Arquitetura e sustentabilidade

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As grandes crises do petróleo, acontecidas nos anos 1970, que afetaram a geopolítica mundial desde então, foram provocadas por uma constatação, por parte dos países produtores de petróleo, OPEP, de que produziam um bem precioso e esgotável, e que não era certo que fosse queimado nas câmaras de combustão interna dos vorazes motores dos carros americanos.

Lake Shore

Edifícios no Lake Shore Drive. Chicago, 1949-51. Arquiteto Mies van der Rohe

O arranha-céu de aço e vidro, a realização de um sonho acalentado desde o início do século por poetas e arquitetos alemães, foi condenado por ser um grande consumidor de energia.

Mas essas crises tiveram também grande influência na arquitetura ao levantarem a questão da energia consumida pelos edifícios das grande metrópoles. O arranha-céu de aço e vidro, a realização de um sonho acalentado desde o início do século por poetas e arquitetos alemães[1], foi condenado em primeira instância por ser um grande consumidor de energia. Em seu lugar, arquitetos como Louis I. Kahn, Robert Venturi, Aldo Rossi, Michael Graves, James Stirling, propunham a volta da velha e confiável parede de tijolos, recortada por janelas. Mas isso não ficou assim. As indústrias afluentes do aço, do alumínio e do vidro voltaram à carga e conseguiram um Habeas Corpus, daquele tipo que nós brasileiros conhecemos, em que as situações vão se perpetuando até o definitivo esquecimento.

Veio o Brundtland Report,[2] a Agenda 21,[3] a Agenda Habitat[4] e plus ça change[5]… Apesar disso, os edifícios de aço, alumínio e vidro voltaram duplicados, triplicados, mais caros, mais coloridos, exercendo em alguns o antigo fascínio que seduziu Paul Scheerbart e os arquitetos da Bauhaus,  propalando maior eficiência energética etc.

Humana

Humana Building. Louisville, Kentucky, 1982-5. Arquiteto Michael Greaves.

Os arquitetos propuseram a volta da velha e confiável parede de tijolos, recortada por janelas

É aí que entra o conceito de Energia Incorporada­ – EI­, uma conquista recente, para avaliar o impacto dos materiais nas construções e estabelecer um critério para sua escolha. A EI refere-se à quantidade de energia utilizada para produzir um objeto. Podemos falar da EI de um tijolo, de uma janela ou de uma casa inteira. Estes materiais que compõem o arranha-céu de aço, alumínio e vidro são os vilões da história, os materiais que mais incorporam energia. Ao contrário, os materiais tradicionais, a madeira, o barro e o tijolo, são os mocinhos vingadores.

Segundo o critério da EI, um edifício será mais integrado aos critérios de arquitetura sustentável quanto menos energia tiver incorporada. Para a avaliação do quantum de energia que cada matéria incorpora, são considerados a energia necessária para produzir o material, as emissões de CO2 resultantes da sua fabricação, o impacto ambiental resultante da extração do material, transporte etc.

Torre Amirante

Torre Almirante. Rio de Janeiro. 2005. Pontual Arquitetura e Robert Stern Architects

Os edifícios de aço, alumínio e vidro voltaram, duplicados, triplicados, mais caros, mais coloridos, exercendo em alguns o antigo fascínio.

Para se calcular com precisão a energia incorporada de um material, todos os estágios nos quais se utiliza energia devem ser considerados. Um valor preciso será obtido se considerarmos a energia usada para a extração de materiais brutos, transporte, processamento, fabricação, transporte ao sítio e a energia usada in loco para instalar o produto.

O processo de produção de um material tem influência decisiva na quantidade de EI. Materiais metálicos consomem muita energia desde sua extração da natureza até sua redução e fabricação da forma final de uso, além de causarem poluição e danos à atmosfera. Veja-se o exemplo dos perfis de aço, desde a extração do minério até o trabalho final de laminação. Isto vale também para componentes e equipamentos, como aquecedores e climatizadores, e outros elementos como as esquadrias. Uma janela de madeira tem menos EI que uma de aço ou alumínio. Tintas orgânicas ou a base de água, com pigmentos naturais, tem menos energia que as tintas sintéticas.

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Pavilhão de Barcelona. 1929. Mies van der Rohe.

 Travertino importado, ônix importado, metal polido, aço e vidro. Um dos maiores canones do Movimento Moderno é também campeão em energia incorporada.

Também o transporte incorpora energia ao material. Muitas vezes prefere-se um acabamento com um travertino importado a uma forra de pedra local. Certamente isto significa mais energia. É necessário que o projetista tenha consciência da procedência dos materiais, não somente pelo aspecto técnico, é obvio, mas também para fazer este delicado equilíbrio entre durabilidade e EI

A análise da duração de uma edificação deve também ser avaliada quando do cálculo da EI. Quanto mais tempo durar uma edificação, mais baixo será o impacto de energia e poluição resultantes da fabricação dos seus materiais. É aí que temos um critério bastante solido para análise, e podemos avaliar o quão distantes estamos dos padrões mínimos de sustentabilidade. Pensemos nas nossas metrópoles. Em alguns trechos, temos edifícios de segunda ou terceira geração. No Rio de Janeiro, este é o caso da Avenida Rio Branco e das avenidas Atlântica e Nossa Senhora de Copacabana.

É nesse tópico que a produção sustentável encontra o maior obstáculo, não somente na arquitetura, mas em todas as indústrias. É que toda a produção industrial do mundo globalizado baseia-se na obsolescência programada, isto é, na produção de bens de curta duração de vida. Obviamente, que se trata de uma estratégia política e econômica para manter e criar novos postos de trabalho para uma população crescente. No caso da arquitetura, ligada naturalmente à construção civil, o problema está sempre presente, pois é neste mercado de trabalho que se obtém respostas mais fáceis e rápidas para as escassez de oferta de postos de trabalho.

Construção-Civil

É no mercado de trabalho da construção civil que se obtém respostas mais fáceis e rápidas para as escassez de oferta de postos de trabalho.

Ainda se discutem os critérios mais rigorosos para medir a EI dos materiais, uma vez que alguns dados para a medição não estão amplamente disponíveis . Mesmo não sendo conclusiva, a análise da tabela mostra a relação entre os materiais e as consequências esperadas do seu uso.

Um conceito paralelo ao de EI é o de “emissões incorporadas”, e se referem às emissões atmosféricas associadas à produção de um material, como as emissões de CO2 ligadas ao uso da eletricidade em um produto, ou a emissão de toxinas, resultante de tratamentos químicos. Além disso, muitos processos requerem uso de combustíveis.

O conceito de EI deve ser aplicado de maneira equilibrada. A EI é determinada por unidade de peso ou de volume, para cada material. Assim sendo, quando usados com parcimônia, certos materiais de alta EI, como os plásticos e o aço, podem ser úteis ao resultado final da construção.

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Teto de placas translucidas de Policarbonato.

Os plásticos têm EI muito elevada, liberam VOC e são de difícil descarte

A EI dos plásticos é muito alta. A utilização de plásticos na construção deve, portanto, ser evitada. Além de ajudar a sustentar a indústria responsável por grandes quantidades de emissões de CO2, os plásticos ainda liberam gases na atmosfera chamados de compostos orgânicos voláteis (VOCs), encontrados em compostos sintéticos como fibras, carpetes e tintas modernas, especialmente aquelas à base de óleo. Os VOCs podem ser prejudiciais se inalados. Além disso, os plásticos de difícil de descarte de maneira ecologicamente segura.

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Fundição do aço

A fundição do aço requer grande consumo de energia e gera altas emissões tóxicas devido a seus resíduos.

No que se refere a metais, apesar de ser quase inevitável a sua utilização, são materiais com uma alta EI, cujo processo de fabricação causa degradação ambiental. A fundição requer grande consumo de energia e gera altas emissões tóxicas devido a seus resíduos. É prudente, pois, serem especificados somente em pequenas quantidades ou com propósitos determinados, como, por exemplo, para a junção e fixação de materiais. Como são muito caros, a maioria dos metais descartados é reciclada, embora este processo não seja livre de seu próprio custo de degradação ambiental. Estamos falando do aço e alumínio, mas existem metais, como o chumbo, que devem ser definitivamente evitados devido a sua natureza tóxica.

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Edificação rural no Estado de Maharashtra, na Índia.

A madeira é um material que possui excelentes credenciais ambientais. É renovável, reduz a quantidade de CO2 na atmosfera e é fácil de trabalhar. Há possíveis desvantagens, sobretudo relacionadas com a necessidade de transporte de longas distâncias. Outro problema comum é a procedência ilegal, daí a importância da certificação. Um cuidado adicional refere-se ao tratamento a que a madeira deve ser submetido para evitar apodrecimento e ataque de micro organismos; este tipo de tratamento costuma ser altamente tóxico. Porisso, é importante uma correta especificação que determine a densidade, qualidade, procedência etc. relacionados estritamente ao uso.

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Em resumo, com base nos critérios advindos do conceito de energia incorporada, que acabam de ser discutidos, determina-se que o projeto deve privilegiar materiais específicos, dos quais falamos, assim como sistemas sempre que possível auto suficientes em termos de energia, como aquecimento solar de água e sistemas fotovoltaicos para eletricidade, uso de energia eólica ou hidráulica, recomendável para gerar energia in situ. Devem ser especificados materiais que requerem o mínimo de processamento e evitados aqueles altamente processados. É aconselhável substituir materiais quimicamente tratados por produtos não tóxicos. Materiais procedentes de localidades mais distantes são menos indicados que aqueles  materiais locais. A durabilidade dos materiais também é muito significativa e afeta a vida útil de uma edificação.  A possibilidade de reciclagem e o potencial de ocupação flexível construção favorecerá a extensão da vida útil da edificação.


NOTAS

[1] Ver artigo neste Blog A corrente de Cristal https://coisasdaarquitetura.wordpress.com/2011/05/15/a-corrente-de-cristal/

[2] O Brundtland Report, principal produto da Comissão Brundtland, criada em 1983 pelas Nações Unidas, mas independente desta, foi publicado em 1987 pela Oxford University Press. Seu mais importante texto, Our Common Future define pela primeira vez os conceitos de desenvolvimento sustentável, tentando traçar um esquema que equilibre proteção ambiental, crescimento econômico, igualdade social,

[3] Um dos principais resultados da conferência Eco 92 ou Rio 92, o documento busca traçar normas para equacionar consumo, luta contra a pobreza, dinâmica demográfica, sustentabilidade, gestão de recursos naturais, proteção dos ecossistemas, etc.

[4] A Agenda Habitat foi o principal documento político produzido pela Conferência Habitat II, em Istambul, Turquia, acontecido entre 3 e 14 de junho 1996. Adotada por 171 países, contém mais de 100 compromissos e 600 recomendações sobre questões relativas a assentamentos humanos, versando sobre habitação para todas as populações, proteção de grupos vulneráveis, sustentabilidade, transporte e comunicação, planejamento metropolitano, transferência de tecnologia, e pacto social entre autoridades e sociedade civil

[5] Plus ça change, plus c’est la même chose. Quanto mais se muda, mais as coisas permanecem as mesmas.

BIBLIOGRAFIA

ROAF, Sue, FUENTES, Manuel, THOMAS Stephanie. Ecohouse. A casa ambientalmente sustentável. Porto Alegre: Bookman, 2009.

 

 

2 Respostas para “Arquitetura e sustentabilidade

  1. edison barroca xavier

    este blog é muito bom, parabéns pela iniciativa. agradeço pela oportunidade de acesso aos temas publicados.

  2. Por isso que o estilo Modernista recebia criticas tb, alto uso de vidro e aço! ! Post interessantissimo para ler!!

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