Toponímia das favelas cariocas

Silvio Colin

Alemão, Maré, Borel, Mangueira, Santa Marta, Rocinha, Salgueiro… De onde vêm estes nomes? O que significam? Porque começaram a ser usados. A toponímia, estudo dos nomes dos lugares,  é dos  mais significativos e esclarecedores sobre os locais. Suas condições históricas, geográficas, políticas, culturais, podem estar representadas no nome. Quem, por exemplo associaria o topônimo Pernambuco à designação “Bairro do Fernando” (Fernambourg), como nos ensina Louis Vauthier [1].

Os estudo da toponímia pode revelar dados históricos, fenomenológicos, sociológicos, e mesmo ressaltar contradições políticas e administrativas. A seguir apresentamos a origem de alguns topônimos de favelas no Rio de Janeiro, sua origem controversa e alguns dados dessas comunidades.

Favela da Rocinha. Imagem <www.shafir.info>

O complexo do Alemão tem como núcleo é o Morro do Alemão e compõe-se de 14 favelas. Embora muitas vezes seja visto pela população como parte dos bairros vizinhos de Ramos, Penha, Olaria, Inhaúma e Bonsucesso, é um bairro oficial. Estabeleceu-se sobre a Serra da Misericórdia. Seu nome refere-se ao imigrante polonês Leonard Kaczmarkiewicz, que nos anos 1920 adquiriu terras na área, então região rural dos subúrbios da Leopoldina. Leonard, alto, branco, de sotaque carregado, louro, era conhecido pela população local como “o alemão” e logo a área ficou conhecida como Morro do Alemão. Em 1951 Leonard loteou o terreno para comercializá-lo. Nesta mesma época, instalou-se na área o Curtume Carioca, o que promoveu a ocupação da serra pelos seus operários. Novo crescimento se deu com a abertura da Avenida Brasil, em 1946.  acabou por transformar a região no principal pólo industrial da cidade. Com uma área de 296 ha, cerca de 3 quilômetros quadrados, o Complexo conta com uma população de 65.026 habitantes de acordo com o censo de 2000, possui 18000  domicílios, e, nos últimos anos concentrou grande parte da violência e dos crimes ligados ao tráfico de drogas da cidade.

Igreja da Penha e Complexo do Alemão. Imagem <http://oglobo.globo.com&gt;

Rocinha

A Rocinha começou a estabelecer-se nos anos 1930, na área da antiga fazenda Quebra-Cangalha[2] Conta-se que o nome da área foi adotado pelos usuários da feira-livre da Praça Santos Dumont, antes mesmo da existência da favela, ainda em 1920. Dizia-se que as hortaliças, frutas e legumes lá comercializados vinham de uma “rocinha” do Alto da Gávea, segundo Milton Teixeira. Atualmente a Rocinha é considerada uma das maiores favelas do Rio com pouco mais de 50 mil moradores segundo o censo de 2000. A Rocinha teve seu maior crescimento quando da expansão imobiliária dos bairros de Ipanema, Leblon, Gávea e Jardim Botânico nos anos 1960.

Mangueira

A área da Mangueira começou a ser ocupada ainda no século XIX, quando se inaugurou o primeiro telégrafo  aéreo no Brasil. A vizinhança da Quinta da Boa Vista era conhecida como Morro dos Telégrafos. Foi instalada na redondezas uma frábrica de chapéus chamada Fábrica Fernando Fraga. Devido à presença de um grande mangueiral, já que a região era uma das maiores produtoras de mangas do Rio de Janeiro, a fábrica ficou popularmente conhecida como Fábrica das Mangueiras. O proprietário em pouco tempo mudou o nome da fábrica para Fábrica de Chapéus Mangueira. Devido à aceitação popular do nome, a Estrada de Ferro Central do Brasil chamou de Estação de Mangueira primeira estação de sua linha, inaugurada em`1889.  Daí o nome da escola de samba tradicional Estação Primeira de Mangueira. A área teve um primeiro crescimento em 1908, quando da reforma da Quinta da Boa Vista, com soldados do 9° Regimento de Cavalaria, que haviam sido desalojados, e mudaram-se para lá. Um incêndio que, em 1916 atingiu o Morro de Santo Antônio, levou novos moradores . A Mangueira é um dos mais importantes pólos de cultura popular do Rio de Janeiro, com sua escola de samba, berço de grandes sambistas. Área territorial 0,8 km², população 13.600 habitantes aproximadamente, pelo censo de 2000, e cerca de 3700 domicílios.[3]

Morro da Mangueira. Imagem <http://pt.wikipedia.org&gt;

Borel

O Morro do Borel localiza-se na Tijuca e sua ocupação começou com a demolição do Morro do Castelo e a remoção das seus habitantes[4], em 1921. Quanto ao nome, as fontes consultadas são contraditórias, mas parece derivar de uma Fábrica de Rapé e Tabaco Borel, ali existente no início do século, e que empregava moradores da comunidade. Em 1910, a Souza Cruz, que parece ter pouco a ver com o nome, comprou a imponente Imperial Fábrica de Rapé Paulo Cordeiro, na rua Conde de Bonfim, nas matas da Tijuca, e instalou a sua primeira fábrica, consolidando a característica da área como produtora de cigarros. A população da comunidade era de cerca de 7 mil habitantes, em aproximadamente 1800 domicílios, segundo dados de 1991, do IBGE.

Vigário Geral

O nome da favela é o mesmo do bairro. Este, por sua vez parece ter relação com o caminho percorrido pelo vigário geral da Freguesia de Irajá, desde a estação de trem, chamada então Velho Engenho até a igreja, ao lado do cemitério de Irajá. Este caminho ficou conhecido como Estrada do Vigário Geral.  O bairro desenvolveu-se a partir dos anos 1930. A favela de Vigário Geral é um local com alto índice de violência e de incidentes envolvendo o narcotráfico.  Foi cenário de um dos mais horríveis episódios da história do Rio de Janeiro, a chamada Chacina de Vigário Geral, em 1993, quando 50 policiais invadiram a favela e assassinaram 21 moradores.

Morro do Salgueiro. Foto Flávio Veloso. Imagem <http://www.pbase.com&gt;

Salgueiro

A oposição entre Salgueiro e Mangueira, duas escolas de samba rivais, não tem relação toponímica. O nome Salgueiro não se refere à árvore mas do comerciante português Domingos Alves Salgueiro, proprietário de 30 barracos na favela. A ocupação do Salgueiro começou nos primeiros anos do século XX por ex-escravos e migrantes, e se acelerou a partir dos anos 40, com o crescimento imobiliário da área nas imediações da Praça Saens Peña.

Complexo da Maré

Agrupamento de várias favelas, atualmente sub-bairros, constitui-se um dos maiores complexos do Rio, com cerca de 130 mil moradores. Seu nome reflete as principais características do conjunto, o de ter-se instalado às margens da Baia de Guanabara, com uma vegetação de manguezal, com construções originalmente em palafitas, característica hoje perdida, e que naturalmente era, em suas origens, afetada pelos movimentos das marés, o que certamente trazia problemas aos moradores. Hoje a Maré, um bairro desde 1994, engloba dezesseis comunidades, cuja toponímia, em si mesma é muito expressiva.

Nela estão contidas homenagens de retórica institucional, como a comunidade Marcílio Dias, herói da marinha brasileira, Parque Roquete Pinto, pai da radio difusão no Brasil, Vila do João, uma adulação ao então Presidente João Figueiredo. Destaque-se o cunho político do nome da Comunidade Rubens Vaz, sugerido provavelmente pelo Governador de então Estado da Guanabara, Carlos Lacerda. Rubens Vaz era major da aeronáutica e foi assassinado em um discutido atentado ao então deputado Lacerda, em 1954, fato este que foi explorado politicamente pelo futuro governador.

Há os nomes que se referem à própria topologia, como o Parque Maré, Nova Holanda, e Nova Maré. No caso da Nova Holanda, ocupando o sitio de um grande aterro, o nome referencia a Holanda, país em grande parte situado abaixo do nível do Mar.

É curioso notar também, além dos topônimos oficiais, os apelidos. O Conjunto Bento Ribeiro Dantas homenageia um empreendedor, Presidente, de 1942 a 69, da empresa aérea Cruzeiro do Sul, extinta em 1975. Seu apelido, Fogo Cruzado, refere-se a sua posição entre os domínios de duas facções rivais do tráfico de drogas. O conjunto Novo Pinheiro, que toma o nome da Vizinha Vila do Pinheiro, por sua vez traz o nome da antiga Ilha do Pinheiro, tem o apelido Salsa e Merengue, alusão a uma novela de televisão exibida em 1997, possivelmente pelo colorido das casas, semelhante às da novela[5]

Complexo da Maré. Imagem <www.flickr.com>

Chapéu Mangueira. Foto Fernanda Melonio. Imagem <www.flickr.com>

Chapéu Mangueira


O topônimo, que se refere à fábrica de chapéus que já inspirara o Morro da Mangueira, deu nome também à pequena comunidade do Leme. O historiador Milton Teixeira diz que havia no local um outdoor fazendo propaganda da notória fábrica de chapéus. O cartaz mostrava duas pessoas usando chapéus, os quais você podia dobrar e colocar no bolso.[6] O grande reclame deu nome à comunidade.

Santa Marta

Favela localizada no Morro Dona Marta, no bairro de Botafogo, também chamada de Favela Dona Marta. É um dos topônimos mais controvertidos. Oficialmente parte do bairro de Botafogo.

A comunidade é famosa por ter sido palco do clipe They don’t care about us de Michael Jackson. Na ocasião tornou-se polêmica a gravação por ter sido necessária a autorização do traficante Marcinho VP, procurado pela polícia.[7]

Favela Santa Marta. Imagem <http://pt.wikipedia.org&gt;

A confusão toponímica começa pela existência do mirante Dona Marta, nome dado no final do século XVII pelo padre Clemente Martins de Matos, tesoureiro da Sé do Rio, proprietário das terras, que teria dado ao mirante o nome de sua mãe.[8] A existência de uma estatueta de Santa Marta, levada por uma antiga moradora nos anos 1920 consagrou o nome da Santa para o local. Onde a fiel costumava rezar foi erguida uma igreja nos anos 1930. A mídia e os evangélicos referem-se à favela como Dona Marta.

Morro da Providência

É um dos topônimos mais estudados. No ínicio do século XX era sinônimo de favela. O Morro da Providência é considerado, não sem divergências, a primeira favela do Rio de Janeiro. O próprio termo “favela” teria sido usado pela primeira vez ali, quando foi chamado “Morro da Favela”, numa possível referência a um “Monte da Favela” citado por Euclides da Cunha em “Os Sertões”

O topônimo “Providencia” tem origem não menos controversa. Teria sido usado a partir dos anos 20, com referencia também a um rio em Canudos, também citado em no livro[9], ou a partir da década de 40, porque a capela da Divina Providência ficava no local.[10]

Foto Davi Marcos. Imagem <http://theurbanearth.files.wordpress.com&gt;

LINKS

http://www.favelatemmemoria.com.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=40&sid=3

http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/rj/conheca+a+origem+dos+nomes+de+algumas+favelas+do+rio/n1237967511709.html


NOTAS

[1] Vauthier. L.L. “Casas de residência no Brasil” In: Arquitetura Civil I. São Paulo: FAU/USP e MEC/IPHAN. 1975, p. 33.

[2] http://www.favelatemmemoria.com.br

[3] http://pt.wikipedia.org/wiki/Mangueira

[4] http://pt.wikipedia.org/wiki/Morro_do_Borel

[5] http://pt.wikipedia.org/wiki/Complexo_da_Maré

[6] http://ultimosegundo.ig.com.br

[7] http://pt.wikipedia.org/wiki/Favela_Santa_Marta

[8] http://ultimosegundo.ig.com.br

[9] http://www.favelatemmemoria.com.br

[10] http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/rj/

BIBLIOGRAFIA

ZALUAR, Alba  e  ALVITO, Marcos (Org) Um século de favela. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2006.

ZYLBERBERG, Sônia.  Morro da Providência: memórias da Favella. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1992.

VENTURA, Zuenir. Cidade partida. São Paulo: Companhia das Letras, 1994

ABREU, Maurício de. (1994), “Reconstruindo uma história esquecida: origem e expansão das favelas do Rio de Janeiro”. Espaço & Debates, 37: 34-46.



Uma resposta para “Toponímia das favelas cariocas

  1. Muito interessante! Pesquisa muito aprofundada, dados bastante curiosos! Adoro o seu blog. ;D hehe

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