Psicanálise do Capitel Jônico

Silvio Colin

Baseado no livro “Psicoanalisis del arte ornamental” de Angel Garma .

O capitel jônico, entre os três representantes das ordens da arquitetura grega, é talvez o que mais se preste para uma abordagem psicanalítica, uma vez que apresenta uma maior complexidade para uma análise. No capitel dórico, dificilmente conseguimos nos afastar da marcante ideia construtivista, de um simples leito de pedra para transmitir cargas da arquitrave para a coluna. Já o capitel coríntio é marcado por uma força oposta, de um figurativismo explícito. No capitel jônico, entretanto, as imagens se fundem e se interpenetram, lembrando um processo inconsciente de condensação de que nos falou Freud.

Muitas destas interpretações causam estranheza àqueles que não tem nenhuma familiaridade com as idéias da psicanálise. Afinal, estamos aqui lidando com forças inconscientes. O conhecimento de tais teorias, embora não seja condição necessária para entendimento dos assuntos abordados, certamente ajudará em muito.

Fig. 1 – Capiteis das ordens gregas

Figura 2 – Friso óvulo-lança e colar de contas. Imagem <http://etc.usf.edu/clipart&gt;

O inconsciente trabalha com figuras primitivas, coisas da natureza e do corpo. Uma das figuras mais recorrentes da arte decorativa clássica, que é bastante utilizada na ordem jônica, é o friso óvulo-lança, que nada mais é do que uma estilização representiva do masculino-feminino. Lewis Mumford nos chamava a atenção para o fato de que as estruturas mais primitivas – casas, aposentos, túmulos – geralmente são redondas, lembrando o vaso original descrito no mito grego, que fora modelado no seio de Afrodite. Mais adiante, o falo e a vulva serão representados em obeliscos e lagos. [1]

No caso das colunas gregas, sobre as quais pesa grande parte da História da Arquitetura Ocidental, temos três ordens de origens formais diferentes, sendo a ordem dórica a mais abstrata. Já no capitel jônico, com suas volutas, são mais claras as intenções figurativas e simbólicas. Aquele povo da Ásia Menor faz derivar, em parte, seu capitel das formas equivalentes egípcias através da Assíria. A literatura arquitetônica relaciona as volutas como representações dos cornos dos carneiros, bodes ou da concha marinha.

Fig. 3 – Cornos de bode. Imagem <www.lemonlight.org>

Fig 4 – Fonte imagística do capitel jônico.

O bode é um animal muito importante nas culturas ancestrais. Lembremos do bode expiatório, que na festa de expiação dos judeus era carregado com todas as iniquidades dos humanos e depois expulso para o deserto; ou ainda das origens da tragédia grega[2]. Tanto a flor de lis como o lírio, ou os chifres dos carneiros e bodes têm um significado simbólico masculino, coma já observara Theodor Reik [3]. As formas mais maduras do capitel jônico são muito estilizadas pelo seu desenho geométrico, o que corresponde, no trato das artes plásticas, a uma revisão secundária da elaboração dos sonhos e outros materiais do inconsciente. Mas nas suas formas originais vemos claramente a sobreposição de símbolos relacionados ao sexo.

Fig. 5 – Flor-de-Lis natural e estilizada. Imagens <www.plantasonya.com.br> e <image.wangchao.net.cn>

Fig. 6 – Forma desenvolvida do capitel jônico. Imagem Garma, 1961.

O capital jônico (Fig. 6), criado na costa ocidental da Ásia Menor [4],   se compõe de volutas exteriores com meias palmetas internas e no centro, na parte superior do fuste, com ornamentação em friso. O que se sabe da história e da sua evolução permite abordar seu estudo psicanalítico. Neste capitel chama a atenção as volutas laterais. Tem sido apontadas por vários autores que suas forma provém de motivos ornamentais egípcios, com base no loto e no lírio, sendo também uma representação de chifres do bode ou de um caracol.

Fig. 7 – Motivos ornamentais egípcios. Imagens Banister, Fletcher 1951

Freud chamou a atenção para o significado simbólico do lírio e da flor de lis como representação  do sexo masculino. Reik mostrou a mesma coisa do chifre de carneiro que é tocado nas sinagogas majestosamente desde a mais remota antiguidade. Igual significado inconsciente deve ter a grande concha, alongada e torcida, como chifre de carneiro e cujo som é utilizado, por exemplo, por índios dos Andes peruanos, no ponto culminante de uma celebração.

Fig. 8 – Capitel fenício. Imagem Garma 1961.

Foi, principalmente, a aplicação dos motivos ornamentais egípcios do lírio ou da flor-de-lis que deu origem a capitéis do tipo  fenício, encontrado em Chipre (Fig. 8). É constituído por uma folha central e duas volutas laterais enroladas. Sua origem inconsciente  deve estar em uma simbologia do órgão genital masculino,  com pênis e testículos. Além disso, neste capitel em Chipre, acima dessa folha, há dois  semicírculos, que podem simbolizar o órgão genital  feminino.

Fig. 9 – Capitel em Neandria. Imagem Garma 1961.

Este tipo de capital influenciou definitivamente a criação posterior da capitel jônico. Em Nape e Neandria (Ilha de Lesbos) foram encontradas dois capitéis jônicos primitivos (fig. 9). Eles também tentaram representar o lírio, mas com uma estranha modificação, a folha central foi substituída por uma palmeta. Psicanaliticamente, isto significa que o elemento do capitel lilial, o que representa o pênis, sofreu uma mudança que o feminizou. Tal como acontece com os conteúdos inconscientes da neurose, a feminização do fálico é um processo frequente  na ornametação.

É interessante notar que a feminização do fálico ocorre no que ele simboliza do pênis e não em relação aos testículos. Ela coincide com os resultados descritos por Freud, de que a castração temida inconscientemente é do pênis. O mesmo é observado em outros fenômenos culturais, como ocorre com fervorosos adeptos de várias religiões, que devem permanecer “muito homens”, mas também devem renunciar  à atividade genital do pênis, ou seja, devem castrar-se fálicamente. Em Parsifal [5], Klingsor é desprezado por que, impulsionado por motivos religiosos, castrou-se nos testículos.

No capitel de Neandria, vê-se que a haste  central, é complementada por dois volumes laterais bem desenvolvidos e, abaixo, duas fileiras de folhas. Estas folhas são também de origem egípcia. Tendo em conta o aspecto da totalidade do capital e sua gênese, pode ser atribuído a estas folhas um simbolismo de pêlos pubianos.

Fig. 10 – Imagem Banister-Fletcher, 1951

Paralelo ao simbolismo genital,  este capitel, de volutas grandes e achatadas, tem o significado prático de um suporte que,  na arquitetura de madeira, anterior à da pedra, se adicionava às colunas para suportar a arquitrave. Por não conter elementos reprimidos, este significado de suporte persiste em toda a evolução subsequente do capital jônico.

O desenvolvimento posterior causa estranhos fenômenos, resultado de constante ação repressiva em curso, que intensifica o mascaramento do simbolismo genital masculino primitivo. As folhas do capital de Neandria, que representam pêlos pubianos, em um capitel de um período posterior, encontrado em Neucratis, Egito (fig. 4), se arredonda muito, e as folhas inferiores se reduzem em tamanho. Em outros capitéis, mais tarde, torna-se uma ornamentação tipo óvulo-lança. Este ornamento compõe a cimalha da coluna, e mais abaixo é inserido o colar de contas, por sua vez derivado de uma outra linha de folhas menores.

Em um momento posterior, a linha de folhas arredondadas sobe e se introduz dentro das volutas, deslocando-as lateralmente. Para tal, o tronco central foi dividido e os cantos preenchidos com meias palmetas (Fig. 6). Isso é o que é visto nas capiteis do século VI a.C. no sul da Itália, em Delfos e no templo arcaico de Artemis em Éfeso.

Mais tarde ainda, como nos capitéis do Erecteu, desaparecem as meias palmetas, e ficam apenas as volutas e as folhas centrais, a meia-distância, transformados em ovulos-lanças e  colar de contas. Assim é que somente pode ser vislumbrado o simbolismo genital masculino original, se se conhece a história anterior. Isso é o que acontece com os sintomas neuróticos que, para serem descobertos em sua origem, necessitam de um tratamento psicanalítico que faça regressar a sua gênese aos instintos genitais  reprimidos.

Fig. 11 – Capitel coríntio primitivo. Imagem Garma, 1961.

Porém, como um retorno ao reprimido, similar ao que ocorre com os sintomas neuróticos, no capitel coríntio primitivo, que em muitos aspectos pode ser visto como uma variante do jônico, ressurge o motivo da ornamentação do simbolismo genital masculino. (Fig 11)

Como o capitel jônico primitivo, o capitel coríntio tem, na parte baixa, fileiras de folhas, que simbolizam os pêlos pubianos. Diferentemente do jônico, são folhas de acanto. Destas folhas emergem pequenos caules que terminam em volutas, fazendo os quatro cantos do capitel. As volutas confrontantes e a palmeta central formam um motivo ornamental análogo ao do capitel jônico de Neandria, também com o simbolismo de um pênis feminizado em forma de flor. Estas volutas se enrolam para dentro, em vez de fazê-lo para fora como o jônico, o que muda o seu significado.

Visto por outro lado, no capitel coríntio a voluta larga, que está nos ângulos, junto com as menores, enroladas ao lado, formam também um simbolismo de genitália masculina. Em outros capitéis coríntios, como na Torre dos Ventos em Atenas, em vez de volutas existem folhas lanceoladas, também um simbolismo fálico, semiencobertas por folhas de acanto, como um pênis recoberto por pêlos pubianos.

Fig. 12 – Capitel na Torre dos Ventos em Atenas. Imagem <www.nyc-architecture.com>

Nos capitéis da Idade Média, derivados do capitel coríntio, como o de Alhambra, às vezes ressurge o simbolismo genital masculino.

Fig. 13. Capitel em Alhambra.



[1] MUMFORD, Lewis. A cidade na História. Belo Horizonte: Itatiaia, 1965. P. 26.

[2] A palavra vem do grego tragóidia [τραγῳδία] (canto do bode)  composto de τράγος “bode” e ᾠδή ”canto”], canto religioso com que se acompanhavam o sacrifício do bode nas festas de Dionísio.

[3] Theodor Reik (1888-1969) psicanalista americano de origem austríaca, discípulo de Freud. Estudou a relação da psicanálise com a religião.

[4] Os Jônios eram um povo indo-europeu que se estabeleceu na Ática e no Peloponeso e foram depois para a àsia Menor com a chegada dos dóricos. Na Ásia Menor habitaram Halicarnaso e Esmirna e entre os séculos XII e X a.C.  formaram a Liga Jônica , composta por doze cidades florescentes: Éfeso, Samos, Priene, Colofón, Clazómenas, Quios, Mileto, Teos, Mionto, Lebedos, Foceia e Eritras.   Os jônios eram uma das quatro etnias que formaram o povo grego — juntamente com os aqueus, eólios e dóricos.

[5] Parsifal é uma ópera  de três atos de Richard Wagner , de 1882.


Bibliografia

BANISTER FLETCHER, Sir. A History of Architecture by the Comparative Method. London. Batsford, 1954, p. 42 e seg.

GARMA, Angel. Psicoanalisis del arte ornamental.  Buenos Aires: Paidos, 1961, p. 30 e seg.

Uma resposta para “Psicanálise do Capitel Jônico

  1. Sílvio:
    São curiosas e bem construídas as observações e comparações feitas entre o capitel jônico com suas variantes e as representações fálicas.
    Me fazem lembrar também os edifícios cada vez mais altos que estão sendo erguidos (o Cucumber do Foster, em Londres) que em matéria de falo não deixam para ninguém.
    Helio Brasil

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