O Convento de La Tourette e o tema da cruz

Silvio Colin

Publicado em novembro de 2006 no site http://www.vivercidades.org.br .


 

O convento de Sainte-Marie de la Tourette, em Eveux-sur-l’Arbresle, perto de Lyon, começou a ser projetado em 1953 e, em julho de 1959, foi entregue à comunidade dominicana. Obra da maturidade de Le Corbusier, não é somente um dos trabalhos mais importantes do mestre, mas também um dos mais importantes exemplares da Arquitetura do século XX, uma das últimas obras do legítimo modernismo do novecentos a encerrar em seus muros os seus mais sinceros ideais e as suas mais contundentes contradições.

La Tourette é um arquétipo; importante não somente pelo tema, mas também pelo que representa além do tema. Criado para aquele sítio, foi dos edifícios mais imitados pelo mundo afora, durante quase duas décadas. Importante também pelo que evidencia do método de Le Corbusier, pelo seu assumido viés poético, exatamente o que vai diferenciá-lo de seus antigos pares na construção da ideologia arquitetônica moderna dos anos 1920.

A encomenda, feita pela comunidade dominicana, aconteceu em uma época em que os ideais da modernidade pareciam fazer água, em que a crença no progresso infinito da ciência e no avanço da humanidade pelo aprimoramento moral viu-se abalada pela Segunda Guerra Mundial, pairando sobre o mundo a ameaça de destruição. No entanto, o gênio do arquiteto construiu algo tão sólido e permanente, como se quisesse fazer da arquitetura um ponto fixo, um ponto de referência. Não é por acaso que La Tourette é uma das poucas bem sucedidas incursões da arquitetura moderna no tema da religiosidade.

Prefeitura de Boston.Arq. Kallmann, McKinnell & Knowles. Imagem: http://www.bluffton.edu

Religião e modernidade nunca se deram muito bem, e se formos ver os melhores momentos da moderna arquitetura religiosa encontraremos belos feitos arquitetônicos, marcos, como a Catedral de Brasília, aos quais não falta plasticidade e beleza. Mas terão religiosidade ? E este atributo não falta a La Tourette, e o faz único. O edifício marcou a arquitetura mundial pelo seu expressionismo técnico, pela maneira abusada como se utilizou o concreto armado; foram construídas ‘la tourettes’ pelo mundo afora¹, mas somente levaram o container. Lá, deixaram o que tem de mais importante: o enfrentamento do tema da religiosidade, por um arquiteto modernista, para quem Deus havia “morrido” há duzentos anos.

Geralmente, costuma-se dividir a obra de Le Corbusier em pelo menos dois períodos: o primeiro, até 1946; e o segundo, daí por diante. Espíritos sensíveis como Le Corbusier ficaram definitivamente abalados com a Segunda Guerra Mundial; ele não mais escreveria, não mais seria o profeta do ‘espírito novo’, embora procurasse afetar o entusiasmo de antes.

Há ruínas, pedras derrubadas, idéias frustradas; mas a forja universal está funcionando a toda velocidade. Dêem-lhe o que fazer. Trabalhem. Criemos os instrumentos da felicidade… ²

Embora tenha ficado muito do jovem racionalista, muita coisa seria diferente. O ponto de inflexão na obra de Corbusier é a Unidade de Habitação de Marselha, onde ele começa a aparecer integralmente. Sua pintura e escultura começam a invadir os domínios da arquitetura; o concreto passa a ser pensado não apenas como elemento estrutural, mas explorado em sua expressividade brutalista. É preciso lembrar, entretanto, que esta mudança foi recebida com desconfiança por seus fiéis seguidores, ainda resistentes à inclusão, na arquitetura, de sua poesia rude. Esta desconfiança transformou-se em perplexidade quando foi apresentada ao mundo a Igreja de Notre-Dame du Haut, em Ronchamp, no início dos anos 1950: nada de machine a habiter, ou ‘cinco princípios’, mas a rude poesia da construção vernacular mediterrânea, firmemente plantada no solo, sem um ângulo reto sequer, ou uma única superfície plana.

A questão da religiosidade foi tratada com mestria por Corbu, tanto em Ronchamp como em La Tourette e, já nesta época, desenvolvia um método ‘psicológico’ de lidar com seus temas, procurando captar formas e elementos do imaginário coletivo, em muito diferente do racionalismo-funcionalismo dos anos 1920.

Eu tinha vindo aqui. Trouxe meu caderno de anotações, como de hábito. Desenhei a estrada, desenhei os horizontes, anotei a orientação solar, ‘respirei’ a topografia, decidi o local onde seria, pois o local ainda não estava completamente fixado. Ao escolher o local eu cometi um crime ou um ato de justiça. O primeiro gesto é a escolha, a natureza da implantação e a seguir a natureza da composição que se fará nestas condições. ³

Neste método, atribui-se importante papel à mente inconsciente, em muito diferente do método racionalista-funcionalista que o próprio Le Corbusier ajudara a divulgar, no qual todos os dados necessários ao projeto são racionalizados e sistematizados. E foi talvez estimando a importância dessas percepções mais profundas que o R. P. Le Couturier, ao encomendar o projeto a Le Corbusier, lhe tenha sugerido “morar no silêncio dos homens de oração e estudo, e construir uma igreja para eles”4. O resultado foi um construto pleno de religiosidade e um ícone da moderna arquitetura religiosa.

Mas quais os recursos de que o arquiteto lança mão para dotar o edifício de religiosidade ? Em primeiro lugar, há o cerramento. Paradoxalmente, o lugar mais fechado é a igreja. Nos outros espaços, há sempre o contato com o meio natural; mesmo as celas são dotadas de uma varanda, o que, dito em termos religiosos “envolveria o homem com a grandeza da obra divina”.

La Tourette: interior da igreja. Imagens: http://www.geocities.com & http://www.galinsky.com

A igreja, ao contrário, é envolvida por grossos muros de concreto, qual a cela dos templos gregos, que guardava a divindade. O que é guardado nos pesados muros de concreto ? A religiosidade, o espírito universal, o absoluto. Mas tal grandeza necessita de uma escala que não seja a dos homens. Eis o segundo recurso: a escala. Além dos mais elementares objetos utilitários, o altar, os bancos, os genuflexórios, há apenas o espaço, grandioso e imponente, capaz de conter algo mais do que homens em prece. O espaço é, assim, destituído de seu predicado moderno, o utilitarismo exclusivo.

Temos, a seguir, o despojamento. Sendo mais cara que uma simples parede de alvenaria, a parede de concreto comunica uma idéia de pobreza, juntamente com outros atributos facilmente associáveis à condição divina: a força, a majestade, a atemporalidade. Como se não bastasse, Le Corbusier destaca a pesada laje de seu suporte, como se este não fosse necessário, desmaterializando-a, fazendo-a flutuar.

Por fim, a iluminação natural, num jogo de luzes e sombras em que Le Corbusier sempre foi um mestre. A iluminação natural não depende dos homens; não basta ligar um interruptor. Os homens de fé diriam que é Deus que a provê. Ela não é sempre igual, varia a cada hora do dia, a cada condição climática, fazendo o espaço pulsar em resposta, parecendo menor em condições de pouca iluminação e expandindo-se com a maior intensidade de luz.

Planta do nível 2:

1. Circulação do ‘claustro’ dito ‘em cruz’   2. Átrio   3. Estrutura inferior da capela   4. Igreja.

Todos estes recursos já haviam sido utilizados em Ronchamp, que antecede La Tourette em alguns anos. Aquele, entretanto, é um programa simples e seu ponto de ataque foram as formas inovadoras. La Tourette é complexo e sua aparente simplicidade se deve à inteligente e sensível articulação das questões colocadas.

Há um tema, porém, em que se manifesta toda a contradição que cerca esse projeto, e mesmo algumas questões mais abrangentes relacionadas com a arquitetura – a questão do uso de símbolos – e o agnosticismo comum aos intelectuais modernos. Refiro-me ao tema da cruz, uma das passagens mais interessantes em La Tourette, emblemático da atitude do Movimento Moderno com relação à simbolização.

A interdição ao uso de símbolos, juntamente com qualquer elemento decorativo era ponto de doutrina dos arquitetos do Movimento Moderno. Em parte, isto se devia a uma postura generalizada do ‘homem’ iluminista-positivista, que rejeitava a subjetividade e saudava a objetividade absoluta. Mas, na Arquitetura, o caso adquiria cores próprias, uma vez que o Movimento Moderno, quando do seu aparecimento nas primeiras décadas do século XX, pretendia ser uma alternativa ao academismo de então, completamente dominado pelo Ecletismo arquitetônico. Para este, a simbolização e o associacionismo figurativo eram práticas indispensáveis, mas estavam desgastadas após tantas décadas de uso. Le Corbusier havia sido um dos maiores arautos contra o ornamento na Arquitetura, nos idos dos anos 20. Isto talvez explique sua hesitação com relação ao uso da cruz, um dos símbolos mais fortes da cultura ocidental.

A capela, assente sobre um pilar em cruz. Ver planta baixa, acima. Imagem: http://www.geocities.com

A cruz participa das intenções de Le Corbusier: “Façamos um claustro que seja em cruz, e não em anel. Por que não ?”5 Os monges poderiam responder que a forma em anel é mais conveniente para a oração deambulatória, mas parece que se calaram. E a cruz não apareceria jamais. Em diversos pontos, ela é sugerida e depois evitada, como se o projeto se tratasse de um jogo. Talvez pudéssemos falar, em termos psicanalíticos, de uma revisão secundária, quando a mente libera certas imagens mais profundas ou reprimidas, mas somente depois de um crivo que as altera ou disfarça.

As circulações, ditas “em cruz” pelo próprio Le Corbusier, não se cruzam: o átrio é deslocado para que não haja o cruzamento (espaços 1 e 2 na planta acima). Na própria igreja, um transepto é sugerido, e depois evitado por vários meios: um dos lados será mais largo que o outro, permitindo a evasão do espaço; a iluminação será diferente, com o braço dos altares mais amplo e iluminado do que o braço da sacristia. A única ocasião em que a cruz aparecerá de maneira explícita será na planta do nível 4, como suporte da capela. Esta cruz – desenhada – jamais será visível como tal, de vez que, volumetricamente, o elemento apresentará uma figura diversa (figura 5). Aqueles, entretanto, que conhecem a obra de Le Corbusier, e seu apreço pela planta como elemento definidor de atitudes, sabedores de que muitas vezes o mestre pecou contra a espacialidade e contra a funcionalidade para que o desenho de planta lhe parecesse bem, não negarão significado a esse fato.

 

Elemento da cobertura, com motivo abstrato.
Imagem:
Le Corbusier. Oeuvre Complète en Sept Volumes. Zurique: Artemis, 1966.

Na cobertura, entretanto, existe um motivo decorativo, no topo da caixa da escada, que dá forma definitiva a este jogo da cruz virtual. Composto de linhas horizontais e verticais, estas jamais se cruzam. Não há nenhuma cruz. Mas lá estão várias cruzes sugeridas: a cruz de Santo Antônio, a cruz de São Pedro, a cruz de Lorena, figuras marcantes da iconografia católica, e a cruz suástica, distante da religiosidade católica, mas um ícone marcante, e uma forte presença no imaginário europeu, uma década após o pesadelo nazista.

A figura da cruz está, no motivo de Le Corbusier, obliterada por deslocamentos, inversões e substituições, recursos de disfarce familiares àqueles que lidam com a interpretação das manifestações inconscientes. Quanto à nossa interpretação, trata-se também de uma construção imaginária. Não poderemos jamais saber o que se passou na cabeça do arquiteto. Mas podemos supor que se trata realmente de uma situação relevante, relacionada com um ponto de doutrina do Movimento Moderno, com relação ao simbólico.

 

As diversas cruzes sugeridas no motivo de Le Corbusier.

La Tourette mostra uma maneira original de tratar um problema arquitetônico – um grande platô horizontal elevado sobre pilotis, que se encarregam de acomodá-lo às irregularidades do solo, atitude que, anos depois, foi exaustivamente utilizada pelos arquitetos ligados ao Novo Brutalismo. Além disso, como muitos dos projetos de Le Corbusier, tornou-se uma matriz formal, um modelo de solução, imitado pelo mundo afora. O mestre seria, mais uma vez, o representante de um sentimento coletivo, da saturação com o esvaziamento das mais sólidas propostas da chamada Arquitetura moderna. O arquiteto, em sua última obra publicada ainda em vida, se encontra com seus momentos de juventude, quando ficara profundamente impressionado com o despojamento e simplicidade da Cartuxa de Ema, e compõe uma obra de confrontação e síntese, testemunhando seus derradeiros passos em busca do seu “espaço inefável, que irradia, que não depende mais da extensão, mas de sua qualidade de perfeição” 6.

NOTAS

1.  Sobre as imitações de La Tourette, ver VENTURI, Robert; SCOTT-BROWN, Denise; e IZENOUR, Steven. Learning From Las Vegas. Cambridge, Mass.: 1972; p. 96 ss. Tradução brasileira: Aprendendo com Las Vegas. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

2.  BLAKE, Peter. Os grandes arquitetos. Rio de janeiro: Record, 1966; vol. I, p. 118.

3.  LE CORBUSIER. “J’etais venu ici…” in L’Architecture d’Aujourd’hui, nº249, fev. 1987; p. 36. Paris.

4.  LE CORBUSIER. Oeuvre Complete en Sept Volumes,vol. 6; p. 32. Zurique: Artemis, 1966.

5.  LE CORBUSIER. “J’etais venu ici…” in L’Architecture d’Aujourd’hui, nº249, fev. 1987; p. 36. Paris.

6. LE CORBUSIER. “J’etais venu ici…” in L’Architecture d’Aujourd’hui, nº249, fev. 1987; p. 36. Paris.

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