A fantasia da função

Peter Blake

Do livro Form Follows Fiasco. Boston/Toronto, Atlantic/Little Brown, 1977. P. 15-28. Tradução e edição de Silvio Colin.

A escola de arquitetura em que estudei, nos anos quarenta, estava localizada em um edifício que deve ter sido projetado uns cinqüenta anos antes para abrigar uma escola de odontologia. Eu não consigo imaginar que espécie de dentista aquela estrutura gótica pode ter formado: a acústica era terrível, e o ruído dos motores dos dentistas deveriam reverberar indefinidamente naquelas abóbadas, A luz natural (e artificial) era ainda pior e provavelmente defletia o alvo preciso das brocas. As salas eram sujas, os corredores infestados de cuspideiras e revestidos com um feio papel de  parede esverdeado, e as escadas eram íngremes e escorregadias. Era um edifício tão esquisito que qualquer futuro dentista, com um mínimo de amor próprio trocaria de profissão para alguma coisa relacionada com medicina preventiva.

Apesar disso, talvez por causa disso, a Escola de Arquitetura da Universidade da Pensilvânia era um local maravilhoso para um estudante universitário. Por um lado, era um grande edifício contra o qual se rebelar. Por outro, era um edifício capaz de absorver muitas camadas de pintura, manchas de nanquim e reparos no revestimento sem acusar nenhuma perda de sua dignidade arquitetônica. Na verdade, as diversas camadas de sujeira, contribuição de gerações de estudantes rebeldes acrescentou-lhe certa pátina que, ao invés de detratar, dignificou a ambiência daquele atraente bloco de alvenaria.

Escola de Arte e Arquitetura de Yale. Uma forma complexa contendo espaços complexos – cada qual  modelado para um fim específico.

Há aproximadamente doze anos atrás, Paul Rudolph [1]– um dos melhores arquitetos de sua geração e da minha, inquestionavelmente,  concluiu a nova Escola de Arte e Arquitetura de Yale. Era, e é, um edifício extraordinário, talvez o edifício dos anos sessenta na América. Revelava na composição geral, e em cada detalhe, a influência abrangente de Frank Lloyd Wright e Le Corbusier na época de Rudolph. Sua organização espacial em vinte e oito diferentes níveis era sutil, e seu jogo de luzes, textura e forma era deslumbrante. Não havia um só detalhe, por menor que fosse, que não tenha sido estudado com carinho pelo arquiteto. E seis anos após o início das atividades da brilhante Escola de Arte e Arquitetura de Paul Rudolph, seus estudantes tentaram destruí-la com um incêndio.

Este incrível ato de vandalismo parece sugerir muitas coisas a respeito do estado de Yale, como também a respeito do estado da arquitetura moderna. Sugere, primeiro, que os estudantes de Yale dos idos de 60 eram vândalos, sugere ainda que eram idiotas, uma vez que o edifício era solidamente construído com concreto armado, uma material que não pega fogo facilmente. Mas a par das evidências do baixo padrão intelectual e comportamental de Yale, o declínio, senão a queda da brilhante estrutura de Paul Rudolph evidencia algo mais, ou assim parece.  Parece ser materialmente evidente o divórcio que vem acontecendo há alguns anos entre forma e função na arquitetura.

Ninguém sabe ao certo quem primeiro proclamou que “a forma segue a função”. A maioria dos historiadores pensa que foi Horatio Greenough, e todos concordam que Louis Sullivan, o mestre arquiteto do final do século XIX e início do século XX, fez dele seu slogan, embora não totalmente sua orientação. Como certa vez colocou Marcel Breuer, “Sullivan não comia o seu funcionalismo tão quente quanto o cozinhava!” De qualquer maneira, “a forma segue a função” – ou Funcionalismo – veio a ser o dogma do movimento moderno, desde o seu início. E o que os exemplos da encardida ex-escola de odontologia na Pensilvânia e  o edifício de Paul Rudolph em Yale parecem sugerir, in tandem [2], é que não apenas a forma não segue necessariamente a função, como pode ser sua mortal inimiga.

O edifício de Rudolph já havia sido descaracterizado e brutalizado muito antes que aquele grupo de estudantes, evidentemente sob a influência de algum agente que pudesse alargar suas limitadas percepções, tentassem incendiá-lo. Tinha sido também efetivamente reconstruído por aqueles estudantes: as espaçosas salas de desenho de pé direito duplo havia sido subdividida em pequenas cabanas de compensado – favelas de estudantes – que acabava totalmente com a idéia inicial do projeto, mas aparentemente serviam melhor aos estudantes, ou assim eles pensavam. As paredes de concreto texturizado foram recobertas com grafitti imaginativos, os pisos foram aleatoriamente mijados(sic) ou marcados com goma de mascar e guimbas de cigarros. Sobre os estudantes das chamadas artes aliadas – pintores, escultores, fotógrafos, etc.- estes há muito vinham reclamando da total inadequação de suas acomodações. Rudolph, na verdade, confessou a alguns amigos que, estritamente falando, não considerava estes artistas como aliados.

Escola de Arte e Arquitetura de Yale no processo de descaracterização pelos estudantes.

A partir do dia da Grande Conflagração de Yale, quando aquelas toneladas de concreto se recusaram a pegar fogo, a direção da faculdade completou a tarefa de vandalizar o edifício. Como todas as burocracias, a administração de Yale é apaixonada pela ordem e perturbada pela poesia. Assim a Escola de Artes e Arquitetura foi convertida em um espaço com divisórias de piso a teto convencionais . Apenas dez anos depois de sua inauguração, foi reciclada numa seqüência de gabinetes. No edifício original de Rudolph, o espírito da arquitetura e a genialidade do arquiteto estava em toda parte. E permanece, apesar do desastre. De alguma maneira o edifício desafia seus detratores. Ele tem uma beleza trágica e dura, derrotada, mas nunca vencida. Entretanto não resta dúvida que o edifício foi profundamente ferido, assim como o seu arquiteto. Ele passou cinco anos sem visitá-lo, e não o visita agora que a direção da universidade acabou com ele.

Nova Escola de Arquitetura da Pensilvânia de frente para a extravagância ornamentada de Frank Furness.

Enquanto isso, na Universidade da Pensilvânia, a antiga Escola de Dentistas vai indo muito bem. Reformada uma dúzia de vezes por sucessivas gerações de ocupantes mais ou menos irreverentes, o edifício funciona mal como sempre o fez, da mesma maneira simpática. Em 1968, a cúpula atuante da Universidade decidiu construir uma nova escola de arquitetura com concreto, vidro e tijolo, num estilo que seria mais adequado para um departamento de saúde pública moderno, ao lado do maravilhoso edifício do velho Furness, de 1890. O moderno vizinho de Frank Furness provou ser um inquestionável desastre em termos funcionais e estéticos. E a velha Escola de Dentistas, abandonada por seus desafortunados estudantes de arquitetura, sofreu uma nova metamorfose; abriga agora o Departamento de Geologia da Universidade, com a mesma descuidada indiferença com que anteriormente recebera arquitetos e dentistas. Ninguém, ou quase ninguém, tem a mais remota idéia de quem o projetou inicialmente, e ninguém, ou quase ninguém, importou-se com isto o suficiente para tentar descobrir. Na verdade, foi de um tal de Edgar V. Seeler. Ele deixou sua única e solitária marca no campus – e no coração  de diversas gerações de estudantes – e após ter projetado e construído o seu Pavilhão de Odontologia, Edgar V. Seeler, recolheu-se na obscuridade.

Estação Mount Royal de Baltmore, remodelada para ser uma Escola de Arte

O exemplo desses dois edifícios não é caso isolado de forma alguma. Pelo mundo afora, edifícios que foram reciclados de uma antiga função para outra, parecem servir melhor a seus usuários com a nova função, e melhor do que edifícios contemporâneos, projetados e construídos com uma forma que supostamente segue e expressa a sua função.

Os melhores museus na Itália e na Espanha, por exemplo, tendem a ser conventos reciclados, ou palazzi renascentistas ou medievais, enquanto que modernos museus, projetados especificamente para expor e celebrar a arte do nosso século, parecem populares lojas de departamentos. Na Grã-Bretanha, talvez a melhor sala de concertos seja uma cervejaria reciclada, conhecida como “Maltings and Snape”, em Suffolk. Em Baltmore, talvez a melhor escola de artes seja uma estação rodoviária reciclada, a antiga “Mount Royal Station”, agora “Maryland Institute College of Art”. Em Nova Iorque, talvez a melhor biblioteca talvez seja um tribunal reciclado e o melhor teatro talvez seja uma biblioteca reciclada! Em São Francisco, o mais simpático Shopping Center, o Ghirardelli Square, é uma antiga fábrica de chocolate; Em Saint Louis, os belos prédios de um laboratório educacional veio de um hospital da época da Guerra Civil abandonado, e em Londres, um dos mais belos edifícios de escritórios é um armazém reciclado.

Uma cervejaria em Suffolk, Inglaterra, convertida em Sala de Concerto.

E uma vez que o custo de novas construções vem se tornando astronômico nos países desenvolvidos, a reciclagem de velhos edifícios é cada vez mais atraente – economicamente e filosoficamente. Em Salt Lake City, por exemplo, um charmoso  shopping center foi criado sob as abóbadas de um antigo estacionamento de bondes, e é um sucesso, tanto do ponto de vista estético como econômico. Na Itália, muitos palazzi da lavra renascentista têm sido rotineiramente reciclados em museus: em Palermo, o quatrocentista Palazzo Abbatellis é hoje, desde 1954, a Galeria Nacional da Sicília, graças ao arquiteto Carlo Scarpa; em Milão, o Castelo Sforzesco foi transformado em um deslumbrante museu pelos arquitetos Belgiojoso, Peressutti e Rogers, dez anos depois; e em Verona Carlo Scarpa reciclou o Castelvecchio em um moderníssimo museu, em conceito, não em conteúdo, na mesma época.

Castelo Sforzesco, do século XV, Milão, convertido em Museu de Arte Antiga, em 1954

Nos Estados Unidos tem havido muitos movimentos na mesma direção. Um dos melhores “museus modernos” em Boston, por exemplo, é o Instituto de Arte Contemporânea, abrigado em um richardsoniano[3] posto policial oitocentista que costumava encarcerar quarenta “pudins de cachaça”.[4] Seu homônimo em Londres, no The Mall, está localizado no Carlton House Terrace[5], de John Nash, 1827. Funciona muito bem, exceto pelo detalhe ocasional de que todas as exibições seqüenciais têm de ser feitas da direita para a esquerda, devido à configuração das estreitos e longos corredores, que determinam o percurso anti-horário.

Estas estruturas recicladas não são exemplos isolados. Durante muitos anos o arquiteto modernista milanês Giancarlo di Carlo trabalhou na reciclagem de edifícios em Urbino, legado do Duque de Urbino Frederico de Montefelto, notavelmente um Convento, que Carlo converteu na biblioteca da Escola de Direito da famosa Universidade de Urbino. Em Boston, quando se tem bom gosto, o melhor lugar para morar não é Beacon Hill, mas um daqueles empórios do século dezenove, reciclados em 1970 pelo arquiteto Carl Koch. Em um inóspito lugar chamado Imlayston, Nova Jérsei, a noventa minutos de Manhattan, o paisagista Robert Zion tem seu escritório dentro de um antigo moinho de 1695 reciclado após a determinação das autoridades locais de colocar o edifício abaixo. Não é apenas um escritório extraordinariamente eficiente, é também um dos mais belos espaços ocupados por qualquer profissional nos Estados Unidos. E finalmente, em Módena, o Castelo Pio ( do ano 1000 D.C. aproximadamente ) é hoje o mais movimentado memorial de guerra do mundo – novamente graças ao gênio dos arquitetos que converteram o Castelo Sforzesco.   Estes arquitetos – Scarpa, Belgiojoso, Peressutti, Rogers, De Carlo, Koch,   Zion – não são bolorentos preservacionistas; estão entre os mais avançados vanguardistas da segunda metade do século XX. Eles são os descendentes diretos dos antigos funcionalistas, e estão demonstrando, com seu inspirado trabalho, que a forma, de fato, separou-se da função.

Tribunal de Justiça em Manhattan convertido em biblioteca.

Alguns arquitetos modernos não estão completamente desavisados desta perturbadora evidência. Alguns dos melhores entre eles, de fato, não vivem em casas modernas, daquele tipo que prescrevem para seus clientes, mas em antigos cabanas, armazéns, lofts[6] que eles alteraram e converteram em novo espaço e forma. Mies van der Rohe, Eero Saarinem, James Stirling, e muitos mais, viveram, ou ainda vivem em edifícios não exatamente projetados para abrigar suas necessidades especiais.

Biblioteca pública na cidade de Nova Iorque convertida em teatro experimental.

 

O arquiteto mais atento ao problema – do divórcio pendente entre forma efunção era o Mies van der Rohe tardio. Ele estava de fato perturbado pelo fato, e seu conceito de “espaço universal”- isto é, uma estrutura capaz de abrigar qualquer espécie de função, fosse uma prefeitura ou uma agência de automóveis, continua a ser uma noção interessante e é explorada em muitas áreas diferentes do edifício. O conceito é simples: uma vez que futuras funções são imprevisíveis hoje, nossos edifícios deveriam ser desenhados de maneira tão flexível que fosse capaz de acomodar, e na verdade receber bem, todas as funções concebíveis nos anos e gerações que advirão. Em termos simplistas, isto significa que nossos edifícios deveriam ser grandes armazéns, sem interferência de colunas, tubos ou dutos de instalação, dentro dos quais qualquer coisa, seja uma escola, uma fábrica ou um teatro, poderia ser instalada em um futuro imprevisível.
O posto policial richardsonniano convertido em Instituto de Arte contemporânea.

Esta é uma idéia eminentemente razoável, pelo menos superficialmente. Um pouquinho abaixo da superfície, entretanto, estão escondidas duas bombas-relógio ali plantadas por um senhor gentil e radical, Mies van der Rohe em pessoa. A bomba-relógio numero 1 é o efeito sobre o sistema de livre empreendimento que floresce através da acelerada obsolescência dos edifícios, da mesma forma que dos automóveis. Construir edifícios a prova de obsolescência é, bem claramente, um ataque ao sistema americano[7], uma vez que nossas políticas de impostos encoraja a depreciação acelerada e conseqüentemente a rápida desintegração e substituição dos edifícios – tudo isso em nome de “oferecer trabalho”. Um “espaço universal”, adaptável a uma grande variedade de usos sugere uma alternativa a uma periódica demolição de edifícios que não agradará àqueles que investem em tal demolição. A bomba relógio número 2 é o fato facilmente demonstrável que os edifícios infinitamente flexíveistendem a ser caríssimos para construir – e podem, de fato, nunca funcionar tão bem como os edifícios inflexíveis. Não é inconcebível que um edifício seja projetado e construído para funcionar como uma casa de oração aos domingos, e converter-se – pelo toque em alguns botões – em uma casa de má reputação durante a semana. Mas a parafernália mecânica necessária para viabilizar esta interessante transformação custaria pelo menos duas ou três vezes mais do que construir duas casas, uma ao lado da outra – uma de Deus, a outra de Satã – uma estando aberta enquanto a outra está fechada (os serviços de zeladoria, assim como as instalações poderiam ser partilhados ).

O impacto da teoria do “espaço universal” de Mies van der Rohe sobre o sistema de livre-empreendimento é menor. Na medida em que os livre- empreendedores tornam-se mais conscientes do que perturba o seu sistema, a noção de acelerada depreciação começa a incomodá-los tanto quanto incomoda a seus parceiros – isto é, os consumidores. É óbvio, mesmo para os fabricantes de muros-cortina de alumínio e estruturas de  aço,  que eles e nós não  mais  podemos   esperar produzir a mesma cubagem que nós, e eles, precisamos, para acomodar uma população de seis ou oito bilhões, e assim a idéia do edifício capaz de ser reciclado para uma função futura imprevisível não parece tão ameaçadora quanto parecia.

Sala Scarlioni; e uma vista da Arcada do Elefante no remodelado Castelo Sforzesco em Milão.

Mas com a noção do edifício de múltiplo uso, cultuada não apenas por Mies, é diferente. Dois tipos de edifício foram projetados e construídos em anos recentes para ser totalmente flexíveis. O primeiro é um teatro completamente flexível, infinitamente mutável; o segundo é um hospital de pesquisas e laboratório, da mesma forma flexível e mutável. O pioneiro no projeto de teatros flexíveis é George Izenour, cujos projetos incluem instalações nas quais pisos, tetos, áreas de desempenho e representação podem ser alterados e até intercambiados literalmente apertando um botão. Teatros de múltiplo uso do tipo defendido por Izenour têm sido construídos em grande número na Europa, especialmente na Alemanha – Colônia, Gelsenkirchen, Ulm. Mas o levantamento dos custos começou a preocupar os técnicos de atividades teatrais; parece mais prático, e mais desejável construir vários teatros de uso singular (possivelmente lado a lado, em um grande complexo, ou distribuídos pela comunidade), do que um caríssimo multi-uso que ao final custará mais caro que todos os teatros simples juntos ( que obviamente acomodariam uma audiência maior ). Além do mais, é muito difícil projetar um espaço que sirva tanto para dança ( que necessita de uma grande caixa de palco e um grande proscênio ) e,  digamos, representações mais simples. Pode ser feito; mas a maioria das vezes o resultado deixa a desejar em ambos os extremos da escala. O teatro de múltiplo uso, em outras palavras, é um conceito intelectual interessante que tende a produzir instalações deficientes para cada proposta, sem a possibilidade de uso simultâneo, e cuja finalidade seria melhor atendida técnica e economicamente com a construção de diferentes casas com instalações mais específicas. Há exceções: o Cassino de Montreux, na Suíça, pode transformar-se em uma sala de concertos de dois mil lugares com acústica quase perfeita. Mas a maioria das estruturas de múltiplo uso para artes de representação espetáculo tendem a ter desempenho insatisfatório na maioria, se não em todas, as funções.

A teoria do “espaço universal” de Mies van der Rohe não se sai melhor no projeto de modernos laboratórios ou hospitais. Para fazer um laboratório ou hospital totalmente flexível e receptível a qualquer exigência futura imaginável ( mas na verdade imprevisível ) é necessário  construir  grandes  espaços  sem pilares,  e  pisos intermediários, entre os pisos habitáveis, para abrigar todos os dutos, tubulações, instalações mecânicas. Pode ser feito, e tem sido feito, como os Laboratórios Salk, de Louis I. Kahn, em La Jolla, Califórnia,  o McMaster Medical Center em Hamilton, Ontario, e outros semelhantes em Mineápolis e Nova Iorque. Pode ser feito, mas a um custo enorme. Quando é feito, o resultado é um  admirado por todos, menos por que tem que pagar as contas ( sobretudo os pacientes ). Os piso livre, sem pilares permite gerações futuras de divisórias e a criação de espaços de qualquer dimensão, forma ou função. E os espaços intermediários, abarrotados de tubos, dutos,válvulas, permitem às futuras gerações do pessoal de manutenção remexer. deslocar para cima e para baixo as instalações para servir a qualquer necessidade, em qualquer lugar, a qualquer momento.

É, sem dúvida, uma grande idéia, e eu não pretendo desmontá-la. Mas eu fico pensando se alguém, em pleno juízo, trabalhando na área de tecnologia de transportes pensaria em projetar um veículo que pudesse rolar, flutuar, e voar com a mesma facilidade. Obviamente, pode ser feito, mas este transporte universal, seria muito caro para produzir e de utilidade limitada.

Seção diagramática no Novo Centro de Saúde de Brooklyn. Os pavimentos intermediários visitáveis contém todos os sistemas eletromecânicos, deixando os pavimentos do hospital com a planta flexível.

O espaço universal, infinitamente flexível, pode tornar-se antitético com a criatividade humana. Certa vez trabalhei com um brilhante projetista de teatros, David Hays, em um projeto de um teatro experimental “ideal”. Ele era muito educado, mas a idéia claramente não o entusiasmava. Para ele, o maior desafio, o mais estimulante teatro daquele tempo era  o original Circle in the Square, na Praça Sheridan, em Greenwich Village. Coube a mim visitar o local. Era um pavimento sujo com um teto inconfiável, dois metros acima da laje de piso, que inspirava menos confiança. Parecia a pior espécie de lugar para qualquer apresentação – fosse uma peça ou uma comemoração. Ainda assim, Hays e seus associados acharam na infinita estranheza de que este espaço era dotado desafios e inspiração que provavelmente não seriam encontrados em um espaço universal perfeitamente afinado. Depois deste Circle in the Square desenvolveu-se o teatro Off-Broadway – o mais criativo movimento de artes cênicas do século XX na América. O espaço universal perfeitamente flexível pode não ter impedido este desenvolvimento, mas certamente não lhe era indispensável.

Resumindo, a “forma segue a função” não é um sine qua non da arquitetura moderna. A maioria das vezes, a forma é nada mais do que um educada conjectura sobre a função. A maioria das vezes, para melhor ou para pior, a forma segue o financiamento. A maioria das vezes, a forma na arquitetura moderna é antifuncional. A maioria das vezes, tudo dá certo.

No Rio de Janeiro, um expressivo exemplo são as fábricas do fim do século XIX e início do século XX, que se tornaram Shopping Centers e Hipermercados. Quando professor  da Universidade Santa Úrsula, quando lia este texto com os alunos, dava como exemplo, o próprio espaço da Faculdade de Arquitetura, que anteriormente aos anos 1970, havia sido alojamento de estudantes.

Fábrica de Tecidos Confiança, atual Extra Boulevard. Imagem <passeiodutra.zip.net>

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[1] Paul Marvin Rudoph [1918-1997] Formou-se no Alabama, tendo estudado também em Harvard com Walter Gropius e Marcel Breuer. Nos anos sessenta acrescenta à sobriedade da Bauhaus em traço brutalista com certos experimentos formais, que vão liga-lo à obra coetânea de Le Corbusier. Um de seus mais importantes trabalhos é o edifício comentado por Blake, concluído em 1963.

[2] In tandem (lat.) No final das contas.

[3] De Henry Robson Richardson [H1838=1886], o mais importante arquiteto oitocentista americano. O primeiro a libertar a arquitetura de seu país da influência européia. Decano da Escola de Chicago, mestre de Sullivan e Wright. NT

[4] “Drunk tanks” no original. NT

[5] Um dos conjuntos mais expressivos do neoclassicismo inglês. NT

[6] No original está “loft” mesmo, palavra que é utilizada entre nós com o mesmo sentido, de um antigo sótão ou construção industrial reciclada para fins de habitação ou prestação de serviços, em área urbana.

[7] Sobre a questão do obsoletismo programado da sociedade neo-liberal, ver o livro Tudo que é sólido desmancha no ar, de Marshall Berman. NT


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