Álvaro Vital Brazil

Álvaro Vital Brazil

Silvio Colin

A Escola Carioca de arquitetura, berço do Movimento Moderno brasileiro teve seu núcleo duro formado por aqueles arquitetos do círculo de influência de Lúcio Costa, que trabalharam no projeto do edifício do Ministério da Educação e Saúde, edifício emblemático da fundação do movimento. São este Jorge Moreira, Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão, Oscar Niemeyer e Ernani Vasconcelos. Entretanto não se limita as estes. Poderíamos ainda citar Carlos Frederico Ferreira, Paulo Antunes Ribeiro, Attílio Corrêa Lima, Alcides da Rocha Miranda e tantos outros que marcaram sua presença com projetos e construções cujo espírito se alinhava com as posturas inovadoras defendidas na Escola Nacional de Belas Artes e periodicos da época.

Edifício Esther. São Paulo, 1936-8. A primeira e mais importante obra de Vital Brazil.

Entre os arquitetos “independentes” cabe um destaque especial para os irmãos Roberto e para Álvaro Vital Brazil, uma vez que estes assinaram dois projetos, a sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) no Rio de Janeiro e o Edifício Esther, em São Paulo, resultado de concursos públicos por eles vencidos, no ano de 1936, o mesmo ano do famoso concurso do MES. Estes edifícios foram inaugurados em 1938, muitos anos antes da conclusão do grande ícone de nossa arquitetura modernista.

VitalBrazil fotos

[E] Álvaro, à direita, e seus irmão Vital, Ruy e Oswaldo. [D] Álvaro com Getúlio e Alzira Vargas na inauguração do Instituto Vital Brazil.

Conheci Álvaro Vital Brazil em 1966, quando trabalhei em seu escritório na rua Buenos Aires. Embora tenha sido a minha primeira experiência com estagiário, ainda no primeiro ano da Faculdade, foi uma das mais marcantes de minha vida profissional. Do seu convívio guardei a preocupação com o detalhamento do projeto e o conhecimento mais profundo de materiais. Muitas vezes, uma simples pergunta tranformava-se em uma verdadeira e proficua aula sobre metodos projetuais, tecnicas construtivas ou materiais de construção. Não muito dado a sorrisos, era, entretanto, atencioso e acessível.

Vital Brazil, filho de célebre imunologista Vital Brazil Mineiro de Campanha nasceu em São Paulo.  Formou-se em engenharia na Escola Politécnica do Rio de Janeiro e em arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes, em 1933.  Nessa ocasião associou-se a  Adhemar Marinho, e juntos desenvolveram  inicialmente projetos residenciais. Em 1936 vencem o concurso de anteprojetos para um edifício de uso misto (comercial, residencial e escritórios) para a Usina de Açúcar Esther Ltda, na Praça da república, em São Paulo, o famoso  Edifício Esther, pedra fundamental da arquitetura modernista daquela cidade.

Instituto Vital Brazil

De volta ao Rio, em 1938, projeta e coordena a construção do edifício sede do Instituto Vital Brazil, fundado em 1919 por seu pai e inaugurado em 1942. Em Niterói, desenha outras importantes obras, como três escolas públicas e a Estação Central Ferroviária. Posteriormente, como chefe do Serviço de Projetos e Construções do Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia- SEMTA, projeta e dá seguimento à construção de pousadas nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, a Base Aérea de Manaus, em 1944, e a estação do Aeroporto de Belém, em  1945. O Edifício Esther, as escolas de Niteroi e o Instituto Vital Brasil fazem parte da exposição Brazil Builds: Architecture New and Old. 1652-1942, no Meseum of Modern Art (MoMA) de Nova York. Em 1946 projeta o edifício Clemente de Faria, sede do Banco da Lavoura de Minas Gerais S. A., em Belo Horizonte,obra que recebe um premio na 1ª Bienal Internacional de São Paulo, na categoria de “edifícios de uso comercial”, e origina una série de projetos comerciais e empresariais dos anos 1940 e 1950.

Desenvolveu uma carreira sólida, cuja arquitetura, como bem ressaltou Henrique Mindlin, foi a expressão de uma época e de um conjunto de condições características polarizadas na sua visão pessoal. O seu papel foi de um mestre “solidamente ancorado na legitimidade de seus pontos de vista”. Sua última obra construída é o edifício Vital Brazil, 1978, um bloco de salas comerciais e garagens no Rio de Janeiro. Em 1982 encerrou suas atividades e faleceu no Rio de Janeiro em 1997.

Algumas das Principais Obras

Edifício Esther

São Paulo 1936-8

EdifCioEstherVitalBrasil

Concebido segundo os princípios do racionalismo funcionalista o Edifício Ester ao lado do edifício da ABI e do edifício sede do Ministério da Educação e Saúde, os últimos no Rio de Janeiro, são as obras fundamentais do Movimento Moderno no Brasil. Diria Mindlin sobre ele: “É difícil imaginar hoje, passados  mais de quarenta anos (sic), o que foi, em São Paulo, o “estouro”da inauguração do Edifício Esther. Em um meio mal-e-mal preparado por algumas residências particulares de Warchavchik, Flávio de Carvalho e Rino Levi, surgia de repente, com todo o prestígio de uma realização de grande porte, um imponente edifício de lojas, escritórios e apartamentos, no melhor ponto da cidade, com aspecto totalmente diverso daquele que o paulista estava habituado. Era o resumo de uma boa doutrina moderna em muitos pontos essenciais, e não procurava imitar nenhum estilo passado, como então se fazia em São Paulo.”

Edifício Esther Plantas

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Instituto Vital Brazil

Niterói – 1942

Inst Vital Brazil (2)

O Instituto, fundado e dirigido por Vital Brazil, que já realizara obra similar no Butantã, em São Paulo, destina-se ao fabrico de soros, vacinas e produtos biológicos, químicos e veterinários. Nele se realizam pesquisas científicas e profilaxias anti-rábicas. É órgão consultivo do Estado do Rio de Janeiro em questões de higiene e saúde pública. Seu projeto e construção obedecem a princípios extremamente funcionais e econômicos. Compõe-se de vários pavilhões: edificio central, pavilhão de oficinas, cocheiras e estábulos, pocilgas e sangrias de grandes animais.

O terreno de 350.000 m2 situa-se no bairro de Santa Rosa. As plantas , assim como o corte transversal e as fotografias, indicam claramente o partido adotado no edifício central e nas interligações de suas várias seções. Convém, todavia, apontar as soluções encontradas para vários problemas, como a aeração do edificio e a disposição aparente e ordenada de todas as tubulações. Evitou -se o emprego das esquadrias e suas respectivas ferragens (lado externo), colocando-se os vidros em peças simples de concreto armado, pré-fabricadas. Eliminou-se de maneira radical a contaminação de produtos. mediante purificação do ar. A repetição de elementos construtivos simplificou grande parte da obra, especialmente o corpo do almoxarifado. As principais instalações são: luz, força, água, água de pressão, salmoura gelada, água destilada, ar comprimido de baixa e alta pressão, vapor, vácuo, gás, esgotos, ar filtrado (ventilação), ar refiltrado, exaustão decapelas, exaustão de gases químicos.

Implantou-se um consolo no corpo saliente da elevação norte, onde se situa a entrada principal, para eventual colocação de uma obra escultórica que sugerisse a finalidade da instituição. Conforme foi dito acima, todo o corpo do almoxarifado, assim como a estocagem de produtos acabados, foi executado em peças pré-moldadas de concreto armado, inclusive as prateleiras. Essa solução permitiu ver os problemas da estrutura e do mobiliário. O corte transversal […] esclarece o tipo estrutural desse corpo do edifício. [1]

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Edifício Clemente de Faria

Banco da lavoura de Minas Gerais

Belo Horizonte – 1946

Cópia de ARQBH-2007-06-07 (230)

Este edifício de linhas simples e sóbrias, projetado para um terreno de difícil execução, além de plasticamente proporcionado, consegue ser extremamente funcional. Por isso obteve merecidamente o 1º prêmio em uma exposição internacional. Além desses fatores, deve-se ressaltar dois elementos fundamentais em suas elevações. O primeiro é o das esculturas apenas indicadas pelo arquiteto que deixou plena liberdade ao escultor Alfredo Ceschiatti para executá-Ias. Um banco não é obviamente uma construção comercial comum, e por isso merece uma emblemática que alie a arquitetura à escultura. O outro elemento que chama a atenção do observador é o “quebra-sol”, executado pela primeira vez por uma indústria de amianto-cimento segundo desenho de detalhe do arquiteto. Graças à sua forma, esse elemento de 3m de altura e apenas 1 cm de espessura consegue ser suficientemente resistente, pois, além de estar apoiado em dois pontos, gira em eixo vertical para defender as salas do excesso de sol em certas horas do dia. Após a inauguração do prédio, esse quebra-sol foi largamente empregado em outros edifícios, como o conjunto Kubitschek. o hospital da Universidade Federal etc. 

Parecer do Jüri da I Bienal de São Paulo:

“O prêmio para o projeto de estabelecimento comercial. conferido ao arquiteto Alvaro Vital Brazil (Rio), pelo projeto da sede do Banco da Lavoura de Minas Gerais S.A. Belo Horizonte. reconhece a engenhosa solução do plano, assim como a pureza da expressão plástica. “[2]

Em uma época em que a indústria da construção civil dava seus primeiros passos, muitas vezes o arquiteto tinha que ser também um projetista industrial. É o caso dos brises-soleil deste edifício, totalmente concebido pelo arquiteto e produzido por uma indústria de chapas de fibro-cimento, um material largamente utilizado na época.

 

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Edifício Sede do Jockey Club Brasileiro

Rio de janeiro – 1947

(Não construído)

Vital Brazil Jockey 1

Concurso público de anteprojetos

Este anteprojeto foi classificado em 1º lugar entre 37 concorrentes. A solução propunha a construção de dois blocos, um compondo o Edificio Valparaiso, já existente, que se destinava futuramente a renda para manutenção da sede e era separado por uma área aberta. Outro para a sede do clube, permitindo ampla iluminação e ventilação em todas as suas faces. Esse bloco atingiria o gabarito da Avenida Rio Branco, satisfazendo exatamente ao programa estabelecido no concurso.

A partir do anteprojeto premiado desenvolveu-se o projeto. Esse trabalho, agora publicado, representa estudo acurado de todo o programa estabelecido e se prolongou por mais de três anos. Aprovado e aceito já no final de mandato da diretoria que abrira o concurso, e que com as novas eleições foi substituída pela oposição.

Mas já se havia determinado que se iniciassem as obras, pela demolição da parte dos fundos da antiga sede (projeto Heitor de Mello). [3]

Jockey  terreo

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Edifício RESIDENCIAL

rua Prudente de Morais – Rio de janeiro – 1960

Ed Prudente de Morais Fachada

Vital Brazil projetou inúmeros edifícios residenciais no Rio de janeiro, Belo Horizonte e São Paulo, dos quais este é um dos melhores exemplos e ve-se o mesmo zelo com que o arquiteto dedicou a seus edifícios comerciais. Este edifício, com esquadrias de madeira, tipo guilhotina, com contrapesos externos, solução que utilizou repetidas vezes, é ao mesmo tempo um testemunho do trabalho dos arquitetos no nosso país, em um tempo em que estes lutavam contra uma industria construtiva incipiente, e a superavam com criatividade e conhecimento técnico.

Ed prudente de Morais Plantas

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RESIDENCIA do ARQUITETO

Santa Teresa – Rio de janeiro – 1940

Casa do Arquiteto 1

Casa do Arquiteto  plantas

Casa do Arquiteto  Corte

Casa do Arquiteto 2 - Cópia

Casa do Arquiteto 2

Casa do Arquiteto 3 - Cópia

Casa do Arquiteto 3

Aviso

Vinheta Casasabrasileiras

NOTAS

[1] BRAZIL, Álvaro Vital. “50 anos de arquitetura”. São Paulo, Nobel, 1986. P. 35.

[2] Idem, p. 55.

[3] Idem p. 61.

3 Respostas para “Álvaro Vital Brazil

  1. Ellen jessouroun

    Sou Ellen Jessouroun, filha de Claudio Jessouroun
    O arquiteto Alvaro Vital Brazil fez o projeto da casa do meu pai na década de 70. Gostaria de entrar em contato para saber se há registro deste projeto.
    Meu email é ellen@bio.fiocruz.br

    • OI Ellen, também moro em uma casa construída por Álvaro Vital Brazil, moro na casa que ele construiu para ser residência em 1940, e assim como vc também estou à procura de documentos do projeto estrutural da casa. Como a casa é antiga, as conexões de água e luz também são antigas e precisam de modernização (urgente)… Gostaria muito de saber se vc obteve alguma resposta do site ou se conseguiu por outros meios descobrir onde ter acesso à tais documentos.
      P.S: Uma curiosidade, essa casa foi comprada por uma casal de pesquisadores da Fio, Leônidas Deane e Maria V.P. Deane. Hoje moram na casa o único neto e 2 bisnetos do saudoso casal Deane.
      Meu e-mail: rafaelabrito87@gmail.com
      Obrigada.
      Rafaela

  2. Preciso de imagens dos projetos da sede do Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia — SEMTA e dos aeroportos de Belém e Manaus. Qualquer imagem será bem vinda, e referenciada a fonte. Sou professora de arquitetura na UFRR e as referências à produção na Amazônia são muito importantes. Obrigada!
    Retorne, por favor, para o meu e-mail.

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