Oscar Niemeyer

Niemeyer vinheta

No dia 15 de dezembro deste ano, Oscar Niemeyer completaria 105 anos. Um capricho do destino o levou dez dias antes deste extraordinário aniversário. Para quem sempre declarou que a vida é mais importante que a arquitetura, este feito é uma outra grande obra a colocar em sua galeria. Mas o Niemeyer do público é diferente do Niemeyer dos arquitetos, e é sobre isso que eu desejo falar, do que Oscar significa para nós e dessa diferença entre os dois. Penso que entre Oscar Niemeyer e os arquitetos existe uma relação edípica, daquelas bem atrapalhadas, com filhos ressentidos e pai ausente e não declarado.

National_Congress_of_Brazil

Um equivoco precisa ser desfeito. Um equivoco que foi repetido à exaustão pela mídia quando da morte de Niemeyer. É que Niemeyer representa para a arquitetura brasileira o mesmo que a seleção de 1958 de Nelson Rodrigues para o povo: tirou de nossa arquitetura o complexo de vira-lata. Ele não representa a arquitetura brasileira, como Le Corbusier não representava a arquitetura francesa, do país onde vivia, ou suíça, do seu país natal. Steven Holl não representa a arquitetura americana e Alvar Aalto não representa a arquitetura finlandesa. Estes arquitetos têm a condição de elevar a arquitetura a um estádio de arte pura, que poucas vezes se consegue, e que não faz parte do dia-a-dia da matéria. Mas a arquitetura brasileira tem uma vida própria, divergente da arquitetura de Niemeyer.

O prestígio de que gozou nossa arquitetura nos anos 1940 e 1950, tem muitos arquitetos como personagens, como Lucio Costa, Jorge Moreira, Carlos Leão, os irmãos Roberto, Affonso Eduardo Reydi, Henrique Mindlin, Francisco Bolonha, Ícaro de Castro Mello, Attílio Correia Lima, e, entre estes, também Oscar Niemeyer.

casa das canoas #

Este prestígio começou no início dos anos 1940 e foi paralelo a uma valorização da cultura latino-americano pelos Estados Unidos, num processo que levou Carmen Miranda e fez Walt Disney criar o Zé Carioca. Era a Política de Boa Vizinhança e fazia parte dos esforços dos Estados Unidos de cooptar aliados contra o “Eixo”, durante a Segunda Guerra Mundial. Foi assim que surgiu o Brazil Builds: Architecture new and old. 1652-1942.[1], livro prestigioso publicado pelo MoMA de Nova Iorque. Anos mais tarde surgiu o Modern Architecture in Brazil,[2] de Henrique Mindlin, que, inexplicavelmente, somente receberia uma edição brasileira em 1999.

Niemeyer começa a destacar-se quando, em 1939 assina juntamente com Lúcio Costa, o projeto do Pavilhão do Brasil na Exposição Internacional de Nova Iorque. Logo a seguir, em 1942, Benedito Valadares, governador de Minas Gerais, o convida, por sugestão de Gustavo Capanema, para projetar, em Belo Horizonte, um conjunto de edifícios em torno do lago artificial da Pampulha: um cassino, uma igreja, uma casa de baile, um clube e um hotel. O prefeito da capital de Minas, Juscelino Kubitschek, uma década depois seria presidente do Brasil, e convidaria Oscar para projetar a capital do Brasil, convite do qual declinou, aceitando, porém, projetar os seus palácios.

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Os episódios, caminhos e descaminhos, malfeitos e mal-entendidos, da construção de Brasília, foram muitos e  estão satisfatoriamente narrados na literatura especializada[3]. Brasília foi apresentada ao povo brasileiro como sendo a última palavra em urbanismo, mas na verdade se tratava de uma ideia em vias de superação, que fora defendida na ocasião da elaboração da Carta de Atenas, em 1933. Em 1956, ano do projeto de Brasília, os CIAM[4] fechavam as suas portas, pois os princípios que os tinham inspirado, havia trinta anos, não mais se sustentavam, como também não se sustentava a ideia da cidade funcional, inspiradora de Brasília.

Mas o fato é que esta cidade, e os seus edifícios, deram a Niemeyer uma projeção jamais vista. Darcy Ribeiro disse certa vez que daqui a cem, duzentos anos, os edifícios de Brasília existirão e vão falar do seu arquiteto. Ninguém se lembrará tão bem dos políticos, de como era o Brasil, mas terá aqueles edifícios como testemunho. A arquitetura tem esse poder de permanência muito forte, e Niemeyer era bem consciente disso. Mas não foi o seu indiscutível talento para criar formas escultóricas para edifícios, e sim uma determinação autoritária e discriminatória daquele que consta ser o menos autoritário de nossos presidentes que lhe outorgou a condição de arquiteto exclusivo dos palácios de Brasília.

Palacio dos Arcos

Adolf Loos exaltava nossa época por sua incapacidade de produzir ornamento; nós teríamos atingido o estagio da não ornamentação, a época da “plenitude”. Dizia que, em breve “as ruas de nossas cidades brilharão como paredes brancas, tal qual Zion, a cidade sagrada, capital do céu, e conseguiremos a salvação.”[5]Pois foi assim que Niemeyer passou a projetar, não edifícios para a capital do Brasil, mas para a capital do céu, em sua pureza ascética e platônica.

A relação de Niemeyer com os arquitetos brasileiros nunca foi boa. Em primeiro lugar, não agradava a ninguém a exclusividade outorgada a ele arbitrariamente, como é nossa tradição, de projetar todos os edifícios públicos de Brasília, que, pelos regulamentos e práticas vigentes no meio arquitetônico, exigiriam a abertura de concurso público de idéias. Não agradava também uma bravata constantemente repetida, quando era muito criticado, de que ele fazia a arquitetura que queria, enquanto os outros faziam a arquitetura que podiam. Ora, fazer a arquitetura que se quer não é exatamente uma grande vantagem, e somente é possível através de dispositivos autoritários dos quais ele gozava pela contiguidade com o poder. O resultado é muitas vezes um caprichoso e insolente jogo de formas que exige grandes malabarismos estruturais e muitas vezes a custa do melhor atendimento da sua função de destino, sem falar em um custo muitas vezes maior. Niemeyer se justificava: se alguém o chamava para fazer um projeto, é porque queria algo que somente ele saberia fazer. Senão chamaria outro. E o atendia.

Panteão da Pátria Tancredo Neves

Uma outra questão incômoda, é a sua persistente declaração de “comunista”. É claro que qualquer pessoa pode se declarar comunista, e Niemeyer o fez sempre corajosamente, em momentos em que não era tão fácil como hoje, e praticou sua solidariedade a membros do PCB, como Prestes, em momentos difíceis. Porém, visto do ponto de vista arquitetônico, se pode haver um oposto absoluto do comunismo, ao qual Niemeyer se declara, é a sua arquitetura. O Socialismo soviético produziu algumas ideias relativas à arquitetura. O Construtivismo foi a primeira delas: uma ideia tão forte que os próprios socialistas não suportaram. Paralelamente, havia o Suprematismo, que não teve melhor destino. Na vigência do governo stalinista, praticou-se na União Soviética um “neoclassicismo de estado”, bem a gosto de líderes totalitários, como Hitler e Mussolini. Aqui no Brasil se fez alguma coisa neste sentido, sob a égide do Estado Novo. Havia finalmente o chamado Realismo Socialista, que se constituía em uma radicalização dos princípios estéticos para fins de propaganda política. Pois bem, nenhum desses princípios passa sequer perto da obra de Niemeyer, que mais se assemelha ao eterno e incômodo concorrente, o Capitalismo Liberal.

O que salta aos olhos é a extrema contradição entre uma declaração de princípios comunista e os seus edifícios, uma produção capitalista, burguesa, aristocrática ou o que seja, mas nunca socialista. Incomoda também seus constantes elogios a Stalin, um dos maiores assassinos do Século XX.

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Fica assim o nosso necrológio, com belas imagens de obras de um inconfundível talento, que a mídia insiste em chamar de gênio, atributo que o próprio, com muita lucidez, rejeita.

Eu só acho da minha parte que há sempre um exagero. Eu sou um homem como outro qualquer, trabalhei, tive sorte, tive ajudas, tive oportunidades que cumpri bem. É só isso. Trabalhei muito, passei a vida debruçado na prancheta.[6]

PS. Oscar Niemeyer costuma tratar seus críticos de “idiota”, “cretino” ou, nos casos mais graves, “um merda”. Acho que acabo de me atribuir um ou mais desses elogios.

 


[1] GOODWIN, Philip L. Brazil Builds: Architecture new and old. 1652-1942.[1]Nova Iorque. The Museum of Modern Art, 1943.

[2] MINDLIN, Henrique E.. Modern Architecture in Brazil,[2] Rio de Janeiro: Amsterdam: Colibris, 1956.

[3] Ver BRUAND, Yves. Arquitetura contemporânea no Brasil. São Paulo: Perspectiva, 1981, p. 354 e s.

[4] Ver artigo neste Blog.

[5] Ver ensaio de ADORNO, Theodor W. “Functionalism Today” In: LEACH, Neil (Ed.). Rethinking architercture: A reader in cultural theory. Londres, Nova Iorque: Routledge, 1997.

[6] Revista MONTBLÄAT – 446. Rio de janeiro, 16 de dezembro de 2012, p. 4. Entrevista a Fritz Utzeri.

4 Respostas para “Oscar Niemeyer

  1. Sílvio, gostei muito do seu artigo, ele continua a polêmica que se seguiu a morte de Niemeyer, é esclaredor, porém, sem radicalizar. Vera

  2. Não gosto de nada do que ON fez. Nas obras dele não cabe o ser humano. Como arquiteto, ele era um escultor medíocre.
    Abraços.

  3. Maria Aparecida de Lima

    Gostei do texto, sensato e racional. Concordo, principalmente, que Niemeyer foi circunstancialmente privilegiado. Ainda bem que ele, pelo menos, criou belas obras. Por outro lado, achei desnecessária a crítica quanto à arquitetura de Niemeyer não apresentar princípios da arquitetura de países comunistas. O comunismo é uma posição político-social e não uma estética.

    • Maria Aparecida
      Toda posição politico-social é representada por uma poética. As poéticas socialistas foram criadas pelos próprios filósofos e estetas socialistas, o maior deles o filósofo Georg Lukács. Diziam que seus princípios políticos não podiam ser representados pelas poéticas burguesas. É de se esperar que um artista que se declare socialista faça uma arte socialista.

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