Arquitetura Pós-milagre

O período compreendido entre Decreto de Anistia, de 1979, e os últimos anos do século XX, no Brasil, chamamos livremente de Abertura Política, ou simplesmente Período da Abertura, pois era termo vigente a expressão “Abertura Total e Irrestrita” para fazer referencia à mudanças políticas então ocorridas como a volta das Eleições para Presidentee Governadores, o pluripartidarismo, a anistia aos cidadão que tiveram seus direitos cassados e a volta dos exilados políticos. As manifestações culturais ocorridas então têm características muito próprias, em parte diferentes do período anterior, o que nos autoriza a falar de uma Arquitetura da Abertura, ou de uma Arquitetura Pós-Milagre Brasileiro. É este painel de atitudes ligadas à arquitetura que nos interessa neste artigo.

A CULTURA NO PERÍODO DA ABERTURA

As manifestações culturais no período da “abertura” são significativamente diferentes do período anterior, não em qualidade, a julgar pelos prêmios internacionais recebidos, que atestam estar a nossa arte pari passu com a arte mundial. Estas manifestações, entretanto, não tinham o poder aglutinante nem o carisma do período anterior; permanecem circunscritas ao seu círculo de origem, qual manifestações de minorias, típicas das sociedades pós-modernas.

Cazuza e Titãs

Cazuza e Os Titãs. Duas das mais importantes manifestações da música popular do período de Abertura

A expectativa de que a abertura trouxesse uma renovação para nossa cultura foi frustrada. Não que tenha diminuído a qualidade das manifestações, mas alguns problemas fora do campo específico da cultura, sobretudo econômicos, tiveram influência decisiva. Era hora de “pagar a conta” do milagre, o que trouxe um empobrecimento geral ao país. Além disso, as práticas internacionais da economia pós-industrial provocaram nos círculos nacionais a enorme concentração de renda já vivida internacionalmente, e com esta, a miséria e a fome para grandes contingentes da população e a afluência de bens para uma minoria, distendendo o contraste já tantas vezes repetido. Para utilizarmos uma expressão da época, o Brasil era uma Belíndia tropical, parte Brasil-Bélgica e parte Brasil-Índia. [1]  

Na música popular o “rock” internacional parece comandar, tendo cooptado a todos, ou praticamente todos os nossos talentos jovens, como Cazuza e Renato Russo, ambos precocemente desaparecidos, vitimados pelo mal do fim do século XX– a Aids. As bandas – Titãs, Barão Vermelho, Paralamas, e outras, obscurecem a produção ligada às nossas raízes culturais, a chamada MPB,imersas em um processo vertiginoso de internacionalização. O afro-reggae, com nobres representantes convertidos, como Gilberto Gil, também tem origem exótica.

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Central do Brasil, filme de Walter Salles, de 1998, premiado com o Urso de Ouro no Festival de Berlim, entre outras premiações.

O cinema, embora com produção numericamente pequena, conseguiu igualar-se tecnicamente às produções internacionais e conquistou grandes prêmios fora. Já o teatro não repetiu os feitos anteriores. Deixou de ser uma arte autonomamente viável somente com as bilheterias, necessitando de patrocínios. A figura eufemística do encenador substitui o antigo diretor, com ganhos para a qualidade cênica do espetáculo, e afastamento do público não especializado. Para resgatar o papel do ator frustrado, surge o teatro besteirol, uma espécie de versão moderna da crítica de costumes e das chanchadas, sem conteúdo político ou psicológico, porém de grande afinidade com o publico.

A literatura fez mais consagrar, e mesmo mitificar em alguns casos, os nomes de Rubem Fonceca, João Ubaldo Ribeiro, Sérgio Sant’Anna, Ignácio de Loyola Brandão, Antônio Torres, Luís Fernando Veríssimo, Moacyr Scliar, entre outros. Os cenários são urbanos e os temas, como não poderia deixar de ser, entre o erotismo e a náusea, as minorias, e a impotência diante de poderes acima de sua vivência. A biografia, o memorialismo e a crônica policial são formas que encontram grande aceitação.

A ARQUITETURA DA “ABERTURA”

A abertura política possibilitou uma rearticulação cultural com o resto do mundo. Voltaram as revistas internacionais a circular com mais intensidade no pais e com elas, as novas ideias, que há mais de uma década já ocupavam as pranchetas [2] dos arquitetos do primeiro mundo. O Pós-modernismo, tão mal entendido, o High Tech, o Slick Tech, o Produtivismo, uma nova maneira de lidar com o patrimônio histórico, o Regionalismo, formaram um quadro múltiplo, cuja unidade ou simplificação não mais será buscada.

Assembléia Legislativa Piaui

Assembleia Legislativa do Piauí.  Teresina. 1984-86. Acácio Gil Borsoi

Perdemos, entretanto, o poder de fazer milagres, e nossa cultura arquitetônica e nossas escolas acusarão o golpe de vinte anos de fechamento. As novas ideias serão utilizadas de maneira restrita, pois o Brasil não reproduzia então completamente as tramas de uma sociedade pós-industrial, ou as consequentes condições de colapso cultural do primeiro mundo, nem tampouco disponibilizava tantos recursos para a arquitetura. Assim sendo, as mais fortes – e também mais caras – expressões arquitetônicas da época, o High Tech e o Desconstrutivismo, não serão aqui representados no período.

O ensino mostrará o desgaste do choque geracional, não conseguindo se libertar da reflexão racionalista-funcionalista do período anterior, de modo quegrandes contingentes de arquitetos foram lançados no mercado – a arquitetura ainda era e é dos cursos mais procurados –– sem que seja levantada uma bandeira crítica sobre a sua atuação e sem ter incorporado de forma consciente os novos métodos de abordagem, a fenomenologia, a semiótica e o desconstrutivismo.

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Memorial Tancredo Neves [Panteon da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves]. Brasília, 1985-6. Arquiteto Oscar Niemeyer.

Ainda assim, o painel da arquitetura de então no Brasil era rico e promissor, fazendo crer que a arquitetura estaria pronta a dar a sua colaboração para a retomada real de sua vocação de grandeza do país.

AS POÉTICAS DA ARQUITETURA DA “ABERTURA”

Continuísmo

Aplicamos aqui o termo “continuísmo”  para designar o uso, na época, das poéticas características da arquitetura brasileira dos anos 1940 a 1960, como a Escola Carioca ou Arquitetura de Brasília, que eram então, nos anos 1980,  praticadas tardiamente, de vez que já não expressavam o espírito de seu tempo, mas apenas faziam uso de uma formula já consagrada. Ainda hoje é muito praticada e ensinada nas faculdades, muitas vezes com o mesmo caráter profético, que possuía em meados do século XX, de ser a única verdade, apesar da complexidade do quadro de poéticas atual.

MAC NiteroiMuseu de Arte Contemporânea. Niterói. RJ. 1991-96. Arquiteto Oscar Niemeyer

Estilo Internacional

Embora sendo uma poética que diminuía a sua importância pelo seu esgotamento de conteúdo, na medida em que representava um mundo industrial que já não mais existia, era ainda muito utilizada no Brasil e ensinada nas faculdades. Era adequada aqueles edifícios impessoais, projetados em equipe para as empresas de consultoria e para escritórios de grandes empresas, as quais representavam aquele episódio de pretensa grandeza do país: as hidrelétricas, os aeroportos, as rodoviárias, as fábricas, os edifícios comerciais etc. Faziam uso tardio da poética racionalista, esvaziada então de seu conteúdo ideológico industrialista, em face das novas poéticas, deixando claro a subcodificação do edifício.

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Centro Empresarial Itaú. São Paulo, 1986. Arq. De Genaro et Al. 

Pré-fabricação

A poética da pré-fabricação na arquitetura é anterior ao período que estamos abordando. Teve grande desenvolvimento no pós-guerra, acreditando na falácia da rápida reconstrução do mundo. O uso de pré-moldados de concreto e argamassa armada, entretanto, neste período é bem específico e característico. Com sua poética própria de padronização, racionalização e produção seriada, terá um campo definido de desenvolvimento por alguns arquitetos, destacando-se João Filgueiras Lima e seu trabalho na rede de hospitais Sarah Kubitscheck e na Fábrica de Escolas e Oscar Niemeyer, com os Sambódromos, do Rio e de São Paulo, e os CIEPS.

CIEP

  Centro Integrado de Educação Pública. CIEP. Rio de Janeiro, 1982. Arquiteto Oscar Niemeyer

Tardo-Modernismo

O Tardo-Modernismo é uma espécie de maneirismo modernista super-elaborado, levando as determinações poéticas do Estilo Internacional ao extremo. É importante diferenciarmos esta tendência poética do simples continuísmo ou do Estilo Internacional. Enquanto estes são contidos em sua pureza ascética, as poéticas tardo-modernistas são  sofisticadas e ostentatórias, extremamente pragmáticas, comunicativas e fotogênicas. Seus espaços são super-eficientes e extremamente isotrópicos, articulados e repetitivos. O tardo-moderno assume diversas feições – algumas, como o High Tech, não muito utilizadas entre nós, devido provavelmente ao seu alto custo. As principais manifestações tardo-modernistas utilizadas entre nós são descritas a seguir.

Chamamos de Esculturismo ao tratamento volumétrico do edifício de maneira caprichosa e individualista, fugindo, portanto, da forma pura preconizada pelo Estilo Internacional, buscando conseguir, por meio deste tratamento, uma individualização para o edifício, que as poéticas originais do Movimento Moderno não mais possibilitavam.

Edifício Delta Plaza. São Paulo, 1987. Arquitetos A. Botti & M. Rubin e Edifício Banespa. São Paulo, 1988-92. Arquiteto Carlos Bratke.

Esse tratamento escultórico rebate-se em uma outra atitude, o Formalismo Mural, onde apenas os planos de fachada são trabalhados. Neste caso, o arquiteto dá tratamento à fachada do edifício de maneira isolada, sem que haja a correspondência racionalista ou funcionalista com a planta, e associando a linguagem do Estilo Internacional (cortinas, etc.) com outras (revestimento de forras. p.e.). Num extremo deste formalismo mural, temos o Supergrafismo, tratamento da fachada do edifício como um gigantesco painel pictórico. Perde-se a articulação eurrítmica dos elementos arquitetônicos tradicionais de tratamento mural, sobretudo a fenestração, que passam a ser tratados segundo critérios gráficos. Os materiais e cores são dispostos de maneira que a representação dos elementos funcionais na fachada, uma imposição do racionalismo funcionalista, fica perdida.

 Centro Empresarial Previnor (1993) em Salvador

Centro Empresarial Previnor. Salvador, 1993. Arquiteto Fernando Peixoto.

O desenvolvimento da  indústria da construção civil nesse período ensejou uma nova poética: o Produtivismo. [3] Tal prática que consiste em compor um edifício, parte dele ou um de seus elementos, com um sistema totalmente industrializado, o qual por si só garante as virtudes desejadas, de acabamento, de precisão, de vez que se trata de qualidade obtida e controlada industrialmente. No caso do produtivismo aplicado à forma mural do edifício, os sistemas mais utilizados são o Vidro Estrutural ( Structural Glassing ) – cortinas de vidro sem estrutura aparente – e os painéis de ACM ( Alumynium Composite Material ) – revestimento de fachadas com chapas de alumínio.

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Hotel Renaissance, São Paulo. 1993-97. Arquiteto Ruy Ohtake.

No caso do produtivismo aplicado à forma estrutural do edifício, os sistemas mais utilizados são as treliças espaciais, que por si só contingenciam definitivamente a forma do edifício.

Regionalismo

Regionalismo é uma tendência que busca a recuperação do acervo cultural tectônico e arquitetônico de uma região, de maneira seletiva e crítica, para estabelecer um ponto do partida autóctone no diálogo com outras fontes culturais hegemônicas, atuantes pela intensa informatização global, e muitas vezes impostas por uma cultura tida como dominante. Constitui-se em uma atitude contrária ao desgaste dos recursos culturais, menosprezados em nome de uma universalização expressa no racionalismo cientificista e em uma política neoliberal concentradora.

Balbina

Centro de Proteção Ambiental de Balbina. 1984-89. Arquiteto Severiano Mario Porto

Pesquisa formal Ad Hoc

A expressão latina ad hoc quer dizer para isso, para este fim. Diz-se de algo arranjado ou pessoa designada especialmente para cumprir determinado propósito ou tarefa. A arquitetura ad hoc é aquela que usa materiais, processos ou formas alternativas que não serão repetidos em outro lugar.

Casa de praia no Piaui. Adriano Mello 1992

  Casa de Praia. Piauí, 1995. Adriano Mello.

Pós-moderno

Algumas manifestações arquitetônicas ocorridas no Brasil a partir dos anos 1980, na esteira do que ocorrera nos Estados Unidos e Europa a partir dos anos 1960, têm como ideia principal a oposição a um ou mais princípios do Movimento Moderno. O Pós-Modernismo, como é chamado, inclui muitas tendências diferentes entre si, tais como manifestações ligadas à Pop Art, manifestações historicistas, regionalistas, ou simplesmente bizarras. Estas manifestações têm em comum a preocupação com o significado, isto é, a substituição de uma orientação racionalista e funcionalista, pela orientação semiótica. Uma das maneiras de entender a poética pós-moderna é confronta-la com a poética maquinista do movimento moderno. Aqueles princípios – a objetividade, o funcionalismo, a racionalidade, o internacionalismo, o anti-individualismo, a anti-monumentalidade, o anti-historicismo, a dessemantização , e os apostos do Estilo Internacional – a perfeição técnica, a flexibilidade da planta, e o uso de materiais industrializados-, serão postos em questão e substituídos, em seu conjunto, ou isoladamente, por seus contrários. Uma outra maneira será encarar o pós-modernismo é utilizar o ponto de vista semiótico. Assim, um edifício pós-moderno terá sempre um duplo discurso, dirigindo-se com uma linguagem acadêmica para arquitetos e conhecedores, e com uma linguagem popular para o público leigo.

As principais tendências pós-modernas no Brasil são: o Historicismo Abstrato, a Fantasia Abstrata e o Revivalismo Crítico . O Historicismo abstrato  caracteriza-se pelo uso de formas e motivos históricos, da tradição clássica ocidental, tratados de maneira livre e abstrata, em provocativo confronto com o anti-historicismo modernista, sob uma perspectiva às vezes produtivista e monumental, às vezes irônica ou grotesca. É a tendência mais fértil do pós-modernismo internacional, porém não muito utilizada no Brasil. É também a mais criticada, chamada redutivamente de PoMo, devido ao fato de o uso das figuras históricas nem sempre ter sido criteriosa e respeitosa.

  Edifício Rio Branco 1. Rio de Janeiro, 1985-88. Arquiteto Edison Musa.

As Fantasias Abstratas, outra importante tendência, caracteriza-se pelo uso de formas ou elementos comuns, estranhos, bizarros ou extravagantes com vistas a surpreender o observador e confrontar a ortodoxia racionalista do modernismo arquitetônico, o consagrado “bom gosto”. Dentro desta tendência podemos também encontrar fantasias temáticas ou abstratas, ironizando o produtivismo tecnológico atual ou a comercialização da arquitetura.

Cen Apoio Tur Tancredo Neves

Centro de Apoio Turístico Tancredo Neve. Belo Horizonte, 1985-92. Arquitetos Éolo Maia e Sylvio E. de Podestá

O Revivalismo Crítico faz uso de uma poética que imita [4] um estilo do passado arquitetônico, considerado como uma referência, porém o faz de maneira crítica, adaptando-o ao momento atual. Diferentemente de um simples e puro  revivalismo que inspirou, por exemplo, a reconstrução do Centro de Varsóvia.

Cópia de downtown 7

Down Town. Barra da Tijuca. Rio de Janeiro, 1992-97. Arquitetos Luís Paulo Conde et al.

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O quadro que apresentamos refere-se ao período de 1979, ano da assinatura do Decreto de Anistia, até 1995, ano em que, com a posse de Fernando Henrique Cardoso e a consolidação do Plano Real, começa um novo período político e, consequentemente, cultural, no Brasil. Não acreditamos que a sistematização delineada acima seja aplicável após esta data. Obviamente muitas dessas poéticas são ainda utilizadas, porém há muitas diferenças, e um novo estudo carece ser feito.
Aviso
Vinheta Casasabrasileiras

[1] Note-se que este quadro esta hoje muito mudado.

[2] A computação gráfica chegará em meados dos anos 80, e somente em fins dos anos 90 será prática quase obrigatória.

[3] Ver artigo sobre o Produtivíssimo neste blog, no link

https://coisasdaarquitetura.wordpress.com/2011/04/04/produtivismo-2/

[4] Cf. conceitos de imitação, cópia e simulacro. O revivalismo sempre se baseia na imitação, enquanto o historicismo abstrato é um simulacro.

Uma resposta para “Arquitetura Pós-milagre

  1. Achei o tema muito interessante e relevante. É uma pena que não seja ensinado na graduação – pelo menos não na universidade onde estudo, onde o tema da arquitetura brasileira se esgota na década de 1970.

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