ensaios publicados nos periódicos da época. Foi precedida por outras, como a Casa da rua Santa Cruz, em Vila Mariana, de 1927, onde residiu,  e a casa de Max Graf, de 1928. Estas anteriores não possuem ainda uma linguagem tão amadurecida. A casa da rua Santa Cruz, p. e. é uma composição clássica, e uma construção tradicional.

A casa foi inaugurada em 26 de março de 1930, com uma exposição. Abaixo estão alguns registros da época com depoimentos de celebridades como Le Corbusier, Richard Neutra e os epígonos da Arte Moderna da Semana de 1922, Oswald de Andrade, Mario de Andrade, Menotti del Picchia, bem como o ataque de Chistiano das Neves.

O material foi publicado na revista A Casa, em 1945.

Ao traçar esta planta, o arquiteto procurou resolver de maneira mais estética possível um problema funcional e econômico. Suas pesquisas resultaram nesta.  Alterando a tradição, eliminou os corredores, aproveitando o espaço. A planta da casa pequena e extremamente econômica foi adotada, em sua linha básica, e passou a ser utilizada na arquitetura paulistana. Um nôvo tipo de arquitetura nascera.
“A arquitetura tinha degenerado por toda parte, mas sobretudo entre nós, num fachadismo de tal ordem, que já não fazia pensar em construção: era já pura cenografia. A nossa gente abastada parece viver atrás de uma fachada. Felizmente, há hoje, na Europa, uma corrente muito forte que se esforça por adaptar a arte da construção ao padrão da vida moderna. Para esses artistas que vivem bem o seu tempo, a arquitetura deixou de ser o baile de máscaras dos estilo dessuetos, tão poéticos. Arquitetura é construção, desenvolvendo-se logicamente de dentro para tora, sendo a fachada apenas conseqüência do plano de distribuição interior. Essa arquitetura nova se caracteriza pelo desprezo absoluto do preconceito decorativo.

Ela está na realidade, criando o estilo da nossa época, valendo-se dos materiais novos, ferro, cimento, vidro, como o permite o Imenso progresso da técnica industrial, e satisfazendo as necessidades de simplificação, lógica, higiene e economia em que se funda o espírito esportivo do mundo moderno.
Os que vivem suspirando por poesia, e para quem poesia é fachada, acharão secas e sem graça as casas de Warchavchik: mas as pessoas que as visitam por dentro ficam encantadas: sentem que ali se viverá com inteiro conforto a vida dos nossos dias. E os que aceitam as formas modernas, com o gosto da vida moderna, esses acham deliciosas as surpresas de Warchavchik, obtidas por meio dos lementos geométricos mais simples e mais puros.”
“Forma, revista de arte e arquitetura”, Rio de Janeiro, setembro de 1930).

Opiniões sobre a Casa Modernista em 1930

LE CORBUSIER

Uma reportagem publicada no «Diário da Noite» a 22 de novembro de 1929. registrando as impressões de Le Corbusier em visita às casas projetadas e construídas por Warchavchik, o crítico de arte Geraldo Ferraz escrevia acêrca da residência da rua Melo Alves : «Le Corbusier e os que o acompanham rondam a casa branca e vermelha no meio do jardim alegre. Le Corbusier gostou dêste conjunto de linhas e planos porque todo êle é de uma unidade excepcional, realçada pelo fundo verde da vegetação. A côr vermelha das venezianas sobre o fundo branco agrada muito ao pioneiro da arquitetura contemporânea, ao doutrinador da revista “L’Esprit Nouveau» de Paris. Ele acha . . . «que o proprietário da casa deve possuir bastante cultura para aceitar tantas inovações arquitetônicas!» A seguir, visitando outra casa, e fazendo comentários sobre ela, acha certas analogias nos trabalhos de Warchavchik com os de Mallet Stevens».
Le Corbusier visitou esta casa, quando ainda em construção, em novembro de 1929, e elogiou a plasticidade deste muro em curva, que separa o jardim social do quintal de serviço.
« … e pairando numa organização de poesia, de serenidade. de conforto, de atualismo, a personalidade tremenda de Warchavchik, que se dissimula nos móveis. paira nas cortinas, floresce nos cactus dos jardins, e reune a copa, a escada, a aragem e os dormitórios, num sossêgo bom e esportivo».
(Extraído dum artigo de Oswald de Andrade. «O Jornal». Rio de Janeiro». 19 de abril de 1930).

 
 
RICHARD NEUTRA

 
O prefeito do anterior regime, Prestes Maia, é um engenheiro com forte tendência à planificação. A sua administração dotou São Paulo de avenidas circulares e outras artérias, pontes e túneis, retificação de rios, etc. Mas São Paulo, a capital de um Estado que tem um futuro imenso, até hoje não possui um departamento de planejamento, nem mesmo zoneamento. As nossas congratulações têm que ser dirigidas àquelas incipientes organizações cívicas, como o Departamento de Habitação e outras, que estão procurando sanear estas falhas, e o Instituto Brasileiro de Arquitetos, do qual Eduardo Kneese de Mello é presidente e o pioneiro da arquitetura contemporânea no Brasil, Gregori Warchavchik, Rino Levi e muitos outros profissionais estudiosos e capazes são membros ativos»,
Richard Neutra, quando de sua visita a São Paulo, numa entrevista concedida ao jornal O Estado de S. Paulo, publicada em 18 de novembro de 1945, assim se referiu à atuação de Warchavchik no Brasil: «Não será possível deixar-se de assinalar o quanto contribuiu Gregori Warchavchik para o desenvolvimento da arquitetura brasileira em geral e, em particular da de São Paulo. Sem dúvida, porém, sua técnica não teria logrado o êxito que se pôde observar, não tivesse êle encontrado aqui ambiente propício ao seu desenvolvimento, não apenas material, como também espiritual. Com a sua faculdade criadora que se anuncia com característicos que diferenciam a arquitetura brasileira, notadamente a de São Paulo, da dos demais centros latino-americanos”.
«Observações sôbre a América Latina». Revista Progressive Architecture, maio de 1946, Nova Iorque.


MÁRIO DE ANDRADE

«Arquiteto de tendências novíssimas é Gregori Warchavchik, que naquela época (1930) construiu à rua Itápolis a primeira casa em São Paulo, de linhas absolutamente diferentes, Êle tem o dom maravilhoso de casar suas construções com a natureza, do modo mais imprevisto e agradável possível.»
Trechos do artigo de Mário de Andrade. «Rápido Histórico do Movimento em São Paulo», Planalto nº 19. 1945)


OSWALD DE ANDRADE

A casa modernista de Warchavchik não se poderá nunca perder, como não se perderá Le Corbusier, na massa de construção de estilo geométrico que inundará sem dúvida São Paulo, a América, Sydney, Jaboticabal e Rouen, dentro de alguns anos. Mario (Mario de Andrade, Nota do Autor), ai confunde o valor técnico de Warchavchik, que um ou outro bom construtor também poderá garantir para as suas encomendas – com a personalidade de Warchavchik, que é para mim de alta poesia.
Por exemplo, a bandeja geográfica em que Warchavchik sitúa as suas construções, o encaixotamento vivo dos volumes, em que êle arma a obra vivíssima, a cor distribuída nos interiores, as vidraças de luz artificial.
A casa de Warchavchik encerra o ciclo de combate à velharia, iniciado por um grupo audacioso , no Teatro Municipal, em fevereiro de 1926. É a despedida de uma época de fúria demonstrativa.
Da «Semana de Arte Moderna» à casa vitoriosa de Warchavchik vão oito anos de gritaria para convencer que Brecheret não era  nenhuma blague, que Anita Malfatti era a coisa mais séria dêste mundo, que a literatura da Academia Brasileira de Letras era uma vergonha nacional, etc. etc.

Condensado de um artigo de Oswald de Andrade, «O Jornal». Rio de Janeiro, 19 de abril de 1930.

CHRISTIANO DAS NEVES

Houve ataques à «Casa Modernista» do Pacaembu. Entre eles vários artigos do arquiteto Christiano das Neves. Reproduzimos alguns trechos de um artigo:
«É lamentável Que a Prefeitura tenha permitido a construção dessas casas grotescas, quando o seu Código de Obras Arthur Saboya, no art. 146 determina: O estilo arquitetônico e decorativo é completamente livre, enquanto não se oponha ao decoro e à regra ela arte de construir. A Diretoria de Obras poderá recusar os projetos de fachadas que acusam um flagrante desacordo com os preceitos básicos da  arquitetura. Ora, isto quer dizer que é permitida a construção em qualquer dos estilos arquitetônicos, mas, logicamente, quando ela não obedece a nenhum estilo deve ser proibida. Logo, a casa do Pacaembu não poderia ser construída, porque, não tendo arte, não pode ter estilo. Tal casa está portanto em flagrante desacordo com os preceitos básicos da arquitetura porque não tem beleza».
«Como arquiteto e professor da mal compreendida arte arquitetônica no Brasil, protestamos veementemente que se! Qualifique como obra de arquitetura as tais máquinas de habitar, sensaboronas e feias, atarracadas e banais, que, permanentemente afligirão os nossos olhos. A máquina de habitar do Pacaembu é uma nota dissonante no aristocrático bairro que a Cia. City nos presenteou.
Esta benemérita empresa, que traçou com tanta arte o lindo arrabalde obriga os proprietários a cumprir umas tantas e justas exigências nas construções. É inconcebível que tenha permitido a edificação da «casa mecânica» que, externamente é um mostrengo. Imagine-se o que será essa cidade-jardim se continuarem a aparecer as casas tumulares de cimento armado. Será inevitável a desvalorização desses terrenos, que mais parecerão um prolongamento do cemitério do Araçá».
«Protestamos ainda que se abuse da ingenuidade do nosso povo em matéria que desconhece, impondo-lhe essa insensatez artística e expondo-o ao ridículo perante as pessoas cultas que visitem a nossa cidade».
«A máquina de habitar do Pacaembu», no «Diário de S. Paulo», de 16 de abril de 1930.
MENOTTI DEL PICCHIA

Vi, há dias, na rua Melo Alves, uma casa construída pelo engenheiro  Warchavchik. É uma pequena maravilha. Sua fachada geométrica é de uma eloqüente beleza dentro da rigorosa e absoluta simplicidade das suas linhas. Suas acomodações interiores são esplêndidas. A impressão que dá é de higiene, conforto e bom gosto. Nada ali é demais. Só há o necessário e o que há, harmoniza-se por tal forma com o ambiente que este cria uma alma singular de esplendor e de beleza».

Trechos de um artigo de Menotti del Picchia, sob o pseudônimo «Hélios», «Correio Paulistano», São Paulo, 5 de janeiro de 1929.


São Paulo é o bazar internacional da arquitetura do mundo. Até telhados corta-neves há nas suas habitações. (Colonial, florentino, árabe; Luís XV, todos os mais  arrepiantes arranjos do Barroco, todas as loucuras da decadência). A casa Warchachik é a casa moderna, a utilização técnica do espaço e a ciência da construção posta a serviço do confôrto. Inteligência século XX, utilizada no sentido de tornar a vida cômoda. Domina-a o sentimento arquitetônico, vivendo este da harmonia simplíssima de um lógico  e rigoroso jôgo geométrico. Seus grandes pIanos, suas sábias linhas tomam-na uma jóia. O espírito nosso repousa na visão serena e  forte de sua estruturação .

Trechos de um artigo de Menotti del Picchia, sob o pseudônimo «Hélios», no «Correio Paulistano». São Paulo, 20 de março de 1930.
OSÓRIO CÉSAR

«O ano de 1929 foi o ano em que mais se construiu em São Paulo, com indepência de idéias. Foi bastante elevado o número de casas construídas em São Paulo pelo jovem engenheiro-arquiteto Warchavchik, criador do novo pensamento arquitetônico sul-americano. As suas construções são monumentais e se caracterizam por planta severa e firme de linhas».

Extraído do artigo «Balanço literário e artistico do ano de 1929», Osório César, «São Paulo Jornal», 4 de janeiro de 1930

GUILHERME DE ALMEIDA

«Aquela agradável, simples e exata geometria de cimento, ferro e vidro, assentada firmemente ali, naquele nascente Pacaembu, como uma divisa moderna para um bairro moderno».

Extraído de um artigo de Guilherme de Almeida, «O Estado de S. Paulo». 26 de março de 1930.


PAULO MENDES DE ALMEIDA


«A atividade pioneira do arquiteto Gregori Warchavchik, o autor da primeira casa moderna do Brasil. Isto lá pela altura de 1927-28. É pois de excepcional importância a sua contribuição. Pode-se falar, no Brasil, em arquitetura de antes e de depois de Gregori Warchavchik».

Trecho do artigo “Depois da Semana», suplemento literário do Estado de S. Paulo», 9 de agosto de 1968.


Fotogramas do jornal cinematográfico produzido pela Rossi Filmes por ocasião da inauguração da Casa Modernista, exibido nos cinemas na época.

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4 Respostas para “A casa modernista da Rua Itápolis

  1. GERALDO A. LOBATO FRANCO

    A shot in the dark: por acaso alguém sabe quem assinou a casa, suponho modernista, que existiu da Rua Rita Ludolf 15, Leblon, Rio de Janeiro, entre os anos 30 e os 50 ( mais precisamente, talvez: de 1932 a 1959 ) ?

  2. Existem informações muito erradas nesse artigo.
    Em primeiro lugar, a casa da rua Itápolis não foi o marco da arquitetura moderna no Brasil, e sim a casa da rua Santa Cruz em 1927-28 (obra também de Warchavchik). A casa da rua Itápolis não foi procedida por nenhuma casa da rua Mariana, mas sim sucedeu a casa da rua SANTA CRUZ, QUE FICA NA VILA MARIANA.

  3. A informação quanto à casa na rua Santa Cruz, foi corrigida. Quanto ao restante do comentário, trata-se de opinião de quem o escreveu. A casa da rua Itápolis é realmente um marco. As outras são passos importantes mas que não possuem sua maturidade estilística.

  4. Pingback: São Paulo – Casa de Warchavchik – R. Itápolis, nº 961 | infopatrimônio

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