Crônica de uma morte anunciada

A implosão do Hospital Universitário da Ilha do Fundão

Silvio Colin

A implosão da chamada perna seca do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, na Ilha do Fundão do Rio de Janeiro, foi uma morte anunciada. Após décadas de abandono, descaso, vandalismo, omissão, lá se foi um ícone da decantada Escola Carioca do Movimento Moderno da Arquitetura Brasileira. Trata-se não apenas de um caso extremamente desabonador para a saúde pública no Brasil que, como sabemos, vai mal das pernas, mas também para o nosso pensamento arquitetônico que, já na segunda década do século XXI, não consegui incluir nada que não seja aquela desgastada reflexão racionalista e produtivista de meados do século XX.

HUCFF. Ala demolida. Imagem <www.ufrj.br>

Não podemos deixar de ver o fato com um certo horror, e também não podemos evitar certas reflexões embaraçosas a respeito do que está sendo feito da nossa arquitetura.

A crônica de uma morte anunciada é uma novela do Prêmio Nobel Gabriel García Márquez publicada em 1981. Um primor! Quem não leu deve ler urgentemente. Trata de um assassinato que ninguém queria que ocorresse, nem os autores nem a vítima, todos sabiam que ia ocorrer, todos tentaram evitar e, no entanto, acabou acontecendo. Não sei por que (?!), ao pensar no que aconteceu com o nosso hospital universitário, lembrei-me do livro. Acho que é por que testemunhamos por décadas a degradação do prédio e sabíamos que não ia acabar bem. Gostaríamos de expor algumas reflexões a respeito.

Em primeiro lugar, cabe a constatação de que o Movimento Moderno em arquitetura está provando de seu próprio veneno. Não faz um século, Le Corbusier sugeria, no projeto de sua Vila Contemporânea, a demolição de grande parte do tecido urbano de Paris, e sua substituição por edifícios elevados, em nome do descongestionamento, do aumento da densidade, de uma melhoria da circulação e do aumento das áreas verdes. O que vemos recentemente é que a voragem destrutiva modernista não poupa suas próprias realizações. Charles Jencks sugeriu que esta auto-imolação modernista significava a morte do Movimento Moderno[1].  Isto foi em 1977.

O que vemos hoje é que o Movimento Moderno está muito vivo, pelo menos no que tem de pior. Existe uma lógica, típica do Modernismo, que é mais forte que qualquer outra em nosso mundo, que é a lógica do sistema produtivo. Sob o lema da funcionalidade paira aquele da produção. Baudrillard já nos advertira que é o sistema de consumo que realiza a funcionalidade tão buscada pela arquitetura e pelo design ditos “modernos”. A produção anárquica e desenfreada, que todos os críticos do funcionalismo denunciam, é adequada ao seu fim, que é a sua própria sobrevivência e reprodução alargada. O modelo de racionalidade foi originalmente e permanece fundamentalmente o econômico – é normal que seja a funcionalidade do sistema econômico que se imponha.[2]

Assim é que todos os bens criados pelo modernismo devem, para a sobrevivência do sistema, ser substituídos de tempos em tempos para mantê-lo aquecido e produzindo. Quem estiver no caminho será imolado.

O discurso oficial diz que a “perna seca” do HUCFF vai ser substituída por um novo hospital “menor, melhor, mais moderno, mais atraente, mais ‘amigável’, com mais recursos etc. etc.” Com o novo hospital, a Ala Norte, onde hoje funciona o atendimento clínico e ambulatorial, terá as dependências aproveitadas com salas de aula, gabinetes de professores e laboratórios de pesquisa, o que não é, por certo, o mais nobre destino. Foi dito que era muito mais econômico construir um novo hospital do que recuperar o antigo.

As pessoas que decidem, de um modo geral, têm o hábito de raciocinar sempre com números, e as planilhas de custos, estatísticas e gráficos são muito convincentes. Mas os números, as planilhas e os gráficos são, para parafrasear o economista Aaron Levenstein, como os biquínis, pois o que mostram é entusiasmante, mas o que escondem é o mais importante. A grande questão para se saber se é ou não mais econômico destruir ou construir é saber o que está sendo comparado. Se é uma simples estrutura, corroída e danificada, ou um monumento arquitetônico, símbolo de uma arquitetura e de uma época. Por critérios simplesmente aritméticos, que parecem ser os critérios adotados para as comparações em questão, não teríamos um Corredor Cultural no Rio de Janeiro. Tampouco teríamos o oboé na orquestra, para usarmos o raciocínio do Professor Carlos Lessa[3], pois custa tão caro formar um oboeísta como um violinista, que tem uma participação muitas vezes maior nas peças sinfônicas.

Hospital Universitário. Ala Norte.

Ah, sim! Foi dito que aquele prédio representa a megalomania e a arrogância daquela arquitetura. Neste aspecto muito pouco mudou. Acaso os prédios que vêm sendo construídos no Fundão não são também megalômanos e arrogantes. Pode-se ser contra a arquitetura de Jorge Moreira, mas não se pode negar que, paralelamente à acusada arrogância e megalomania, que não é somente dele, mas de todo um governo, de toda uma época, de toda uma arquitetura, os prédios por ele projetados possuem um sentimento de continência e harmonia, que ficou no passado. O que vemos agora sendo construído no Fundão é uma espécie de disneylândia biotécnica na qual as qualidades do Movimento Moderno parecem ter sido esquecidas.

Cenpes da Petrobras. A nova Cidade Universitária. Imagem <inovabrasil.blogspot.com>

Não se diga que um novo prédio, construído segundo novos conceitos, mais atualizados, de arquitetura hospitalar, atenderão melhor dos que o prédio demolido. Esta questão loosiana e bauhausiana da vocação de uma forma para uma função é uma falácia que já foi centenas de vezes desmentida nas últimas décadas do século XX[4]. A questão é que essas pessoas que decidiram pela implosão querem mais é destruir e construir, segundo conceitos tecnicistas, funcionalistas e produtivistas, e não sabem preservar, restaurar, revitalizar. E sobretudo não sabem refletir neste sentido.

Curioso, para não dizer aberrante, é notar que, bem próximo dali, na Avenida Brasil nº 500, está sendo revitalizado e ampliado o antigo edifício do Jornal do Brasil pelo Ministério da Saúde, para abrigar o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia. As novas instalações do Instituto vão permitir a criação de 21 novos centros de tratamentos específicos e aumentar de oito para 21 o número de salas cirúrgicas, terá 60 consultórios, 255 leitos de internação e 48 leitos de terapia intensiva e pós-operatório.

Antigo Jornal do Brasil, projeto de Mindlin Associados, revitalizado e ampliado para sede do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia. Imagem <www.flickr.com>

Ainda há, entretanto, os que não consideram obras do modernismo arquitetônico como monumentos, semelhante ao que ocorreu há algum tempo, em que se considerava que somente a nossa arquitetura colonial mereceria o tratamento de Monumento Histórico, deixando de lado grande parte da produção oitocentista e novecentista pré-moderna. Nesse ponto estão sendo coerentes os modernistas que assim pensam. Afinal, se  a história terminava com eles, um prédio modernista degradado merece ser condenado à demolição, pois não atendeu funcionalmente à sua demanda. É uma questão apenas de aptidão, não de valor histórico.

Interior da “perna seca” antes da implosão. Imagem <www.flickr.com/photos/

E estas mesmas pessoas, que assim argumentam, vêm, em um outro momento, com um discurso dito bastante atual e contemporâneo. Falam em globalização, em sustentabilidade, em ecologia. Ora, não existe nada mais contrário à sustentabilidade do que demolir um prédio desses. O desperdício de recursos, de energia, e de dinheiro também é irrecuperável.

Mas não tenhamos complexo de inferioridade. Isso acontece também acima do Equador. Um outro ícone importante no Movimento Moderno, já em sua fase mais avançada, o Robin Hood Gardens [5], tão emblemático pelo que representou de idéias novas nos anos 1960, de autoria do não menos emblemático casal Smithson, também foi condenado por este tribunal de inquisição modernista pela sua não aptidão. Mas na conservadora Londres, vozes como Zaha M. Hadid e Richard Rogers, nomes não menos emblemáticos da arquitetura recente, levantam-se em sua defesa. Aqui, nem isso.

Imagem <www.piniweb.com.br>

O nosso Hospital Universitário, sem sua perna seca, vai para uma estranha galeria fantasma, a dos prédios modernistas demolidos, com o Pruitt-Igoe, exemplo de um fracasso arquitetônico e de um investimento perdido. Sob estes aspectos, então, podemos parafrasear Charles Jencks. A arquitetura do Movimento Moderno, no Brasil, morreu. Morreu no dia 19 de dezembro de 2010, às 7 h da manhã.

PS: Devo dizer que muitos dos professores da FAU com quem conversei são contra a demolição. Infelizmente há muitos que aprovam, e até dizem que nós, arquitetos ou professores, condenamos o edifício. Não é a verdade. Destaco o excelente texto dos professores Roberto Segre e José Barki na revisa AU – Arquitetura e Urbanismo.

Links:

http://www.ufrj.br/implosaohu/

http://www.piniweb.com.br/construcao/arquitetura/roberto-segre-e-jose-barki-questionam-valor-arquitetonico-do-hospital-194771-1.asp

http://memoriasdeumpalacio.wordpress.com/2009/01/30/serie-noticias-da-ufrj-1/


Notas

[1] Ver post “A morte da arquitetura moderna” neste Blog. 

[2] BAUDRILLARD. Para uma economia política do signo. Porto: Edições 70, 1981.  P. 254.

[3] Ver Seminário Pensar Brasil 2022.Ideal hoje, Real Amanhã – O Pensar e o Fazer. Link https://docs.google.com/viewer?url=http://www.cebela.org.br/imagens/Materia/091-179%2520seminario.pdf

[4] Ver post “A fantasia da função” neste blog.

[5] Ver post “Alison e Peter Smithson”, neste blog.


3 Respostas para “Crônica de uma morte anunciada

  1. É verdade, não tinha me atentado para este fato. A arquitetura moderna sofreu com a repetição de sua pior parte. Me parece que não estamos aprendendo com os erros, e sim, aprendendo os erros e repetindo-os.
    A demolição da perna seca do Hospital do Fundão foi um absurdo, assim como muitos outros absurdos que vivenciamos e estão presentes no nosso dia a dia. Mas o que mais angustia é perceber que apenas poucos não se enganam com a naturalidade com que o fato foi tratado, e percebem o verdadeiro absurdo que foi.

    Silvio, sua postagem foi muito sensacional! Parabéns!

  2. anna helena moussatché

    Parabéns, Sílvio pelo protesto e por elevar sua voz com suas idéias.
    Continue alerta,pois precisamos de bons representantes !
    Anna Helena

  3. Professor Sílvio:
    Excelente o artigo.
    Aliás, qualquer prédio sofre obsolescência. Dos gregos aos góticos, passando pelos barrocos, ecléticos e… modernos. E é SEMPRE mais caro reformá-los, restaurando-os (não falo nos estranhos retrofites) do que construir um novinho em folha. Bolas! Então, derrube-se o Teatro Municipal. Aposto que a reforma e restauro foram mais caros (some-se, por favor, ao “preço da obra” o tempo da paralização e os prejuízos do “desuso”) do que erguer novo teatro…
    Não atentaram para o que SIGNIFICA a cidade Unversitária e as obras erguidas ali, sob o traço do Jorge Moreira, independente das críticas que poderão ser feitas. Mas, na época, QUANTOS fariam melhor?
    Gostei muito da expressaõ Disneylândia Tecnológica. foi na mosca!!
    Parab[éns,
    Helio Brasil

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