A poética do Art-Nouveau na arquitetura

Silvio Colin

Na Alemanha chamou-se Jugendstil. Na Inglaterra chamou-se Liberty Style, devido a uma loja de objetos de arte. Na Itália chamou-se Stile Liberty. O nome Art Noveau advém da Maison de l’Art Nouveau, loja de móveis, tapeçaria e objetos de arte do colecionador e comerciante Samuel Bing. Importantes arquitetos do final do século XIX e início do século XX, como Hector Guimard, Victor Horta, August Endell, Joseph Hoffmann entre outros, aderiram ao estilo e o divulgaram com sua obra.

Entrada do Metrô de Paris. Hector Guimard. 1900. Imagem<www.devoir-de-philosophie.com>

Originário das artes gráficas e industriais, o Art Nouveau foi um movimento de inspiração romântica que se opunha ao classicismo acadêmico e ao ecletismo, dominantes na arquitetura do século XIX. Suas formas tinham profunda ligação com a pintura simbolista e os artistas pre-rafaelistas como Dante Rosseti e Edward Burne-Jones. Uma das mais marcantes características gráficas do estilo, é o seu aporte tipográfico inconfundível, unindo letra e imagem por meios de uma profusão de linhas curvas naturais. Esta combinação foi utilizada em capas de livros, anúncios, cartazes etc.

Diferentemente da poética clássica, que se baseava nas relações visuais, o Art Nouveau buscava  uma ligação com a poética da empatia (einfülung), segundo a qual o prazer estético que um espectador experimenta ao contemplar uma obra de arte vem do fato de ele estar recuperando as emoções do artista ao fazer a referida obra, a qual estaria impregnada daqueles sentimentos. Opõe-se à estética da pura-visualidade (Sichtbarkeit), para a qual o prazer estético é objetivo, e refere-se apenas a relações formais.

A inspiração do Art Nouveau: a pintura de Dante Rossetti, as ilustrações Arthur Mackmurdo, os desenhos de Edward Burne-Jones e Alphonse Mucha. as gravuras de Katsushika Hokusai.

Não pode ser desprezada a influência do Movimento Neogótico, do qual assimilou uma de suas principais características, o culto da linha, que o vai destacar de outros movimentos arquitetônicos. De fato, a linha, não o volume, a cor, ou o efeito de massa, vai se tornar a marca do Art Nouveau. Entretanto a linha vai desempenhar um papel diferente da linha força, que desenhava os esforços das estruturas góticas. Agora será o desenho figurativo o que vai ser buscado. A linha será curva, buscando a representação da natureza, qual a antena de um inseto, o caule de uma flor, o panejamento de um tecido, o contorno das pétalas de uma flor, ou as curvas geradas pelo estalar de um chicote. Os motivos florais, as folhagens, a fertilidade da natureza, serão os temas preferidos, mas não faltarão mistérios, duendes. Diferentemente da poética clássica, para a qual a simetria era um das características fundamentais, é muitas vezes na assimetria que vai buscar sua maior diferenciação.

Hotel Tassel. Bruxelas, 1892. Arquiteto Victor Horta. Imagem <fotopedia.com> e <arquiteturadobrasil.files.wordpress.com>

O Art Nouveau propunha-se a ser um estilo total, expressando-se em diferentes escalas de design – arquitetura, design de interiores;  artes decorativas, incluindo joalharia, mobiliário, têxteis, prata e utensílios e objetos de iluminação, De acordo com a sua filosofia, a arte deve ser um modo de vida.

Muitos historiadores e críticos tendem a registrar o início do Art Nouveau no movimento Arts and Crafts, por volta dos anos 1880, na Inglaterra. O desenho de Arthur MacKmurdo para a capa do livro sobre as igrejas de Christopher Wren, publicado em 1883, alguns desenhos florais planos em tapeçarias, e trabalhos em ferro fundido, assinados por filiados ao movimento inglês de artesanato, são apontados como o primeiro início. Na Escócia, particularmente em Glasgow, desponta o nome de Charles Rennie Mackintosh, e sua obra canônica, a Escola de Artes de Glasgow. Outros nomes são do pintor e ilustrador Walter Crane e Arthur Lasenby Liberty, que emprestou o nome ao movimento na Inglaterra (Liberty Stile) através de sua loja de tapeçaria e objetos, na Regent Street, Londres, a Liberty & Co.

Hotel Solvay. Bruxelas, 1898. Arquiteto Victor Horta. Imagens <architypes.net>, <Gössel, 2001, p. 44>.

Maison du People. Bruxelas, 1896-8. Arquiteto Victor Horta. Imagens <maboiteaimages.skynetblogs.be> e Gössel, 2001, p. 47.

Bruxelas foi também um grande centro e, na arquitetura. A Bélgica experimentava grande prosperidade devidos aos ganhos da Revolução Industrial e a expansão colonial na África. O Art Nouveau representava esta transformação e forneceu prestigiosos nomes como Victor Horta, Gustave Serrurier-Bovy e Henry van de Velde, cujo nome se ligaria à Deutcher Werkbund e, mais tarde, à Bauhaus. O Teatro Werkbund, um dos pontos altos da Exposição da entidade no Reinpark, em Colônia, 1914, é de sua autoria. Do primeiro temos as obras canônicas do Hotel Tassell, de 1893-4, considerado patrimônio mundial pela Unesco em 2000, e da Maison du Peuple, sede do partido operário belga, construída de 1896 a 1899, lamentavelmentre demolida em 1965, entre tantos outros.

Obras de Hector Guimard. Sinagoga. Rue Pavée, Paris. 1913. Edifício na Rue Mozart, Paris. 1912. Imagens  < en.wikipedia.org> e <en.structurae.de>

Paris, o mais importante centro cultural da Europa, foi um outro berço, dando a esta tendência seu nome mais conhecido através da Maison de l’Art Nouveau, gerenciada na época por Samuel Bing. Na Cidade Luz, desponta o nome de Hector Guimard, que assinou as conhecidas entradas do Metro, e uma numerosa obra que se tornou emblemática do estilo.

Ateler Elvira. Munique, 1897-8. Arquiteto August Endell. Imagens <johncoulthart.com>

Na Alemanha, o estilo era conhecido como Jugendstil (estilo joven) devido ao semanário Jugend, cujos padrões gráficos estavam ligados ao estilo e serviram para divulgá-lo. O grande pioneiro Peter Behrens, cujo nome está muito mais ligado ao Movimento Moderno, não pode se furtar aos seus laços com o movimento Art Nouveau. Sua grande criação, a Deutcher Werkbund, em que pesem as diferenças, foi inspirada no movimento Arts and Crafts inglês, que lhe passou um pouco do romantismo que transparece em suas casas. E alguns objetos claramente ligados ao Art Nouveau. Aliás, a construção de sua casa é um marco da virada do Jugendstil para austeridade classicizante do MoMo. August Endell é outro notável do movimento autor do marcante Atelier Elvira. Munique foi o grande centro do estilo, destacando-se os nomes de Otto Eckmann e Hermann Obrist, produzindo testeis, tapeçaria e objetos de arte.

Casa de Peter Behrens. Darmstadt, 1901.

Os arquitetos vinculados a este pensamento romântico buscaram interpretá-lo e trazer suas figuras e linhas sinuosas dos objetos e das artes gráficas e linhas sinuosas para os edifícios. Para tal, foi importante o uso do ferro batido e fundido, que permitiam o volteio necessário para as formas novas. Isso ensejava a exposição das estruturas e a separação desta dos elementos vedantes, uma importante inovação que ligava o novo material à busca de uma alternativa romântica para o classicismo dominantes. A outra teria sido o uso de formas assimétricas, que confrontava os ditames da poética clássica.

Na Espanha, Barcelona foi outro grande centro, no qual o movimento experimentou grande originalidade. Há certa ligação com o Modernismo catalão, embora a amplitude deste último seja muito maior e às vezes esta simplificação conduza até mesmo a contradições. Lluís Domènech i Montaner, Josep Puig i Cadafalch são alguns epígonos do Modernismo, em cuja obra encontramos traços da arte nova. A obra de Antonio Gaudi é muito próxima do Art Nouveau, pelo uso que faz dos motivos naturais, florais e formas orgânicas. Entretanto sua obra é tão pessoal e subjetiva que talvez não caiba em nenhum estilo. Ela ultrapassa os limites do Art-Nouveau, na medida em que possui além do simbolismo e do lirismo ornamental desta, características de expressionismo e um trabalho intenso com a lógica estrutural e elemental da arquitetura. Certamente, para um entendimento melhor desta personalidade singular e sua obra, faz necessário um estudo isolado.

Casa Batlló. Barcelona, 1875-7. Arquiteto Antonio Gaudi.

Na Austria acontece uma abordagem muito particular, representada pelos artistas ligados à Secessão Vienense, que se inicia com a fundação, em 1897 da União de Artistas Vienenses. A idéia era confrontar a orientação conservadora e historicista vigente. Gustav Klimt, Koloman Moser, Josef Hoffmann, Joseph Maria Olbrich, entre outros participaram do movimento de ruptura, que divulgava seus trabalhos  nas páginas da revista Ver Sacrum. No que se refere à arquitetura, sua feição muito particular consistiu-se em uma forte influência que sobreviveu ao Art Nouveau e chegou à Expo Art Déco de Paris, em 1925.

Secessão Vienense. Capa da Revista Ver Sacrum, desenhada por Koloman Moser e edifício da Secessão, projetado por Olbrich em 1897. Imagens <aulas.pro.br> e <en.wikipedia.org>

Uma vez que o Art Nouveau tem origem nas artes gráficas e industrias, ela mantem, nessas áreas,  uma identidade muito maior, relativamente à amplitude geográfica do movimento. Na arquitetura, as interpretações locais admitem uma diversidade que não aparece nas outras áreas. Isso talvez explique as diferenças entre o Art Nouveau na França e Bélgica, das realizações escocesas ou vienenses.

Na arquitetura, o movimento, como um todo, compartilha do propósito de acabar com a imitação dos estilos do passado, prática dominante na academia, colocando em seu lugar uma inspiração das formas naturais, explorando o artesanato e os materiais. e entendendo a relação superfície ornamento de uma maneira nova, e buscando. Suas contradições internas reproduzem aquela de sua inspiração inicial, o movimento Arts and Crafts: progressista pelo lado estético, porém conservador em sua ligação com a burguesia em crise. Estas contradições, unidas ao fato de ter a linha com motivo principal, vão estabelecer um vida curta para o movimento.

Voltaremos ao assunto para tratarmos da Secessão Vienense e do movimento Art Noveau no Brasil.


BIBLIOGRAFIA

GÖSSEL, Peter e LEUTHÄUSER, Gabriele.  Arquitetura no Século XX. Colônia: Taschen, 2001.

LAMPUGNANI, Vittorio. Enciclopedia de la arquitectura del siglo XX. Barcelona, Gustavo Gili, 1989.

LINKS

http://en.wikipedia.org/wiki/Art_Nouveau

http://en.wikipedia.org/wiki/Vienna_Secession

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