Estilo Internacional-II

Christian F. Otto 1 

Tradução de Sílvio Colin

Desenvolvimento do ESTILO INTERNACIONAL –

A crise econômica dos anos 30 não impediu que por todo o território dos Estados Unidos se construíssem edifícios com estas diretrizes estilísticas, seja por arquitetos que já as haviam assumido, como Neutra, Howe e Lescaze, seja por outros novos praticantes que a eles se uniram. Durante a década ocorreram mudanças substanciais no campo do projeto: a arquitetura tradicional começou a interessar-se pela espontaneidade no uso dos materiais, pela sensibilidade com que se acomodavam os edifícios ao terreno e pelas condições climáticas do lugar. Começou-se a analisar o que havia dado de si cinqüenta anos de arquitetura californiana de madeira de secoia e as repercussões do clima nas soluções de projeto, as características dos materiais, a madeira laminada e o contraplacado, o plástico e o metal, atraíram a atenção dos profissionais. Olhou-se para a pre-fabricação como meio de “aumentar a economia”. A oferta de novos tipos de construção abriu um horizonte de possibilidades formais até então desconhecidas – a “curva livre”, a diagonal. o hexágono, que afetaram inclusive as coberturas e a disposição das paredes. Sobre isso, a padronização das instalações e serviços aumentou o grau de flexibilidade admissível nas plantas, o que provocou certa crise nas hipóteses que dominavam então o processo de projetação, por entender que a planta livre não satisfazia as necessidades de privacidade e sossego.

PSFS. Philadelphia Saving Funds Society. Filadelfia, 1932. Arquitetos William Lescaze e Geoge Howe.

Philadelphia Saving Funds Society. Filadelfia,1932. Arq. William Lescaze e Geoge Howe.

Junto à planificação de bairros e cidades, se pôs também em primeiro plano o tema da monumentalidade, isto é, a aptidão para se conseguir uma arquitetura “símbolo dos ideais e anseios da sociedade”.

Este gênero de reflexões se confirmaria de maneira imprevista no final dos anos vinte. A ascensão do nazismo na Alemanha induziu muitos teóricos e projetistas a mudar-se para os Estados Unidos; alguns se dedicaram ao ensino, outros como Marcel Breuer, Gropius, Hilberseimer, László Moholy-Nagy, Mies van der Rohe e Martin Wagner retomaram sua carreira profissional interrompida. Pelo caminho da docência, de escritos e exposições, fizeram propostas similares às que animavam o mundo da construção nos Estados Unidos, consolidaram o que havia sido transformações latentes e recônditas no ensino de arquitetura que receberia grande parte dos arquitetos em exercício a partir dos últimos anos setenta.

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Lake Shore Drive. Chicago, 1947-51. Arq. Mies van der Rohe.

A expansão econômica dos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial proporcionou oportunidades sem paralelo para a construção. O Estilo Internacional voltou a dominar a cena: se lhe atribuíram aqueles edifícios que reuniam as peculiaridades de composição a base de perpendicularidades e paralelismos, ausência de ornamentação, precisão técnica no emprego de materiais mais recentes, presença hegemônica de grandes superfícies de vidro e preferência pela planta livre. O credo do Estilo Internacional se referendou com a exposição de 1947 no mesmo MOMA, dedicado à obra de Mies van der Rohe, com a monografia escrita por Johnson sobre o mesmo. Já então um arquiteto e crítico de prestígio, Johnson insistiria em referir-se aos princípios deste estilo em repetidas ocasiões, porém em meados dos anos sessenta não hesitou em modificar a definição do mesmo como resultado, talvez, da popularização e simplificação experimentada pelo termo, para condensá-la nos aspectos de “veracidade na estrutura, interação de ritmos modulares representados por grandes panos de vidro, predileção pelas coberturas planas, conveniência das formas cúbicas por suas qualidades de continentes perfeitos e supressão de motivos ornamentais”.

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Edifício Sede das Nações Unidas. 1947-51. Arq. Wallace Harrison.

As mudanças que se adivinhavam em princípios dos anos cinqüenta induziram Hitchcock a escrever “The International Style Twenty Years after” (O Estilo Internacional vinte anos depois) na Architectural Record (1951), para afirmar a “existência de um núcleo disciplinar na arquitetura”, quer dizer, que o “Estilo Internacional” havia tido um “resultado feliz” nos Estados Unidos e que este fato bem poderia ser qualificado como “o maior avanço do século XX”. Colin Howe observou que as edificações de aço e vidro que atualmente se relacionam com a sociedade industrial se converteram em “… o disfarce das atividades que empreende um capitalismo ‘glorificado’ “. Os primeiros indícios dessas relações se observam em várias obras: o edifício de doze pavimentos para a Equitable Life Assurance (1945-48) em Portland, Oregon; na emissora de radiodifusão WFY de Wallace Harrison em Schnectay, Nova Iorque; no centro médico Bellevue da Universidade de Nova Iorque do SOM[2] e o projeto para o edifício de escritórios para a Associação dos Empresários da Construção (1947) de Nathaniel Owins. Seria entretanto Mies van der Rohe o mentor do arranha-céu de estrutura metálica e vidro, um padrão que se repetiria nas décadas seguintes, nos edifícios do Lake Shore Drive, em Chicago (1948-51), uma retícula de perfis de aço estandardizados preenchidos com lâminas de vidro; o efeito era de um brilho intenso e a sensação era a de estar diante do produto de uma sociedade em estado técnico muito avançado. Harrison, diretor de planejamento de uma equipe internacional de conselheiros em matéria de projeto, apresentava, ao mesmo tempo um projeto semelhante para o edifício sede da Secretaria das Nações Unidas (1947-50) [3]. Sob o comando do chefe de projetos, Gordon Bunshaft, a empresa SOM iniciou o seu desenvolvimento aplicando a essência daquele modelo a algumas edificações destinadas a dar a imagem de empresas de diversas atividades, das quais os exemplos mais representativos são a Casa Lever (1951-52} e o Consórcio Hanôver de Fabricantes (1953-54), ambos em Nova Iorque. Apesar disso, foi novamente Mies van der Rohe quem criaria “a imagem perfeita de poderio e credibilidade”[4] no Edifício Seagram de Nova Iorque (1954-1958).

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Lever House. Nova Iorque, 1952. Arq.  Gordon Bunshaft (SOM)

Fosse em equipamentos docentes  [Instituto de Tecnologia de Illinois, Chicago, 1945-56] ou residências [Casa Farnsworth, em Plano, Illinois, 1045-50] Mies van der Rohe praticou uma estratégia de projeto parecida, se bem que trabalhasse com volumes de pouca altura e basicamente horizontais. Eero Saarinem soube aproveitar esta bagagem no Centro Técnico da General Motors, em Warren, Michigan, [1946-55], uma obra muito copiada, como na Companhia Geral de Seguros Connecticut, em Bloomfield, 1954-57, projetada pelo escritório SOM. A utilização de volumes de aço e vidro em residências atraiu a Gregory Ain, Edward Barnes, John Johansen [5], Philip Johnson e alguns arquitetos mais. A transcendência que teve este tipo de residências se faz patente nas casas Case-Study. Charles Eames levantou a sua com peças de fabricação industrial a fim de obter o máximo de espaço fechado com um mínimo de recursos. Raphael Soriano, com o patrocínio de Arts and Architecture desenvolveu um projeto partindo da obra de Mies van der Rohe, porém condicionando-o a que na execução interviessem componentes artesanais e técnicas construtivas acessíveis. Gropius e Breuer construíram nos subúrbios de Boston várias casas que recordavam as de Weissenhofsiedlung de 1927 e adaptaram também versões ampliadas de seus desenhos de residências e equipamentos docentes dos tempos da Bauhaus, como as residências para os graduados da Universidade de Harvard, em Cambridge, Massachusets [1949-1950], de Gropius ou a Residência Cooperativa do Vasar College, em Poughkeepsie, Nova Iorque [1950], de Breuer.

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Casa de Vidro. New Canaan, Connecticut, 1949. Arq Philip Johnson

A expressão Estilo Internacional findou, pois, tendo um duplo significado: tanto se referia a um surto de edifícios erguidos entre 1920 e 1930, como também aos edifícios que proliferaram em todas as cidades dos Estados Unidos representando entidades, empresas e sociedades de renome. De um modo ou de outro, nada tinha a ver com as circunstâncias históricas que, na década de 1920 deram significado à arquitetura européia, e o Estilo Internacional acabou por designar uma abordagem formal de projeto, uma temática vinda da Europa e suas variações americanas.

Pós-Escrito. O Estilo Internacional no Brasil

Silvio Colin

Edifício Esther. São Paulo, 1936. Arq. Álvaro Vital Brazil e Adhemar Marinho.

No Brasil, o Estilo Internacional é muitas vezes confundido com o Movimento Moderno como um todo. Os Edifícios Nova Cinta, Bristol e Caledônia, no Parque Guinle, Rio de Janeiro, de 1948, assinados por Lúcio Costa, por exemplo, são muitas vezes citados como legítimos representantes de nossa versão do Estilo, assim como os pioneiros Edifício Esther, de Vital Brasil e Adhemar Marinho [1936-38] em São Paulo e o próprio Ministério da Educação e Saúde [1936-44] incluem-se neste rol internacionalista. Se uma abordagem livre pode admitir a inclusão, por outro lado, traz algumas outras questões. Em primeiro lugar por se tratar de um estilo, em sua versão americana, que se utiliza, decanta a Industrialização e a simboliza. Estes edifícios brasileiros citados se constituem em uma experiência heróica de, com uma indústria edilícia apenas nascente, se equiparar aos feitos internacionais, nem sempre com bons resultados. Além disso, graças sobretudo ao pensamento de Lúcio Costa, sempre se procurou incluir nestes edifícios elementos regionalistas de nossa forte tradição cultural, como os azulejos no MES, e os elementos cerâmicos, ao jeito de muxarabis, no Parque Guinle, o que se constitui em uma ousada e original desobediência. Mesmo Brasília, que em alguns de seus edifícios chega a representar o Estilo, tem, na obra de Oscar Niemeyer edifícios de uma ambição formal não condizente com o EI, como é o caso do Itamarati, do Palácio da Alvorada, entre outros.

Edifício Avenida Central. Rio de janeiro, 1958-61. Arq. Henrique Mindlin.

O Estilo Internacional teve sua verdadeira representação no trabalho de Rino Levi [Edifício Seguradora Brasileira, 1948-56], de Giancarlo Palanti [Edifício Conde Prates, 1952], de Franz Heep [Edifício Itália, 1956], em São Paulo, para citar alguns apenas dos mais importantes, e o Edifício Avenida Central, no Rio de Janeiro, de 1958-61, de Henrique Mindlin. Este, uma experiência pioneira, tentando implementar o uso da estrutura metálica aqui, uma experiência que se revelou tecnicamente satisfatória, porém não teve maiores conseqüências naquele momento, devido à falta de adequação de nossa indústria siderúrgica. Ainda hoje, o concreto é o material mais utilizado.

A década de 1960, para nós, foi aquela da implementação do Estilo Internacional. Mas nunca o fizemos de maneira tão absoluta como nos Estados Unidos. Aqui fomos muito influenciados pelas idéias racionalistas de Le Corbusier, mas também por sua profunda liberdade de tratar os projetos, típicas de um homem de atelier, não de escritório técnico. As formas sensuais e ginomórficas de Niemeyer marcaram profundamente nossa arquitetura e rivalizaram com a avassaladora vertente miesiana. Além disso, como recebemos esta cartilha com certo atraso, ela já nos chegou tingida com outras idéias como a do brutalismo e do expressionismo mega-estrutural, típicos da década de 1950 avançada e sobretudo da década seguinte.



[1] Verbete do livro Enciclopédia GG de la Arquitectura del Siglo XX de V. W Lampugnani (Ed.). Barcelona, Gustavo Gili, 1988.

[2] SOM, abreviação de Skidmore, Owins e Merrill – Louis Skidmore [1897-1962] Nathaniel A. Owins [1903-1984 ] e John O. Merrill [1896-1975].

[3] Na literatura histórico-crítica da arquitetura brasileira, este edifício é atribuído a Oscar Niemeyer. Na verdade a ONU convidou vários arquitetos, N. D Bassov (União Soviética), Gaston Brinfaut (Bélgica), Ernest Cornier (Canada), Le Corbusioer (França), Liang Seu Cheng (China), Sven Markelius (Suécia), Oscar Niemeyer (Brasil), Howard Robertson (Gra-Bretanha), G. A. Soilleux (Austrália e Julio Villamayo (Uruguai). chefiados por Wallace Harrison, dos Estados Unidos. O projeto adotado é quase inteiramente a proposta de Le Corbusier (que muito se parece com seus esboços para o nosso Ministério da Educação], modificada por Oscar Niemeyer. Sobre o assunto, ver Os grandes arquitetos – Le Corbusier, de Peter Blake, Cap. 18 [ Record, 1966].

[4] Kenneth Frampton, sem outra referência.

[5] Arquitetos de uma segunda geração modernista nos Estados Unidos, todos discípulos de Walter Gropius em Harvard.

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