Produtivismo

Silvio Colin

O produtivismo é, ao mesmo tempo, um caminho provável para a arquitetura, e, para esta, uma condenação ao lugar comum e a banalidade. Poderíamos mesmo dizer que se trata, no quadro da prática arquitetônica, de uma “a traição da máquina” com relação à atitude zelosa dos arquitetos, desde o movimento moderno. Quis o arquiteto fazer a sua arte para a indústria, e de tal modo o fez direito, que a indústria não precisa mais dele. Testemunhamos a hipertrofia dos grandes sistemas industriais voltados para a construção (pré-fabricados de estruturas, sistemas de esquadrias com grandes painéis de vidro multicoloridos e espelhados, painéis metálicos de grande impacto visual) que atendem com perfeição aos seus objetivos, mas que simplificam e empobrecem a paisagem construída e a atividade do arquiteto.

Sede da Willis Faber Dumas. Ipswich, Inglaterra. 1971-5. Arq. Norman Foster. Segundo Kenneth Frampton, o primeiro edifício produtivista no ambiente arquitetônico recente.

É disso que falamos quando usamos o termo produtivismo em arquitetura. Referimo-nos  a edifícios em que os produtos utilizados na sua confecção têm papel preponderante na própria concepção, na aparência, ou como determinante do estabelecimento das demandas funcionais, volumétricas, espaciais, ou murais.

A questão central desta atitude é atribuir à arquitetura nada mais do que as qualidades de uma “engenharia elegante”[1]. Pode-se dizer que arquitetura passa a ser produto de um desenho industrial em uma escala gigantesca. A tarefa do “arquiteto” deve ser acomodar, na medida do possível, os usuários e suas atividades em um galpão, que deve ser o mais flexível e aberto possível. A questão não diz respeito apenas à arquitetura. Partindo da economia, podemos dizer que o produtivismo é a crença de que as produtividade econômica mensurável e o crescimento é o objetivo da organização do ser humano, e que “mais produção (ou produtividade) é necessariamente bom”.

Dois desenhos de Mies van der Rohe (1921 e 1919) que expressam o fascínio dos arquitetos desta época com a poética do vidro.

Embora o produtivismo seja muitas vezes referido pejorativamente como um problema geral na política e na economia, o mundo atual é produtivista por natureza. Enquanto os críticos do produtivismo desafiam as noções de economia política convencional, e defendem uma política econômica mais compatível com o humanismo, esses pontos de vista muitas vezes são desprezados pelos economistas e cientistas políticos como utópicos, os quais sustentam que não há conflito entre o papel do trabalhador e do cidadão, pai e mãe, etc. Ou seja, que a economia convencional e, em particular a macroeconomia, já representa a relação entre a produtividade e a liberdade.

Anthony Giddens [2] define produtivismo como “uma ética em que o trabalho, reduzido à noção de emprego remunerado, foi separada rigidamente de outros domínios da vida. O trabalho, assim concebido, define as pessoas como úteis e socialmente valorizadas.

Um crítico chave do produtivismo acadêmico é Amartya Sen [3]. Sua teoria do “desenvolvimento como liberdade” é uma das diversas teorias do desenvolvimento humano, que afirma que o crescimento do capital individual, isto é, “talento”, “criatividade” e “criatividade pessoal”, é mais significativo do que o crescimento de muitas outras quantidades mensuráveis, por exemplo, produção de produtos para os mercados de commodities.

Palácio de Cristal. Londres, 1951. Uma das primeiras vezes em que os critérios da produção industruial suplantam os critérios estéticos na composição arquitetônica.

Na arquitetura também acontece assim, e podemos rebater os conceitos da economia para nossa matéria. O “talento”, a “criatividade”, e mesmo a abordagem humanista da arquitetura, segundo a qual o bem estar, a realização humana e o desenvolvimento de suas potencialidades são os objetivos primordiais da vida, e a arquitetura deve ser colocada a seu serviço, são agora secundários. Na arquitetura produtivista, tudo é determinado por questões técnicas, por parâmetros, por avaliações objetivas e numéricas como qual o espaço necessário, a dimensão do vão, o custo unitário e global, referindo-se sempre, obviamente, às estas propriedades técnicas dos produtos.

A grande novidade destes novos tempos, está no comportamento exigido da indústria. Nas primeiras décadas do século XX, os arquitetos estavam empenhados em fazer uma nova arquitetura que fosse a melhor expressão do mundo moderno; queriam fazer uma arquitetura para a “máquina”, e exigiam desta “máquina” o melhor que poderia dar. Conseguiram grandes vãos, grandes alturas, grande eficiência, grande economia. Para conseguir tal feito, foram incansáveis na criação de formas e sistemas. De uns tempos para cá, entretanto, parece que tudo já foi feito, tudo já foi conseguido, mas “a forja universal (deveria funcionar) a toda velocidade”[4]. Coube então, nas últimas décadas, às indústrias em si, e não mais aos arquitetos criar sistemas e produtos para serem utilizados na construção civil e na arquitetura. Sistemas estruturais, tipos de coberturas, tipos de revestimentos, painéis, sistemas de vedação como cortinas e peles de vidro, tudo isto, a partir dos anos setenta já estava pronto e disponível para uso imediato, oferecendo eficiência técnica, flexibilidade, elegância, economia, tudo o que se poderia desejar de um produto. A esta arquitetura, que se constitui não mais do que desenho industrial aplicado, chamamos de “produtivismo”.

Kenneth Frampton assinala que o primeiro edifício novecentista que pode ser caracterizado como produtivista foi a sede da Willis, Faber & Dumas de Norman Foster. Este edifício, entretanto tem uma história que remonta a segunda década do século XX, com o famoso arranha-céu de vidro de Mies van der Rohe. Mais remotamente, vamos encontrar o Palácio de Cristal, como primordial.

O trabalho dos arquitetos americanos, com Mies a frente, na busca da poética das cortinas de vidro é também um dado fundamental. Entretanto, nestas ocasiões, havia ainda a busca de uma feição estética para a arquitetura, e o arquiteto liderava esta busca. O produtivismo, em sua pior feição, se dá quando a industria produz sistemas completos, que prescindem dos mais altos valores da arquitetura, tais como a busca de expressão e significado, e restringem a atividade do arquiteto como um mero servidor, que sequer domina todas as características do sistema.

No que concerne à estrutura, um dos mais importante feitos produtivistas é a treliça espacial, que deve sua concepção a Konrad Wachsmann, professor do IIT e associado a Gropius nos anos 40. Em 1943 a força aérea americana encomendou-lhe um sistema para construir hangares para aviões do tamanho que se quisesse; estuda então um sistema de estrutura celular, semelhante às estruturas geodésicas de Füller, composto de peças iguais desmontáveis ligadas por nós metálicos articulados. Nascia assim as conhecidas treliças espaciais, sem dúvida a solução mais utilizada hoje para grandes pavilhões, devido à sua leveza extrema, baixo custo e facilidade de produção.

Estruturas espaciais projetada em torno de 1950 por Konrad Wachsmann. Imagens <www. dailytonic.com>

Os sistemas pré-fabricados de concreto são também largamente utilizados, e são também importantes ofertas produtivistas para a arquitetura. Foi a partir do final da década de 1940 que os pré-moldados de concreto começaram a ser utilizados em larga escala na construção civil, um pouco na esteira da reconstrução da Europa destruída pela Segunda Guerra Mundial, constituindo-se em uma renovação da idéia da “arquitetura da máquina”, em uma época em que o criador da expressão “máquina de morar’, Le Corbusier, não mais investia nesta idéia, mas em uma arquitetura extremamente personalista, explorando não a possibilidade de industrializar o concreto, mas de aproveitar-se de sua plasticidade. Apesar disso, a construção pré-fabricada em concreto conheceu grande evolução entre 1950 e 1970

A partir dos anos 1980, há um certo declínio no entusiasmo pela pré-fabricação em concreto, e ganha corpo uma crítica contrária, não somente por falhas técnicas e deterioração dos conjuntos, que ocasionaram muitos acidentes e provocaram sua demolição, como também pelo desgaste da própria idéia da excessiva repetição e empobrecimento da paisagem urbana.

Estrutura prémoldada de concreto. Imagem <www. dailytonic.com>

Devemos entretanto, com relação aos pré-fabricados de concreto, separar o que são os sistemas produtivistas daqueles que são sistemas ad hoc[5] , tais como o conjunto da UERJ, ou os Cieps. Nestes conjuntos, a presença do arquiteto é intensa e criativa com relação ao sistema. O produtivismo se caracteriza quando o sistema antecede ao arquiteto, e condiciona a sua participação.

Campus da UERJ. Rio de Janeiro. Arquitetos Flávio Marinho Rego e Luiz Paulo Conde. 1968-79.

Os conjuntos de fachadas chamados “cortinas de vidro” caracterizam a mais marcante presença do produtivismo na arquitetura. Resposta tardia a um fascínio que tinham o arquitetos pelo vidro, considerado o material do século XX nas suas primeiras décadas, e também pela busca da leveza e transparência, características do Estilo Internacional, do período entre-guerras, as cortinas desenvolveram-se a partir de 1950, paralelamente à evolução das indústrias do vidro e do alumínio relativos à construção civil. Das primeiras cortinas dos anos 1950, cujos melhores exemplos talvez sejam a Lever House e o conjunto Lake Shore Drive, às fachadas de Structural Glassing atuais, muito se investiu nos processos e técnicas relacionados , e muito do que se modificou na feição de nossas cidades deve  ser creditado às cortinas de vidro.

Lever House. Gordon Bunshaft para Skidmore, Owens & Merril (SOM). Nova Iorque,  1952. Um dos primeiros edifícios totalmente fechados com cortinas de alumínio e vidro.

Os painéis de chapas metálicas, outra forte manifestação do produtivismo na arquitetura, foram trazidos para o ambiente da alta arquitetura provavelmente por Richard Méier, nos anos 1970. Como aconteceu com os outros sistemas, nasceu de uma busca de uma expressão nova e foram posteriormente assimilados e desenvolvidos pela industria, em um nível de industrialização que viria depois a banalizar a sua utilização e afastá-los dos mais fortes ideais da arquitetura, ao mesmo tempo que aumenta a sua utilização. Inicialmente eram feitos de chapa de aço esmaltado, e somente depois viriam a ser de alumínio e posteriormente um material composto – ACM[6], que hoje tem ampla utilização para revestimento de fachada, como pilares, marquises, testeiras, quer isoladamente, quer conjugado com as peles de vidro.

 

Difícil questionar o Produtivismo na arquitetura, pois, como dissemos no início, a nossa sociedade é produtivista. Seus defensores, entre estes um grande número de arquitetos, virão em sua defesa com muitos argumentos calcados em números. Falarão de eficiência, economia, praticidade, fáceis resultados, racionalidade etc. E certamente terão razão, pois segundo estes critérios, as práticas produtivistas são imbatíveis. A questão é colocar estes valores como qualidades absolutas na arquitetura.  Não o são! A criatividade, a expressão, o significado, as características locais e temporais, as considerações com contexto, com a sustentabilidade, os valores mais altos da arquitetura enfim, estão comprometidos com algo, senão alheio, certamente secundário para esta.

 


NOTAS

[1] FRAMPTON, Kenneth. Historia Crítica de la Arquitectura Moderna. Barcelona: Gustavo Gili, 1994, p. 304.

[2] Anthony Giddens (1938)  Considerado por muitos como o mais importante filósofo social inglês contemporâneo, figura de proa do novo trabalhismo britânico e teórico pioneiro da Terceira Via . Do ponto de vista acadêmico, o seu interesse centra-se em reformular a teoria social e reexaminar a compreensão do desenvolvimento e da modernidade. A sua obra abarca diversas temáticas, entre as quais a história do pensamento social, a estrutura de classes, elites e poder, nações e nacionalismos, identidade pessoal e social, a família, relações e sexualidade. Foi um dos primeiros autores a trabalhar o conceito de globalização.

[3] Amartya Sen (1933) é um economista indiano, ganhador do Prêmio Nobel 1999 de Economia. Sua maior contribuição é mostrar que o desenvolvimento de um país está essencialmente ligado às oportunidades que ele oferece à população de fazer escolhas e exercer sua cidadania. E isso inclui não apenas a garantia dos direitos sociais básicos, como saúde e educação, como também segurança, liberdade, habitação e cultura. “Vivemos um mundo de opulência sem precedentes, mas também de privação e opressão extraordinárias. O desenvolvimento consiste na eliminação de privações de liberdade que limitam as escolhas e as oportunidades das pessoas de exercer preponderadamente sua condição de cidadão”, diz Amartya. Foi, em 1993, juntamente com Mahbub ul Haq, o criador do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que e vem sendo usado desde aquele ano pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento no seu relatório anual.

[4] Le Corbusier. Apud BLAKE, Peter. Os grandes arquitetos. São Paulo: Record, 1966. Pag. 118

[5] A expressão latina ad hoc quer dizer ‘para isso’, ‘para este fim’. Diz-se de algo arranjado ou pessoa designada especialmente para cumprir determinado propósito ou tarefa. A arquitetura ad hoc é aquela que usa materiais, processos ou formas alternativas projetados em razão da necessidade de atender a uma demanda específica do usuário, que, possivelmente não serão repetidos em outro lugar.

[6] O material ACM – Aluminium Composite Material, ou, Material Composto de Alumínio – é um tipo de revestimento em alumínio pintado ou anodizado , sendo amplamente usado para revestimento de fachada, como pilares, marquises, testeiras e, até mesmo, em fachadas contínuas, em composição com vidros.

 

2 Respostas para “Produtivismo

  1. Pingback: Arquitetura Pós-milagre | Coisas da Arquitetura

  2. Carlos Augusto Góes

    Prezado Sílvio,
    Belo artigo. Vale incluir, para além das questões éticas e estéticas abordadas, outra questão fundamental: a inadequação de boa parte desses sistemas para nosso contexto climático.
    A retomada da discussão das funções de atenuação térmica das fachadas, através da proteção solar, e ventilação, associadas às pesquisas formais que tiveram seu ápice na arquitetura moderna brasileira, será sempre bem vinda.
    Grande abraço.

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