Um projeto bem explicado

Casa Monteiro Coimbra. Jacarepaguá, Rio de janeiro. 1952. Arquitetos M. M. M. Roberto

Esta casa aborda um tema que será popularizado um ano depois por Oscar Niemeyer na Casa das Canoas [1] : a grande laje plana com forma livre, dominando a construção.  Esta casa, entretanto, é anterior à de Niemeyer, e dela difere em muitos aspectos. Inclusive porque neste exemplar,  os blocos da construção tem caráter determinante, e a laje acompanha a organização funcional da casa, enquanto que, na casa das canoas, é a laje o ponto de ataque, subordinando os outros elementos. Vale a pena uma análise desse edifício, sobretudo pela explicação detalhada que  fazem os arquitetos, expondo com clareza os pontos de doutrina de sua arquitetura, tão marcantes na época. Além disso, didaticamente, é um excelente exemplo de um memorial descritivo.

Eis o texto de apresentação.

As três funções principais que normalmente devem prevalecer numa casa: repousar, viver-estar, e serviço, foram, na verdade, reunidos de maneira inteligente nesta casa projetada e construída pelos arquitetos M. M. M. Roberto. Percebe-se que na execução do projeto houve uma evidente preocupação, por parte dos arquitetos, qual a de dar a todos os ângulos da casa um aspecto agradável, particularmente o teto, ou melhor, a parte de cima. Plasticamente a forma, aqui, poderá ser discutida. Poderá, contudo, ser discutida a preocupação de esconder o telhado, mas é indiscutível o trabalho realizados pelos seus autores, como boa arquitetura. Revela notar que a situação da casa foi planejada de maneira a que fosse possível um melhor aproveitamento interno das brisas bem como uma visão mais ampla do gramado em torna da ilhota e das margens arborizadas.

Destaque-se ainda o telhado. A elevação e a inclinação da superfície do teto foram possíveis graças à utilização do cimento armado. Além de embelezar, a forma do teto resguarda a casa do sol e da chuva, como e também faculta a necessária boa ventilação. [2]

Ala dos Dormitórios.  O piso foi elevado a fim de garantir a privacidade completa.

Ives Bruand comenta:

A casa está inteiramente abrigada sob uma laje muito saliente de contorno sinuoso, que lembra as formas livres das marquises de Niemeyer. A fonte de inspiração não é duvidosa, embora os Roberto se tenham antecipado ao próprio Niemeyer ao aplicar esse tema ao telhado de uma casa particular. Por outro lado, é interessante notar o tratamento nitidamente distinto que os arquitetos lhe deram. Enquanto, em Niemeyer, a laje de cobertura é sempre plana e destaca-se pela brancura brilhante da natureza que a circunda, ao mesmo tempo que retoma as formas desta, nos Roberto ela se transforma num jardim suspenso e dá ligar a jogos de inclinações motivados originalmente por razões funcionais, mas explorados num sentido nítidamente plástico. O telhado torna-se flexível em elevação e está ligado ao solo por uma escada que parece um tobogã. Assim, a casa propriamente dita está como num sanduíche de vegetação; mas ela não se dissolve nessa vegetação por causa da adoção de uma planta estritamente geométrica, onde impera o ângulo reto, e da escolha dos materiais que oferecem o contraste necessário.  Os meios empregados e o resultado obtido são assim, em certa medida, opostos aos de Niemeyer, apesar do ponto em comum, que é o sistema de cobertura adotado. Os irmãos Roberto permaneceram presos a uma rígida ortogonalidade, em matéria de planta do térreo; eles recusaram categoricamente as fantasias líricas de seu colega e sua concepção de composições inteiramente baseadas nos jogos de curvas. Sua construção é assim muito mais racional quando se considera apenas os problemas práticos: distribuição e arranjo do quadro interno principalmente. Por outro lado, é forçoso reconhecer que ela não tem  a mesma unidade nem a mesma clareza plástica das obras de Niemeyer e que dela emana uma certa confusão que não satisfaz inteiramente o espírito.[3]

Ala de estar. Quebra-sóis móveis protegem o lado oeste da sala de estar.

Vista oblíqua SE.

Vista oblíqua NE

Vista oblíqua SE. Entrada da garagem ao fundo.

Vista oblíqua SO. Quartos de serviço em primeiro plano.

MEMORIAL

Texto e desenhos dos autores.

“A posição da casa aproveita o vento dominante, o gramado, a vista do lago, da ilha e da margem ajardinada.”

” A  estrada circular em volta da casa não permitiu a existência de fachadas secundárias. Daí a razão das venezianas que fecham o quintal.”

“As três funções principais de uma casa: repousar, viver-estar e serviço foram, aqui, unidas  de maneira muito simples, o que deu margem à utilização simultânea da ventilação e da visão panorâmica.”

A elevação e a superfície do teto foram possíveis com a utilização do concreto armado. Além de embelezar, aquela forma do teto resguarda a casa do sol e da chuva, como e também, faculta a necessária boa ventilação.”

“Em virtude da diferença de nível entre as duas margens, uma solução comum de telhado ofereceria ao observador do outro lado uma quase que só das telhas,”

“O telhado-jardim faz com que 800 m² de área coberta desapareçam na paisagem.”

“”Corte. Proporciona melhor ventilação da sala de estar.”

“Altura bem maior foi conseguida graças à elevação do chão, na parte do dormitório.”

“O inconveniente do devassamento das casas de 1 pavimento é evitado com a elevação do piso dos dormitórios e com a opacidade do vidro do peitoril.”

“A terra mantida constantemente úmida funciona como um admirável isolante de calor.”

“As inclinações da cobertura, feitas para aproveitar o máximo da ventilação fazem com que a vista do jardim elevado seja apreciada obedecendo os mesmos princípios do palco de teatro.”

“A estrutura colocada externamente acusa sua independência permitindo que as paredes internas possam mudar de posição a qualquer momento”.

NOTAS

[1]  Sobre a Casa das Canoas siga o link

http://casasbrasileiras.wordpress.com/2010/09/20/casa-das-canoas-oscar-niemeyer/#more-99

[2]  Arquitetura e Engenharia, nº 31, maio-junho de 1954. p. 41-45.

[3] BRUAND, Yves. Arquitetura contemporânea no Brasil. São Paulo: Perspectiva, 2003 (4ª ed.), p. 173-4.

Fontes:

Arquitetura e Engenharia, nº 31, maio-junho de 1954, p. 41-45.

Habitat, nº 20, jan-fev. 1955, p. 22-25.

Módulo nº 2, agosto 1955. p. 34-36.

6 Respostas para “Um projeto bem explicado

  1. Pingback: Casa Monteiro Coimbra | Casasbrasileiras

  2. Roberto Santos

    Olá, gostei muito do sei post!!! gostaria de saber se essa casa ainda existe uma vez que esse projeto é datado de 1952 desde já agradeço!

  3. Natã Gavazzi

    Parabéns pelo site, realmente adorei o projeto dos irmãos Roberto.

  4. Parabéns pelo site, estava curioso depois que vi o filme no canal Brasil. Gostaria de saber para visitar , o endereço da obra prima.

  5. Boa noite. Nunca achei um material completo sobre os projetos dos MMMROBERTO , vocês estão de parabéns. Muito feliz por encontrar esse material. Irá me ajudar muito como referência.

  6. Andei pesquisando muito sobre essa casa e descobri que ela foi demolida.
    Não sei quando e nem porque, mas esse local onde ela ficava hoje tem muitas casas e até comunidades. Fica entre o Anil e a Gardênia Azul, em Jacarepaguá no Rio de Janeiro.
    Uma pena, devia ter sido tombada!
    Se alguém tiver alguma informação sobre essa demolição, gostaria de saber. Obrigada.

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