Metabolismo. SIRH e o destino de uma ideia.

Metabolismo.

SIRH e o Destino de uma Ideia.

Silvio Colin

Os primeiros meses de 2012 trouxeram tristes notícias para uma ideia muito cara à arquitetura dos anos 1970. Em primeiro lugar foi a morte de Claude Prouvé, e depois, a demolição de sua mais importante obra, a construção experimental do SIRH. Claude era filho do ilustre arquiteto Jean Prouvé, um dos nomes mais importantes das vanguardas arquitetônicas do século XX, de importante participação na experimentação tecnológica para a indústria da arquitetura. O SIRH era uma uma representação francesa do movimento Metabolista.

Centro de radiodifusão Yamanashi.

Centro Yamanashi de Comunicações. 1967. Arquiteto Kenzo Tange.

O Metabolismo foi um movimento arquitetônico que cresceu após a Segunda Guerra Mundial, naquele momento em que novas tecnologias desenvolvidas na guerra eram disponibilizadas para a sociedade civil. A ideia, de inspiração tecnológica, de que a solução para todas as questões arquitetônicas estaria na técnica, partilhava uma visão do mundo do futuro, definitivamente urbano, cujas cidades seriam habitadas por uma sociedade de massas, e seus problemas seriam resolvidos com magníficas estruturas flexíveis inspiradas no crescimento orgânico reinterpretado tecnologicamente, em larga escala.

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Pavilhão Takara Beautilion. Exposição Mundial de Osaka. 1970. Arquiteto Kisho Kurokawa.

O metabolismo teve seus grandes expoentes nos arquitetos japoneses  Takashi Asada, Kisho Kurokawa, Kiyonori Kikutake, sob a inspiração do decano Kenzo Tange. Durante a Conferencia Mundial de Desenho Industrial de 1960 (World Design Conference), o grupo metabolista apresentou o seu manifesto intitulado “Metabolismo 1960. Propostas para um Novo Urbanismo” (Metabolism 1960: The proposals for a New Urbanism). O panfleto contava com textos de Noboru Kawazoe, Kiyonori Kikutake, Fumihiko Maki, Masato Otaka, Kisho Kurokawa e Kiyoshi Awazu. As contribuições mais relevantes do grupo foram na Exposição de Osaka 1970. Mas não apenas os japoneses namoraram a ideia. Aqui mesmo damos exemplo de um francês. O próprio Louis I. Kahn deu a sua versão do Metabolismo, como o entendia, no Laboratório de pesquisas A. N. Richards.

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Torre Cápsula Nakagin. Tóquio, 1972. Arquiteto Kisho Kurokawa

Tecnicamente, o Metabolismo defendia estruturas completamente pre-fabricadas, sob conceitos industriais utilizados na indústria mecânica, cuja montagem no sitio fosse bastante rápida. Em geral reproduzia uma estrutura de árvore que se estendesse em todas as direções, com potencial para ampliar horizontalmente e verticalmente.

Simbolicamente aplicava ao edifício uma metáfora biológica antropomórfica. defendendo a ideia de separação completa dos sistemas do edifício das células espaciais. O sistema circulatório – escadas e elevadores e rampas, o sistema respiratório – climatização, o sistema digestivo – instalações sanitárias, o esqueleto – o sistema estrutural. Estes sistemas deveria ser completamente separados dos espaços, para assim torná-los mais eficientes e flexíveis. Buscava-se o Espaço de Eficiência Máxima, sem nenhum constrangimento estrutural, completamente livre, para poder funcionar como se quisesse. A ideia do espaço de eficiência máxima é também partilhado pela arquitetura High-Tech.

Walking city

Os edifícios metabolistas têm uma aparência inovadora, se confrontado com a arquitetura das décadas anteriores do Século XX. Tem-se a impressão que não são objetos acabados, e que sempre poder-se-ão acrescentar novas células ou unidades. As ideias metabolistas, em 1960 eram muito novas, viam as cidades como realmenete moventes e dinâmicas. Os metabolistas queriam a colaboração de engenheiros, cientistas e designers industriais. Eles queriam colaborações transculturais.

Na verdade, a ideia não deixa de ter uma ligação próxima com a epigrafe corbusiana da máquina de morar. Os arquitetos metabolistas levavam às ultimas consequências a ideia tecnológica de que as casas deveriam ser produzidas como máquinas, em unidades autônomas, como carros. E é ai talvez que aparece a maior fragilidade desta ideia, da qual Le Corbusier desembarcou a partir anos pós-guerra. É que jamais se exigirá de uma máquina, um carro, por exemplo, a autonomia e durabilidade que se exige de uma casa. Esta deve ter a duração de uma vida humana ou mais, enquanto uma máquina, terá a seu destino traçado pelas condições do seu próprio obsoletismo.

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EcoPods. Boston 2009. Arquitetos Howeler &Yoon com Squared Design Lab.

Mas as ideias metabolistas eram bem mais poderosas do que os edifícios. O Metabolismo desejava criar um novo sistema de arquitetura, uma arquitetura semelhante ao desenho de produto, onde você pode substituir partes depois de terminado. E ai estão os seus limites. Pois os seus projetos apresentavam falhas que um objeto industrial consegue corrigir devido ao seu elevado orçamento, e seu sofisticado processo de produção, que admite uma economia de escala. Mas isto não era considerado pelos cultores do metabolismo, que estavam apenas voltados para a viabilidade técnica da ideia.

Disso tudo nos fica a lição. Toda força inovativa das ideias arquitetônicas dos anos 1950, do Novo Brutalismo ao Metabolismo, das Mega- estruturas à Pré-fabricação, esbarraram em uma certa ingenuidade dos seus mentores, de considerar o problema apenas parcialmente, seja superestimando o lado técnico, deixando de lado o lado simbólico, seja considerando as soluções apenas parcialmente, seja menosprezando aspectos econômicos relevantes, e mesmo as capacidade das soluções de se adequarem aos novos tempos. Neste último aspecto, a arquitetura tradicional é insuperável.

 

SIRH

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SIRH. Protótipo de Ludres antes da demolição.

Claude Prouvé (1929-2012), como o filho de Jean (1901-1984), esteve envolvido com arquitetura desde uma idade muito precoce, e sua primeira experiência prática se deu com a construção da casa da família em 1954. A opção de seguir os passos de seu pai, apresentou-lhe um método de trabalho baseado na experimentação e prática, o que lhe permitiu granjeou grande experiência como um construtor.

Ao assumir o interesse de seu pai na produção industrial, decidiu apresentar o tema como tese para obter a sua licenciatura em arquitetura na École de Beaux-Arts. O título do trabalho era Étude théorique pour le développement d’un habitat industrialisé évolutif. Ai começou o processo SIRH.

O processo SIRH (Société Industrielle de Recherche et de Réalisation de l’Habitat), é um processo de construção que trabalhava com a idéia de células habitacionais pré-fabricadas flexíveis normais. Tornou-se popular entre os arquitetos, após a Segunda Guerra Mundial, a exploração de técnicas de habitação industrializada, que, conforme pensavam, atenderia melhor as demandas econômicas da reconstrução.

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SIRH. Vistas da maquete do protótipo

Em 1969, Claude Prouvé e Georges Quentin, um industrial desejoso de mudar o foco de sua empresa de mineração de carvão para Habitação, juntamente com Jean Prouvé estabelecia a Société Industrielle de Recherche et de Réalisation de l’Habitat (SIRH), em um esforço para o aprofundamento da investigação tese de Claude Prouvé. O processo que ele criou permitia uma grande flexibilidade na construção e design. A ideia mestra era a fabricação de uma célula padrão que pudesse ser produzida em massa, rápida e facilmente e combinada com outras células para criar uma quantidade ilimitada de configurações habitacionais. Uma vez que a pesquisa de Claude Prouvé já estava muito adiantada, a empresa foi capaz de rapidamente começar a testar o projeto por meio da construção de protótipos.

Esta estrutura em Ludres, na região de Lorraine, perto de Nancy, era constituída por sessenta módulos pé-fabricados que serviram de protótipo para que pudessem ser facilmente montados no local, em quantidade ilimitada de configurações. para prover habitações individuais ou coletivas. O módulo padrão medido 3,8 m de comprimento x 3,8 m de largura) x 2,5 m de altura do piso ao teto. A moldura era feita de aço inoxidável, enquanto que o teto e chão, que são o mesmo componente, eram feitas de aço galvanizado. Folha de alumínio recobria o interior dos componentes e os montantes estruturais de aço eram preenchidos com espuma de polímero. Os painéis de fachada, quer fossem sólidos ou perfurados com portas e janelas eram emoldurados com madeira.

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SIRH. Projeto da unidade.

Depois das primeiras experiências com alguns protótipos SIRH concluídas com êxito , incluindo duas casas experimentais em Nancy, a empresa fez planos ambiciosos de construir centenas de casas. A fim de obter subsídios para pesquisa e desenvolvimento do governo, o SIRH dispôs-se a construir o edifício protótipo testando em grande escala as possibilidades do processo SIRH para habitação de maior porte. Após a conclusão, a empresa pretende usar a estrutura do protótipo como a sede SIRH.

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SIRH. Montagem da unidade

Em 1973, começou a construção do edifício experimental em Ludres, França. Todas as peças desta estrutura de oito andares, com 60 unidades estruturais, foram produzidos em fábrica e montadas no local por uma equipe de apenas três a quatro pessoas. Cada módulo foi levantado no local por um guindaste, assentados e então aparafusados.Montantes forneceram suporte adicional entre os módulos e duas torres de concreto foram construídas para a alocar a circulação e ancorar todo o edifício. Pouco antes da conclusão do edifício SIRH em 1974, a empresa de repente faliu e toda a construção chegou a um impasse. Especula-se que o carácter inovador do processo de SIRH foi visto como uma ameaça a outras empresas e isso pode ter levado à morte da empresa. O edifício manteve-se abandonado desde então. E foi demolido n início de 2012.

Arquitetos, estudantes e pesquisadores preocuparam-se em documentar e fotografar o edifício e a partir de 7 de junho de 2012, a Maison de l’Architecture de Lorraine estará apresentando uma exposição com o processo inovador e os protótipos de Claude Prouvé.

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Estado das unidades antes da demolição

Aviso

Vinheta Casasabrasileiras

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Uma resposta para “Metabolismo. SIRH e o destino de uma ideia.

  1. Adorei a matéria, tenho uma prova na faculdade e um dos temas é sobre metabolismo e a ideia de que não é só pela tecnologia mas pela própria cultura japonesa em termo de unidade na elaboração desses projetos é fantastico

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