Sobre favelas

Favela

Uma arquitetura que

o arquiteto não cria [1]

Arqº. Henri Michel Lesbaupin [2]

Morar em favela? “Ninguém merece!” dirá a maioria.
Está tão disseminada essa ideia que erradicar favela ou, pelo menos, melhorar a qualidade de vida de seus moradores é um recorrente programa de governo. Já se tentou de tudo: construir habitações bem longe (tipo Cidade de Deus), promover mutirões e auto-gestão, remover barracos e abrigar as famílias em prédios de apartamentos, até o mais recente que é urbanizar o assentamento e garantir a permanência do maior número possível de famílias nos seus locais de moradia.

image
Este último esforço, no entanto, não tem impedido a remoção de muita gente. Colocar redes de água, esgoto, drenagem, energia e iluminação, abrir ruas e implantar guias e sarjetas; pavimentar acessos; criar playgrounds, canalizar córregos e delimitar áreas de preservação permanente, tudo isso exige espaço e, portanto, desalojar pessoas.


Mas pensando bem: por que não morar em favelas?

image

São quatro, as estruturas físicas predominantes nas nossas favelas. [3]Existem as de miolo de quadra como Jardim São Carlos, Maria Cursi e Dona Lola; as de encosta como Nova Jaguaré, Morro do Piolho e Rômulo Naldi; as de córrego como Jardim Damasceno, Córrego da Mina e Hugo Ítalo Merigo e finalmente as extensivas como Heliópolis, Funchal Coliseu e Futuro Melhor.

image

As primeiras resultam da ocupação de espaços doados à municipalidade em loteamentos regulares. São superfícies previstas para abrigar áreas verdes ou equipamentos institucionais (escolas, postos de saúde ou outros) e que são invadidas e ocupadas por moradias. Os que chegam primeiro colocam-se no alinhamento das calçadas e se organizam em lotes como na cidade formal. Em geral, aproveitam a frente para a rua e abrem as suas lojas: borracharia, salão de beleza, pastelaria ou outra. Os demais vão se instalando nos fundos e se ajeitam como podem, preservando as vielas de acesso. As favelas de encosta resultam da tomada de terrenos inclinados onde se revela possível fazer cortes e aterros e fincar colunas mesmo que rudimentares. Aqui também os acessos, rampas ou escadarias, são uma referência para a distribuição das moradias.

image

As de córrego, por sua vez, se organizam ao longo e, às vezes, sobre o curso d’água que passa a ser o escoadouro dos esgotos domésticos. E as extensivas, são as que se beneficiam de terrenos de topografia menos acidentada para se expandir em todas as direções.
Intervir em favelas implantadas ao longo de córregos exige, em geral, remoção total das famílias. Nas demais, qualquer esforço de urbanização tem custado desalojar aproximadamente um quarto dos moradores.

Antes, era fácil distinguir favelas: os barracos eram de madeira e as telhas de zinco ou fibrocimento. Hoje, em boa parte delas, os materiais frágeis e precários foram substituídos por alvenarias de tijolos ou blocos, esquadrias de madeira, ferro ou alumínio e os assentamentos dispõem de água, energia e iluminação. As moradias ocupam o chão disponível e tem tantos pavimentos quanto o necessário para a família.

Nova Jaguaré_-favela-209-07-jm137Favela Nova Jaguaré

Nesses assentamentos, de fato, enquanto há espaço horizontal ou vertical, o morador constrói. Para alugar ou para abrigar filhos que casam ou parentes que chegam dos lugares de origem. E nas comunidades, é raro quem não saiba “bater” uma laje. As ferragens das colunas ficam lá, espetadas acima do piso, para quando for preciso ou possível levantar mais um pavimento.
Na maioria das favelas, a arquitetura é assim: é obra dos moradores e resulta da necessidade de abrigo, da disponibilidade de recursos e da inventividade para conquistar os espaços.
Os acessos são as vielas e escadarias. Nelas, correm as águas de chuva. Os pisos, quando revestidos, são rústicos, o que previne os tombos. Os esgotos são lançados em redes improvisadas e chuvas e córregos encarregam-se de levar para longe, dejetos e cheiros.
São raras, as paredes revestidas. As portas são estreitas e as soleiras elevadas para evitar a entrada de água, as janelas são aquelas que foi possível comprar, os corredores tem largura impensável, as escadas não tem degraus parecidos ou patamares e a umidade das paredes é invencível.

image image image

São lugares pobres, mal acabados, mal ventilados, mal iluminados, eventualmente malcheirosos, cheio de sons e ruídos de rádios, televisões, CDs e pregações de todas as naturezas e com gente demais sem qualquer privacidade. Têm tudo para promover a desarmonia. Mas, de fato, dá para identificar aí, parcerias e cumplicidades, convivência e afetividade, unidade e solidariedade.

As janelas têm cortinas, as portas pintadas revelam não apenas o possível, mas o belo para os moradores e não faltam grades para a proteção do patrimônio. As moradias contam com caixas de correio, eletrodomésticos imprescindíveis, antenas parabólicas, hortas cultivadas onde dá e roupas respeitadas em varais que são públicos.

Aqui e ali, por uma lata com flores, uma cor nas vigas do telhado, um número pintado sobre a porta de entrada, percebe-se a intenção decorativa. Descobrem-se cores, plantas, recônditos e amplitudes, lugares em que o olhar se fixa e aqueles onde a vista se perde nos cenários. Há esquinas, saliências, reentrâncias, esconderijos, pontos de encontro e mirantes. Estão lá presentes, os detalhes arquitetônicos que se incorporam às fantasias das crianças e à imaginação dos adultos.

image image

São uma arquitetura e um urbanismo que não precisaram de arquitetos. Constituíram-se sem projeto. Resultam do possível. Não provém do desejo, mas da necessidade.

De fato, quando nos despojamos de preconceitos, conseguimos perceber que esse urbanismo é similar ao remanescente das originais Paraty ou Sabará e àquilo que permaneceu das nossas cidades coloniais. É um urbanismo que a gente descobre também nas vielas de cidades medievais e em lugarejos como os da costa amalfitana na Itália ou nas ilhas gregas.

image image

Positano, Itália

Nós, arquitetos, não temos sido capazes de criar isso. Conseguimos sim, intervir depois, quando aparece a necessidade da adequação desses ambientes construídos, para o benefício do homem contemporâneo. Foi por obra de equipes integradas também por arquitetos, que Ouro Preto, Positano e Santorini, para citar apenas esses, se tornaram lugares de encantamento, inspiração e transcendência.

image image

Santorini, Grécia.

Nós não criamos a arquitetura ou o urbanismo de nossas favelas, mas se nos dedicássemos, conseguiríamos certamente tirar partido daquilo que nelas é qualidade ou mérito para torná-las igualmente prestigiosas.



NOTAS

[1] Essa matéria saiu, em primeira mão, no site do SINAENCO em maio de 2011.(NA)

[2] Henri Michel Lesbaupin é arquiteto e urbanista. Diplomado pela FAU UFRJ em 1967. Desde 1968 mora e trabalha em São Paulo. Foi Professor de Urbanismo na FAU UNISANTOS (Santos, SP, 1973-1985) e na FEBASP Faculdade de Belas Artes de São Paulo no período 1979-1985. Foi Diretor da EMPLASA, Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano no período 1990-1994. Hoje presta consultoria para empresas de Gerenciamento de Projetos e Obras de Urbanização de Favelas, prestadoras de serviços, uma delas, para a Prefeitura do Município de São Paulo e a outra, para o Governo do Estado de São Paulo.

[3] Ao me referir às favelas nesse texto, falo das paulistanas. As favelas citadas nominalmente são favelas da cidade de São Paulo. (NA)


Aviso

Vinheta Casasabrasileiras

4 Respostas para “Sobre favelas

  1. João Douglas Gil

    Quero parabenizar o Arquiteto Henri Michel pelo artigo. Essa visão de adequação, cooperação e sociabilização do conhecimento e da capacidade profissional pode ser a grande solução para as construções urbanas dos menos favorecidos. Além das favelas, toda a periferia poderia ser transformada em lugares funcionais, agradáveis, coloridos, que pudesse proporcionar para a população uma sensação de bem estar, orgulho e de cidadania.
    Que essa visão impar do Prof. Henri, seja abusivamente ensinada aos novos arquitetos do país. Parabéns!
    Douglas Gil

  2. miriam da rocha fernandes

    É um grande desafio!

  3. Belíssimo artigo, porém insuficiente. Tal tema trás uma reflexão muito maior, pondo em xeque qual é a necessidade da arquitetura na causa social. Não tenho em mente ofender os profissionais da construção, mas qual é? Como um arquiteto pode fazer diferença para as massas?
    A arquitetura talvez tenha se direcionado para a elite social e sua busca por conforto, beleza, status, fortalecendo apenas o materialismo.
    Não tenho aqui verdades definidas, apenas um impedimento individual quanto ao ramo.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s