O Pato e o Abrigo Decorado

O PATO E O ABRIGO DECORADO

Silvio Colin

O par binário do“pato” e do “abrigo decorado” parece ter surgido incidentalmente  na obra de Venturi e Scott Brown, e gradativamente foi adquirindo importância, até tornar-se um mote bem definitivo de oposições, um dos mais conhecidos da arquitetura ocidental da segunda metade do século XX.

Nas palavras finais do texto principal de Complexity and Contradiction in Architecture, antes da apresentação das obras pessoais, Venturi se refere a um livro de Peter Blake [1], God’s Own Junkyard [2] , no qual o autor critica a “deterioração da paisagem americana”, sobretudo pelas intervenções comerciais, às quais permanecem à margem da arquitetura acadêmica.

O livro constitui-se de um pequeno texto principal, de cerca de 6 000 palavras, e cerca de 160 imagens mostrando visualmente o que o autor chama de junkyard, que poderia ser traduzido como depósito de sucata. Blake ataca a poluição visual na paisagem americana, tanto natural como construída, o desrespeito para com a natureza, movido por interesses comerciais, a falta de ordem e design dos edifícios etc. Um dos alvos da crítica de Blake é a main street [3], e seu aspecto caótico, comparando o à rígida ordenação e pureza do desenho neoclássico de Thomas Jefferson para a Universidade de Virgínia.

Apoiado pelo seu apreço à “vitalidade desordenada”, Venturi critica Blake, estranhando a irrelevância da comparação. Por que uma main street dos anos 1960 deveria ser comparada a uma universidade oitocentista? Venturi sustenta que “a maioria das imagens do livro de Blake apresentadas como ruins, são boas” [4], e que a justaposição aparentemente caótica de elementos expressam intrigante espécie de vitalidade e validade, a qual produz uma inesperada aproximação com a unidade.[5]

No prefácio da edição de 1979, Peter Blake recua de algumas de suas posições, citando nominalmente a Venturi, “um arquiteto que ele admira quase sem restrições” [6], e dizendo que “… algumas fotografias que eu incluí como exemplos de ‘sucata divina’ [7] hoje me parecem extremamente interessantes, até mesmo belas.”[8] Já em 1977, dois anos antes desta retratação, Blake, teria feito uma outra muito mais consequente: havia lançado um livro, Form Follows Fiasco [9] censurando a esterilidade e feiura que ele percebeu na arquitetura pós-guerra nos Estados Unidos e Europa, lembrando a seus leitores os princípios reformistas nos quais o Movimento Moderno estava arraigado, e mostrando o seu fracasso. Uma atitude surpreendente para quem, menos de duas décadas atrás havia escrito uma das mais conhecidas apologias aos grandes mestres do Movimento Moderno, Wright, Corbusier e Mies. Não seria absurdo ver nesta mudança a influência das ideias de Venturi e seus pares.

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Canal Street, main street de Nova Orleans. Ilustração de God’s Own Junkyard., p. 48.  e Campus da Universidade de Virgínia (1820) de Thomas Jefferson. Complexity and Contradiction in Architecture, p. 104.

Também Philip Johnson se esqueceria em breve das pesadas críticas que fizera a Venturi & Rauch/Kawasaki no concurso de Brighton Beach e se converteria ao Pós-modernismo. Em 1978, juntamente com John Burgee, iniciava o projeto do edifício da ATT, em Nova Iorque, e em 1984 entregava àquela cidade e ao mundo o maior monumento do Pós-modernismo.

Nas páginas 120 e 121 do livro God’s Own Junkyard, o autor apresenta três imagens, um edifício em forma de pato, à direita, e ao lado, duas cenas bucólicas de famílias se divertindo em um feriado, com crianças e adultos brincando com patos. Como legenda, um trecho de Vitrúvio: “Eurritmia é beleza e adequação no ajuste dos membros. É encontrada quando as partes de uma obra têm uma altura adequada à sua largura, que, por sua vez, é adequada ao comprimento e, em suma, quando todas as partes correspondem simetricamente” [10]. Não há no livro nenhuma outra referência à imagem do pato ou às outras vizinhas. Pelo contexto podemos inferir que se trata de uma crítica aos danos que causa à paisagem natural que este edifício em forma de pato, de mau gosto, grotesco, ridícula mesmo.

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O pato de Long Island

Tal edifício, uma escultura em forma de pato, medindo 6,1 m de altura, por 5,5 m de largura por 9,2 m de comprimento, foi construído em 1931 pelo fazendeiro de Long Island, Martin Maurer, para promover o seu negócio de criação de patos.[11] Trata-se de uma loja sui generis, que, juntamente com grandes cartazes, loteamentos irregulares, estacionamentos em locais inadequados etc. enfureceram Blake e o inspiraram e escrever:

A brutal destruição de nossa paisagem é muito mais que uma agressão à beleza. Todo artista, cientista e filósofo, na história da Humanidade apontaram para as leis da natureza como sua maior fonte de inspiração: sem a presença da natureza, imperturbada, não teria havido um Leonardo, um Ruskin, um Nervi, um Frank Lloyd Wright. Ao destruir nossa paisagem, nós estamos destruindo o futuro da civilização na América.[12]

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Páginas 120 e 121de God’s Own Junkyard.

Estas palavras podem ser replicadas de diversas maneiras. Na verdade, os arquitetos são frequentemente alvo dos mesmos termos utilizados por Blake, ditos por outros arquitetos ou mesmo por leigos, independente das vertente a que se filiem, desde que não sejam acordes com quem profere as críticas. Tomemos o exemplo de Ruskin, que foi acusado de ter criado “monstros frankenstein” na paisagem oitocentista de Londres, com seu “gótico veneziano” aplicado a residências de classe média nos subúrbios daquela cidade, [13] Os autores de Learning from Las Vegas promovem um deslocamento desta crítica ao verem neste pastiche grotesco certa semelhança com grande arquitetura. Peter Blake nos diz:

Minha fotografia do Grande Pato perto de Riverhead, Long Island, Nova Iorque o encantou [Venturi] da mesma forma que aborreceu a mim e à maioria dos meus leitores. E Venturi anunciou “O Partenon é um pato” […] Esta frase – O Partenon é um pato – tornou-se o grito de guerra de uma nova avant-guarde…ou melhor de uma nova pop-guarde. Eu devo confessar que fiquei absolutamente aturdido – e depois me diverti muito. Venturi […] não foi o primeiro a desafiar pessoas bem intencionadas como eu. Rauschenberg disse, muito antes, que “O Times Square é a maior obra de arte da América”. E, reexaminando, em 1979 minha fotografia nas páginas 50 e 51, eu devo confessar que Rauchenberg poderia estar certo.[14]

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Times Square, Nova Iorque. Páginas 50 e 51de God’s Own Junkyard.. Na página 51 consta inda, ironicamente, a frase de Le Corbusier: “Arquitetura é o magistral, correto e magnífico jogo de volumes sob a luz”

O pato de Long Island inspirou em Venturi, Scott Brown e Izenour uma classificação universal entre dois tipos de edifícios: o “pato” e o “abrigo decorado”. O pato é um edifício no qual os sistemas arquitetônicos de espaço, estrutura e programa são distorcidos e submetidos por uma forma simbólica. É o edifício tornado escultura. É um edifício especial que é um símbolo.[15]

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Edifícios “pato”. Capela de Notre-Dame du Haut. Ronchamp, 1954. Arq. Le Corbusier e Escola de Artes e Arquitetura de Yale.. New Haven, Connecticut., 1959-63. Arq . Paul Rudolph.

O “abrigo decorado” é o edifício onde os sistemas de espaço e estrutura estão diretamente a serviço do programa, e o ornamento é aplicado independente deles. Neste os símbolos são aplicados às superfícies murais. [16]

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Edifícios “abrigo decorado”. Palazzo Farnese. Roma, c. 1515. Antonio de Sangallo e Miguelangelo, e Institute for Scientifc Information (ISI). Filadélfia, 1978. Venturi & Scott-Brown.

Tal classificação é universal, pois engloba toda a produção da arquitetura ocidental e expressa uma dicotomia entre diferentes maneiras de relacionar a forma com os sistemas de espaço e estrutura, de lidar com os símbolos, mas possui também um viés crítico e programático.

Assim como o pato de Long Island, parte dos edifícios marcantes da história da arquitetura ocidental submetem o espaço, o programa e a estrutura a uma forma simbólica geral, de simbolismo implícito no mais das vezes, buscando com isto sua individualidade e tratando ao tema da originalidade de uma maneira romântica. Seus arquitetos procedem como demiurgos, que inventam a realidade de maneira “heroica e original”.

Venturi, Scott Brown e Izenour analisam historicamente sua dicotomia falando da arquitetura medieval como uma justaposição de um abrigo decorado com um “pato”:

Em termos iconográficos, a catedral é um abrigo decorado e um “pato”. A Catedral Metropolitana Bizantina em Atenas é absurda como peça de arquitetura, É “fora de escala” e seu pequeno tamanho não corresponde à sua forma complexa […] Entretanto, não é absurda como um “pato” – Uma cruz grega, envolvida estruturalmente por grandes edifícios […] desenvolvida simbolicamente aqui para significar catedral.[17]

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Catedral bizantina em Atenas Agios Eleftherios. Criada pela imperadora Eirene em 787 segundo a tradição.

De uma forma geral, as catedrais góticas nunca conseguiram, segundo Venturi, Scott Brown e Izenour, resolver a dicotomia entre o “pato” e o abrigo decorado, não apresentam uma unidade orgânica: são os dois ao mesmo tempo, são um grande billboard [18] com um edifício atrás. A cruz – grega ou latina – que determina a forma do edifício lhe confere a característica “pato” e a “tela” bidimensional que é sua fachada, com a iconografia cristã aplicada nas galerias reais, no portal escalonado etc. em frente à praça, cujas características são evidentemente propagandísticas da fé católica, lhe conferem a característica de “abrigo decorado”.

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Fachadas dos palazzos. Ilustração de Learning From Las Vegas, p. 111.

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Acima [E]Palazzo Strozzi.. Florença, 1489-1538. B. da Maiano. [D]Palazzo Farnese. Roma, 1484, 1546. A. Sangalo, Miguelangelo et al. Abaixo [E] Palazzo Rucellai. Florença, 1446-1451. L. B. Alberti. [D] Palazzo Odescalchi. Roma.

Por outro lado, o palazzo renascentista é um abrigo decorado por excelência. Sua forma programática e espacial se repete tipologicamente, com um edifício periférico composto de salas em sequência, envolvendo um pátio porticado, três pavimentos, entrada central etc. O que individualiza e confere originalidade é justamente o tratamento mural, a decoração aplicada. O Palazzo Strozzi, com sua rusticação gradativa, o Palazzo Rucellai com sua poética de ordem sobre ordem, o Palazzo Farnese, com o cunhais complementando a ornamentação central e o Palazzo Odescalchi, com sua ordem gigante impondo a imagem de um pavimento dominante.

Os autores de Learning from Las Vegas sustentam que esta dicotomia não qualifica ou prioriza a validade de uma arquitetura sobre outra, mas fazem uma clara apologia do “abrigo decorado”, considerando o desgaste que naqueles anos 1960 havia sofrido a arquitetura “Pato” dos modernistas.

Podemos desenvolver melhor as características dos dois tipos de arquitetura. No plano semiótico, a arquitetura “pato” é uma arquitetura expressiva, conotativa e abstrata, enquanto que a arquitetura “abrigo decorado” é significativa, simbólica e denotativa. A primeira oposição trata da expressão versus significação. Esta última, através dos elementos utilizados tem um referente externo ao próprio edifício, como fazia a arquitetura eclética, podendo este código fazer ou não fazer parte do universo da arquitetura. Venturi, Scott Brown e Izenour esclarecem o assunto que os seus abrigos decorados usam velhas palavras com novos significados, enquanto que os patos dos modernistas tardios lançam mão de novas palavras.

No plano histórico, a arquitetura “pato” é revolucionária, progressiva e anti- tradicional, enquanto que os “abrigos decorados” são evolucionistas e usam frequentemente precedentes históricos. No plano crítico os “patos” almejam ser grande arte e excluem a arte popular; já os “abrigos decorados”, utilizando conceitos da Pop Art, pretendem ser grande arte mas admitem a arte popular como inspiração

No plano fenomenológico, os “patos” são incomuns, heroicos e submetem-se ao conceito de objeto único; os “abrigos decorados” são comuns, expedientes e aceitam o antigo conceito de tipologia e frontalidade oitocentista ao aceitar o sistema parcelário tradicional.

A arquitetura “pato” tenta elevar o sistema de valores do cliente; os “abrigos decorados” aceitam tal sistema de valores como um dado do problema contextual. A primeira se utiliza de tecnologia avançada, os segundos optam pela tecnologia convencional.

Eis ai, pois, um breve resumo da poética diferencial de Venturi e Scott Brown, calçada dos conceitos de “feio e comum”, contrapondo-se ao “heroico e original” do Movimento Moderno tardio, e explicitamente preferindo o “abrigo decorado” ao “pato”.


[1] Peter Blake (1920-2006), arquiteto e escritor, nascido em Berlim, naturalizado americano, editor da Revista Architectural Forum entre 1965 e 1972. Entusiasta do Movimento Moderno, escreveu The Master Builders (Nova Iorque: A. A. Knopt, 1960), publicado no Brasil em três volumes (Frank Lloyd Wright e o domínio do espaço, Le Corbusier e o domínio da forma e Mies van der Rohe e o domínio da estrutura. Rio de Janeiro: Record, 1966.) Logo após escreveu God’s Own Junkyard (Nova Iorque: Holt, Rinehart & Winston, 1964), uma critica contundente à deterioração da paisagem americana dos anos 1960. Uma década depois, alinhou-se aos críticos do Movimento Moderno no livro Form Follows Fiasco (Boston : Little Brown, 1977)

[2] BLAKE, Peter. God’s Own Junkyard. The planned deterioration of America’s landscape (Nova Iorque: Holt, Rinehart & Winston, 1964.

[3] Main Street, termo usado nos Estados Unidos, para nomear uma rua genérica (frequentemente é o nome oficial), logradouro principal de uma cidade, sobretudo no que se refere ao aspecto comercial. É um foco para lojas e varejistas na zona comercial central, e é frequentemente usado como referência geográfica. São muito criticadas pelos arquitetos por sua poluição visual e por serem geralmente inacessíveis ao ordenamento arquitetônico.

[4] VENTURI, Robert. Complexity and contradiction in Architecture. Nova Iorque: The Museum of Modern Ar, 1966. p. 104.

[5] Idem, ibidem.

[6] BLAKE, Peter. God’s own junkyard. Nova Iorque: Holt, Rinehart & Winston, 1979, p. 14. Tradução nossa.

[7] No original “God’s own junk”. Tradução nossa.

[8] BLAKE, Peter.God’s own junkyard. Nova Iorque: Holt, Rinehart & Winston, 1979, p. 14.

[9] BLAKE, Peter. Form Follows Fiasco. Why Modern Architecture Hasn’t Worked (Boston : Little Brown, 1977)

[10] Apud BLAKE, Peter. God’s own junkyard. Nova Iorque: Holt, Rinehart & Winston, 1979, p. 120. Tradução nossa.

[11] Disponível em http://www.roadsideamerica.com/story/2173. Acessado em 27 de outubro de 2010, às 18h e 16min. Tradução nossa. Disponível também em http://en.wikipedia.org/wiki/Big_Duck Acessado em 27 de outubro de 2010, às 18h e 23min. Tradução nossa.

[12] BLAKE, Peter.God’s own junkyard. Nova Iorque: Holt, Rinehart & Winston, 1979, p. 85.

[13] CROOK, J. Mordaunt. “Ruskin and Viollet-le Duc” In: The Dilema of Style. Chicago: University of Chicago, 1987, p. 94.

[14] BLAKE, Peter.God’s own junkyard. Nova Iorque: Holt, Rinehart & Winston, 1979, p. 14.

[15] VENTURI, Robert , SCOTT-BROWN, Denise, e IZENOUR, Steven. Learning From Las Vegas, Cambridge, Mass. 1977 (Ed. revisada), p. 89.

[16] Idem.

[17] VENTURI, Robert , SCOTT-BROWN, Denise, e IZENOUR, Steven. Learning From Las Vegas, Cambridge, Mass. 1977 (Ed. revisada), p. 105. Tradução nossa.

[18] Grande painel colocado em ruas principais e autovias para colocação de anúncios impressos. Outdoor.

3 Respostas para “O Pato e o Abrigo Decorado

  1. ótimo texto meeesmo! parabéns!

  2. parabéns, ótima leitura!

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