Ecletismo IV

Silvio Colin

O Ecletismo chegou ao Brasil da mesma maneira que o Neoclassicismo, como influência cultural direta das poéticas européias. A diferença, é que aqui não havia ainda um processo autóctone de industrialização, sendo os materiais e técnicas, em sua grande maioria, importados, assim como também eram importados os processos culturais. Podemos ainda dizer que a passagem do Neoclassicismo para o Ecletismo é um processo gradual, gerado no interior da “Academia”. Até os anos 1870, ainda podemos ver edifícios rigorosamente neoclássicos. A partir daí, o ecletismo vai aparecer, de maneira quase absoluta, até os anos 1930, deixando pouco espaço para outras manifestações como o Art Nouveau, o Neocolonial e as poéticas pré-modernas do Classicismo Tardio e do Art Déco.

Palácio Tiradentes – Rio de Janeiro. Neobarroco francês.
Projeto: Memória & Cuchet, 1921. Imagem <mishappa.image.pbase.com>

Todos os tipos estilísticos são aqui representados, havendo uma predominância do Barroco francês, que se constata no centro monumental eclético da cidade do Rio de Janeiro – a Praça Marechal Floriano –, e em outros edifícios importantes como o Palácio Tiradentes e o Palácio das Laranjeiras. Além disso, todos os programas – residências, equipamentos públicos como teatros, escolas, bibliotecas, museus e quartéis, edifícios comerciais e estações – foram projetados e construídos segundo os princípios ecléticos, principalmente nas grandes metrópoles, onde ainda se conseguiu preservar um grande acervo desta arquitetura.

Palácio das Laranjeiras. Rio de Janeiro.  Neobarroco francês
Projeto: Armando da Silva Telles, 1909-12. Imagem <Palácio das Laranjeiras. Governo do Estado do Rio de Janeiro.Banerj / Sobreart: Rio de Janeiro, 1982>

Cumpre ressaltar que, durante muito tempo, o órgão responsável pela preservação do patrimônio histórico, o SPHAN – Secretaria de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional –, fundado em 1937, ocupou-se mais da arquitetura colonial, explicitamente rejeitando o acervo eclético, fato que contribuiu para a demolição de muitos monumentos, sendo o mais lamentado, no Rio de Janeiro, o Palácio Monroe, na Praça Floriano, demolido em 1976.

Pavilhão da Ilha Fiscal. Rio de Janeiro. Neogótico. Projeto Adolfo José del Vecchio. 1889. Imagem <interata.squarespace.com>

Hoje em dia, não existem mais razões para a atitude preconceituosa do Movimento Moderno, e mesmo este já deve ser colocado em uma perspectiva histórica, juntamente com os edifícios que condenou. Se o modernismo arquitetônico nos trouxe soluções, também cometeu grandes equívocos. Cabe a nós, com a mente aberta, analisar todas as idéias, reter as que nos servem e descartar outras. Mas devemos também aprender com os erros, respeitar os testemunhos do passado, e ensejar que em nossas cidades convivam as diferenças, pois são elas que compõem o nosso acervo cultural.

Fundação Oswaldo Cruz. Arquiteto Luiz Moraes Junior. Rio de Janeiro, c. 1904. Imagem <getussp.org/blog2>

O Movimento Moderno foi muito crítico com relação ao Ecletismo, em parte por uma atitude iconoclasta própria das vanguardas, em parte por questões ideológicas e, finalmente, por condenar o suposto superficialismo desta prática. Independente de uma avaliação da correção de seus argumentos, o fato é que a rejeição pura e simples do Ecletismo transformou-se numa posição preconceituosa, que sérios danos causou à historiografia deste movimento. Muito de seus métodos foram perdidos e muitos edifícios destruídos, em nome de uma suposta “ausência de valor arquitetônico”, uma atitude condenável, sob o ponto de vista do relativismo histórico. A partir dos anos 1960, quando se acentua um maior apreço pelos centros históricos e monumentos, tenta-se recuperar uma crítica mais consciente e fundamentada, fugindo-se da atitude puramente opinativa, para uma outra mais comprometida em termos culturais, segunda a qual uma produção não pode ser desligada do contexto que a produziu e julgada segundo critérios alheios a ela.

Palácio Monroe. Rio de Janeiro. Projeto: Mal. Francisco Marcelino de Souza Aguiar, 1904. <Imagem: http://www.almacarioca.com.br&gt;

Grande parte dessas críticas eram advindas de arquitetos e artistas de orientação política sobretudo marxista ou socialista, como William Morris, Walter Gropius etc. O Ecletismo representava, para esses críticos, o mundo burguês e vitoriano, com seus valores políticos, econômicos e morais condenáveis. A hipocrisia deste mundo estaria representada na disjunção dos sistemas formais arquitetônicos, uma “arquitetura de aparências” representando uma sociedade de aparências.

Estação das Barcas. Rio de Janeiro. 1906-11. Imagem <img103.imageshack.us>

As críticas de natureza estética investiam contra a dissociação dos sistemas na Arquitetura, sobretudo função, estrutura e ornamento, fazendo com que a arquitetura perdesse a sua “verdade”. Esta crítica é muito bem expressa no texto de Viollet-le-Duc:

A locomotiva tem estilo. Alguns dirão que é uma máquina feia. Por que feia ? Não expressa ela toda a energia brutal que corporifica ? Não há estilo senão quando apropriado ao objeto… Uma pistola tem estilo, mas uma pistola concebida para parecer uma balista [1] não terá nenhum. Nós, arquitetos, desde há muito tempo, temos feito pistolas, mas tentando dar-lhes a aparência de balistas. Os engenheiros que desenharam as locomotivas não sonharam em copiar carruagens. Os arquitetos somente poderão equipar-se de novas formas se as procurar na rigorosa aplicação de uma nova estrutura [2].

Palácio Pedro Ernesto. Rio de Janeiro, 1923. Projeto Heitor de Mello.

As críticas de natureza técnica orientavam-se para o relativo afastamento dos arquitetos das questões técnicas, sobretudo com relação ao uso dos novos materiais, o ferro e o concreto. Desta atitude, nasceram certas caracterizações depreciativas do arquiteto acadêmico, tais como “um mero decorador de fachadas” ou “um engenheiro do supérfluo”.

Essas críticas, muitas vezes, carecem de base historiográfica, pois segundo o conceito de relativismo histórico, não se pode isolar um fato do contexto que o produziu. Os arquitetos novecentistas julgavam os oitocentistas segundo valores do século XX, acusando freqüentemente os ecléticos de mau gosto ou ignorância, segundo os seus critérios de bom gosto, ou conhecimento, uma prática preconceituosa que muitos danos causou à cultura histórica, na medida em que permitiu a alguns agentes o ataque e a destruição de monumentos ecléticos.

Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Projeto Francisco de Oliveira Passos. 1905-9. Imagem <www.emdiacomacidadania.com.br>

As práticas acadêmicas dos arquitetos ecléticos hoje são vistas como necessárias para sua adaptação aos novos materiais e incorporação das novas técnicas, em um momento histórico em que não se apresentava outra alternativa. Somente depois de sedimentada a prática eclética, é que pôde tomar corpo uma discussão sobre a questão da “máquina” e, a partir daí, surgiram as novas poéticas do Movimento Moderno.

Por outro lado, a formulação das poéticas modernistas visavam muito mais o objeto arquitetônico, visto em sua individualidade, do que o conjunto de edifícios que formam a rua, o bairro, a cidade. Assim é que a crítica modernista ao Ecletismo é, quase sempre, endereçada ao edifício. No entanto, o arquiteto eclético possuía um sentimento de conjunto e adequação – o decoro vitruviano – que o fazia respeitar a escala, as visuais dominantes, e outros princípios compositivos orientados para a cidade, e não para o edifício, e que foram abandonados pelos modernistas num primeiro momento. Nos anos 60, uma revisão dos conceitos da cidade funcional modernista, de sua inadequação à escala humana, levou alguns arquitetos a reavaliar as práticas ecléticas relativas à rua e à cidade.

Museu da República. Antigo Palácio do Catete. Projeto Carl F. G. Waehneldt. 1858. Imagem <oabelhudo.com.br>

A arquitetura eclética era perfeitamente adaptada à rua-corredor, muito criticada pelos urbanistas funcionalistas, e ao sistema parcelário das cidades oitocentistas, de lotes profundos com fachadas estreitas. Os centros históricos das grandes metrópoles não admitem outra solução, razão porque a preservação do patrimônio arquitetônico atualmente se volta para o tombamento de grandes conjuntos, como o Corredor Cultural do Rio de Janeiro, um tecido urbano eclético, em sua totalidade.

Corredor Cultural. Rio de Janeiro. Imagem <farm4.static.flickr.com>

Além disso, apesar do uso de modelos diferentes, os conjuntos ecléticos ostentam uma unidade facilmente identificável. Isto se deve ao fato de que o método de projetação era sempre o mesmo: o método acadêmico clássico. Esta ‘unidade na diversidade’, aliada ao sentido de adequação ao sistema parcelário, à escala e às visuais, são responsáveis pelo prazer e o sentimento de pertinência que advêm da contemplação dos conjuntos ecléticos.

Notas

[1] Arma antiga com que se disparavam flechas, constituindo-se num arco montado horizontalmente, acoplado a um engenho mecânico. O mesmo que ‘besta’.

[2] VIOLLET-LE DUC. Entretiens sur l’Architecture. Apud CROOK, J. Mordaunt, “Ruskin and Viollet-le Duc”. In: The dilema of style. Chicago: University of Chicago, 1987; p. 85.

 

BIBLIOGRAFIA DE REFERÊNCIA

BENEVOLO, Leonardo. História da Arquitetura Moderna. São Paulo: Perspectiva, 1976.

CROOK, J. Mordaunt. The Dilema of Style. Chicago: University of Chicago, 1987.

MIGNOT, Claude. Architecture of the 19th Century. Colônia: Evergreen, 1994.

PATETTA, Luciano. “Considerações sobre o ecletismo na Europa”. In: FABRIS, Annatereza (org.) Ecletismo na Arquitetura Brasileira. São Paulo: Nobel & EDUSP, 1987.

PATETTA, Luciano. L’Architettura dell’Ecletismo: fonti, teorie, modelli: 1750-1900. Milão: Gabriele Mazzotta, 1975.

VITRUVIO, Marco Pollio & MORGAN, Morris Hicky. The Ten Books of Architecture. Nova Iorque: Dover, 1960.

 

 

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