Vivenda Elizabeth, de Pires e Santos

Silvio Colin

Revista Arquitetura e Urbanismo, jan/fev. 1927, p. 5 e seg.


Publico sempre neste blog alguns projetos de casas dos anos 1920 e 1930, anteriores à entronização do Movimento Moderno entre os arquitetos. Sem negar os grandes avanços, acho que muita coisa foi perdida na passagem da arquitetura prémoderna para o Momo. E penso que é sempre um bom exercício para os estudantes a análise desses projetos antigos.

Esta casa de que falamos a seguir é da lavra da Pires e Santos, um nome que me traz à memória dois grandes professores da FAU do meu tempo. Paulo Pires foi responsável pela cadeira de Pequenas Composições de Arquitetura da então Faculdade de Arquitetura da Universidade do Brasil, hoje FAU UFRJ, e foi diretor da faculdade nos anos 1960. Paulo Santos foi um dos maiores nomes da cultura arquitetônica brasileira.  Escreveu cerca de 20 livros, além de artigos especializados. Dentre os livros, destacam-se:  O barroco e o jesuítico na arquitetura do Brasil (1951), A arquitetura religiosa em Ouro Preto (1951), A Arquitetura da sociedade industrial (1960), A formação de cidades no Brasil colonial (1963) e Quatro séculos de arquitetura (1977),  este último, um marco definitivo da historiografia arquitetônica carioca. Membro efetivo do Conselho Consultivo do IPHAN, de 1955 a 1980, foi relator de 28 processos de tombamento de bens imóveis e de conjuntos arquitetônicos de cidades como Olinda (PE) e Serro (MG).

O escritório de arquitetura Paulo Pires e Paulo Santos foi fundado em 1927 pelos recém-formados engenheiros-arquitetos Paulo Ewerard Nunes Pires e Paulo Ferreira Santos, com alguma ajuda financeira da irmã deste, Dulcina. Posteriormente juntaram-se novos sócios Jorge Santos (1930), Nathan Feferman (década 1940) e Paulo de Tarso (1946), constituindo-se então a Pires & Santos. O projeto e construção da Escola Técnica do Exercito (ETE), na Praia Vermelha, em 1939/1940 levou a Pires e Santos a tornar-se, na década de 1960, uma das empresas de maior porte no ramo da arquitetura e da engenharia no Rio de Janeiro, chegando a contar com 1500 funcionários e 70 obras em andamento, ao mesmo tempo. [1]

A Vivenda Elizabeth foi projetada e construída no período de crescimento da empresa, e apresenta uma arquitetura que seria analisada posteriormente por Paulo Santos com muita perspicácia no livro Quatro Séculos de Arquitetura, uma razão a mais de interesse para o conhecimento do edifício.

Apresentamos a seguir o curioso memorial publicado na revista como apresentação do projeto.

É com grande satisfação que notamos que se vai difundindo rapidamente entre nós o gosto pelas casas construídas em terrenos espaçosos, arborizados, cheios de encantos naturais. Também já se observa certa tendência a morar confortavelmente, o que serve de teste para verificar que o índice de cultura e civilização do nosso meio social melhora.
As propriedades a que aludimos são dotadas, não raro, de piscinas e courts para sport. A “Vivenda Elisabeth”, de que é proprietária a Exma. família Matin A. Kock, fica situada a Rua Marques de S. Vicente na Gávea. Ela se nos afigura um exemplo característico. O terreno de uma extensão de 132 metros de largura por 200 metros planos de profundidade é levemente acidentado pelos dois riachos que o cortam, dando-Ihe um encanto especial. Aos fundos o morro, rico em vegetação frondosa até as vertentes da Pedra da Gávea. Pomar, horta, aviário, estão bem localizados. O edifício fica sobre plateaux, afastado do alinhamento da rua cerca de 100 metros e distando das construções vizinhas laterais mais ou menos  metragem semelhante. Da moradia não se vê os vizinhos, devido aos arvoredos centenários.

Situação

Vista da entrada

Porta principal


[1] SANTOS, S., 1993. Pasta Grupo III, arquivo n. 1239/3. Apud PUC Rio Certificação Digital nº 0016012/CA

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2 Respostas para “Vivenda Elizabeth, de Pires e Santos

  1. Camila Bueno Torres

    Fiquei curiosa em saber se Nathan Feferman é parente do professor da FAU-UFRJ Carlos Feferman. Vou aproveitar que tenho aula de PAII com ele e durante a semana mato minha curiosidade!

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