A entrevista de Frank O. Gehry

Não. O nosso blog não entrevistou o Frank Gehry. Mas lemos a entrevista publicada em O Globo, no dia 11, no caderno Prosa & Verso, e achamos de grande relevância algumas coisas ditas por êle. Abaixo estão os destaques por nós selecionados.

Sobre propostas para projetar no Brasil

[…] Elas [as propostas] não foram sérias. Queriam que fizesse o mesmo que fiz em Bilbao. Falei para virem aqui conversar comigo, não vieram. Não lembro exatamente quem eram.[…] Eu fui com o (Thomas) Krens (diretor da Fundação Solomon R. Guggenheim), quando ele ia fazer um museu no Rio, e eu ajudei a escolher o local. Selecionei o local para o museu e eles depois contrataram o (Jean) Nouvel. Mas o Nouvel é um amigo, então está tudo bem.

Sobre se deseja projetar no Brasil

Claro. Estou pronto para ir. Mas ninguém me ligou. Umas pessoas me contataram para fazer um spa no Brasil, algo pequeno. Mas, como da outra vez, não me procuraram de novo depois do primeiro contato.

Agência Chiat Day. Santa Monica, 1991.

Sobre Niemeyer

Encontrei Niemeyer quando estive no Brasil. Ele estava com 94 anos, hoje tem mais de cem. Tenho grande respeito por ele. […] Quando era estudante, acompanhei o trabalho dele […] Ele me chamou de “camarada” quando nos encontramos. Eu gosto de sua filosofia, tenho um enorme respeito por ele, por seu humanismo.

Sobre Brasília

Nunca estive em Brasília, mas acompanhei o projeto. Soube que, no final, não funcionou […] Que foi um grande gesto, mas não chegou até o povo […] Penso que a arquitetura nem sempre produz o que você diz que vai fazer. Certamente era outra época, havia diferentes expectativas em construir uma cidade como Brasília. Mas qualquer que tenha sido a sua falha, é a mesma falha que Le Corbusier teve, esse pensamento de construção de uma grande idéia de arquitetura. Para certas grandes comunidades não funciona. As idéias de Corbusier ou de Brasília são antitéticas à liberdade de pensamento ou à democracia. Não falo de forma negativa. Não estou dizendo que Niemeyer era fascista, mas sua obra era por demais esmagadora.

Aerospace Museum. Los Angeles, 1982-4. Imagem <www.bluffton.edu>

Sobre o pensamento urbano nos Estados Unidos

Não sei, mas é algo que está se tornando extremamente burocrático. Nas cidades americanas não há um verdadeiro pensamento de planejamento urbano em uso. Virou algo político, oportunista. Não é algo de alto nível filosófico sobre como as pessoas deveriam viver ou algum tipo de pensamento similar. Não é o que Niemeyer ou Le Corbusier tentavam fazer, não há um pensamento assim nos planejamentos urbanos atuais. Talvez Rem Koolhaas esteja tentando retomar essa idéia.

Sobre arquitetura sustentável

Sempre arrumo confusão quando falo disso. Realmente acredito que há um problema hoje de aquecimento global, para o qual devemos atentar. Mas hoje, nos EUA, as pessoas estão abusando dos certificados Leeds (Leadership in Energy and Environmental Design, selo de construção segundo normas ambientais) para seus próprios fins comerciais. É como usar um broche com a bandeira americana e isso já fazer de você um patriota. Quando você trabalha na Suíça, as leis são muito cuidadosas com as questões de sustentabilidade. Penso que necessitamos disso. Em cada construção, há um desperdício de 30%. É um desperdício de mão-de-obra, em esforço, em materiais, em energia humana. Se pudermos fazer um concreto com menos cimento, podemos reduzir a emissão de carbono.

Torre Beekman. Em construção. Nova Iorque. Imagem <www.urbanity.es>

Sobre a sustentabilidade em seu trabalho

Acabamos de construir um edifício em Nova York de 76 andares, a Torre Beekman, com redução de 50% no uso de cimento: Isso quer dizer 50% a menos de emissões de carbono. E não houve desperdício de material, não houve devolução do material recebido. O material era mais forte, e em vez de quatro dias usados para cada andar, foram três. Foi poupado um dia para cada um dos 76 andares. Era um material de instalação mais limpa, não provocou muita sujeira em torno. E ainda algo que não sabíamos quando começamos: como o material era mais forte pudemos fazer cada andar com uma polegada a menos de espessura. Se você adicionar tudo isso, é um grande ganho de energia. É sobre isso, que estou falando. E isso se refere apenas ao cimento de um edifício. Todos os demais itens num edifício possuem questões similares. E os certificados Leeds não levam isso em conta. As pessoas dizem que meus edifícios são muito caros, o que não é verdade. Nós controlamos a tecnologia e eliminamos os desperdícios.

Sobre as influências

Isso foi no início. Mas ainda admiro o trabalho dele. Também o trabalho de Alvar Alto. Tenho ali um globo de Frank Lloyd Wright. Olho um pouco para todos os lados. Quando era jovem, fui influenciado pelo Japão, estudei arquitetura clássica japonesa. Atuei numa orquestra Gagaku, a música de corte japonesa. Eu tenho muitos heróis.

Sobre a afinidade de seu trabalho com o de Álvaro Siza

Quando visitei Álvaro, ele me mostrou seus primeiros trabalhos e há realmente uma similaridade. Ele estava tentando expressar a estética espanhola e portuguesa daquela época, dos novos tempos modernos. E eu estava em Los Angeles tentando expressar a herança colonial espanhola da cidade nas construções. Seus primeiros trabalhos tinham problemas e sucessos similares aos meus, pude fazer essa relação. Mas não poderia apontar construções específicas.

Dancing House. Praga, 1996.

Sobre o Museu Guggenheim em Abu Dhabi, um projeto recente.

Está em construção, indo bem. Deve ficar pronto em 2014. Durante a etapa de design viajava bastante até lá. Agora, que está em construção, vou menos, controlo o processo daqui.

Sobre a dificuldades da cultura islâmica

A dificuldade lá é o deserto, e a sociedade não abre suas portas para estrangeiros. Eles não me convidam para jantar em suas casas. Então é difícil ter uma idéia do que eles gostam, do que são. Eu me sinto como um homem cego, tentando perceber algo. Mas parece que eles estão contentes com o que estou fazendo, penso que nos conectamos de alguma forma. Talvez pudesse ser algo mais frutífero se fossem mais abertos. Acho que eles querem ser abertos, não é uma exclusão consciente. São tempos diferentes, mundos diferentes.

Sobre a importância da arte e da arquitetura

É relevante ter uma boa arquitetura? Talvez não seja importante. O fato é que as pessoas saem em férias para ver o Partenon. Pessoas levam suas famílias a concertos para ouvir Mahler. Pessoas vão a conferências para falar de Proust. Pessoas vão a museus para ver Picasso, Rembrandt. Por quê? É como comida, é algo necessário? Certamente, a História diz que a qualidade de vida é inspiradora e leva a uma melhor contribuição dos indivíduos. Se vivemos numa pequena cela não somos capazes de contribuir no mesmo nível de alguém que vive num espaço mais inspirador. Penso que essa questão tem sido esquecida. Por quê precisamos de arte? E por que arquitetos deveriam se preocupar em criar belos espaços? Isso ajuda a resolver o problema do aquecimento global? Não se pode ter apenas essas prioridades esmagadoras, tem de se ter a mistura de todas essas idéias que fazem  a vida valer a pena de ser vivida num lugar melhor, em que as pessoas possam ter aspirações a algo melhor.

Uma resposta para “A entrevista de Frank O. Gehry

  1. Juliete Reichert

    Também li essa entrevista no Globo e achei interessante o que Frank Gehry disse. Não sabia que ele gostaria de fazer algum projeto no Brasil, seria muito interessante ter alguma obra dele aqui! Achei interessante também quando perguntaram se ele achava que esse momento de Olímpiadas, em que são construídas coisas novas com muitos investimentos, traria para o Rio inovações benéficas na arquitetura de uma cidade e ele disse que nem sempre, que depende de muitos fatores, e com minhas palavras eu digo que sempre tem a chance de estragarem as oportunidades. Outro dia no Globo também vi uma matéria sobre o MAM de Reidy, muito interessantes essas matérias arquitetônicas saindo para um público mais amplo!

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