High Tech

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O High-Tech, abreviatura de high technology, ocorreu, como tendência arquitetônica, a partir dos anos 70 e se constituiu em uma utilização de métodos, figuras, tecnologia e materiais da arquitetura e engenharia industriais em programas comerciais e residenciais urbanos. Caracteriza-se pela exposição dos sistemas técnicos (elétricos. hidráulicos, climatização, circulação), uso intenso de cores vivas e acabamentos metálicos, vedações com painéis industrializados e vidro, nunca com processos tradicionais de alvenaria, por exemplo, grandes vãos e estruturas tensionadas. Esta exposição dos sistemas técnicos foi chamada, jocosamente, de poética do intestinismo.

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Centro Pompidou. Paris, 1971-7. Renzo Piano e Richard Rogers. O primeiro High Tech.

A arquitetura High Tech propõe-se oferecer ao usuário, em vez de espaços tradicionais, passíveis de receber conotações afetivas, espaços de máxima eficiência, jamais perturbados por elementos estruturais ou blocos de circulação e serviços.

É o mais expressivo movimento do chamado do modernismo tardio, acontecido nas últimas décadas do Século XX. Tem um débito real para com as vanguardas do Construtivismo Soviético, para com as fantasias do grupo Archigram e para com o Metabolismo Japonês. Do primeiro herdaram a admiração pela tecnologia, aquela vontade de expor os equipamentos e componentes técnicos do edifício e figurar – às vezes até mesmo fantasiar – técnicas construtivas. Do grupo Archigram assimilaram a visão de um mundo tecnologicamente resolvido e auto-suficiente, retirando porém a visão irônica e bem humorada daquele modelo, e mesmo os traços apocalípticos daquelas fantasias. Do modelo japonês ficaram sobretudo com a intenção de separar o espaço servido das unidades serventes, e também o seu conceito de espaço de eficiência máxima, jamais prejudicado por elementos estruturais ou instalações, flexível e universal, um sucessor hipertrofiado do espaço universal de Mies van der Rohe.

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Tubulações expostas na engenharia mecânica da grande indústria. A inspiração da arquitetura High Tech.

Sua poética consiste no uso de figuras e materiais da arquitetura e engenharia industriais em programas comerciais e equipamentos urbanos, expondo os sistemas de instalações técnicas, estrutura, climatização e circulação, os quais colorem com cores fortes e acabamentos metálicos. Este modo de fazer um edifício subverte uma antiga metáfora utilizada na arquitetura, a do antropomorfismo. Diferentemente do homem, cujos sistemas circulatório, respiratório e digestivo são interiores e revestidos de carne, o edifício High Tech tem estes sistemas na periferia, à semelhança de certos animais primitivos.

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Centro Pompidou. Interior. O espaço de eficiência máxima, jamais prejudicado por elementos estruturais ou instalações, flexível e universal.

É, porém, uma retomada de uma outra antiga metáfora das vanguardas, de fazer do edifício uma “máquina de morar”. O edifício então deverá parecer um produto industrial, como um automóvel ou um eletrodoméstico, construído em uma fábrica e simplesmente montado no sítio de destino. As unidades habitacionais são “cápsulas conectáveis”[1] a uma estrutura-mãe, que se encarrega de provê-la de necessidades e facilidades, como energia e sistemas hidráulico-pneumáticos.

O primeiro edifício High Tech foi o Centro Georges Pompidou, em Paris, de 1971-77, projetado por Renzo Piano e Richard Rogers. Este último arquiteto, nascido em Florença, de pais ingleses, juntamente com seu meio-compatriota Norman Foster, são os grandes nomes desta tendência. Quando este edifício apareceu, vencedor de um concurso público internacional,  primeiro dos grande equipamentos construídos, na época, em Paris, como a Ópera da Bastilha e a Pirâmide do Louvre, chocou meio mundo com sua agressiva poética intestinista. Mas veio validado por um Juri de alta fidúcia, que contava com o decano Jean Prouvé como presidente, e os célebres Philip Johnson e Oscar Niemeyer[2].

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Lloyd’s Bank. Londres, 1978-86. Richard Rogers.

O Lloyd’s Bank, em Londres, de autoria de Richard Rogers, foi projetado e construído entre 1978 e 1986. Como o Centro Pompidou, em Paris o edifício foi inovador, tendo seus serviços, tais como escadas, elevadores, condutos eléctricas e canalizações de água expostos, deixando um espaço livre no interior. Os 12 elevadores de vidro foram os primeiros do tipo no Reino Unido. Como o Centro Pompidou, o edifício foi muito influenciado pelo trabalho do grupo Archigram, na década de 1950 e 1960.[3]

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Lloyd’s Bank. Planta do pavimento tipo.

O edifício é constituído por três torres principais e três secundárias de serviços em torno de um espaço central, retangular. Seu núcleo é a Sala de Underwriting, no térreo, abriga o famoso Lutine Qual Bell.[4] Esta sala muitas vezes conhecida simplesmente como “a sala”, contornada por galerias, tem 60 metros de altura e é iluminada naturalmente através de um enorme telhado de vidro abobadado. As primeiras quatro galerias abrem-se para o espaço de átrio, e estão ligados por escadas rolantes. Os pisos superiores são envidraçados, e só podem ser alcançados através dos elevadores externos.

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Hong-Kong e Shangai Bank. Hong Kong, 1979-86).Norman Foster

O Hong-Kong e Shangai Bank (1979-1986), de Norman Foster, completa a tríade de edifícios canônicos do High Tech. Projetado por Norman Foster foi provavelmente o edifício mais conhecido e mais amplamente divulgado de sua época, em grande parte porque foi dito ter custado mais dinheiro do que qualquer outro edifício. Não obstante esse tipo de publicidade, o edifício marcou época como um feito único de arquitetura da era moderna.

A principal característica deste é a ausência de estrutura de suporte interno. Importante também é que a luz solar natural é a principal fonte de iluminação no interior do edifício. Há um banco de espelhos gigantes no topo do átrio, que refletem a luz solar, para dentro do hall. Através da utilização de luz natural, este projeto ajuda a conservar energia. Além disso, quebra-sóis são colocados nas fachadas externas para bloquear a luz solar direta e para reduzir o ganho de calor. Em vez de água doce, água do mar é utilizada como refrigerante para o sistema de ar condicionado.

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Hong-Kong e Shangai Bank. Planta do 1º pavimento.

Os edifícios High Tech primam pela exposição de estruturas e instalações. Alguns, como o Centro Pompidou privilegiam as instalações, colorindo-as com cores planas e primárias. O uso das estruturas tensionadas, como no HKSB e Centro Pompidou é também um dado importante. O aço é sempre bem-vindo como material principal, porém o concreto pode também fazer o seu discurso, como no Lloyd’s. Movimento, jogo de luzes e sombras, alternando com grandes superfícies metálicas, lembrando o drama barroco de fachadas, reeditado no século XX. Mas sobretudo muita racionalidade a serviço da expressão inequívoca do mundo tecnológico. Todas estas feições projetam uma confiança otimista na cultura científica.

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Hong-Kong e Shangai Bank no contexto.

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Hong-Kong e Shangai Bank. Interior.

Os três mosqueteiros, Piano, Rogers e Foster têm ainda a companhia nobre de Nicholas Grimshaw, como grande nome do High Tech.

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Museu do aço. Monterrey. México, 2007. Nicholas Grimshaw

Essa tendência desenvolveu-se enormemente nas três últimas décadas do século XX. Aeroportos, estádios de esportes, grandes centros comerciais, adotaram esta linguagem de exaltação da tecnologia e do consumo.

Muitos críticos se comprazem em assinalar e comentar as imensas contradições do High Tech como poética arquitetônica[5], contradições estas que, sem dúvida, merecem uma maior atenção. Uma das mais irônicas é que a tendência aparece com sua maior força não nos países que mais responsáveis pela alta tecnologia, isto é, a Alemanha, o Japão e os Estados Unidos, mas na Inglaterra, um país de marcado gosto pela tradição.

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A poética do Centro Pompidou

A maior de todas estas contradições, sem dúvida, é que um edifício High Tech não se utiliza de uma tecnologia mais avançada do que qualquer outro. Ou seja, não tem o monopólio do uso da alta tecnologia. Esta é necessária para, por exemplo, fazer um revestimento de pedra sobre uma estrutura de aço a quase duzentos metros de altura no céu de Nova Iorque, como no edifício da AT&T do Philip Johnson, submetido eventualmente a fortes ventos.  Neste caso, porém, a alta tecnologia se esconde humildemente por trás das ironias historicistas do arquiteto. Além disso, os edifício HT se utilizam muitas vezes de técnicas artesanais para conseguirem uma expressão tecnológica e industrial. O que caracteriza os edifício HT não é o uso da alta tecnologia. Todos os edifícios projetados nos dias de hoje, de qualquer poética, têm os mesmo sistemas, chamados “inteligentes”, a controlar suas funções, e são construídos segundo a mesma tecnologia disponível, a qual permite certas coisas e impede outras. O que diferencia o edifício High Tech não é a “alta tecnologia” que utiliza mais do que outros, mas a apologia e o exagero expressionista que faz desta, o fato de ostentar esta tecnologia, e fazer dela o seu discurso principal, muitas vezes fantasioso, sempre extremamente caro, e algumas vezes até prejudicando o desempenho deste sistemas que expõe.

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Alta tecnologia é necessária para, por exemplo, fazer um revestimento de pedra sobre uma estrutura de aço a quase duzentos metros de altura no céu de Nova Iorque, como no edifício da AT&T do Philip Johnson, submetido eventualmente a fortes ventos. Porém neste caso, a alta tecnologia se esconde humildemente por trás das ironias historicistas do arquiteto.

Os espírito de uma época tecnologica, o zeitgeist, cujos mais prezados artefatos referem-se à indústria, à comunicação, à guerra, às viagens espaciais, assim pensam os arquitetos adeptos do High Tech, não pode ter uma arquitetura com feições diferentes. Não pode utilizar imprecisos tijolos e concretos artesanais, quando pode lançar mão da perfeição do vidro e da precisão do aço.

Os arquitetos High Tech não reivindicavam privilégios artísticos ou sociais. O critério de julgamento deve ser o desempenho, como o das ferramentas do cotidiano. O prédio deve ser funcional e eficiente, não artístico e simbólico. Só que isto é pedir muito da arquitetura. Esta não consegue ser simplesmente funcional, não importa o quanto tente. Ela sempre será simbólica e no caso do High Tech ela simboliza este mundo de negócios e cultura pre-fabricada que abriga, e o faz ostensivamente, e não discretamente quanto o seu padrinho, o Estilo Internacional.

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Cópia de Rubrica SC


[1] Plug-in pod.

[2] Os outros membros do Júri eram os arquitetos franceses Emile Aillaud e Henri Pierre Maillard, além de do crítico de arte francês Gaetan Picon, vice-presidente, do curador inglês Sir Frank Francis, do historiador francês Michel Laclotte, , do curador holandes Wilhelm Sandberg e do linguista belga Herman Liebaers.

[3] Ver artigo sobreo o Grupo Archigram neste Blog.

[4] O Lutine Qual Bell é o mais famoso símbolo da Lloyd’s de Londres. Era tradicionalmente tocado para dar avisos importantes para os subscritores e corretores – uma badalada para más notícias e duas para boas. Ele veio da fragata francesa La Lutine, que se rendeu aos britânicos em 1793. Cerca de seis anos depois, o barco afundou e em 1858 o sino foi recuperado do fundo do mar e pendurado na sala de subscrição Lloyd. Veja o Lutine Bell

Lutine Bell soando no Lloyd’s bank.

[5] JENCKS, Charles. “The High Tech maniera”. In: JENCKS, Charles, The new moderns. P. 93 e seg.

Vinheta Casasabrasileiras

Aviso

5 Respostas para “High Tech

  1. o artigo é excelente,só nao consegui achar o artigo sobre o Grupo Archigran que vc diz que esta no bolg.

  2. Muito bom o artigo. Consegui tudo o que queria nele!

  3. Ótimo artigo, completo!

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