Malapropismo

Malapropismo em Arquitetura

2ª publicação. Ampliada.

Publicado inicialmente em 17/04/2011

Silvio Colin

vinheta malapropismo

O malapropismo, em arquitetura, acontece quando a mensagem veiculada pela forma arquitetônica é inapropriada ou inadequada ao seu conteúdo, sobretudo quando esta causa um efeito jocoso.  O assunto foi extensamente explorado por Charles Jencks, ao criticar a alienação dos arquitetos afiliados ao Estilo Internacional tardio e sua resistência à adoção da linguagem simbólica.

Referindo-se à refinada linguagem de Mies van der Rohe no conjunto do Illinois Institute of Tecnology (IIT), e ao seu extremo purismo, que desconsiderava qualquer alusão simbólica, Jencks chama a atenção que a Casa de Caldeiras, que mais parece a catedral do campus, e a Igreja, que, por sua vez, parece uma casa de caldeiras.

Casa de Caldeiras do IIT. Mies van der Rohe 1947.

Legenda de Jencks: “A tradicional forma da basílica, com a nave central e dois corredores laterais. Existe até um clerestório, em sistema de baias e um campanário, para mostrar que isto é uma catedral” [1]

Capela do IIT. Mies van de Rohe.

Legenda de Jencks: “Uma caixa cega, colocada ao lado de edifícios altos, os quais têm a mesma linguagem vernácula. Cega em três lados e com iluminação geral – trata-se claramente da Casa de Caldeiras”

O termo malapropismo é um neologismo, originário da palavra inglêsa malapropism  [2],  que pode também ser explicada por derivação da expressão francesa mal à propôs (inadequado, mal colocado) e significa […] Uso inadequado de uma palavra, especialmente na troca por outra que lembra a primeira, causando jocosidade.[3]

Utilizamos aqui o termo por não existir um  equivalente em português. Na língua falada, sobretudo, encontramos no dia-a-dia diversos destes exemplos. Para ficarmos apenas no âmbito da prática do ensino de arquitetura, mencionemos o estudante que trocou a expressão “iluminação zenital” por “iluminação genital“. Ou ainda, a frase “tirar o reboque da parede”, em lugar de “tirar o reboco da parede”. No mais das vezes são autênticos atos falhos, na definição de Freud [4], com uma causa inconsciente a motivar o engano.

Os símbolos são capazes de infiltrar-se nos pensamentos e passar despercebidos, resultando em um edifício cuja comunicação trai as tentativas de neutralidade e expressa significados ocultos e indesejáveis. Já falamos da resistência ao simbólico dos arquitetos modernistas no artigo sobre o Convento de la Torette. [5] Vejamos os pertinentes comentários de Jencks sobre o Asilo para Idosos, de Herman Hertzberger.

Asilo para Idosos, de Herman Hertzberger. Amsterdã, 1975.

Quanto melhor é o arquiteto moderno, menos ele pode controlar significados óbvios. O Asilo para Idosos de Hertzberger é, num nível sofisticado, a casbah encantadora que ele desejava…onde o individual é psicologicamente protegido pelos recortes e reentrâncias. Como uma peça abstrata, comunica humanismo, cuidado, delicadeza. É a qualidade do quebra-cabeça chinês de vários elementos Inter travados que os espaços adquirem por analogia. Embora estas analogias sejam claras, os significados metafóricos atacam furiosamente. Quais são as óbvias associações deste Asilo? Cada quarto parece um caixão preto colocado entre cruzes brancas (na verdade um cemitério de guerra). Apesar de seu humanismo, o arquiteto está dizendo inadvertidamente que a idade avançada, na nossa sociedade, é mortal.[6]

        Os melhores alvos do sarcasmo de Jencks são os baluartes do racionalismo, Mies van der Rohe, Ieoh Ming Pei,  Philip Johnson, Ulrich Franzen, Gordon Bunshaft e SOM [7]. Diz o crítico e arquiteto que ao observarmos as obras destes expoentes da arquitetura encontramos alguns significados vagos e ambíguos: formas fortes, reduzidas, por sua imagem poderosa, a significados não intencionais. O museu de Bunshaft para a coleção Hirshhorn, a única coleção de arte moderna no centro de Washington, um cilindro de alvenaria branco, forma simplificada, possivelmente inspirada nos “modernistas” do século XIX, Boullée e Ledoux, intenta comunicar poder, respeito, harmonia e o sublime, e é bem sucedido. Porém vários periódicos da época, inclusive o Time, criticou o edifício por parecer uma casamata, um bunker de concreto das praias da Normandia na Segunda Guerra, pesado, impenetrável, com metralhadoras giratórias atuando em 360 graus. Bunshaft está dizendo inadvertidamente: “Mantenha o público afastado da arte moderna nesta fortificação, e atirem neles se ousarem se aproximar,” [8]

O Hirshhorn Museum, em Washington, de 1973, de Gordon Bunshaft.

A arquitetura, cujas ideias mestras sempre estiveram ligadas à pintura e literatura, aceitou em diversos momentos a contribuição do inconsciente do artista, embora isto nem sempre seja destacado devidamente. Por outro lado, temos uma grande arquitetura ensinada nas faculdades, que se destina àquela tarefa que trouxemos como legado da “moderna sociedade industrial”, que é a de “resolver problemas de arquitetura”. Uma tarefa que exige de nós objetividade, racionalidade, sentido de equipe etc.

Uma discussão extremamente rica ficou meio perdida pelo caminho, que é aquela dos métodos mais complexos de projetação, o ensejo de uma reflexão mais ampla sobre as possibilidades abertas àqueles que se dedicam a esta atividade. Há muitos métodos distintos daquele racionalista e funcionalista, que é a prática dominante nos escritórios de arquitetura e nas faculdades, os quais se baseiam em visões diferenciadas do objeto arquitetônico e seus elementos, e que foram utilizados e consagrados pelos grandes mestres. Cremos que há um espaço aberto para a discussão de outros caminhos,  em particular aos desvios que nos levam ao mais profundo de nosso inconsciente, àquela linguagem simples, direta e primitiva que é de todos aqueles que sonham e tem desejos, pois no final das contas, o que é a arquitetura senão um sonho, o grande sonho de um lugar onde as coisas e as pessoas possam se encontrar com possibilidades plenas de vida e afeto.

A Ponte do Saber

                Ponte do Saber

Ponte do Saber. Rio de Janeiro, 2012.

Evitar esse caminho, o do inconsciente, pode levar a situações embaraçosas. Este é o caso da ponte recém inaugurada no Rio de Janeiro, apelidada de Ponte do Saber. Um grande feito da nossa engenharia, projetada pelo arquiteto Alexandre Chan, baseada em estudos do professor Francisco Lopes, da Coppe. Primeira ponte estaiada no Rio, com extensão total de 934 m [9], que servirá para desafogar o tráfego na Ilha do Fundão. Um verdadeiro presente para aqueles que, como eu,  trabalham na Ilha do Fundão e perdem, às vezes, uma hora ou mais, no engarrafamento de acesso à Linha Vermelha. A previsão é de que receba cerca de 25 mil veículos por dia.

O nome Ponte do Saber é uma referência ao Campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que abriga o Parque Tecnológico e o Centro de Pesquisas da Petrobras. Foi dito que a obra é uma compensação à cidade pelo derramamento acidental de óleo ocorrido na Baía de Guanabara no fim dos anos 1990. [10]  O desenho da ponte foi cuidadoso, e aparentemente a sua forma tem motivação exclusivamente tectônica, sobretudo o pilone, submetido a intensas cargas. O arquiteto nega qualquer inspiração formal, uma harpa, uma guitarra ou um pássaro.

Biguá 1

Não me inspirei em nada disso. Meu objetivo foi viabilizar, com beleza, a sustentação da ponte por estais (cabos de aço) e, assim, fazendo um vão livre de 180 metros sobre o Canal do Fundão. Mas, com a obra adiantada, vi que os estais e o pilone (uma espécie de obelisco de 91 metros para onde convergem os estais) se assemelham a um pássaro a emergir da água.  [10]

O formato, segundo Chan, semelhante ao movimento de um pássaro marinho ao emergir da água recorda a comoção pública causada pelo acidente de vazamento de óleo na Baia de Guanabara,  e menciona o esforço do biguá, ave marinha da região, para sair da água oleosa durante o acidente. Por isso o pilone foi batizado de Biguá Renascido.

É uma visão sublimada. Porém, o sublime é próprio da mente superior. Nem sempre os processos criativos se reduzem a essa instância da mente. A não aceitação dos processos inconscientes como parte do processo criativo depende de todo um conjunto de normas e atitudes estéticas repressivas funcionando em conjunto com outras normas éticas e políticas, formando um corpo ideológico completo. Se qualquer parte falhar todo o resultado está ameaçado.

Neste caso, como em todos os casos de malapropismo, parece ter prevalecido a mente inferior, o Das Es freudiano, que desconhece a lógica e os cálculos matemáticos, e está mais próximo dos imediatismos e desinibições dos apelos instintivos.

Ponte do Saber - Cópia - Cópia

Aviso

Vinheta Casasabrasileiras


NOTAS

[1] Jencks, C. The language of post-modern architecture. Londres: Academy, 1977, p. 16.

[2] A origem do termo se atribui à peça teatral  de Richard B. Sheridan “Os rivais”, estreada em 1775, na qual um dos personagens, a senhora Malaprop cometia freqüentes erros de pronúncia, com efeito cômico.

[3] HORNBY, A. S. Oxford Advanced English Dictionary of Current English.Oxford: 1977. O exemplo citado no dicionário é “Come girls, this gentlemen will exhort you”. Aí a palavra exhort  (aconselhar, que pode ser utilizado no sentido de uma prédica religiosa) é usada no lugar de escort (fazer companhia, muito usado no sentido de conceder favores sexuais).

[4] FREUD, Sigmund. Psicopatologia da vida cotidiana. Rio de Janeiro: Imago, 1996 (Ed. original 1901).

[5] Cf. artigo O Convento de La Tourette e o tema da cruz, publicado em 08 de outubro de 2010, neste Blog

[6]  JENCKS, Charles. The language of post-modern architecture. Londres: Academy, 1977, p. 21.

[7] Skidmore, Owins & Merrill

[8] JENCKS, Op. cit., p.20.

[9] www.eefd.ufrj.br

[10]http://planeta.copp.ufrj.br.

[11] http://extra.globo.com/noticias

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