Quadros de uma metrópole motorizada

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De nada adianta falar em acessibilidade, cidadania, sustentabilidade, se estes conceitos ainda estão muito distantes do dia-a-dia do cidadão comum e ignonados pelas autoridades. Vemos a todo minuto nossos direitos a estes bens do convívio humano serem agredidos e usurpados. Ninguém que viva em uma metrópole pode dizer que está a salvo de assassinatos, estupros, assaltos. Mas esta é a macrofísica dos atentados contra a dignidade humana. Existe também uma microfísica na qual o desrespeito é gerado e acalentado. Esta se compõe desses conceitos mencionados acima, os quais, quando observados, mostram o grau de nossa evolução em direção à cidadania, e por que não dizer, a nossa superação da condição latente de predador, que ainda trazemos conosco. A seguir, alguns quadros desse cotidiano de desrespeito.

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Quadro Um

Uma senhora de 75 anos tem de subir 33 degraus, caminhar por cerca de 20 até 70 metros em uma estreita e insegura passarela. Insegura porque sua estrutura metálica vibra com o fluxo de veículos abaixo; insegura porque é um local em que pode ser facilmente assaltada;  insegura porque está mal conservada e enferrujada. Depois terá que descer os 33 degraus para fazer uma travessia  que ela poderia fazer no mesmo plano. Enquanto isso, abaixo dela, os carros, senhores absolutos do espaço, deslizam em alta velocidade, sem considerar os pedestres.

CENAS  S1 SAO PAULO 07/02/01 - ED CIDADES OESP - CENAS DA CIDADE/MAE E FILHO ATRAVESSAM O RIO TIETE ATRAVES DO DUTO DA SABESP, NAS PROXIMIDADES DO VIADUTO GENERAL MILTON TAVARES DE SOUZA, NA PENHA - FOTO DE HELVIO ROMERO/AE

Isso mostra muitas coisas. Primeiro, que os planejadores dão mais importância ao carro que ao pedestre. Segundo, que consideram o pedestre, qualquer que seja, perfeitamente habilitado para fazer a operação descrita acima. Tais planejadores acreditam que, uma vez fornecida uma alternativa, por mais insustentável, díspar, e incompassiva que seja, estão completamente em paz, zelosos do fluxo constante e que sua cidade está funcionando bem, na medida em que os carros estão trafegando nas velocidades desejáveis para o bom funcionamento.

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Essa é uma crença tão corrente que, certo dia, dando uma notícia de que uma pessoa tinha sido atropelada perto de uma passarela, o âncora do jornal da TV fez aquela cara de reprovação, autoritária e inconsequente, como quem dissesse: Quem mandou não utilizar a passarela. É que ele nunca teve de utilizar uma dessas.

Nos bancos da faculdade, imperava então o modelo da cidade para o carro, e eu ouvia dizer: O pedestre não deve nem subir nem descer; é o carro que deve fazer isto. Ouvia dizer, mas quão poucas vezes vi fazer, a não ser nos pontos mais importantes da cidade, nos cartões postais.

Quadro Dois

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Um cadeirante tem que se dirigir à pista de rolamento de carros porque a calçada tem obstáculos intransponíveis para sua cadeira. Ora, a calçada tem de ser gerida pelas autoridades públicas. São estas que autorizam, ou deviam fazê-lo, a colocação de postes, a manutenção dos pisos e os cuidados necessários para dotar de acessibilidade e mobilidade uma cidade. De nada adianta exigir rampas nos prédios de uso público. Nenhuma corrente é mais forte que seu elo mais fraco. Se em algum ponto não existe acessibilidade e mobilidade todo o sistema está comprometido.

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No longo capítulo das calçadas, as imagens falam por si do desrespeito, do abandono das autoridades, da falta de fiscalização e gestão. Muitos moradores pensam que a calçada é sua, e não da cidade como um todo e dos cidadãos. As cenas de desrespeito ultrapassam qualquer limite do razoável. O pior é que o desrespeito não vem apenas de cidadãos e motoristas mal educados, vem também dos poderes públicos, das concessionárias, e da própria polícia, que por ser o que é, talvez se julgue acima de qualquer postura municipal.

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Quadro três

As pessoas, inclusive idosos, cadeirantes, grávidas, têm que correr para atravessar uma rua de 10,5 m de largura ou mais, pois o sinal de trânsito somente lhe oferece 7 segundos, contra quarenta segundos ou mais para os automóveis. Qual a lógica que está por trás deste procedimento das autoridades. Afinal de contas, são especialistas em trânsito que definem o tempo de duração dos semáforos. Está mais do que claro que estes especialistas somente consideram os veículos, não os pedestres e suas dificuldades e até mesmo impossibilidades. Para estes delegados do poder público, o importante é que o trânsito de veículos flua com regularidade, e com o mínimo de embaraços, como pedestres, por exemplo.

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Quadro quatro

Pedestres vão atravessar uma rua, quando o sinal está fechado para eles, ou fora da faixa de travessia. O automóvel que vem nesta pista, ao invés de diminuir sua velocidade, aumenta. Para quê? Para açodar o pedestre, pois, na visão deste motorista ignorante e mal informado, lugar de pedestre é na calçada.

As áreas ocupadas por estes últimos são concessões que o pedestre faz aos carros. Esta era a ideia que presidia o Código de Trânsito proposto por Darcy Ribeiro, quando foi Senador da República, de 1991 a 97.

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CENA

Na verdade, quanto mais civilizada é a cidade ou país, mais se adota o conceito de que o espaço urbano é do pedestre, e as faixas de rolamento de veículos é uma concessão deste ao veículo. E o princípio é respeitado. Em muitas metrópoles da Europa, Estados Unidos e mesmo no Brasil, basta o pedestre pisar na faixa de rolamento, que o automóvel é obrigado a diminuir a velocidade, para resguardá-lo.

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Mesmo no nosso Código de Trânsito, no qual transparecem resquícios de autoritarismo e da ideia ultrapassada da motopia (utopia do automóvel), que orientou os urbanistas nos anos 1950 e 60, tem um texto que deveria ser decorado pelos motoristas inconsequentes que infestam as nossas metrópoles.

Art. 29§ 2º – Respeitadas as normas de circulação e conduta estabelecidas neste artigo, em ordem decrescente, os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres.

Na verdade, o automóvel é um excelente negócio para quem o fabrica, É consumido com avidez pelo público, na medida em que alimenta o individualismo e a esquizoidia do cidadão morador das grandes metrópoles. Mas é um desastre para os espaços públicos e para a qualidade de vida. Trata-se de uma geringonça que, nas ruas, ocupa de 10 metros quadrados que transporta, na maioria das vezes, uma só pessoa. [1] Engarrafamentos diários, baixa velocidade do tráfego em geral, aumentos dos custos das passagens dos ônibus, são ônus que lhe devem ser creditados. 

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No Brasil, os congestionamentos vem se acumulando na mesma proporção em que crescem as benesses do poder público.  Desde o início da crise internacional, em 2008, o governo federal, e também governos estaduais injetaram dezenas de milhões em recursos para ajudar a indústria automobilística. Não satisfeito, o setor continua pressionando os governos para efetivar uma política de proteção do seu mercado, com subsídio ao preço da gasolina,  ou com renuncia fiscal. [2]

Uma era pós-automóvel é viável técnica e economicamente.  Muitas idéias, como fundo para investimento em transporte público, contribuição da venda de cada automóvel, taxação da gasolina e uma política de taxação dos estacionamentos (com gestão pública) nas áreas centrais e implantação de sistemas de pedágio urbano, como Londres e outras cidades já  fazem existem para modificar o quadro atual.  O maior obstáculo ainda é a consciência (ou falta de) e o desejo de um substitutivo para as nossas grandes frustrações, representado pelo automóvel.

Cópia de Rubrica SC

Aviso

NOTAS

[1] TOLEDO. Roberto Pompeu “Subsídios o para a reforma do mundo”. Veja. 20 de novembro de 2002.

[2] AFFONSO. Nazareno Stanislau . www.cartamaior.com.br

Vinheta Casasabrasileiras

2 Respostas para “Quadros de uma metrópole motorizada

  1. Jose Antonio de Oliveira

    Por quê retirar o conteúdo? se alguém se sentir prejudicado, que apresente uma proposta!

    • José Antonio
      Eu tento dar a este blog um trato acadêmico, respeitando a questão da autoria, que muitos não fazem, inclusive comigo e com o material publicado no blog. Quando eu falo da possível retirada de material, não é o material opinativo, dos textos originais. Estes eu somente retirarei caso mude a minha opinião. Eu me refiro a material que tiro da Internet ou de livros, como imagens e textos, quando não consigo contactar o autor. Assim, caso o proprietário dos direitos não concorde, eu retirarei. Isso nunca ocorreu. Muitas vezes escrevo para autores e arquitetos, pedindo permissão para publicar matérias. Nos artigos coloco essa referência. Mas já aconteceu de eu ver material meu, original, publicado nos meus blogs, copiados sem qualquer citação de autoria.
      SC

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