O movimento City Beautiful

Silvio Colin

O movimento City Beautiful nasceu nas décadas de 1890 e 1900 pretendia reformar a arquitetura e o urbanismo americanos tendo como premissas o embelezamento e a grandeza monumental das cidades. O movimento não procurava a beleza por si mesma, mas sim para o bem comum, para criar virtude moral e cívica das populações urbanas. Seus defensores acreditavam que tal embelezamento poderia, assim, promover uma ordem social harmoniosa, que aumentaria a qualidade de vida.

Washington Mall. Imagem <blog.travelmate.co.kr>

O movimento surgiu nas grandes cidades americanas em resposta à crescimento e congestionamento das zonas habitacionais, uma conseqüência de altas taxas de natalidade, o aumento da imigração  e consolidação das migrações  rurais para as cidades.  Durou por várias décadas, e para além dos monumentos que deixou, ele também influenciou fortemente o planejamento urbano  ao longo do século 20, em especial no que diz respeito à posterior criação de projetos de conjuntos habitacionais nos Estados Unidos. Houve uma troca de influências entre o movimento City Beautiful e o movimento da “Cidade Jardim”, o primeiro  baseado nos esquemas formais clássicos  e o segundo evocando a atmosfera rural..

O fazer arquitetônico do City Beautiful extraia do movimento Beaux-Arts, do início do século XIX, a ênfase na necessidade de ordem, dignidade e harmonia nos espaços urbanos, assim como pregava a monumentalidade clássica como aspecto do planejamento. Porém o idioma clássico era aplicado apenas parcialmente, no que diferia do Neoclassicismo oitocentista, como um meio de criar uniformidade e harmonia.

Exposição Colombiana. Chicago, 1893. Imagem <en.wikipedia.org>

O primeiro aporte em larga escala do City Beautiful foi a White City, como foi chamada a Exposição Colombiana, de 1893, em Chicago. O planejamento da exposição foi confiado a Daniel Burnham, que trouxe arquitetos do leste bem como o escultor Augustos Sain-Gaudens. Curioso mencionar a chamada “Traição de Burnham”. [1] A exposição foi responsável pela adoção do idioma monumental na arquitetura americana pelos quinze anos seguintes. A Avenida Monumento em Richmond, Virgínia, é uma expressão inicial do movimento.

Exposição Comercial de Louisiania. Saint Louis, 1904. Imagem <en.wikipedia.org>

O que havia começado com a Exposição Colombiana acelerou-se com a Exposição Comercial de Louisiania (Louisiania Purchase Exposition) , em Saint Louis, de 1904, para a qual foi contratado, como arquiteto chefe, o franco-americano Emmanuel Louis Masqueray . Este arquiteto projetou o Palácio da Argricultura, o Palácio da Pesca e da Floresta, o Palácio da Horticultura e o Palácio dos Transportes, todos baseados em projetos cívicos americanos. Outro célebre arquitetos americanos que tiveram projetos na feira foram Cass Gilbert, que projetou o  Saint Louis Art Museum, O palácio das Belas Artes durante a feira.

Mc Millan Plan. Washington. Imagem <en.wikipedia.org>

 

Uma das primeiras vezes que o ideal City Beautiful foi usado com a intenção de criar ordem social por meio do embelezamento foi o Plano Mc Millan para o centro de Washington DC, como comemoração do centenário da cidade, e para complementar o projeto de Pierre Charles L’Enfant, de 1791 já então centenário também, e ainda irrealizado em alguns aspectos. Os planejadores de Washington, entre eles Burnham, Saint-Gaudens, Charles Mc Kim da Mc Kim, Mead & White e Frederick Law Olmsted  visitaram muitas das grandes capitais européias com a intenção de dar  a Washington  a grandeza de cidades como Londres, Paris e Roma, criando um sentido de legitimação do governo, em um tempo de levante social nos Estados Unidos. O plano removeu um tecido urbano degradado, que envolvia o Capitólio, colocando em seu lugar monumentos e edifícios governamentais. Criou o National Mall e a Union Station, projetada por Burham. Foi interrompido durante a Primeira Grande Guerra (1914-18), mas depois completado com a construção, em 1922.

Edifício Municipal em Manhattan. Nova Iorque. Imagem <en.wikipedia.org>

Após o sucesso em Washington vários planos subsequentes para o embelezamento em muitas outras cidades americanas, tais como Chicago, Cleveland, Columbus, Des Moines, Montreal, Denver, Madison basearam-se nas propostas do City Beautiful. Podemos também citar intervenções pontuais como o edifício municipal em Manhattan, em Nova Iorque, o Bairro Schenley Farms em Pittsburgh, o Centro Cívico de São Francisco, entre outros.

Capitólio de Madison, Wisconsin. Imagem <en.wikipedia.org>

Fora dos Estados Unidos, o país que mais demonstrou influência do City Beautiful foi a Austrália, devido a uma combinação de fatores. Dizia-se que a Austrália, como um pais novo, de colonização européia devia beneficiar-se de poder planejar suas cidades do zero. Além disso notavam os planejadores que faltavam elementos que inspirassem orgulho cívico. Assim é que podemos notar em Camberra, Melbourne, principalmente a influência desses princípios.

Na medida em que os princípios funcionalistas da CIAM, de certa maneira opostos ao monumentalismo do City Beautiful e sua ligação com práticas advindas da Beaux Arts, começaram a prevalecer no ensino de arquitetura, nas primeiras décadas do século XX, o movimento tendeu a certo recolhimento, pelo menos fora dos Estados Unidos e em alguns postos avançados do Movimento Moderno, neste Pais.

Nos anos 1960, entretanto, após a Segunda Guerra Mundial, face a reconstrução dos centros históricos europeus e ao desgaste das fórmulas funcionalistas ao lidar com tecidos urbanos já configurados, as premissas do movimento City Beautiful voltaram a ser consideradas, pelo menos parcialmente.

Brasília Eixo Monumental. Imagem <en.wikipedia.org>

Em Brasília, por exemplo, o que diferenciava o projeto de Lucio Costa das outras propostas era justamente uma certa aproximação com a monumentalidade e a busca de uma expressão de dignidade cívica e harmonia, expressa no eixo monumental, que muito se aproxima de certas realizações do City Beautiful, embora descartando a expressão beaux-arts nos edifícios, outra marca deste movimento.


[1] Ver Post Escola de Chicago

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