Malapropismo em arquitetura

Silvio Colin

Malapropismo, em arquitetura, acontece quando a mensagem veiculada pela forma arquitetônica é inapropriada ou inadequada ao seu conteúdo, sobretudo quando esta causa um efeito jocoso.  O assunto foi extensamente explorado por Charles Jencks, ao criticar a alienação dos arquitetos afiliados ao Estilo Internacional tardio e sua resistência à adoção da linguagem simbólica.

Referindo-se à refinada linguagem de Mies van der Rohe no conjunto do Illinois Institute of Tecnology (IIT), e ao seu extremo purismo, que desconsiderava qualquer alusão simbólica, Jencks chama a atenção que a Casa de Caldeiras mais parece a catedral do campus, e a Igreja, por sua vez parece uma casa de caldeiras.

Casa de Caldeiras do IIT. Mies van der Rohe 1947. Legenda de Jencks: “A tradicional forma da basílica, com a nave central e dois corredores laterais. Existe até um clerestório, em sistema de baias e um campanário, para mostrar que isto é uma catedral” [1] 

Capela do IIT. Mies van de Rohe. Legenda de Jencks: “Uma caixa cega, colocada ao lado de edifícios altos, os quais têm a mesma linguagem vernacular. Cega em três lados e com iluminação geral – trata-se claramente da Casa de Caldeiras” 

O termo malapropismo é um neologismo, originário da palavra inglêsa malapropism  [2],  que por sua vez deriva da expressão francesa mal à propôs (inadequado, mal colocado) e significa […] Uso inadequado de uma palavra, especialmente na troca por outra que lembra a primeira, causando jocosidade.[3]

Utilizamos aqui o termo por não existir um exato equivalente em português. Na língua falada sobretudo, encontramos no dia-a-dia, diversos destes exemplos. Para ficarmos apenas no âmbito da prática do ensino de arquitetura, mencionemos o estudante que trocou a expressão “iluminação zenital” por “iluminação genital“. Ou ainda, a frase “tirar o reboque da parede”, em lugar de “tirar o reboco da parede”. No mais das vezes são autênticos atos falhos, na definição de Freud[4], com uma causa inconsciente a motivar o engano.

Os símbolos são capazes de infiltrar-se nos pensamentos e passar despercebidos, resultando em um edifício cuja comunicação trai as tentativas de neutralidade e expressa significados ocultos e indesejáveis. Já falamos da resistência ao simbólico dos arquitetos modernistas, no artigo O Convento de La Tourette e o tema da cruz. Vejamos os pertinentes comentários de Jencks sobre o Asilo para Idosos, de Herman Hertzberger.

 Asilo para Idosos, de Herman Hertzberger. Amsterdã, 1975.

Quanto melhor é o arquiteto moderno, menos ele pode controlar significados óbvios. O Asilo para Idosos de Hertzberger é, num nível sofisticado, a casbah encantadora que ele desejava…onde o individual é psicologicamente protegido pelos recortes e reentrâncias. Como uma peça abstrata, comunica humanismo, cuidado, delicadesa. É a qualidade do quebra-cabeça chinês de vários elementos intertravados que os espaços adquirem por analogia. Embora estas analogias sejam claras, os significados metafóricos atacam furiosamente. Quais são as óbvias associações deste Asilo? Cada quarto parece um caixão preto colocado entre cruzes brancas (na verdade um cemitério de guerra). Apesar de seu humanismo, o arquiteto está dizendo inadvertidamente que a idade avançada, na nossa sociedade, é mortal.[5]

         Os melhores alvos do sarcasmo de Jencks são os baluartes do racionalismo, Mies van der Rohe, Ieoh Ming Pei,  Philip Johnson, Ulrich Franzen, Gordon Bunshaft e SOM [6]. Diz o crítico e arquiteto que ao observarmos a obras deste expoentes da arquitetura encontramos alguns significados vagos e ambíguos: formas fortes reduzidas, por sua imagem poderosa a significados não intencionais. O museu de Bunshaft para a coleção Hirshhorn, a única coleção de arte moderna no centro de Washington, um cilindro de alvenaria branco, forma simplificada, possivelmente inspirada nos “modernistas” do século XIX, Boullée e Ledoux, intenta comunicar poder, respeito, harmonia e o sublime, e é bem sucedido. Porém vários periódicos da época, inclusive o Time, criticou o edifício por parecer uma casamata, um bunker de concreto das praias da Normandia na Segunda Guerra, pesado, impenetrável, com metralhadoras giratórias atuando em 360 graus. Bunshaft está dizendo inadvertidamente: “Mantenha o público afastado da arte moderna nesta fortificação, e atirem neles se ousarem se aproximar,” [6]

 O Hirshhorn Museum, em Washington, de 1973, de Gordon Bunshaft.

A arquitetura, cujas idéias mestras sempre estiveram ligadas à pintura e literatura, aceitou em diversos momentos a contribuição do inconsciente do artista, embora isto nem sempre seja destacado devidamente. Por outro lado temos uma grande arquitetura ensinada nas faculdades, que se destina àquela tarefa que trouxemos como legado da “moderna sociedade industrial”, que é a de “resolver problemas de arquitetura”. Uma tarefa que exige de nós objetividade, racionalidade, sentido de equipe etc.

         Uma discussão extremamente rica ficou meio perdida pelo caminho, que é aquela dos métodos mais complexos de projetação, o ensejo de uma reflexão mais ampla sobre as possibilidades abertas àqueles que se dedicam a esta atividade. Há muitos métodos distintos daquele racionalista e funcionalista que é a prática dominante nos escritórios de arquitetura e nas faculdades os quais se baseiam em visões diferenciadas do objeto arquitetônico e seus elementos e que foram utilizados e consagrados pelos grandes mestres. Cremos que há um espaço aberto para a discussão de outros caminhos,     em particular aos desvios que nos levam ao mais profundo de nosso inconsciente, àquela linguagem simples, direta e primitiva que é de todos aqueles que sonham e tem desejos, pois no final das contas, o que é a arquitetura senão um sonho, o grande sonho de um lugar onde as coisas e as pessoas possam se encontrar com possibilidades plenas de vida e afeto.

Evitar este caminho, pode levar a situações embaraçosas, como vimos.


NOTAS

[1] Jencks, C. The language of post-modern architecture.  Londres: Academy, 1977, p. 16.

[2] A origem do termo se atribui à peça teatral  de Richard B. Sheridan “Os rivais”, estreada em 1775, na qual um dos personagens, a senhora Malaprop cometia freqüentes erros de pronúncia, com efeito cômico.

[3] HORNBY, A. S. Oxford Advanced English Dictionary of Current English. Oxford: 1977. O exemplo citado no dicionário é “Come girls, this gentlemen will exhort  you”. Aí a palavra exhort  (aconselhar, que pode ser utilizado no sentido de uma prédica religiosa) é usada no lugar de escort (fazer companhia, muito usado no sentido de conceder favores sexuais).

[3] FREUD, Sigmund. Psicopatologia da vida cotidiana. Rio de Janeiro: Imago, 1996 (Ed. original 1901).

[4] JENCKS, Charles. The language of post-modern architecture. Londres: Academy, 1977, p. 21.

[5] Skidmore, Owins & Merrill

[6] JENCKS, Op. cit., p.20.


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