A corrente de cristal

Vinheta

A Corrente de Cristal, em alemão “Die Glaserne Kette”, foi o nome com que se designou um conjunto de cartas utópicas trocadas entre um seleto grupo de arquitetos, liderado por Bruno Taut  entre 1919 e 1920, enaltecendo as virtudes do vidro, visto como material do futuro. Estes arquitetos, motivados pelo vazio ideológico existente então na Alemanha pós-guerra, buscavam alternativas estéticas e práticas para a arquitetura, rejeitando o materialismo e positivismo que caracterizavam o sistema político derrotado juntamente com o kaiser Guilherme II. Essas cartas descreviam visões de uma sociedade ideal e uma arquitetura fantástica por meio de textos e desenhos.

Cristal sobre uma esfera. Projeto para um edifício religioso. Desenho de Wassili Luckhardt. Imagem PEHNT, p. 37, com intervenção.

A inquietação cultural dos arquitetos alemães era multifacetada como um cristal. Havia o lado místico e o lado utópico representados pela Corrente de Cristal; havia o lado pragmático, representado pela Deutcher Werkbund[1] (Federação Alemã do Trabalho), que forjava a ligação com a indústria, um imperativo dos novos tempos para conseguir melhor qualidade dos produtos e melhor condição de vida;  havia o lado político representado pela Arbeitsrat für Kunst (Conselho de Trabalhadores pela Arte)[2] e seu co-irmão Novembergruppe [3].

Para os expressionistas, o cristal era visto como o supremo, o último. Uma peça de teatro representada em 1919 [4] dizia que se abria diante de nós “a altíssima porta abobadada da catedral da humanidade[5] A juventude de todas as nações está em chamas ante o santuário de cristal resplandescente entrevisto na noite.” Os membros da Corrente de Cristal, Bruno Taut (usando o codinome Glass) e seu irmão Max, Walter Gropius (Maß), Hans Sharoun (Hannes), Hermann Finsterlin (Prometh), Wassili Luckhardt (Zacken), Paul Gösch (Tancred) entre outros, em poucos anos se tornariam os lideres de uma nova arquitetura que, como sabemos, marcou definitivamente a história da arquitetura do século XX, primeiro através de movimentos locais, e depois pela Bauhaus.

Palácio de Cristal. Imagem❤.bp.blogspot.com>

No século anterior, o Palácio de Cristal havia causado profunda impressão:

Uma ordem de arquitetura inteiramente nova, que produz os efeitos mais maravilhosos e admiráveis com meios de inatingível habilidade técnica veio a luz para fornecer um edifício.  [6]

O poeta Paul Scheerbart foi, já no século XX, o grande inspirador da Corrente de Cristal e da cultura da arquitetura de vidro. Dizia

Para elevar nossa cultura a um nível mais alto nos vemos obrigados, queiramos ou não, a mudar nossa arquitetura. E isso somente será possível se liberarmos as habitações em que vivemos de seu caráter fechado. Somente poderemos fazê-lo com a introdução de uma arquitetura de vidro, que admita a luz do sol, da lua e das estrelas, não somente por umas tantas janelas, mas através de tantas paredes quanto seja possível, inteiramente de vidro, de vidro colorido.[7]

Scheerbart foi um dos responsáveis pela força expressiva que o vidro ganhou ao pregar a elevação cultural pela sua utilização, criando aforismas como “A luz quer cristal“, “O vidro aponta uma nova era“, “Não lamentemos a cultura do tijolo“. Nesta onda embarcaram Bruno Taut, com seu Pavilhão de Cristal, e o próprio Mies, com seus projetos para edifícios de escritórios para a Friedrichstrasse, em Berlim, em 1921.

Pavilhão de Vidro. Exposição Werkbund em Colônia, 1914. Bruno Taut. Imagem en.wikipedia.org. 

Pavilhão de Vidro. Exposição Werkbund. Planta.

Pavilhão de Vidro. Exposição Werkbund. Interior.
O edifício foi financiado pela indústria de vidro alemã com a finalidade de mostrar as potencialidades de diferentes tipos de vidro para a arquitetura.

Taut pensava que todo edifício destinado a um programa coletivo deveria ser de vidro. Considerava que o Pavilhão do Vidro na Exposição Werkbund, em Colônia, de 1914, era um modesto começo. Assim também os desenhos de Mies van der Rohe para um edifício de escritórios na Estação Friedrichstrasse, em Berlim, 1919, cuja forma pretendia parecer um cristal polido[8], mostrando a fascinação pelo cristalino.

Desenho de um edifício na Friedrichstrasse. 1919. Mies van der Rohe.

Nos anos 1940, já com as indústrias mais azeitadas para acompanhar as fantasias do arquitetos, realizaram-se as aspirações da Corrente de Cristal. Uma arquitetura toda vestida de vidro tomou conta das grandes cidades. Não se realizaram as fantasias utópicas de um mundo melhor, mas apenas aquelas ligadas ao material “do futuro”. Afinal de contas, as grandes empresas multinacionais, os grandes edifícios administrativos dos governos ocidentais, não era assim tão transparentes e luminosos, mas adoravam parecer assim e expressar-se arquitetonicamente por meio do vidro.

O vidro, como material único de fechamento, começou a ser utilizado em pequenos residências como a Casa Farnsworth (1946-1950), de Mies van der Rohe, a Casa de Vidro de Philip Johnson (1949). Mies foi o grande arauto desta arquitetura, com seus edifícios para o Lake Shore Drive (1948), imediatamente seguido por seus admiradores do escritório SOM [9] com a Lever House de Nova Iorque (1951). Logo a seguir veio o emblemático Edifício Seagram (1954-1958)

Edifício Seagram. Nova Iorque, 1954-8. Mies van der Rohe.

Nos anos 1970, as duas grandes crises da produção petrolífera, chamaram a atenção dos críticos para as importantes questões energéticas mundiais e os edifícios com pele de vidro foram condenados em primeira instância, por serem grandes gastadores de energia. Logo a indústria voltou à carga, oferecendo vidros da mais recente geração, com sofisticadas propriedades térmicas e lúminicas e os arquitetos adeptos do material, juntamente com as indústrias de esquadrias correlatas, esmeram-se em oferecer um sofisticado detalhamento de painéis compostos de vidros duplos ou triplos, e até mesmo com dupla pele de vidro.

Futurescope. Parque temático em Poitiers, Franca. desde 1987.  Imagem Wikipedia Foto Rémi Jouan.

Atualmente o vidro continua sendo um material para os ambientes mais sofisticados. Convido os leitores a verem este vídeo da empresa Corning.

http://www.youtube.com/watch?v=6Cf7IL_eZ38

Ele retrata a felicidade sonhada por Paul Scheerbart. Uma vida cristalina, luminosa, prática, um casal feliz e resolvido, que dorme de conchinha, ambos bem empregados. Inteligente como ele é, em breve aprenderá a cortar pimentão para fazer uma omelete. Jennifer prefere frutas. As filhas acordam e se vestem sozinhas, São boas alunas e conversam com a vovó. O vidro é o personagem principal. As janelas do quarto são de vidro fotovoltaico, a tevê gigante, de LCD; o fogão, de vidro termorresistente e a mesa, de vidro laminado monolítico habilitado para uso eletrônico. O celular é de vidro leve, sensível ao toque. As placas de trânsito eletro-óticas resistentes ao tempo, e ai por diante. O casal vive em um mundo de vidro que os faz feliz. São independestes e até trocam de lugar na cama de um dia para outro. Nem Paul Scheerbart, nem Bruno Taut haviam sonhado com tanto. No mundo da hiperrealidade, o real superou o sonho.

Parafrazeando o inesquecível Tom Jobim, que disse certa vez que os brasileiros serão felizes no dia em que todos morassem em Ipanema, podemos dizer que quando os 7 bilhões de habitantes da terra, na Nigéria, na Somália, na Etiópia, no interior do Brasil, no Haiti,  puderem desfrutar das maravilhas do vidro, que este orgman, esta orgwoman e seus filhos metropolitanos desfrutam, vou acreditar que o vidro é capaz de nos fazer felizes. Por enquanto, prefiro me concentrar em uma arquitetura menor, mais acessível, com alvenarias de tijolos, e as tradicionais janelas.


[1] Fundada em 1907, cujos membros mais destacados foram Hermann Muthesius. Peter Behrens, Theodor Fisher, Henry van de Velde e Heinrich Tessenow. Fez diversas exposições de grande importância para a arquitetura do Movimento Moderno, até seu fechamento em 1934.

[2] Fundada em 1918, por Bruno Taut, Walter Gropius, Cezar Klein e presidida por Adolf Behne. Contava com arquitetos e artistas que tinham ou vieram a ter expressão mundial como Adolf Meyer, Max Taut, Erich Medelsohn, Wilhem Worringer, Max Berg, Hans Poelzig entre outros. Seu objetivo era trazer  os novas tendências da arquitetura e da arte, e os mais recentes desenvolvimentos para uma população mais ampla.

[3] Fundado em dezembro de 1918, com o nome referindo-se ao mês da revolução alemã,  tinha o objetivo de influenciar a arte com valores socialistas.  Fundado por  Max Pechstein e Cesar Klein. Contava com a presença de Mies van der Rohe.

[4] Die Wandlung (A transformação), de Ernst Toller.

[5] Considere-se o jogo de palabras e imagens de Bauhaus, com Bauhütte (guilda de construtores de catedrais) utilizada no manifesto da Bauhaus cuja capa é ilustrada por Feininger com uma catedral.

[6] The Times, 12 de julho de 1852. Apud BENEVOLO. L. História da Arquitetura Moderna. São Paulo: Perspectiva, 2001, p. 132.

[7] Scheerbart, P. Glasarchitektur. 1914. Apud FRAMPTON, K.  Historia  Crítica dela Arquitectura Moderna.  Barcelona, Gustavo Gili, 1993.

[8] Pehnt, p. 41.

[9] Skidmore, Owings e Merrill, liderado então por Gordon Bunshaft.

BIBLIOGRAFIA

BENEVOLO. L. História da Arquitetura Moderna. São Paulo: Perspectiva, 2001

FRAMPTON, K.  Historia Crítica dela Arquitectura Moderna.  Barcelona, Gustavo Gili, 1993.

PEHNT, Wolfgang. La Arquitectura Expressionista. Barcelona Gustavo Gili, 1975.

LINKS

http://en.wikipedia.org/wiki/Expressionist_architecture

http://mitpress.mit.edu/catalog/item/default.asp?ttype=2&tid=

http://www.youtube.com/watch?v=6Cf7IL_eZ38

2 Respostas para “A corrente de cristal

  1. Pingback: Arquitetura e sustentabilidade | Coisas da Arquitetura

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